Artigos

A CEDEAO entre o pragmatismo e a abdicação normativa: o caso Doumbouya e o esgotamento do modelo regional de governança democrática

Adalberto Malú – Especialista em Relações Internacionais | Analista Geopolítico | Docente Universitário | Investigador Associado – CEDESA

Resumo

A recente decisão da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) de reconhecer a conclusão da transição política na Guiné-Conacri e levantar as sanções impostas após o golpe de Estado liderado por Mamadi Doumbouya constitui um momento revelador da crise normativa que atravessa a organização. Longe de ser ingénua, a postura da CEDEAO reflecte uma escolha estratégica pragmática, marcada pelo cansaço institucional, pela erosão da autoridade moral e pelo medo do contágio geopolítico no espaço saheliano. Este artigo argumenta que o caso guineense não representa uma excepção conjuntural, mas sim a confirmação do esgotamento do modelo normativo da CEDEAO, assente na promoção do constitucionalismo democrático sem capacidade efectiva de enforcement. Ao normalizar golpes “bem-sucedidos” embrulhados em processos eleitorais de baixa intensidade democrática, a organização arrisca transformar-se de guardiã da ordem constitucional em mera gestora de crises autoritárias.

Palavras-chave: CEDEAO; golpes de Estado; Guiné; transições políticas; constitucionalismo africano; segurança regional.

1. Introdução

A CEDEAO construiu, ao longo das últimas duas décadas, uma identidade política fortemente associada à defesa da ordem constitucional, da alternância democrática e da rejeição explícita de mudanças inconstitucionais de poder. Esse posicionamento conferiu-lhe uma reputação singular entre as organizações regionais africanas, frequentemente apresentada como modelo de normatividade democrática no continente.

No entanto, a decisão de felicitar Mamadi Doumbouya pela alegada conclusão da transição política na Guiné e de levantar as sanções impostas após o golpe de 2021 levanta uma questão incontornável: estará a CEDEAO a abdicar do seu próprio modelo normativo em nome da sobrevivência institucional e da estabilidade mínima?

Este artigo defende que a resposta é afirmativa.

2. A “eleição” como ritual de legitimação

A eleição que conduziu à consolidação do poder de Doumbouya não pode ser compreendida à luz dos critérios clássicos da democracia liberal. O processo foi integralmente moldado pela junta militar: regras eleitorais definidas unilateralmente, calendário controlado pelo poder de facto e instituições arbitrais sem autonomia real.

Trata-se menos de uma eleição competitiva e mais de um ritual de legitimação política, destinado a conferir uma aparência de normalidade constitucional a uma ordem política nascida de um golpe de Estado. Classificar este processo como “transição concluída” exige um exercício de elasticidade semântica que revela mais sobre a fadiga política da CEDEAO do que sobre a qualidade democrática do processo.

3. Porque a CEDEAO cedeu: três factores estruturais

A postura da CEDEAO não resulta de ingenuidade nem de desconhecimento. Resulta de uma leitura estratégica dura da realidade regional.

Primeiro, o esgotamento do instrumento das sanções. No Mali, no Burkina Faso e na própria Guiné, as sanções prolongadas falharam no seu objectivo central: não derrubaram juntas militares nem restauraram rapidamente a ordem constitucional. Pelo contrário, penalizaram populações, alimentaram narrativas soberanistas e enfraqueceram a legitimidade social da própria CEDEAO. Sanções sem capacidade real de enforcement transformaram-se em ruído político.

Segundo, o medo do contágio geopolítico. Com o Sahel em profunda instabilidade, o recuo da influência francesa, o avanço russo e o surgimento de alianças militares alternativas, insistir numa linha dura teria empurrado Conacri para fora da órbita regional. A CDEAO fez uma escolha clara: manter a Guiné “dentro da sala”, mesmo a custo de coerência normativa, para evitar a sua captura por actores extra-regionais.

Terceiro, a erosão da autoridade moral da própria organização. A tolerância sistemática para com líderes civis que manipulam constituições para prolongar mandatos fragilizou o discurso normativo da CEDEAO. Quando o duplo critério se torna regra, exigir pureza democrática a regimes militares perde força política. O caso Doumbouya apenas tornou visível uma fragilidade já existente.

4. A normalização do golpe eficaz

O resultado desta combinação de factores é politicamente grave. Ao levantar sanções e reconhecer um processo eleitoral controlado pelo poder militar, a CEDEAO envia uma mensagem implícita perigosa: golpes de Estado podem ser tolerados, desde que sejam rapidamente estabilizados e revestidos de procedimentos eleitorais mínimos.

Este precedente não se limita à Guiné. Ele cria um incentivo perverso para outros actores militares na África Ocidental, que passam a perceber que o custo regional de uma tomada de poder inconstitucional pode ser gerível, desde que acompanhada por promessas de transição controlada.

5. Da normatividade à gestão do autoritarismo

A longo prazo, esta postura tem implicações profundas. Enfraquece a ideia de constitucionalismo como valor regional partilhado, incentiva a replicação de modelos autoritários “normalizados” e transforma a CEDEAO de promotora da democracia em gestora de crises autoritárias.

Em termos estratégicos, a organização trocou princípios por sobrevivência institucional. No curto prazo, pode ganhar previsibilidade e evitar rupturas regionais. No médio e longo prazo, arrisca perder aquilo que constituía o seu principal activo: a credibilidade normativa.

6. Conclusão

A decisão da CEDEAO no caso guineense não deve ser lida como um erro isolado, mas como o sintoma de uma crise mais profunda do seu modelo de governação regional. A organização enfrenta hoje um dilema estrutural: insistir numa normatividade democrática que já não consegue impor, ou adaptar-se pragmaticamente a uma região em mutação acelerada.

No xadrez regional, a escolha foi defensiva. No plano normativo, foi autodestrutiva.

A CEDEAO pode ganhar tempo e estabilidade mínima, mas fá-lo à custa da sua autoridade estratégica. E uma organização regional sem autoridade normativa corre o risco de sobreviver institucionalmente, mas morrer politicamente.


Referências

Malú, A. (2026). Comentário sobre o posicionamento da CEDEAO face à transição política na Guiné. Intervenção no Jornal da Rádio Kianda, Luanda.

Adebajo, Adekeye. The Curse of Berlin: Africa After the Cold War. Columbia University Press, 2010.

Bach, Daniel C., & Gazibo, Mamoudou. The African Peace and Security Architecture: A Critical Examination. Routledge, 2016.

Young, Crawford. “The Postcolonial State in Africa: Thirty Years of Debate.” African Affairs, vol. 99, no. 395, 2000, pp. 217–243.

Angola como potência média emergente: ambição regional, limites internos e os dilemas estratégicos

Adalberto Malú: Especialista em Relações Internacionais | Analista Geopolítico | Docente Universitário | Investigador Associado – CEDESA

Resumo

Nos últimos anos, Angola tem vindo a afirmar-se como um actor diplomático relevante no contexto africano, assumindo funções de mediação, estabilização regional e projecção política para além das suas fronteiras imediatas. Este artigo analisa criticamente a hipótese de Angola enquanto potência média emergente, mobilizando o enquadramento teórico das middle powers nas Relações Internacionais. Argumenta-se que, embora Angola reúna um conjunto significativo de recursos materiais, diplomáticos e simbólicos compatíveis com esse estatuto, a consolidação da sua posição regional enfrenta limites internos estruturais e dilemas externos complexos, num sistema internacional marcado pela fragmentação do poder e pela competição estratégica entre as grandes potências. O texto conclui que Angola se encontra num processo inacabado de construção de poder médio, cujo sucesso dependerá da articulação entre a ambição externa, a coerência interna e o realismo estratégico.

Palavras-chave: Potências médias; Angola; política externa; África Austral; segurança regional; geopolítica africana.

1. Introdução

O debate sobre as potências médias tem regressado ao centro da análise das Relações Internacionais num contexto de declínio relativo da ordem liberal internacional e de crescente multipolaridade instável. À medida que as grandes potências enfrentam limitações crescentes à sua capacidade de liderança global, actores intermédios têm ocupado espaços de influência regional, desempenhando com isso funções de mediação, estabilização e articulação diplomática.

Em África, este fenómeno adquire contornos específicos. Países como a África do Sul, a Etiópia, o Egipto e, progressivamente, Angola, têm procurado afirmar-se como actores regionais relevantes, não apenas através do poder material, mas sobretudo pela diplomacia activa e pela gestão de conflitos. Este artigo parte da seguinte questão central: pode Angola ser conceptualizada como uma potência média emergente no sistema internacional contemporâneo?

A resposta proposta é deliberadamente equilibrada: Angola possui atributos compatíveis com esse estatuto, mas enfrenta constrangimentos internos e dilemas estratégicos que impedem uma afirmação plena e sustentável no curto prazo.

2. Potências médias no sistema internacional: enquadramento teórico

O conceito de potência média (middle power) não se define exclusivamente pela dimensão territorial ou demográfica, mas pela capacidade de influência desproporcional aos recursos materiais disponíveis, sobretudo através da diplomacia, do multilateralismo e da construção de consensos (Cooper, Higgott & Nossal, 1993; Jordaan, 2003).

As potências médias caracterizam-se, em geral, por:

               • uma política externa activa e previsível;

               • investimento em instituições regionais e multilaterais;

               • capacidade de mediação e liderança normativa;

               • actuação como “ponte” entre as grandes potências e os Estados mais frágeis.

No Sul Global, emergem ainda as chamadas potências médias emergentes, cujo comportamento combina ambição estratégica com limitações estruturais, frequentemente condicionadas por fragilidades internas, dependência económica e volatilidade política.

É neste quadro que se deve situar o caso angolano.

3. Angola no tabuleiro regional: recursos de poder e capital diplomático

Angola dispõe de um conjunto de recursos que sustentam a sua projecção regional. Em termos materiais, é uma das maiores economias da África Subsaariana, com peso relevante no sector energético e posição estratégica no Atlântico Sul. Em termos históricos, possui uma experiência singular em conflitos armados prolongados, processos de paz e reconstrução pós-conflito.

No plano diplomático, Angola tem vindo a assumir um papel activo na mediação de crises regionais, com destaque para a República Democrática do Congo e para os mecanismos de segurança na África Austral. A sua actuação no âmbito da SADC e da União Africana reforça a percepção de um Estado disposto a investir capital político na estabilidade regional.

Este conjunto de factores confere a Angola um capital diplomático que a distingue de muitos outros Estados africanos, sobretudo pela combinação entre a capacidade institucional, a legitimidade regional e o pragmatismo político.

4. Ambição estratégica versus capacidade interna

Apesar destas potencialidades, a consolidação de Angola como potência média enfrenta limites internos relevantes. A fragilidade da diversificação económica, a dependência estrutural das receitas petrolíferas, as desigualdades sociais persistentes e os desafios de governação limitam a sustentabilidade da projecção externa.

Do ponto de vista das Relações Internacionais, existe sempre uma correlação directa entre a coerência interna e a credibilidade externa. Estados com fragilidades internas profundas tendem a enfrentar dificuldades em manter políticas externas ambiciosas a longo prazo, sobretudo quando estas implicam custos financeiros, humanos e políticos.

Neste sentido, o risco para Angola não reside na ambição em si, mas numa possível sobre-extensão estratégica, em que o protagonismo externo não seja acompanhado por uma consolidação efectiva do poder interno.

5. Dilemas externos: alinhamento, autonomia e competição entre as grandes potências

O contexto internacional contemporâneo impõe dilemas adicionais. Angola actua num sistema marcado pela competição entre Estados Unidos, China, União Europeia e Rússia, cada um com interesses específicos no continente africano.

A política externa angolana tem sido, até ao momento, caracterizada por um pragmatismo estratégico, evitando alinhamentos rígidos e procurando maximizar a margem de autonomia. Esta postura é típica de potências médias, mas exige elevada sofisticação diplomática para se evitar com isso dependências assimétricas ou instrumentalizações externas.

O desafio central consiste em manter uma posição de equilíbrio estratégico, preservando a capacidade de mediação regional sem comprometer a autonomia decisória nem a legitimidade perante os parceiros africanos.

6. Riscos e oportunidades na afirmação de Angola como potência média

A trajectória de Angola enquanto potência média emergente apresenta riscos claros, mas também oportunidades significativas. Entre os riscos destacam-se:

               • a politização excessiva da mediação regional;

               • a captura da política externa por interesses externos;

               • a desconexão entre o discurso diplomático e as realidades internas.

Por outro lado, as oportunidades são igualmente evidentes. Angola pode afirmar-se como:

               • um actor central na arquitectura de segurança regional;

               • um mediador credível em conflitos africanos complexos;

               • uma ponte diplomática entre África e os principais centros de poder global.

O aproveitamento destas oportunidades dependerá da capacidade do Estado angolano em articular visão estratégica, institucionalidade robusta e leitura realista do sistema internacional.

7. Conclusão

Angola encontra-se num momento decisivo da sua trajectória internacional. Os sinais de afirmação regional são claros, mas o estatuto de potência média não é um rótulo automático; é uma construção política, estratégica e institucional contínua.

Este artigo argumenta que Angola pode ser entendida como uma potência média em construção, cuja consolidação dependerá menos da retórica diplomática e mais da coerência entre a ambição externa, a capacidade interna e o realismo estratégico. Num sistema internacional cada vez mais fragmentado, o sucesso de Angola enquanto actor regional relevante passará pela sua capacidade de exercer poder com moderação, influência com legitimidade e ambição com responsabilidade.

CONSULTAR

Cooper, A. F., Higgott, R., & Nossal, K. (1993). Relocating middle powers. Vancouver: UBC Press.

Jordaan, E. (2003). The concept of a middle power in international relations. Politikon, 30(2), 165–181.

Morgenthau, H. J. (1948). Politics among nations. New York: Knopf.

Waltz, K. N. (1979). Theory of international politics. Reading, MA: Addison-Wesley.