Durante o primeiro ano do seu mandato, Donald Trump não demonstrou qualquer interesse particular por África.
O continente parecia permanecer na periferia das prioridades estratégicas de Washington, reduzido a notas de rodapé em discursos sobre terrorismo, migração ou uma putativa proteção do cristianismo na Nigéria.
Contudo, algo mudou recentemente. A súbita reorientação da política externa norte‑americana em direção ao continente africano não surge do nada: é impulsionada por J.D. Vance e Marco Rubio, que vêem mais além da retórica confusa de Trump e compreenderam que África se tornou um dos tabuleiros centrais da competição sistémica com a China.
A estratégia é subtil — ou pretende sê-lo — evitando hostilizar Beijing de forma explícita, mas o subtexto é evidente: os EUA querem recuperar terreno num continente onde a China consolidou uma presença económica, diplomática e industrial sem precedentes.
O que emerge agora é uma política americana para África que combina a possibilidade do poder militar, a capacidade financeira e a diplomacia agressiva, com o objetivo de garantir acesso privilegiado a terras raras, minerais críticos e recursos estratégicos indispensáveis às cadeias de valor do século XXI.
A retórica é moderna, mas a lógica lembra o retorno ao imperialismo das canhoneiras do século XIX: projeção de força, criação de dependências e captura de ativos estratégicos sob o pretexto de “estabilidade” e “parcerias”. O Estado imperial vai à frente, ou ao lado, para abrir caminho para as suas empresas privadas.
A cimeira inaugural de minerais críticos organizada por Washington esta semana — reunindo representantes de 54 países, muitos deles africanos — foi apresentada como um encontro diplomático.
Contudo, nos bastidores, a mensagem dirigida aos investidores foi inequívoca: os EUA e os seus aliados estão dispostos a gastar bastante dinheiro para redesenhar as cadeias globais de abastecimento mineral provenientes de África.
O secretário de Estado, Marco Rubio, evitou mencionar a China, preferindo alertar para cadeias de valor “excessivamente concentradas” e para a vulnerabilidade criada por décadas de deslocalização industrial. A mensagem implícita foi clara: assegurar estes recursos exigirá novas estratégias e capital político e financeiro.
A estratégia americana já está em marcha. Na véspera da cimeira, a Glencore — gigante suíça das commodities — acordou vender 40% dos seus ativos de cobre e cobalto na República Democrática do Congo (RDC) a um consórcio apoiado pelo governo dos EUA, por 3,6 mil milhões de dólares.
O valor surpreendeu analistas e operadores do setor. Como observou Calisto Radithipa, cofundador da Kemcore, “reflete como o capital ocidental está agora disposto a pagar para garantir controlo não chinês de ativos-chave”.
Rubio pretende tornar estes prémios sustentáveis, propondo uma Zona de Comércio Preferencial com preços mínimos que estabilizem mercados afetados por excesso de oferta e manipulação de preços. O objetivo é simples: dar confiança aos investidores de que projetos fora da esfera chinesa podem gerar retornos previsíveis.
A isto soma-se a proposta de um stock estratégico de 12 mil milhões de dólares para minerais críticos — um instrumento que a União Europeia e o Japão também estudam, numa tentativa de amortecer choques e contrariar práticas de mercado dominadas por Beijing
Para produtores africanos como Angola, RDC, Gabão, Nigéria e Zâmbia, esta mudança abre uma janela rara de alavancagem. O acordo da Glencore demonstra que os governos ocidentais estão dispostos a colocar dinheiro em cima da mesa.
Mas transformar este momento numa vantagem duradoura exige planeamento estratégico, e não oportunismo de curto prazo, para os governos africanos.
É sobretudo importante que os dirigentes africanos não desperdicem os eventuais ganhos em luxos e apropriação corrupta privada, e ao mesmo tempo, mantenham a sua autonomia estratégica face às grandes potências.
A presença do presidente da RDC em Washington esta semana ilustra bem esta dinâmica. Félix Tshisekedi procurou reforçar a posição do seu país num contexto de crescente interesse ocidental pelos minerais críticos.
Num evento da Câmara de Comércio dos EUA, apresentou a RDC como “parceiro estratégico” na tentativa americana de assegurar cadeias de abastecimento essenciais para veículos elétricos, tecnologias de defesa e inteligência artificial. Como outros países africanos, a RDC — maior produtora mundial de cobalto — quer ultrapassar o modelo de exportação de matérias-primas e avançar para o processamento e a manufatura.
O desafio é monumental: a cadeia de valor congolesa é dominada por empresas chinesas, desde a extração até à refinação, que ocorre maioritariamente na China.
Tshisekedi tenta inverter esta dependência, ligando a nova parceria com os EUA à segurança interna. Argumenta que a mineração ilícita e as cadeias informais alimentam a violência no leste da RDC. Formalizar essas cadeias e reforçar a rastreabilidade seria, segundo ele, essencial para estabilizar o país e proteger investimentos de longo prazo.
Há duas grandes dúvidas:
Tshisekedi é um líder fraco, que não domina o seu território, e está empenhado numa espécie de guerra civil, que tem estado a perder. Quer a intervenção da força dos Estados Unidos para contrapor ao Ruanda.
Além disso, a China tem estado silenciosa, a observar, mas é impossível que não reaja, quando perceber que há movimento efetivo no terreno, e não apenas a habitual retórica oca de Donald Trump. É que neste caso nem é ele o motor americano, mas dois dos seus ajudantes, que antes de o serem eram realistas e críticos das asneiras de Trump (Vance e Rubio).
Em termos da perspetiva africana, há que aferir se estamos perante uma nova oportunidade para África ou apenas perante uma atualização tecnológica do velho extrativismo imperial?
A disposição dos EUA para pagar prémios elevados por ativos estratégicos pode fortalecer a posição negocial dos países africanos, mas também pode cristalizar novas dependências, agora sob a bandeira da “segurança das cadeias de abastecimento”.
A história ensina que momentos como este são raros e perigosos. África encontra-se, mais uma vez, no centro de uma disputa global entre grandes potências.
A diferença é que, desta vez, o continente tem maior margem de manobra, maior consciência estratégica e maior capacidade de exigir contrapartidas.
A questão decisiva será saber se os governos africanos conseguem transformar esta conjuntura num projeto de desenvolvimento endógeno — ou se permitirão que o século XXI repita, com novos atores e novas tecnologias, as velhas lógicas das canhoneiras e as habituais práticas de corrupção e enriquecimento privado dos dirigentes.
E falta ver o que fará a China. Deng Xiao Ping ensinou que a estratégia mundial chinesa era “esconder a força e aguardar o momento certo” ((韬光养晦).
Campbell, B.K. (2013). Introduction. In: Campbell, B.K. (eds) Modes of Governance and Revenue Flows in African Mining. International Political Economy Series. Palgrave Macmillan, London. https://doi.org/10.1057/9781137332318_1
https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2026/02/Trump-1.jpg451697CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2026-02-07 08:00:002026-02-06 15:25:58Retorno ao século XIX? A Nova Política Americana para África da Administração Trump
A administração Trump tem vindo a redefinir profundamente a sua estratégia para África, afastando‑se de abordagens maximalistas e optando por um pragmatismo seletivo que procura afastar a China apenas de setores considerados vitais para a resiliência económica norte‑americana.
Em vez de tentar competir com Pequim em grandes obras de infraestrutura — terreno onde a China consolidou uma vantagem quase incontornável — Washington concentra‑se agora em áreas de alto valor estratégico, sobretudo minerais críticos e cadeias de abastecimento essenciais para tecnologias avançadas.
Esta mudança de orientação foi explicitada por Nick Checker, responsável pelo Bureau de Assuntos Africanos, ao sublinhar que os Estados Unidos não pretendem disputar cada centímetro do continente, mas sim proteger segmentos sensíveis da sua economia, onde a dependência externa representa um risco sistémico.
A nova abordagem assenta numa combinação de diplomacia comercial, maior exigência aos países parceiros e métodos inovadores de assistência, procurando substituir discursos moralizantes por incentivos concretos ao crescimento económico e à estabilidade. Checker insiste que muitos governos africanos acolhem favoravelmente esta postura mais pragmática, que privilegia segurança, investimento e criação de valor local. Um e‑mail interno do Departamento de Estado descreveu África como “periférica” para os interesses dos EUA, mas não irrelevante, defendendo um envolvimento seletivo e orientado para resultados tangíveis.
Esta franqueza estratégica reflete a perceção de que os recursos diplomáticos e financeiros norte‑americanos devem ser aplicados onde produzem maior retorno geopolítico.
Neste contexto, Washington tem dado atenção especial a países como Quénia, Angola e República Democrática do Congo, considerados polos regionais capazes de ancorar parcerias mais amplas.
Paralelamente, organiza agora uma cimeira dedicada aos minerais críticos com vários países africanos — entre eles a República Democrática do Congo, a Guiné, o Quénia e a Zâmbia — com o objetivo de reforçar alianças estratégicas e atrair investimento norte‑americano para o processamento e a refinação no próprio continente.
Esta iniciativa responde à crescente preocupação das empresas americanas com a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento dominadas pela China, sobretudo no que diz respeito ao cobalto, ao lítio e ao grafite. Para apoiar esta viragem, a administração está a requalificar pessoal diplomático, dotando‑o de competências em diplomacia comercial e negociação económica, numa tentativa de alinhar a ação externa com as necessidades das empresas norte‑americanas.
É neste quadro que se insere o renovado interesse dos Estados Unidos na República Democrática do Congo, país que detém algumas das maiores reservas mundiais de cobre, cobalto e coltan, minerais indispensáveis para baterias, semicondutores e veículos elétricos. Empresas como a Freeport‑McMoRan, que durante anos operou na mina de Tenke Fungurume antes de vender a sua participação à China Molybdenum, continuam a influenciar o debate político em Washington, defendendo a necessidade de contrabalançar a presença chinesa no setor mineiro congolês.
Gigantes tecnológicos como a Tesla, a Apple e a General Motors surgem frequentemente em relatórios do Congresso como beneficiários indiretos de uma cadeia de abastecimento mais estável e menos dependente de refinadores chineses, o que explica a intensificação da diplomacia económica norte‑americana em Kinshasa.
Embora os EUA evitem compromissos operacionais diretos, têm explorado com o governo congolês modelos de cooperação que combinam segurança, fiscalização e investimento em infraestruturas.
É precisamente neste espaço intermédio — onde interesses estratégicos se cruzam com a ausência de uma presença estatal robusta — que reaparece a figura controversa de Erik Prince. Conhecido pela fundação da Blackwater e por operações de segurança privada em múltiplos teatros de conflito, Prince tem procurado reposicionar‑se como fornecedor de soluções logísticas e de fiscalização para o setor mineiro congolês. Através da Frontier Resource Group e de outras estruturas empresariais sucessoras, negociou com Kinshasa um acordo destinado a reforçar a cobrança fiscal, combater o contrabando e organizar corredores logísticos, sobretudo na região de Katanga. Embora o mandato formal seja civil, a reputação de Prince e o seu histórico de tentativas de mobilizar ex‑militares estrangeiros — incluindo antigos legionários franceses — suscitam receios de uma privatização de funções soberanas num contexto já marcado por instabilidade e competição geopolítica. A ofensiva do M23 e a deterioração da segurança no Kivu do Norte obrigaram a deslocar o foco das operações inicialmente previstas para Goma, concentrando‑se em zonas mais estáveis do sul, mas sem abandonar a ambição de influenciar fluxos minerais estratégicos.
A convergência entre o interesse norte‑americano por minerais críticos e a presença de Prince não implica coordenação formal, mas revela uma dinâmica estrutural: enquanto Washington procura garantir cadeias de abastecimento seguras para empresas como a Ford, a IBM ou a Qualcomm, atores privados oferecem‑se para preencher lacunas de segurança e fiscalização que o Estado congolês não consegue suprir.
O resultado é um cenário em que interesses comerciais, pressões geopolíticas e iniciativas privadas de segurança se entrelaçam, moldando o futuro da exploração mineral na RDC e expondo o país a novas formas de dependência e contestação internacional.
https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2026/02/usa-africa.jpeg375600CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2026-02-03 14:54:572026-02-03 14:54:58Briefing CEDESA: A nova estratégia africana da administração Trump
Investigador Sénior Associado do CEDESA/Angola Research Network
Resumo
A Geração Z, composta por jovens nascidos entre meados da década de 1990 e o início da de 2010, representa hoje a faixa etária mais numerosa do continente africano. Num contexto em que a mediana etária africana ronda os 19 anos, esta geração emerge como força sociopolítica capaz de alterar paradigmas de poder profundamente enraizados. O presente ensaio analisa o impacto da Geração Z na política africana, a forma como está a desafiar estruturas gerontocráticas e a condicionar processos eleitorais, bem como o seu papel crescente em regimes de maioria muçulmana. São abordados casos como Tanzânia e Camarões, onde a juventude digitalmente mobilizada questionou a justiça eleitoral. O texto examina também o uso das redes sociais como instrumento de mobilização e a tensão entre velhas elites políticas e uma geração que exige transparência, inclusão e futuro.
Generation Z, comprising young people born between the mid-1990s and early 2010s, now represents the largest demographic group in Africa. With a median age of around 19, this generation is emerging as a sociopolitical force capable of reshaping entrenched power structures. This essay examines Generation Z’s impact on African politics, its challenge to gerontocratic regimes, and its influence on electoral processes, particularly in countries with Muslim majorities. Cases such as Tanzania and Cameroon illustrate how a digitally mobilized youth has questioned electoral fairness. The analysis also highlights how social media has become a tool for political engagement and resistance, as well as the tension between aging elites and a generation demanding transparency, inclusion, and opportunity.
Keywords: Generation Z; Africa; politics; youth; social media; elections
1. Introdução
Com mais de 400 milhões de africanos entre os 15 e os 35 anos (African Union, 2024), a juventude representa um dos principais fatores de mudança do continente. A Geração Z, mais educada e conectada que as anteriores, está a transformar o modo de participar na vida pública. A metodologia deste ensaio baseia-se numa análise qualitativa, combinando dados secundários de organismos internacionais, como o World Bank, UNDP, African Union, ou Afrobarometer, e estudos recentes sobre participação juvenil e digitalização política.
Esta abordagem permite observar tendências transversais – do activismo online ao voto de protesto – e compreender como esta geração desafia elites envelhecidas e instituições continentais frágeis, como a União Africana (UA), incapaz de conter uma sucessão de golpes militares e a crescente desconfiança social.
2. A Geração Z africana: perfil e modos de ação
A Geração Z caracteriza-se por uma literacia digital sem precedentes e por uma profunda desconfiança nas estruturas tradicionais de poder (Afrobarometer, 2025 e Sanny, van Wyk-Khosa & Asunka, 2023). A internet móvel – que atinge mais de 66% dos africanos com menos de 30 anos (Galal, 2025) – tornou-se um espaço de formação política e de contestação.
Estes jovens vivem entre a precariedade e a esperança: o desemprego juvenil supera os 30% em vários países, como Nigéria, África do Sul e Tunísia (ILO, 2024). Esta condição gera simultaneamente frustração e criatividade política. Plataformas como Twitter (X), TikTok e Instagram,[1] principalmente, transformaram-se em arenas de mobilização, como se observou nos protestos #EndSARS, na Nigéria (Uwazuruike, 2021), o movimento #ShutItAllDown, na Namíbia (Titus, 2020), ou #WeAreRemovingADictator, no Uganda (Ainomugisha & Mwesigire, 2024)
Para além da militância digital, há uma crescente entrada de jovens em partidos políticos e candidaturas independentes. Em Gana e no Quénia, observam-se tentativas de renovar as elites, no Burkina Faso, as medidas anti-ocidentais de Ibrahim Traoré são aplaudidas e celebradas pela juventude burkinaso e africana que o vêem como o novo “Herói Africano” (Stropasolas, 2025 & Veiga, 2025), enquanto em países autoritários, como Uganda, figuras como Bobi Wine encarnam a resistência da juventude urbana à gerontocracia (BBC News, 2025).
3. A gerontocracia africana e os seus mecanismos de reprodução
A gerontocracia – domínio político exercido por elites envelhecidas – permanece um dos traços mais marcantes da política africana contemporânea. Líderes septuagenários e octogenários, como Paul Biya (Camarões, 91 anos), Teodoro Obiang Nguema (Guiné Equatorial, 82), Yoweri Museveni (Uganda, 80) e Denis Sassou Nguesso (Congo, 81), entre outros,mantêm-se no poder há décadas (Reuters, 2025).
A manutenção destas lideranças é sustentada por redes clientelares, controlo militar e manipulação constitucional. No entanto, a crescente consciência política da juventude mina a legitimidade desses regimes. Pesquisas do Afrobarometer (2023 e 2025) indicam que mais de 70% dos jovens africanos acreditam que “a idade avançada limita a inovação política”.
Assim, a Geração Z não é apenas uma força demográfica; é um desafio cultural e simbólico à ideia de que “a autoridade vem da idade”. A linguagem política muda – #hashtags substituem slogans partidários – e a noção de “respeito pelo líder” cede lugar à exigência de resultados.
4. Eleições, legitimidade e contestação: os casos da Tanzânia e dos Camarões
Nas eleições presidenciais da Tanzânia[2], a juventude foi central na denúncia de irregularidades eleitorais e na mobilização digital. Organizações como Change Tanzania e movimentos universitários usaram as redes para expor censura, manipulação de votos e intimidação (Anyanzwa, 2025 & Global Democracy Coalition, s/d). De forma semelhante, nos Camarões, a juventude urbana, especialmente em Douala e Yaoundé, contestou a vitória de Paul Biya em 2018, acusando o regime de fraude sistemática (Amnesty International, 2019), repetindo nas recentes eleições de 2025. Em ambos os casos, a Geração Z transformou a insatisfação em discurso político, desafiando os limites impostos por regimes de longa duração, mesmo sujeita a confrontos com as autoridades (Murrey, 2025).
Além disso, o uso massivo dos VPN e plataformas cifradas indica a sofisticação tecnológica desta geração, que contorna censuras e cria redes transnacionais de solidariedade. Mesmo em países de maioria muçulmana, como Marrocos ou Tunísia, esta mobilização tem emergido em temas como direitos das mulheres e liberdade de expressão, sem se constituir como oposição religiosa, mas cívica (UNDP, 2024).
5. Mobilização digital e espaço cívico
De acordo dados estatísticos, o número de utilizadores africanos de redes sociais ultrapassou 640 milhões em 2024 (Galal, 2025), sendo 70% jovens. Este espaço virtual ampliou a participação cívica e a capacidade de fiscalização do poder.
Exemplos incluem a campanha #FreeSenegal (Oluwole, 2021), que denunciou repressão política, e o movimento #ZimbabweLivesMatter (Chingono, 2020), que levou à atenção internacional abusos estatais.
A Geração Z utiliza humor, ironia e estética digital para mobilizar através de memes e vídeos que substituem panfletos e discursos longos. Essa estética política, como nota Ndlovu-Gatsheni (Falola, 2023), é ao mesmo tempo lúdica e profundamente subversiva, pois reconfigura o espaço público em tempo real.
6. A União Africana e os limites institucionais
Apesar da retórica de “tolerância zero” a golpes de Estado, a União Africana (UA) tem-se revelado incapaz de travar a sua proliferação. Desde 2019, registaram-se 16 golpes militares ou tentativas, incluindo Mali, Burkina Faso, Níger, Gabão, São Tomé e Príncipe e Sudão (Duzor & Williamson, 2023).
As sanções impostas – suspensão de participação e congelamento de fundos – raramente produzem efeitos concretos. O principal problema reside na ausência de mecanismos coercivos e na dependência de consensos políticos entre Estados-membros, muitos deles liderados por elites igualmente autoritárias.
O atual presidente em exercício da UA, João Lourenço, representa um caso singular: Angola saiu de uma guerra-civil sem ter sofrido um golpe de Estado e tem-se posicionado como mediadora regional. No entanto, a sua capacidade de conter golpes é limitada pela falta de instrumentos jurídicos e pela resistência de regimes militares em transição.
A UA enfrenta ainda um dilema de credibilidade: enquanto condena rupturas constitucionais, permanece silenciosa perante manipulações eleitorais de líderes “eleitos” que governam há 30 ou 40 anos. Esta incoerência reduz a confiança das novas gerações na instituição continental.
7. Conclusão
A Geração Z africana é o espelho de um continente em mutação. Jovens, conectados e desiludidos com elites envelhecidas, estão a redefinir o que significa fazer política em África.
As redes sociais criaram uma arena trans-nacional de mobilização e vigilância cívica. Movimentos juvenis em países como Camarões, Nigéria, Tanzânia, e Tunísia demonstram que esta geração não é apenas demográfica, mas transformadora; ou aglutinadora, como no caso do Burkina Faso.
No entanto, o confronto entre juventude e gerontocracia permanece aberto. Enquanto as instituições continentais, como a União Africana, não adquirirem legitimidade prática e capacidade coerciva, os jovens continuarão a recorrer à mobilização digital como forma de resistência e reinvenção democrática.
Mais do que uma “ameaça”, a Geração Z é a oportunidade para repensar o contrato social africano. O seu impacto já não é potencial, é real, mensurável e irreversível.
Ainomugisha, M. & Mwesigire, Bwesigye Bwa. (2025). “Chapter 24: #WeAreRemovingADictator: the 2021 Uganda election crisis, the possibilities and limits of youth digital activism”. Elgaronline, 20 Feb 2024. https://doi.org/10.4337/9781803923222.00038
1. Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Lisboa, Portugal.
2.Investigador Colaborador do Centro Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL);
3.Investigador associado do Centro de Investigação Desenvolvimento e Inovação da Academia Militar, Academia Militar, Instituto Universitário Militar, Rua Gomes Freire, 1169-203, Lisboa, Portugal;
4. Doutorado em Ciências Sociais, especialidade de Relações Internacionais, (ISCSP-UTL).
[1] Apesar do Facebook, com cerca de 77,27% de utilizadores, ser a plataforma social mais acedida, seguida do YouTube, com 8,51%; Instagram, 7,92%; Twitter/X, 3,44%; Pinterest, 2,2%;e LinkedIn, 0,38% (Global Stats: statcounter, 2025).
[2] Tanto nas eleições de 28 de Outubro de 2020 (BBC, 2020), como nas mais recentes, de 29 de Outubro de 2025 (Siposhegyi, 2025), em que Samia Suluhu Hassan se legitimou como presidente do país, após ter sido confirmada ao seu antecessor John Magufuli, cuja morte se mantém especulativa (Muschketat, 2021) as contestações foram sempre violentamente reprimidas pelas autoridades.
https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2025/11/genz.jpg364700CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2025-11-12 08:00:002025-11-11 12:31:08Geração Z em África: Juventude, Mobilização Digital e Transformação Política no Século XXI
João Shang Associate Researcher at CEDESA (China–Africa Area) Visiting Professor at Beijing University of International Business and Economics
Across the vast plateau of southern Africa stretches a steel artery symbolizing friendship and cooperation between China and Africa—the Tanzania–Zambia Railway (TAZARA). Spanning approximately 1,860 km, the railway connects the port of Dar es Salaam on the Indian Ocean to the city of Kapiri Mposhi in central Zambia, crossing Tanzania’s highlands and linking landlocked, mineral-rich countries to the outside world.
TAZARA is not only an infrastructure project but also a historic symbol of Africa’s economic independence and regional integration. For resource-rich countries such as Zambia, Tanzania, and the Democratic Republic of the Congo (DRC), the railway plays a crucial role in mineral transport, trade promotion, and regional cooperation.
Zambia: The Lifeline of the Copper Economy
Zambia is one of the world’s top copper producers, and copper exports account for about 70% of its foreign exchange earnings. With TAZARA, Zambia gained an independent railway route to the Indian Ocean, reducing reliance on routes controlled by former colonial powers.
Through this railway, copper produced in the Copperbelt region is transported to the port of Dar es Salaam for export to Asia and Europe. At its peak, TAZARA handled more than one million tons of copper and other goods annually. This transport network significantly reduced logistics costs and ensured Zambia’s economic stability.
The railway also promoted integration between mining areas and industrial cities, fostering the growth of towns such as Ndola and Kapiri Mposhi and creating thousands of direct and indirect jobs.
Tanzania: A Link Between the Port and the Economic Corridor
For Tanzania, TAZARA serves not merely as a national railway but as an international trade corridor. The port of Dar es Salaam has become one of East Africa’s main mineral export hubs thanks to this line.
The growing cargo volume—including minerals, fuels, fertilizers, and industrial products—has boosted the port’s growth and driven economic development in cities along the route, such as Mbeya and Mpika, forming a new internal economic axis. TAZARA has also strengthened Tanzania’s geostrategic position within the Southern African Development Community (SADC), consolidating its role as a regional hub.
Congo-Kinshasa: An Alternative Route to the Lobito Corridor
Katanga, in southeastern DRC, is extremely rich in copper, cobalt, tantalum, and lithium. Historically, exports of these minerals were hindered by poor infrastructure. With stronger regional cooperation, many Congolese mining companies began using TAZARA, transporting their products via Lubumbashi through Zambia and then by rail to Dar es Salaam.
Although this route is slightly longer than the Lobito Corridor in Angola, it offers greater stability, safety, and reliability, especially during political instability. With rising global demand for strategic minerals—particularly cobalt and copper—TAZARA has become essential for exporting DRC’s mineral wealth and securing a steady flow of foreign exchange.
TAZARA has enhanced logistical integration between inland and coastal countries of southern Africa. Beyond linking Zambia and Tanzania, it connects through branch lines and roads with the DRC, Malawi, Rwanda, and Burundi, providing direct access to the sea. This connectivity system has greatly increased intra-African trade, supporting the goals of the African Continental Free Trade Area (AfCFTA).
Reducing Costs and Increasing Efficiency
Compared with road transport, rail is cheaper, safer, and less polluting. For mining companies, rail use can reduce logistics costs by 30% to 40%. The railway also offers greater reliability and lower risk of cargo damage.
Before the railway, many of the regions it crosses were economically isolated. TAZARA created new opportunities for employment, trade, and services, fostering progress in education, healthcare, and social infrastructure. The project became a hallmark of Sino–African cooperation aimed at improving local livelihoods.
China Invested 1.4 Billion USD to Modernize the TAZARA Railway
Despite its historic significance, TAZARA faces major challenges: aging infrastructure, outdated locomotives, and reduced capacity. Yet it remains one of China’s most comprehensive overseas cooperation projects.
Years of wear, obsolete equipment, and management issues reduced operational efficiency. In the early 21st century, China, Tanzania, and Zambia began joint inspections and negotiations, reaching a preliminary agreement on TAZARA’s revitalization.
With rising global commodity prices, especially copper, both Tanzania and Zambia became more determined to boost mineral exports. They expressed a strong interest in modernizing and expanding the railway to meet growing transport demand.
During the Beijing Summit of the Forum on China–Africa Cooperation in September 2024, the three heads of state—China, Tanzania, and Zambia—signed a Memorandum of Understanding on the TAZARA Revitalization Project.
Early this year, the TAZARA Authority signed a concession agreement with a Chinese company under which China will invest 1.4 billion USD to modernize the railway.
Why Modernize TAZARA?
After modernization—reinforced tracks, upgraded signaling, renewed locomotives, and digital management systems—railway efficiency and safety improved substantially. Average train speeds rose from 30–40 km/h to 60–80 km/h, while cargo turnaround times fell by about 40%. Annual capacity increased from under 1 million tons to between 3 and 5 million tons, with potential for further growth.
This allows Zambia’s copper and DRC’s cobalt to reach international markets more efficiently. The logistics system between inland regions and the port became faster and more reliable. Rail transport costs dropped by 30%–40% compared to road, and energy consumption nearly halved.
For example, copper transport from the Copperbelt to Dar es Salaam, which previously took 10–14 days, now takes 5–7 days. For mining companies, this means lower costs, better predictability, and greater competitiveness in the global metals market.
Dar es Salaam’s port also benefits from increased exports, generating higher revenues from port fees, storage, and currency exchange—a win-win for all involved countries.
Modernization transformed TAZARA into a transnational economic corridor based on the “resources–transport–processing–export” model. The port of Dar es Salaam was expanded and upgraded, becoming an integrated mineral export and container transport hub.
The modernization process created over 30,000 direct and indirect jobs in construction, maintenance, logistics, and management. Cities like Mpika, Mbeya, and Kapiri Mposhi grew rapidly, with more business activity and real estate development.
New passenger trains are safer and more comfortable, boosting tourism and mobility. For rural communities, the railway provides vital access to schools, hospitals, and markets, greatly improving living conditions.
Modernization strengthened economic and institutional integration among Tanzania, Zambia, and the DRC. The railway now serves as both a physical and political link fostering customs cooperation, border facilitation, and regional trade—aligned with the African Union’s Agenda 2063 for a connected, industrialized, and self-reliant continent.
The new TAZARA also supports the AfCFTA by improving the mobility of goods and people across Africa’s east–south axis. It stands as a key landmark of China’s Belt and Road Initiative (BRI) in Africa.
Future Prospects and Strategic Value
In the context of China’s Belt and Road Initiative, TAZARA takes on new strategic relevance. In the future, it should consolidate itself not only as a mineral transport route, but also as an integrated economic corridor:
Adding value to minerals – creation of industrial zones for smelting and processing copper and cobalt; Formation of a regional economic corridor – integration between rail, road, port, and energy infrastructure; Green and sustainable transport – rail transport emits less carbon and promotes ecological development; Symbol of modern Sino-African cooperation – the revitalization of TAZARA represents a new model of partnership based on mutual benefit and joint development.
The Tanzania–Zambia Railway spans borders and generations. It embodies China–Africa friendship while powering southern Africa’s economy. From Zambia’s Copperbelt to the DRC’s cobalt mines and the port of Dar es Salaam, TAZARA connects Africa’s mineral wealth to the global market.
In today’s context of deeper African regional integration and Belt and Road cooperation, TAZARA is poised for renewed vitality, continuing its irreplaceable role in mineral transport and Africa’s economic development.
https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2025/11/Tazara-768x516-1.jpg516768CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2025-11-06 09:23:002025-11-04 18:24:39China Invested 1.4 Billion USD in the Tanzania–Zambia Railway (TAZARA)
Investigador Associado ao CEDESA (área China-África)
Visiting Professor na Beijing University-International Business and Economics
No vasto planalto do sul de África, estende-se uma artéria de aço que simboliza a amizade e a cooperação entre a China e a África — a Ferrovia Tanzânia-Zâmbia (TAZARA). Com aproximadamente 1.860 km de extensão, a linha ferroviária liga o porto de Dar es Salaam, no oceano Índico, à cidade de Kapiri Mposhi, no centro da Zâmbia, atravessando o planalto da Tanzânia e conectando os países do interior ricos em recursos minerais ao mundo exterior.
A TAZARA não é apenas um projeto de infraestrutura, mas também um símbolo histórico da independência econômica e da integração regional africana. Para países ricos em recursos como Zâmbia, Tanzânia e República Democrática do Congo (RDC), esta ferrovia desempenha um papel fundamental no transporte de minerais, promoção do comércio e fortalecimento da cooperação regional.
Zâmbia: a linha vital da economia do cobre
A Zâmbia é um dos principais produtores mundiais de cobre, e as exportações do metal representam cerca de 70% das receitas de divisas do país. Com a TAZARA, a Zâmbia passou a dispor de uma rota ferroviária independente para o oceano Índico, reduzindo a dependência das rotas controladas por antigos regimes coloniais.
Por meio da ferrovia, o cobre produzido na região do Copperbelt é transportado até o porto de Dar es Salaam para exportação à Ásia e à Europa. No auge das suas operações, a TAZARA chegou a movimentar mais de 1 milhão de toneladas de cobre e outros produtos por ano. Essa rede de transporte reduziu significativamente os custos logísticos e garantiu a estabilidade da economia zambiana.
Além disso, a ferrovia estimulou a integração entre as áreas mineiras e as cidades industriais, promovendo o desenvolvimento urbano e industrial de localidades como Ndola e Kapiri Mposhi, e criando milhares de empregos diretos e indiretos.
Tanzânia: elo entre o porto e o corredor econômico
Para a Tanzânia, a TAZARA não é apenas uma ferrovia nacional, mas sim um corredor internacional de comércio. O porto de Dar es Salaam tornou-se, graças à ferrovia, um dos principais centros de exportação de minerais da África Oriental.
O aumento do volume de cargas — minerais, combustíveis, fertilizantes e produtos industriais — impulsionou o crescimento do porto e fomentou a economia das cidades ao longo da linha, como Mbeya e Mpika. Assim, formou-se um novo eixo econômico interno. A existência da TAZARA também fortaleceu a posição geoestratégica da Tanzânia dentro da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), consolidando o país como ponto de convergência regional.
Congo Kinshasa: rota alternativa ao Corredor do Lobito para exportação mineral
A região de Katanga, no sudeste da RDC, é extremamente rica em cobre, cobalto, tântalo e lítio. Historicamente, a exportação desses minerais era dificultada por uma infraestrutura rodoviária e ferroviária precária. Com o fortalecimento da cooperação regional, muitas empresas mineradoras congolesas passaram a utilizar a TAZARA: transportam seus produtos via Lubumbashi até a Zâmbia, e de lá seguem de trem até Dar es Salaam.
Embora esta rota seja ligeiramente mais longa que o corredor de Lobito (em Angola), ela oferece maior estabilidade, segurança e confiabilidade, especialmente em períodos de instabilidade política. Com a crescente demanda mundial por minerais estratégicos —especialmente cobalto e cobre —, a TAZARA tornou-se uma via essencial para o escoamento das riquezas da RDC, garantindo uma fonte estável de receitas em moeda estrangeira. A TAZARA promoveu a integração logística entre os países do interior e os do litoral do sul da África. Além de conectar a Zâmbia e a Tanzânia, a ferrovia interliga-se, por meio de ramais e estradas, com RDC, Maláui, Ruanda e Burundi, proporcionando-lhes acesso direto ao mar.
Esse sistema de conectividade aumentou significativamente o volume de comércio intra-africano, contribuindo para os objetivos da Zona de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA).
Redução de custos e aumento da eficiência
Comparado ao transporte rodoviário, o ferroviário é mais econômico, mais seguro e menos poluente. Para as empresas mineiras, o uso da ferrovia pode reduzir 30% a 40% dos custos logísticos. A ferrovia também oferece maior regularidade e menor risco de deterioração das cargas minerais.
Antes da ferrovia, muitas regiões atravessadas pela linha eram economicamente isoladas. A chegada da TAZARA gerou novas oportunidades de emprego, comércio e serviços, promovendo avanços em educação, saúde e infraestrutura social. Dessa forma, o projeto tornou-se um exemplo emblemático da cooperação sino-africana voltada ao bem-estar das populações locais.
China investiu 1.4 bilhão dólares americanos para modernização de ferrovia de TAZARA
Apesar da sua importância histórica, a TAZARA enfrenta desafios crescentes:
Infraestrutura envelhecida: trilhos e locomotivas obsoletos reduzem a velocidade e a capacidade de carga; mais até o momento, a Ferrovia TAZARA (Tanzânia–Zâmbia) continua a ser um dos maiores projetos de cooperação integral já apoiados pela China no exterior.
Devido ao desgaste ao longo dos anos, à obsolescência dos equipamentos e a problemas de gestão, a capacidade operacional da ferrovia diminuiu significativamente por um período prolongado. Para superar essa situação, no início do século XXI, China, Tanzânia e Zâmbia realizaram diversas negociações e inspeções conjuntas, chegando a um acordo preliminar sobre a revitalização da Ferrovia TAZARA.
Nos últimos anos, com o aumento dos preços internacionais das commodities, especialmente do cobre, tanto a Tanzânia quanto a Zâmbia tornou-se mais empenhadas em acelerar a exportação de seus recursos minerais. Nesse contexto, ambos os países expressaram o desejo de modernizar e expandir a ferrovia, a fim de atender à crescente demanda por transporte de carga.
Durante a Cúpula de Pequim do Fórum de Cooperação China–África, realizada em setembro de 2024, os chefes de Estado dos três países — China, Tanzânia e Zâmbia — assinaram um Memorando de Entendimento sobre o Projeto de Revitalização da Ferrovia TAZARA.
No início deste ano, a Administração da Ferrovia TAZARA firmou um acordo de concessão com uma empresa chinesa, pelo qual a parte chinesa investirá 1,4 bilhão de dólares americanos para modernizar a ferrovia de TAZARA.
Porquê modernizar a ferrovia de TAZARA?
Após o processo de modernização — que incluiu reforço das vias, atualização do sistema de sinalização, renovação das locomotivas e introdução de sistemas digitais de gestão — a eficiência e a segurança ferroviária melhoraram de forma substancial. A velocidade média dos comboios passou de 30–40 km/h para 60–80 km/h, e o tempo de rotação do transporte de mercadorias diminuiu cerca de 40%. A capacidade anual aumentou de menos de 1 milhão de toneladas para 3 a 5 milhões de toneladas, com potencial para crescer ainda mais. Isto permite que o cobre da Zâmbia e o cobalto da República Democrática do Congo (RDC) sejam exportados de forma mais estável e eficiente para os mercados internacionais. Com a modernização, o sistema logístico entre o interior e o porto tornou-se mais fiável e rápido. O custo de transporte ferroviário reduziu-se em cerca de 30% a 40% em relação ao transporte rodoviário, e o consumo energético diminuiu quase para metade.
Por exemplo, o transporte de cobre desde a região de Copperbelt até ao porto de Dar es Salaam, que antes demorava entre 10 e 14 dias, agora realiza-se em 5 a 7 dias. Para as empresas mineiras, isto representa poupança de custos, maior previsibilidade logística e competitividade acrescida no mercado global de metais.
O porto de Dar es Salaam também beneficia: o aumento do volume de exportações gera maiores receitas portuárias, de armazenagem e de câmbio, resultando numa situação de ganhos mútuos para todos os países envolvidos. A modernização da TAZARA não é apenas uma melhoria técnica — ela impulsionou a criação de um corredor económico transnacional baseado no conceito “recursos–transporte–transformação–exportação”. O porto de Dar es Salaam foi ampliado e modernizado, tornando-se um centro integrado para exportação mineral e transporte de contentores. Assim, a TAZARA deixou de ser apenas um canal de escoamento de matérias-primas, passando a constituir a espinha dorsal da integração económica regional.
O processo de modernização criou mais de 30.000 empregos diretos e indiretos em construção, manutenção, logística e gestão. Cidades como Mpika, Mbeya e Kapiri Mposhi cresceram rapidamente, com maior dinamismo comercial e desenvolvimento imobiliário.
As novas composições de passageiros são mais seguras e confortáveis, facilitando o turismo e a mobilidade interna.
Para as comunidades rurais, a ferrovia representa uma ligação vital a escolas, hospitais e mercados, melhorando significativamente a qualidade de vida ao longo da linha.
A modernização reforçou a integração económica e institucional entre Tanzânia, Zâmbia e RDC. A ferrovia tornou-se um elo físico e político que favorece acordos aduaneiros, facilitação de fronteiras e comércio intrarregional. Este avanço está em consonância com a Agenda 2063 da União Africana, que visa construir uma África interligada, industrializada e autossuficiente.
A nova TAZARA é também um instrumento de apoio à Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA), pois contribui para a mobilidade de mercadorias e pessoas no eixo leste-sul do continente. Reforço da cooperação sino-africana e da confiança internacional. A TAZARA modernizada é hoje um dos marcos mais emblemáticos da Iniciativa “Cinturão e Rota” (BRI) no continente africano.
Os resultados da modernização da Ferrovia Tanzânia-Zâmbia são profundos e multifacetados.
A linha recuperou a sua função estratégica de transporte e passou a desempenhar um papel central no crescimento económico da África Austral e Oriental.
A “nova TAZARA” acelera a exportação de minerais, dinamiza os portos, revitaliza as cidades e estreita a cooperação regional. Do ponto de vista económico, social, ambiental e político, a modernização desta ferrovia simboliza o renascimento da infraestrutura africana e o espírito de parceria ganha-ganha entre a China e a África, apontando para um futuro africano mais interligado, próspero e sustentável.
Perspetivas futuras e valor estratégico
No contexto da Iniciativa Cinturão e Rota da China, a TAZARA ganha nova relevância estratégica. No futuro, deverá consolidar-se não apenas como rota de transporte de minerais, mas também como corredor econômico integrado:
Agregação de valor aos minerais – criação de zonas industriais para fundição e processamento de cobre e cobalto; Formação de um corredor econômico regional – integração entre infraestrutura ferroviária, rodoviária, portuária e energética; Transporte verde e sustentável – o transporte ferroviário emite menos carbono e favorece o desenvolvimento ecológico; Símbolo da cooperação sino-africana moderna – a revitalização da TAZARA representa um novo modelo de parceria baseada em benefício mútuo e desenvolvimento conjunto.
A Ferrovia Tanzânia-Zâmbia é uma linha que atravessa fronteiras e gerações. Ela não apenas testemunha a amizade entre os povos da China e da África, mas também sustenta o pulso econômico do sul do continente. Do cinturão do cobre da Zâmbia às minas de cobalto da RDC, até o porto de Dar es Salam, a TAZARA conecta as riquezas minerais africanas ao mercado global.
Num novo contexto histórico, com a crescente integração regional africana e a cooperação no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota, a TAZARA certamente renascerá com vigor renovado, continuando a desempenhar um papel insubstituível no transporte de minerais e no desenvolvimento econômico da África.
Os dois elefantes gigantes lutam, quem sofre é o Capim!
JOÃO SHANG
Investigador Associado ao CEDESA (área China-África)
Visiting Professor na Beijing University-International Business and Economics
Em 30 de outubro de 2025, os presidentes Xi Jinping, da China, e Donald Trump, dos Estados Unidos, reuniram-se em Busan, Coreia do Sul, naquele que foi o primeiro encontro presencial entre ambos desde 2019. Apesar da brevidade, a reunião teve um impacto simbólico e estratégico significativo, sinalizando que China e Estados Unidos podem, em determinadas circunstâncias, alcançar êxitos mútuos e prosperidade compartilhada.
Nos últimos anos, a relação sino-americana foi marcada por tensões intensas — disputas tarifárias, conflitos tecnológicos, divergências sobre Taiwan, segurança no Indo-Pacífico e vulnerabilidades nas cadeias globais de abastecimento. O reencontro entre os dois líderes foi, portanto, interpretado como um gesto de distensão e um teste político de alto nível para reavaliar os equilíbrios entre as duas maiores potências do sistema internacional.
Comércio e Tarifas: Uma Trégua Temporária
O principal resultado da reunião foi a redução provisória das tarifas comerciais. Trump anunciou que os Estados Unidos diminuiriam a média das tarifas sobre produtos chineses de 57% para 47%, e que as tarifas punitivas sobre precursores químicos — associados à crise do fentanil — seriam reduzidas de 20% para 10%.
Em contrapartida, a China comprometeu-se a retomar a compra em larga escala de soja, milho e outros produtos agrícolas norte-americanos. Além disso, Pequim decidiu suspender, por um período de um ano, as restrições à exportação de terras raras — recurso essencial para a indústria tecnológica global. Esta decisão foi interpretada como um gesto de estabilidade e uma demonstração do peso estratégico da China nesse setor.
Trump classificou o encontro como “surpreendente e incrível”, chegando a afirmar que “daria nota 12 numa escala de 10”. Xi Jinping, por sua vez, considerou que as fricções entre China e EUA são “fenômenos normais”, destacando a importância de evitar “ciclos viciosos de retaliação mútua”. Ambos enfatizaram os termos “comunicação”, “estabilidade” e “cooperação”, contrastando com a retórica agressiva dos anos anteriores. No entanto, temas sensíveis como exportação de tecnologia, redes sociais, Taiwan e segurança regional foram apenas mencionados, sem avanços concretos.
Trégua Comercial, Não Solução Estrutural
O acordo representa, essencialmente, um retorno ao ponto anterior de estabilidade, sem configurar um avanço qualitativo. As divergências estruturais persistem, e a relação sino-americana pode deteriorar-se antes de melhorar. A estratégia de Trump parece consistir em criar o problema para, posteriormente, negociar sua resolução.
Iniciativa Estratégica Chinesa vs. Cálculo Político Norte-Americano
A China demonstrou maior iniciativa estratégica. Detendo cerca de 70% das reservas mundiais de terras raras e dominando a tecnologia de seu processamento, Pequim possui alavancas de negociação robustas. Trump, por outro lado, busca ganhos políticos imediatos — a redução de tarifas e o aumento das exportações agrícolas visam consolidar apoio nos estados rurais. A China, em contraste, adota uma visão de longo prazo: estabiliza o ambiente externo, reforça sua imagem internacional e prepara o terreno para ajustes internos.
As tarifas funcionam, para Trump, como instrumento de pressão. Sua lógica é provocar o impasse para, em seguida, negociar a solução.
Valor Simbólico Maior que Avanço Real
Os mercados globais reagiram com cautela, sinalizando que o encontro foi interpretado como gesto simbólico, não como virada estrutural. Analistas chineses consideram que se inicia uma nova fase de “competição em pé de igualdade” — uma rivalidade G2, em que ambos reconhecem a importância do outro, sem renunciar à disputa estratégica.
A trégua tarifária e a retomada das compras agrícolas geram benefícios imediatos: para os EUA, aliviam a pressão sobre o setor agrícola e oferecem ganhos políticos; para a China, reduzem o impacto nas exportações e ajudam a estabilizar o emprego e o consumo. Contudo, trata-se de uma medida paliativa. A competição industrial e tecnológica prossegue, e os desequilíbrios estruturais permanecem. Como afirmam os economistas, “esta trégua oferece um suspiro, mas não uma cura”.
A questão dos microchips e da exportação de tecnologias sensíveis foi mencionada, mas não houve acordo concreto. Washington mantém controle rigoroso sobre exportações tecnológicas, enquanto Pequim investe em autossuficiência. A suspensão temporária das restrições às exportações de terras raras é uma pausa estratégica — caso o contexto geopolítico se altere, a China poderá reativar tais medidas, com impacto direto sobre a indústria norte-americana e seus aliados.
Geopolítica e Narrativas Globais
O encontro simboliza tanto uma tentativa de reduzir tensões quanto uma nova etapa da competição estratégica. Para países terceiros — como Coreia do Sul, Japão e nações do Sudeste Asiático — a mensagem é clara: a rivalidade permanece, embora momentaneamente sob controle.
Xi Jinping defendeu uma “globalização inclusiva”, voltada para o Sul Global. Segundo o jornal espanhol El País, essa narrativa busca posicionar a China como alternativa à ordem liberal liderada pelos EUA, reforçando a tendência de multipolaridade. Trump encara a diplomacia como transação: cada acordo deve gerar benefícios tangíveis. Xi, por sua vez, atua com lógica de Estado — reforçando a imagem da China como potência racional, responsável e confiante.
Contradições Estruturais Persistem
Apesar do tom amistoso, as contradições fundamentais da relação sino-americana permanecem:
Tecnologia: os EUA temem a ascensão científica chinesa; a China considera a inovação autônoma uma questão de segurança nacional.
Cadeias de abastecimento: Washington busca “reduzir riscos”; Pequim acelera a substituição de importações.
Governança global: os EUA defendem a ordem liberal tradicional; a China propõe um modelo mais plural e inclusivo.
Questões regionais: Taiwan, Mar do Sul da China e segurança no Indo-Pacífico continuam como focos de tensão.
Perspectivas Futuras
Curto Prazo: Nos próximos 12 meses, ambos deverão priorizar a estabilidade e o diálogo. A China aproveitará a trégua para reforçar sua base tecnológica e industrial, enquanto os EUA buscarão evitar choques externos antes das eleições intercalares.
Médio Prazo: Se as medidas temporárias forem institucionalizadas — por meio de acordos sobre comércio agrícola, exportação de recursos estratégicos e normas tecnológicas — poderá emergir uma relação de competição controlada. Contudo, fatores como polarização política nos EUA ou desaceleração econômica na China podem comprometer esse processo.
Longo Prazo: Especialistas projetam três cenários possíveis:
Cooperação limitada: competição contínua com áreas de coordenação estável;
Retorno da confrontação: reativação de tensões por crises regionais ou políticas internas;
Transformação estrutural: redefinição da ordem global com nova divisão de poder e papéis complementares.
O cenário mais provável é o primeiro — uma coexistência competitiva, marcada por rivalidade estratégica, mas gerida por canais diplomáticos permanentes.
Impactos sobre Terceiros e a Economia Global
Estados Unidos: Estados agrícolas e setores exportadores serão beneficiados a curto prazo. Contudo, os desafios industriais e tecnológicos persistem.
China: A reunião reforça a imagem da China como potência estável e dialogante, oferecendo alívio à sua economia e restaurando a confiança dos mercados.
Economia Global: O sinal de distensão contribui para estabilizar as cadeias de suprimentos, especialmente nos setores de alta tecnologia e energia. Ainda assim, países intermediários continuarão vulneráveis às oscilações da rivalidade sino-americana.
Conclusão: O encontro entre Xi Jinping e Donald Trump em Busan representa um marco relevante, mas não uma inflexão definitiva. Trata-se de um gesto de moderação estratégica — cada parte buscou ganhos específicos e evitou o agravamento das tensões. As divergências estruturais — tecnológicas, econômicas e ideológicas — continuam a moldar o pano de fundo da relação. Ainda assim, o restabelecimento do diálogo de alto nível constitui, por si só, um progresso institucional significativo.
Num mundo marcado por crescente incerteza, o futuro das relações sino-americanas dependerá da capacidade de ambos os países de converter uma rivalidade inevitável em uma cooperação estrategicamente gerida. A chamada “trégua de Busan” pode não resolver as contradições profundas, mas inaugura um novo capítulo — mais cauteloso, mais pragmático e, possivelmente, mais amadurecido.
A estabilização do desenvolvimento económico da China e dos Estados Unidos tem potencial para impulsionar significativamente a economia global. Por outro lado, uma nova escalada de tensões entre essas duas potências teria efeitos negativos profundos sobre o sistema internacional. Como diz o provérbio africano: _“Quando dois elefantes lutam, quem sofre é o capim.”_
Uma parceria económica instável entre China e Estados Unidos representa um risco sistémico para o mundo inteiro. No entanto, o progresso e a revitalização da China não são incompatíveis com o objetivo declarado do Presidente Trump de “tornar a América grande outra vez”. Pelo contrário, há espaço para êxito mútuo e prosperidade compartilhada.
China e Estados Unidos devem ser parceiros e não adversários — esta é uma lição que a história ensina e uma exigência imposta pela realidade contemporânea. A China manifesta plena disposição para continuar a trabalhar com o Presidente Trump na construção de uma base sólida para as relações bilaterais, promovendo um ambiente propício ao desenvolvimento sustentável de ambas as nações.
https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2025/11/xi-donald.jpg7201280CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2025-11-04 08:00:002025-11-02 10:24:25EUA: Para resolver um problema, primeiro crie um!
“Mais do que um espaço económico, o Fórum Macau tem que funcionar como “ponte estratégica para promover confiança política e aproximação cultural entre a China e o mundo lusófono”, diz João Shang, investigador associado no Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA). Para o investigador, os PALOP “não constituem uma potência económica ou militar comparável a outros blocos regionais, mas têm um valor significativo em termos culturais, linguísticos e geopolíticos que a China valoriza”
Como é que Pequim vê os PALOP dentro da sua relação mais ampla com a África?
João Shang — A China tem-se esforçado por construir boas relações com todos os países africanos e, naturalmente, isso inclui também os seis países lusófonos africanos. Apesar do peso económico dos PALOP não ser muito grande, a China pretende manter uma amizade de longo prazo. Entre os PALOP, Angola, Moçambique e a Guiné Equatorial são atualmente os parceiros comerciais mais importantes da China, devido ao elevado volume de trocas comerciais; Cabo Verde e São Tomé e Príncipe destacam-se como destinos turísticos para viajantes chineses; e as relações políticas com a Guiné-Bissau mantêm-se num ótimo nível no plano internacional.
Dado o alargamento dos BRICS e o papel da China nesse processo, vê espaço para que os PALOP — em particular Angola — possam aderir num futuro próximo?
J.S. – O mundo de hoje é diversificado, o mundo unipolar desapareceu para sempre. Por isso, é necessário cultivar uma atmosfera cultural e política diversificada, sobretudo entre os países do Sul Global, em desenvolvimento ou subdesenvolvidos. O surgimento dos BRICS corresponde à expectativa de muitos desses países, que procuram obter mais benefícios e apoio através dessa plataforma.
Na realidade, o papel dos BRICS é muito diferente do das alianças ocidentais. Não se trata de uma entidade militar, mas sim de um mecanismo económico, no qual todos os membros têm direitos iguais. Não existe um líder que controle os BRICS — China, Índia ou África do Sul têm direitos equivalentes. Portanto, não se pode dizer que a China seja o “líder” dos BRICS.
Atualmente, a África do Sul procura atrair mais países africanos para o grupo. A Etiópia e o Egito tornaram-se membros oficiais em 1 de janeiro de 2024. Além disso, após a cimeira de 2023, países como o Zimbabué e a Argélia manifestaram interesse em aderir, embora ainda não o tenham feito. Os países lusófonos africanos precisariam de apresentar formalmente a sua candidatura.
Nos últimos anos, o Governo angolano tem-se aproximado dos Estados Unidos e a relação com a Rússia não é boa. Parece-me, por isso, que Angola terá primeiro de convencer Moscovo a apoiar a sua entrada. A China, por seu lado, continua ao lado de Angola. Em 2024, os dois países assinaram a Declaração Conjunta sobre o Estabelecimento da Parceria de Cooperação Estratégica Global, um acordo de grande importância que reforça os laços bilaterais.
Considera que uma eventual federalização ou integração política mais forte dos PALOP os tornaria parceiros mais atrativos para a China?
J.S. – No cenário mundial, os PALOP não constituem uma potência económica ou militar comparável a outros blocos regionais, mas têm valor significativo em termos culturais, linguísticos e geopolíticos. Angola e Moçambique destacam-se como as maiores economias do grupo, sobretudo graças ao petróleo, gás natural, carvão e outros minerais estratégicos. Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, apesar da sua dimensão, têm importância estratégica devido à localização atlântica, servindo como pontos de apoio logístico e de segurança marítima.
Politicamente, os países do grupo participam ativamente na União Africana e nas Nações Unidas, muitas vezes de forma coordenada. Angola tem desempenhado um papel relevante na mediação de conflitos regionais, enquanto Cabo Verde se afirma como exemplo de estabilidade democrática em África.
Assim, a China vê oportunidades de cooperação acrescidas com os PALOP, sobretudo na importação de matérias-primas e no setor agrícola. Há, portanto, muito espaço para expandir a cooperação.
Angola é o segundo maior parceiro comercial lusófono da China, depois do Brasil, mas as suas exportações para Pequim têm vindo a cair. Quais são os fatores que explicam esta queda e como poderá Angola diversificar as suas exportações para além do petróleo?
J.S. – As exportações angolanas para a China deverão cair cerca de 17% em 2025, sobretudo porque Pequim diversificou os seus fornecedores de petróleo, privilegiando países como a Rússia e outros no Médio Oriente, com preços e custos de transporte mais baixos. Assim, a diminuição das compras de petróleo angolano não surpreende.
Além disso, Angola atravessa atualmente um período económico difícil. A escassez de divisas, os cortes nos subsídios, a desvalorização da moeda, o aumento dos preços do petróleo e a inflação reduziram o poder de compra interno, levando também à queda das importações provenientes da China.
Desde 2014, o Governo angolano tem tentado diversificar a economia, consciente dos riscos da chamada “doença holandesa” [Em economia, doença holandesa refere-se à relação entre a exportação de recursos naturais e o declínio do setor manufatureiro]. Foram promovidos projetos agrícolas, mineiros, industriais e turísticos para reduzir a dependência do petróleo. Contudo, a reforma económica revelou-se um teste exigente para todo o sistema governativo, exigindo forte coordenação interministerial.
Onze anos depois, o petróleo continua a ser o pilar da economia, dada a sua elevada rentabilidade e os menores custos de investimento comparativamente a outros setores. Houve investimentos em agricultura e mineração, mas com resultados limitados. O Governo instou as províncias a atrair mais investimento, mas o ambiente de negócios desafiante tem afastado investidores ocidentais. As empresas chinesas, por sua vez, concentram-se sobretudo na construção e no comércio, criando empregos e mais recentemente apostando em fábricas locais, o que gera oportunidades para a juventude angolana.
Angola tem laços históricos com a Rússia e está também a explorar parcerias com a União Europeia. Como é que a China gere a diplomacia multivetorial angolana?
J.S. – Antes de mais, a China segue uma política de não-interferência nos assuntos internos de outros países, reconhecendo que o Governo angolano tem o direito de escolher os seus próprios parceiros. Atualmente, as relações entre Angola e a Rússia estão a desenvolver-se, mas não de forma tão sólida como se poderia esperar. Interesses divergentes conduziram a abordagens distintas e até conflituosas, levando cada parte a seguir a sua própria agenda.
Desde 2017, Angola tem procurado financiamento e apoio ocidental. Contudo, muitos desses apoios não se materializaram na prática. Um exemplo é o Corredor do Lobito: após os EUA anunciarem de forma abrupta que não participariam no projeto, Angola viu-se obrigada a procurar assistência junto de países árabes, de Israel, da Coreia do Sul e do Banco Africano de Desenvolvimento.
Quão eficaz tem sido a promoção de investimento e comércio via Fórum Macau, sobretudo para economias mais pequenas como São Tomé e Príncipe ou a Guiné-Bissau?
J.S. – Um dos papéis centrais do Fórum Macau é o de aprofundar a cooperação económica e comercial. Têm sido promovidos investimentos bilaterais, facilitação do comércio e parcerias em setores estratégicos como energia, infraestruturas, agricultura, pescas e finanças. Para além disso, iniciativas como o Fundo de Cooperação e Desenvolvimento China–Países de Língua Portuguesa apoiam projetos concretos de desenvolvimento.
O Fórum desempenha igualmente um papel importante no intercâmbio cultural e humano. Através de programas de formação e capacitação, promove-se a transferência de conhecimento e o fortalecimento das relações entre profissionais e instituições. Macau, pela sua herança sino-lusófona e pelo uso oficial da língua portuguesa, funciona como ponto de encontro privilegiado nesse diálogo.
Sendo a única cidade da China onde o português é língua oficial, Macau pode servir de ponte entre a China e os PALOP. O Fórum de Macau, em articulação com a CPLP, constitui uma plataforma estratégica de intercâmbio e cooperação, onde o idioma comum reforça a confiança e a proximidade entre os membros. Em síntese, o Fórum Macau é muito mais do que um espaço económico: é uma ponte estratégica que promove confiança política, desenvolvimento conjunto e aproximação cultural entre a China e o mundo lusófono.
Tendo em conta as mais recentes estatísticas que mostram uma queda nas exportações dos PALOP para a China, espera que Pequim reajuste as suas políticas ou os seus instrumentos de financiamento, como o Fundo de Cooperação para o Desenvolvimento China–Países de Língua Portuguesa?
J.S. – A China tem interesse em manter relações comerciais robustas com os PALOP, tanto para garantir o fornecimento de matérias-primas (petróleo, minerais, etc.) como para expandir o acesso a novos mercados consumidores.
Em 2023, o Fundo Sino-Lusófono flexibilizou as regras de acesso ao financiamento, permitindo que mais empresas lusófonas recorressem às suas linhas de crédito. Essa tendência poderá traduzir-se em mais capital, empréstimos mais acessíveis ou condições financeiras mais favoráveis (juros, prazos, garantias) para projetos de exportação ou produção nos PALOP.
A ideia é também incentivar os países produtores a agregar valor aos seus produtos, para exportarem não apenas matérias-primas, mas também bens transformados com maior valor acrescentado. Outro eixo de ação passa por apoiar reformas portuárias, infraestruturais e aduaneiras, reduzindo tarifas e barreiras não-tarifárias que ainda dificultam as exportações africanas.
Desde o Fórum de Cooperação China-África de 2025, Pequim concedeu isenção de tarifas a 90% dos produtos provenientes de países africanos, pelo que os PALOP podem beneficiar significativamente dessa medida.
https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2025/10/joao-shang.jpg608900CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2025-10-12 14:38:212025-10-12 14:38:23O mundo unipolar desapareceu para sempre
Nota prévia: O CEDESA não pretende aprovar nem desaprovar as opiniões expressas neste texto. Essas opiniões devem ser consideradas como pertencentes ao autor.
A revolução dos paradigmas
Pelos menos desde o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que os Estados Unidos da América representavam um paradigma, o da chamada civilização Ocidental que afirmava a liberdade, a democracia, os direitos fundamentais e a economia livre. Eram uma espécie de “farol” para que os outros países olhavam e se inspiravam. Não quer isto dizer que o comportamento dos EUA fosse perfeito ou imaculado. Erros e tragédias aconteceram, Vietnam, Iraque, apoio a ditadores, hesitações espúrias, mas no final do dia, os EUA eram vistos como uma “força para o bem” e, sobretudo, traduziam um paradigma de sociedade que se ambicionava[1].
A partir de dada altura já no século XXI, esse papel dos EUA começou a ser posto em dúvida. Na realidade, os próprios EUA começaram uma espécie de autocrítica e entraram numa dúvida persistente sobre o seu papel, sobre a real existência do conceito de Ocidente, acerca da sua história, do seu sentido, mesmo do que era ser americano. Enfim, sobre tudo, e, como predisse Schumpeter, o sistema começou-se a desmoronar[2]. Este relativismo ou mesmo niilismo abriu as portas à eleição de Donald Trump que acabou com as ilusões. Trump vê-se como uma espécie de “ditador eleito” com um mandato popular para preencher o vácuo do relativismo e do niilismo intelectual que se tinha apoderado dos EUA, mas sem uma noção estratégica, a não ser fazer o que quer, descurando o papel paradigmático estabilizador internacional dos Estados Unidos. Não o entende, ou não o quer entender. Portanto, abriu a porta para outros ocuparam o espaço internacional deixado livre pelos EUA.
A China, sábia e atenta, está a aproveitar. Em primeiro lugar, tornou-se a defensora do comércio livre e da sociedade internacional organizada segundo regras, papel anteriormente promovido e ocupado pelos Estados Unidos[3].
Agora faz uma entrada na área da defesa dos Direitos Humanos, que deixa muitos surpreendidos.
A publicação do relatório chinês sobre as violações dos direitos humanos nos Estados Unidos em 2024, The Report on Human Rights Violations in the United States in 2024, representa uma mudança significativa na diplomacia pública da China. Tradicionalmente[4], Beijing tem rejeitado a linguagem dos direitos humanos como uma imposição Ocidental e uma forma de ingerência nos seus assuntos internos. No entanto, ao adotar essa mesma linguagem para criticar os Estados Unidos, a China sinaliza uma reconfiguração estratégica da sua atuação internacional, indo desafiar os Estados Unidos no seu habitual campo de eleição.
Esta viragem não implica uma adesão chinesa aos valores liberais, mas sim uma apropriação instrumental dos direitos humanos como ferramenta de influência geopolítica e narrativa.
A mudança ocorre num contexto de retração da liderança moral americana, especialmente com a presidência de Donald Trump, cuja política externa retirou qualquer relevância aos direitos humanos em favor de abordagens transacionais e nacionalistas. A China aproveita este vazio para ocupar um espaço simbólico que antes era hegemonicamente americano, com possíveis repercussões profundas nas suas relações com o continente africano.
A Diplomacia Pública Chinesa: De Defesa à Denúncia
Durante décadas, a China posicionou-se como defensora da soberania nacional e da não interferência, rejeitando críticas ocidentais sobre direitos humanos como tentativas de desestabilização. A sua diplomacia pública era marcada por uma postura defensiva, centrada em justificar o seu modelo político e económico como alternativa legítima ao liberalismo ocidental. No entanto, a publicação do relatório acima referido revela uma nova abordagem. O documento, detalhado e abrangente, denuncia práticas como a manipulação eleitoral, a violência policial, o racismo sistémico, a crise dos sem-abrigo, a degradação das condições de vida dos migrantes e a persistência de desigualdades estruturais nos EUA.
Este tipo de relatório não é novo — a China tem publicado documentos semelhantes desde 1998 — mas o grau de sofisticação, abrangência e timing político do relatório de 2024 sugere uma mudança qualitativa. Ao invés de apenas responder às críticas, Beijing passa a atacar proactivamente, utilizando os direitos humanos como arma retórica. Esta mudança insere-se numa estratégia mais ampla de contra narrativa, em que a China procura deslegitimar a autoridade moral dos Estados Unidos e apresentar-se como alternativa ao desnorte Ocidental.
O Vazio Americano: A Era Trump e o Desalinhamento Moral
A oportunidade para esta viragem surge num momento de enfraquecimento da liderança moral americana. Com a presidência de Donald Trump os direitos humanos deixaram de ser prioridade na política externa dos EUA. O governo Trump cortou financiamento a organismos internacionais, retirou-se de acordos multilaterais e adotou uma abordagem transacional nas relações bilaterais, privilegiando interesses económicos de curto-prazo em detrimento de valores normativos. Esta postura está a influenciar definitivamente a política externa, com uma crescente fadiga diplomática e polarização interna que minam a capacidade dos EUA de se apresentarem como paladinos modelo liberal e democrático[5].
O relatório chinês capitaliza precisamente sobre este contexto. Ao destacar as falhas sistémicas dos EUA — como a manipulação dos distritos eleitorais, a exclusão de minorias do processo democrático, a violência policial e a crise dos sem-abrigo — Beijing procura minar a autoridade moral americana e apresentar-se como voz crítica da ordem liberal. Esta estratégia não visa substituir os EUA como defensora dos direitos humanos, mas sim deslegitimar o discurso ocidental e reforçar a ideia de que nenhum país tem o monopólio da virtude.
Direitos Humanos como Ferramenta de Soft Power Chinês
A apropriação da linguagem dos direitos humanos pela China insere-se numa lógica de soft power, em que a construção de narrativas e perceções se torna tão importante quanto o poder económico ou militar. Ao denunciar os abusos nos EUA, Beijing vai influenciar a opinião pública internacional, especialmente nos países do Sul Global, onde o ressentimento contra o paternalismo Ocidental é mais forte. Esta estratégia visa criar um espaço discursivo em que a China possa apresentar-se como parceira respeitadora da soberania, mas também como crítica legítima das falhas do modelo liberal.
Este tipo de diplomacia pública tem precedentes. A China tem investido em meios de comunicação internacionais como a CGTN, em institutos Confúcio, em parcerias académicas e em campanhas de comunicação digital para moldar perceções globais. A introdução dos direitos humanos como tema central dessas campanhas representa uma evolução significativa, que pode ter implicações concretas nas relações bilaterais, especialmente em contextos de tensão ou conflito.
O continente africano é um dos principais palcos da influência chinesa. Desde o início do século XXI, a China tem intensificado a sua presença em África através de investimentos em infraestruturas, comércio, cooperação técnica e diplomacia cultural[6]. Esta relação tem sido marcada por uma abordagem pragmática, em que Beijing evita condicionar a cooperação ao respeito pelos direitos humanos, ao contrário dos países ocidentais. Esta postura tem sido bem recebida por muitos governos africanos, que valorizam a não interferência e a previsibilidade das relações com a China.
No entanto, a nova abordagem chinesa pode alterar este equilíbrio. Ao introduzir a linguagem dos direitos humanos na sua diplomacia pública, mesmo que seletivamente, Beijing pode começar a usar esse discurso como instrumento de pressão ou justificação.
Em relações que correm mal — por exemplo, em casos de incumprimento de contratos, instabilidade política ou críticas públicas — os direitos humanos podem emergir como argumento retórico, poderá ser o caso com Angola. Ainda que não se traduzam em sanções ou condicionamentos formais, estas narrativas podem influenciar perceções públicas, reputações governamentais e dinâmicas diplomáticas.
Além disso, a apropriação da linguagem dos direitos humanos pela China pode gerar ambivalência entre os parceiros africanos. Por um lado, pode reforçar a legitimidade da China como ator global responsável. Por outro, pode criar desconforto entre regimes autoritários ou sem tradição democrática, que até agora viam Beijing como parceiro silencioso. Esta ambivalência pode abrir espaço para novas negociações, reequilíbrios e até concorrência entre modelos de cooperação.
A viragem da China insere-se numa batalha mais ampla pelas narrativas globais. Os direitos humanos, longe de serem apenas valores universais, são também instrumentos de poder simbólico. Ao denunciar os abusos nos EUA, Beijing procura reverter a lógica tradicional em que os países ocidentais criticam o Sul Global. Esta inversão tem efeitos discursivos importantes: relativiza as críticas ocidentais, reforça a ideia de multipolaridade e legitima a China como ator normativo, isto é, criador de regras globais.
O caso de Angola
O recente interesse da China pelos direitos humanos em Angola pode ser interpretado sob três prismas distintos, cada um com implicações políticas e diplomáticas bastante diferentes. A forma como este movimento será recebido e explorado dependerá não apenas das intenções chinesas, mas também da capacidade angolana de gerir a sua imagem internacional num momento de tensão interna.
Num primeiro cenário, este novo posicionamento da China pode ser simplesmente ignorado por Angola e pela comunidade internacional, sendo visto como parte da habitual disputa geopolítica entre Pequim e Washington. Neste caso, os direitos humanos seriam apenas um instrumento retórico usado pela China para se contrapor às críticas ocidentais, sem qualquer impacto real sobre a situação angolana. Angola, por sua vez, poderia optar por não se envolver, tratando o tema como um assunto externo, sem relevância direta para a sua política interna ou para as suas relações bilaterais com a China.
Num segundo movimento possível, o governo angolano pode aproveitar esta nova retórica chinesa para se reaproximar de Pequim, apresentando a China como uma parceira que também valoriza os direitos humanos — ainda que sob uma definição própria e muitas vezes divergente dos padrões ocidentais. Esta estratégia permitiria a Angola suavizar a sua imagem internacional, especialmente num momento em que o país volta a ser alvo de críticas severas devido à repressão violenta de protestos em julho de 2025, que resultaram em várias mortes. Ao alinhar-se com uma China que se mostra mais vocal sobre direitos humanos, o governo angolano poderia tentar neutralizar parte da pressão internacional, sem necessariamente implementar reformas profundas.
Por fim, há uma terceira hipótese, mais ousada e potencialmente transformadora: a China pode decidir adotar uma postura mais ativa na política interna angolana, apoiando uma transição de governo que favoreça lideranças mais comprometidas com os direitos humanos. Este movimento, embora improvável à primeira vista, não pode ser descartado, sobretudo num contexto em que as relações entre Angola e China estão em processo de recalibração. Se Beijing entender que a estabilidade angolana — e, por extensão, os seus interesses estratégicos e económicos no país — dependem de uma maior abertura política e respeito pelos direitos fundamentais, pode vir a exercer influência nesse sentido, mesmo que de forma discreta.
Cada uma dessas possibilidades revela não apenas os contornos da diplomacia contemporânea, mas também os limites e as oportunidades que se abrem para Angola num momento de escrutínio internacional e redefinição de alianças. O modo como o governo angolano responder a este novo interesse chinês poderá determinar o rumo das suas relações externas e, talvez, o futuro da sua própria governabilidade.
Conclusão: Uma Nova Era de Diplomacia Pública
A publicação do relatório sobre os EUA em 2024 marca uma nova era na diplomacia pública chinesa. Ao apropriar-se da linguagem dos direitos humanos, Beijing não se torna liberal, mas sim mais estratégica. Esta mudança insere-se numa lógica de competição narrativa, em que os direitos humanos deixam de ser monopólio Ocidental e passam a ser campo de disputa simbólica. Para África, esta mudança pode ter implicações profundas, alterando perceções, dinâmicas diplomáticas e equilíbrios de poder. A China não abandona o pragmatismo, mas acrescenta uma nova camada discursiva à sua atuação internacional — uma camada que pode redefinir o futuro das relações Sul-Sul e da ordem global.
Em relação a Angola, o novo interesse da China pelos direitos humanos pode ser interpretado como uma oportunidade estratégica com múltiplas leituras: ignorado como parte da rivalidade sino-americana, aproveitado pelo governo angolano para melhorar sua imagem internacional, ou até como um sinal de que Pequim poderá influenciar uma transição política angolana mais alinhada com valores de direitos humanos. Num momento em que Angola enfrenta críticas renovadas pela repressão violenta de julho de 2025 e as suas relações com a China passam por uma fase de recalibração, a forma como este gesto será recebido poderá ter implicações profundas para o futuro político e diplomático do país.
[1] Judt, T. (2005), Postwar: A History of Europe Since 1945. New York: Penguin Press,
[2] Schumpeter, J. A. (1942). Capitalism, socialism and democracy. New York: Harper & Brothers.
[6] Alden, C. (2007). China in Africa. London: Zed Books.
https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2025/08/Africa-China-Relationship-1000x6-1.jpg6001000CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2025-08-27 08:00:002025-08-24 18:17:16A Viragem da Diplomacia Pública Chinesa: Direitos Humanos como Ferramenta Estratégica e as Implicações para África e Angola
Com o regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, Angola encontra-se perante um dilema estratégico que exige uma abordagem realista e desprovida de ilusões. A relação entre os dois países, que conheceu avanços significativos durante a administração Biden — nomeadamente com o investimento no Corredor do Lobito e o reconhecimento de Angola como parceiro estratégico[1] — está agora sujeita à lógica transacional e imprevisível que caracteriza o estilo político de Trump.
A ausência de uma estratégia americana para África
É fundamental reconhecer que os Estados Unidos, sob Trump, deixaram de ter uma estratégia coerente para África. A política externa americana tornou-se errática, centrada em interesses imediatos e pessoais, sem uma visão de longo prazo para o continente. É expectável que, sob a liderança de Trump, os Estados Unidos privilegiem acordos comerciais pontuais, com especial incidência nos setores da exploração de petróleo e mineração. Esta abordagem revela um desinteresse pelas dinâmicas africanas e uma preferência por relações bilaterais que favoreçam diretamente os interesses empresariais do presidente.
O certo é que a política externa dos Estados Unidos para África, sob a liderança de Donald Trump, revela uma ausência preocupante de estratégia, profundidade e compromisso institucional. Ao contrário de administrações anteriores que, mesmo com limitações, procuravam articular uma visão geopolítica para o continente africano, a atual abordagem caracteriza-se por superficialidade, centralização excessiva e desinteresse sistémico.
Um dos sinais mais evidentes dessa desarticulação é a falta de nomeações diplomáticas relevantes. Até julho de 2025, a administração Trump ainda não havia preenchido cargos-chave relacionados com África, incluindo o Subsecretário de Estado para Assuntos Africanos e o Embaixador junto da União Africana¹. Esta lacuna institucional compromete a capacidade dos EUA de manter diálogo estruturado com os países africanos e de responder a crises regionais com eficácia[2].
Além disso, a estrutura diplomática americana está a ser desmantelada. A administração anunciou o encerramento de várias embaixadas e consulados considerados “não essenciais” na África Subsaariana, com o objetivo de reduzir custos e concentrar recursos em regiões consideradas prioritárias. Esta decisão, aliada à extinção de gabinetes temáticos dedicados a direitos humanos, democracia e alterações climáticas, representa um recuo significativo na presença diplomática americana no continente.
A centralização da política africana no Gabinete do Enviado Especial para Assuntos Africanos, subordinado diretamente ao Conselho de Segurança Nacional, em vez do Departamento de Estado, reforça a lógica de controlo político e enfraquece a diplomacia tradicional[3]. Esta mudança institucional reflete uma abordagem mais securitária e menos cooperativa, onde os interesses estratégicos imediatos se sobrepõem ao desenvolvimento sustentável e à estabilidade regional.
No plano da segurança, a nova doutrina americana para África baseia-se na “partilha de encargos”. O Comando Militar dos EUA em África (AFRICOM) anunciou que os países africanos devem assumir maior responsabilidade pela sua própria segurança, com os EUA a reduzirem a sua presença militar e a focarem-se em operações mais letais e pontuais. Esta reconfiguração implica a retirada de apoio logístico, tecnológico e formativo, afetando diretamente a capacidade dos países africanos de combater o extremismo violento e de manter a paz em zonas instáveis.
A política externa americana tornou-se, assim, transacional e oportunista. Em vez de promover parcerias estruturadas, os EUA, como referido, privilegiam acordos pontuais baseados em recursos estratégicos, como petróleo, gás natural e minerais raros.
Países como Angola podem beneficiar de negociações diretas, mas sem garantias de apoio em áreas humanitárias, educativas ou de saúde pública. Esta lógica de curto prazo compromete a construção de relações duradouras e coloca os países africanos numa posição vulnerável.
As implicações geopolíticas desta ausência estratégica são profundas. O vazio deixado pelos EUA está a ser rapidamente preenchido por potências rivais como a China e a Rússia, que intensificaram os seus investimentos em infraestrutura, segurança e formação militar em África[4].
Em suma, a política americana para África sob Trump carece de visão, continuidade e profundidade. A falta de nomeações, os cortes abruptos em programas essenciais e a abordagem transacional revelam uma postura de desinteresse que contrasta com o dinamismo de outras potências globais. África, portanto, enfrenta o desafio de se posicionar com autonomia, diversificar parcerias e exigir respeito estratégico — sem esperar por um “salvador” externo.
Face a este cenário, o que pode Angola fazer?
Hipótese 1: Manter relações institucionais e esperar: a diplomacia do desinteresse
Uma das opções mais sensatas que Angola pode adotar perante a nova administração Trump não é resistir nem confrontar, mas simplesmente ignorar. Trata-se de manter relações diplomáticas formais e funcionais com os Estados Unidos, sem investir energia política ou capital estratégico numa relação que, neste momento, não promete estabilidade nem reciprocidade. Em vez de tentar agradar ou de se proteger ativamente, Angola pode optar por mergulhar na sua própria agenda de desenvolvimento, diversificação de parcerias e afirmação regional, deixando os EUA à margem enquanto persistirem na sua deriva política.
Durante os anos 1980, Angola enfrentou uma pressão intensa por parte da administração Reagan, que apoiava abertamente a UNITA. Na altura, o país respondeu com resistência ativa, simbolizada pelo slogan “Reagan tira as mãos de Angola!”. Hoje, no entanto, o contexto é diferente: não há uma guerra ideológica, mas sim um vazio estratégico. A ausência de uma política americana coerente para África torna desnecessária qualquer forma de resistência. O que se impõe é o desinteresse calculado.
Ao manter uma postura institucional mínima — sem rupturas, mas também sem entusiasmo — Angola protege-se de envolvimentos que possam comprometer a sua soberania ou reputação internacional. Ignorar, neste caso, é uma forma de inteligência diplomática: não se trata de esperar por melhores dias, mas de não perder tempo com interlocutores que não têm uma proposta clara.
É verdade que esta abordagem pode implicar a perda de oportunidades de investimento imediato, sobretudo em setores como energia ou infraestruturas. Pode também significar uma certa marginalização nas prioridades comerciais dos EUA. No entanto, esses riscos são relativizados pela própria realidade americana: a ausência de uma estratégia para África torna qualquer esforço de aproximação irrelevante. Os Estados Unidos, sob Trump, não parecem interessados em manter relações estruturadas com o continente — e Angola não tem obrigação de preencher esse vazio.
Ao invés de tentar interpretar ou influenciar uma política externa errática, Angola pode concentrar-se em aprofundar relações com parceiros que demonstram compromisso e visão de longo prazo — como a União Europeia, a Índia, os países do Golfo e os blocos africanos. A diplomacia do desinteresse, neste caso, não é passividade: é foco.
Hipótese 2: Agradar aos interesses privados de Trump: pragmatismo comercial
A segunda hipótese é mais pragmática: Angola poderia oferecer oportunidades comerciais à Trump Organization, como forma de garantir atenção e investimento. Esta abordagem já foi adotada por países como o Qatar e o Vietname, com resultados concretos.
O Qatar ofereceu a Trump um Boeing 747 avaliado em 400 milhões de dólares, além de um projeto imobiliário da Trump Organization em Doha, aquando da visita de Trump ao país.
O envolvimento da Trump Organization no Vietname representa outro exemplo claro de como países podem adotar uma abordagem pragmática e comercial para cultivar relações com a administração Trump.
Em maio de 2025, foi lançada oficialmente a construção do Trump International Hung Yen, um megaempreendimento imobiliário e turístico avaliado em 1,5 mil milhões de dólares, localizado na província de Hung Yen, a sul de Hanói.Este projeto, desenvolvido em parceria com a Kinh Bac City Development Holding Corporation, cobre cerca de 990 hectares e inclui dois campos de golfe de padrão internacional, um hotel cinco estrelas, vilas de luxo e uma zona urbana moderna. A Trump Organization receberá 5 milhões de dólares em licenças de marca e assumirá a gestão do complexo após a sua conclusão, prevista para o segundo trimestre de 2029. Durante a cerimónia de lançamento, estiveram presentes Eric Trump, vice-presidente executivo da Trump Organization, e o Primeiro-Ministro vietnamita Pham Minh Chinh, que destacou o projeto como um marco na Parceria Estratégica Abrangente entre os EUA e o Vietname. O projeto foi descrito como um símbolo de excelência e compromisso com o desenvolvimento sustentável, com promessas de criação de empregos, transferência de tecnologia e promoção da imagem internacional do Vietname. Além disso, a Trump Organization está em negociações para desenvolver um arranha-céus em Ho Chi Minh City, na zona de Thu Thiem, o que reforça a intenção de expandir a presença da marca Trump no país[5].
O caso vietnamita mostra como um país pode “agradar” a Trump através de investimentos que envolvem diretamente a sua organização empresarial, garantindo visibilidade e benefícios económicos imediatos.
Para Angola, esta abordagem pode representar uma oportunidade estratégica para atrair investimentos diretos e imediatos em setores-chave como o petróleo, a mineração e o turismo. Ao estabelecer parcerias com a Trump Organization, Angola poderá beneficiar da visibilidade internacional da marca, impulsionar projetos de grande escala e posicionar-se como destino preferencial para investidores americanos. Esta aproximação pode também abrir portas a novas formas de cooperação económica, reforçando a presença angolana em mercados globais e diversificando as suas fontes de financiamento e desenvolvimento.
Considerações finais: entre o pragmatismo e a prudência
Angola deve reconhecer que os Estados Unidos, sob Trump, não têm uma estratégia para África. Como observou um anterior relatório da CEDESA, “há um absentismo americano em África”. Esta ausência de direção exige que Angola adote uma política externa mais calculista, orientada para os seus próprios interesses.
A chave está em equilibrar pragmatismo com prudência.
Num mundo pós-internacional, onde os tratados são ignorados e as alianças são fluidas, Angola deve posicionar-se como um ator soberano, capaz de negociar com firmeza e proteger os seus interesses. A relação com os Estados Unidos sob Trump não deve ser guiada por ilusões, mas por uma estratégia clara, pragmática e orientada para o desenvolvimento sustentável.
https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2025/07/trump.jpg612918CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2025-07-22 08:00:002025-07-18 12:27:08Angola e a Administração Trump: Entre a Trump Organization e a diplomacia do desinteresse
1-For decades, there have been calls for a New World Order. Generally, these calls came from the so-called Third World countries at the time, and from left-wing intellectuals and ideologues who wanted a fairer, more united world, without so many financial rules and not based on the dictates of US capitalism.[1] In fact, an international order had been established at the Bretton Woods Conference and the San Francisco Conference (both in the United States) to create, respectively, the international financial structure and organizations and the United Nations from 1944/1945, with a view to creating a world in which international law was a reality and international relations were based on rules, the economy on free trade and peace was the ultimate goal of coexistence between peoples.
Despite many bumps in the road, this order based on rules, free trade and a trend towards globalization has endured, if not as a practice, at least as a paradigm or benchmark.
Everything began to change in the 2010s. In a number of countries, leaders with authoritarian tendencies emerged who understood that in order to develop their countries and give them the projection to which their size and history entitled them, they had to break with the internationalist paradigm of 1944/1945 and impose a revision of the world order.
This vision was not the solidarity-based and fair alternative of the past, but a reinvention of the power of the affirmative sovereign state with imperial tendencies that prevailed in the 19th century. A new paradigm of great powers in which the reference is their strength has once again taken shape. It was Putin in Russia, Xi Jinping in China, Modi in India, among others. All of them once again have as their main objective the emergence of their countries as great powers, and are willing to do this through the use of force, not necessarily military force, although in some cases it is also[2]
The United States and the European Union have not reacted to these attempts to change the international paradigm. They have remained complacent in advancing their agendas, which over time have become confused and irrational, mixing millenarian desires with destructive social engineering, betting on societies of leisure and consumption, with no benchmarks. Western electorates are beginning to react to the dysfunction of policies with their needs, and the extreme right is emerging in force in Europe and Trump in the United States. Trump’s first term could have been a blip. It wasn’t. His election in 2024 was the catalyst moment for the death of the international paradigm.
International relations can no longer be thought of as based on law, rules, respecting agreements or established facts. Alliances will change, countries’ interests and identities will be strengthened. Force will play a key role in re-establishing an international paradigm. Trump is leading the American reaction to this “death” of the 1944/1945 international system. And he is taking on board the new signs, already enunciated by Putin and Xi Jinping: international treaties are no longer relevant, alliances are changing, borders are not sacred, countries are not equal, democracy and free trade are not the only possible systems and certainly do not represent the end of history. Trump doesn’t hesitate to claim Greenland, Panama and even Canada. Just as Putin has already taken Crimea and is trying to take back Ukraine. When it will be Taiwan’s and China’s turn is unknown, but it all depends on calculations of strength and probability. This is the post-international system.
The European Union, also an essentially American creation in the post-war period, within the system devised for peace and prosperity by Acheson and Marshall, among others, did not understand the historical movements and above all did not understand from President Obama’s mandate onwards that it was no longer an American priority. Now, its creator (the USA) has withdrawn its support. It has to live for itself. It’s a dysfunctional structure with no unambiguous decision-making power in which countries with different interests live. The old European powers, Germany, France, the United Kingdom and perhaps Spain and Italy, will probably have to take over the running of affairs in an articulated way, but in which the national interest takes precedence, in order to reorient Europe.
2-Of course, this radical change in the international paradigm has very important implications for Africa, which are already being felt, and for Angola, which are not yet particularly visible, but will soon become so.
Recently, Africa seems to have returned to the 19th century and the time of the “race to Africa”. Its natural resources, its strategic position in the Global South, its demography, which is a sign of vitality for the future but also a threat of migration to Europe, and the persistent fragility of its institutions, have once again made the continent the target of interest and intervention by various external countries. Russia has set its sights on creating a belt of countries aligned in the Sahel, signing several military agreements, pushing ahead with the so-called Africa Corps (formerly Wagner) and planning to set up nuclear power plants with several African countries. It is possibly the most active power in Africa at the moment.[3] China is always more discreet, but its economic influence is growing and it is an essential partner for many African governments. Little is decided in Africa without China. As someone quoted a Vietnamese saying, China is “an oil slick that spreads without anyone noticing, but sticks to your feet[4] “. Other countries such as Turkey and the Persian Gulf countries are also making rapid strides in Africa, as is India, albeit more slowly.
The European Union has strong relations with Africa, it has several programs and realizes the importance of Africa, but it hesitates, between the problems that migration brings and the regulations it imposes on its companies, it drags its feet, without a defined strategy for Africa, it realizes that it is important, but it prevaricates. France used to dominate African affairs. It is now clearly losing its influence. The European decolonization complex also contributes to its ambiguous attitude[5] . Europe has the know-how and the funding, but it doesn’t leverage it enough
The United States seemed to realize what was happening with the Biden administration. They created a consistent strategy, returned to Africa, were developing projects and pairing up with the European Union, taking it out of its hesitations. Everything went downhill with Trump’s new mandate. The US has become absent, there is an American absenteeism in Africa.[6] Trump hadn’t even managed to get the African team set up by the end of March.
3-There have already been consequences of this new post-international paradigm in Africa, with an impact on Angola. The major advance by the combined forces of M23 and Rwanda to conquer Goma and Kivu in the east of the Democratic Republic of Congo (DRC), creating a clearly relevant intervention zone, took place after Trump took office, cementing the idea that the international order has changed and borders can be changed. The same effect may have been at the origin of the fact that Tshisekedi and Kagame left Angolan mediation to resolve their dispute and went to Qatar. Angola had the US as a support in this negotiation, which gave it negotiating strength. With Trump’s absenteeism, that Angolan advantage no longer exists – at least for now – and there is a strange appetite for holding talks in the Gulf countries. The war in eastern Congo is in danger of becoming even bigger. The American attitude is having effects that could be dramatic .[7]
In this sense, it must be emphasized that all of this has consequences for Angola. In the Second Congo War, Kagame was defeated with the Angolan contribution, and therefore has a “score to settle” with Angola. M23 won’t stop there and the Islamic Republic of East Africa is putting pressure on Cabo Delgado and possibly, according to some analysts, is already in Angola.[8]
In fact, the disruption of the international order and Trump’s absenteeism, which as we have seen is already having consequences in the DRC and the possible spread of Islam, have consequences for Angola, some at a political level and others at a security level.
On a political level, it is clear that the choices and adoption of democratic governance processes are strictly an Angolan matter. It is not and will not be the international community that imposes any political model. Clearly, the time of the end of history described by Francis Kukuyama[9] as democracy and a free economy is no more. Each country is left to its own devices. In fact, the very extinction of the Voice of America, which propagated these goals throughout the world, is the greatest example of this end. Don’t expect outside intervention in any way in the Angolan general elections in 2027. Those appeals to the international community no longer make any sense.
However, it is at the level of sovereignty, border definition and security that the greatest challenges for Angola arise in this new post-international order. A revisionist process of borders in Africa is underway. As we know, the borders in Africa after independence were largely inherited from the colonial period. During the Berlin Conference (1884-1885), the European powers divided the African continent among themselves, often ignoring local cultural, ethnic and geographical realities.
After independence, the Organization of African Unity (OAU) adopted the principle of uti possidetis juris, which stated that colonial borders should be maintained to avoid territorial conflicts. Over the years, there have only been two successful attempts to redefine borders, the creation of Eritrea in 1993 and South Sudan in 2011.
However, this principle of border stability is now being called into question. The M23 incursion with the support of Rwanda may want to establish new borders in the area. This will no longer depend on international law, but on force.
As a result, Angola’s borders are under threat, the call for secession of territories (Cabinda; Lundas?) will become stronger and the validity of the OAU declaration will be called into question. At the same time, migration caused by changes in other countries (DRC, for example) will put pressure on Angola’s borders. It is clear that this is also a time of threat to any country, by another that feels stronger, or that wants to sow instability as may be the case with Rwanda in relation to Angola or any Islamic republic proclaiming .[10]
In this sense, it would be useful for Angolan security to think about creating external perimeters as buffers to stabilize and maintain territory, especially in the event of serious upheaval in DRC territory, from the most sensitive areas, such as Cabinda and the Lundas, huge border lines with potential sources of danger.
The ongoing redefinition of the international system will inevitably lead Angola to a need to strengthen its internal unity and possibly to increase (and revise) its national security doctrine in order to combat threats to the stability of the state and its borders.
https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2025/04/trump-order.jpg5631000CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2025-04-03 13:22:002025-04-13 11:03:43Angola and the New Post-International Order (of Trump and others)
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