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A projecção de poder e os impasses geopolíticos dos EUA na África Subsariana: entre a memória das intervenções e a contingência da era Trump

por: Eugénio Costa Almeida*

Introdução e ponto prévio: o histórico das intervenções dos EUA em África

A participação militar dos Estados Unidos em África não constitui uma novidade com ou da Administração Trump. O que a actual presidência parece estar a alterar é, porém, a relação entre a tradicional política de apoio, treino, informações e assistência às forças africanas e o emprego directo da força norte-americana. A experiência da primeira Administração Donald Trump já revelara essa tendência, sobretudo no Sahel e na Somália. Em 2017, por exemplo, os Estados Unidos mantinham no Níger cerca de 800 militares, destinados sobretudo a treino, assistência, vigilância e recolha de informações; o próprio Comando dos Estados Unidos para a África (US-AFRICOM) sublinhava, então, que as forças norte-americanas não tinham uma missão de combate directo.

Na África Ocidental, a estratégia norte-americana assentava, então, no princípio de combater organizações jihadistas “por, com e através” dos parceiros locais. Nigéria, Níger, Camarões e Chade eram peças fundamentais dessa arquitectura, designadamente contra o Boko Haram e, ou, o Estado Islâmico da África Ocidental, o ISWAP (Estado Islâmico da Província da África Ocidental). O US-AFRICOM, de acordo com a sua concepção, privilegia formação, equipamento, inteligência e reconhecimento, deixando às forças africanas a condução das operações terrestres (US-AFRICOM, 2018)

Mas a arquitectura da política externa e de segurança dos Estados Unidos da América para o continente africano não começou nem se esgota no ciclo recente de operações anti-terroristas. Desde o período pós-Guerra do Vietname, o envolvimento militar norte-americano em África evoluiu de acções indirectas no contexto da Guerra-Fria para intervenções directas de elevada visibilidade e complexidade estratégica.

Exemplos marcantes desta trajectória histórica incluem a intervenção na Somália, no início da década de 1990 (notoriamente consubstanciada na Operação Gothic Serpent[1], em Mogadíscio), que demonstrou os riscos urbanos e operacionais do envolvimento directo em estados falhados e moldou profundamente a doutrina de contenção de Washington. Mais recentemente, a intervenção na Líbia, em 2011, conduzida sob a chancela da OTAN/NATO com apoio determinante dos EUA para a deposição deo líder líbio Muammar Kadafi, desencadeou um efeito de vácuo estatal e proliferação de armas que desestabilizou todo o eco-sistema de segurança do Sahel e do Norte de África. Mas foi o ataque de Tongo Tongo[2] (Níger) em Outubro de 2017, no qual morreram quatro militares norte-americanos, que levou Washington a rever os procedimentos das suas forças no continente (Garamone, 2018).

Foi sobre este histórico de intervenções complexas e frequentemente controversas que se desenhou a abordagem das forças armadas dos EUA em África, em particular nesta actual era Trump. Sob a chancela do pragmatismo estrito e da doutrina «America First», a administração Trump redefiniu os termos do empenhamento militar norte-americano na África Sub-sahariana. Em vez de grandes missões de construção nacional (nation-building) ou missões de estabilização multilateral prolongadas, Washington passou a favorecer intervenções cirúrgicas, focadas primariamente na neutralização de ameaças terroristas directas através do US-AFRICOM.

Este paradigma operacional encontrou uma das suas manifestações mais visíveis na Nigéria, onde acções coordenadas de precisão procuraram desmantelar infra-estruturas extremistas em estados islâmicos do Norte daquela nação. Todavia, a revelação de que o Governo dos EUA pondera estender ou replicar este modelo para o Mali coloca desafios de uma ordem qualitativamente distinta. O Mali sobressai não apenas por constituir uma nação de esmagadora maioria muçulmana, mas sobretudo por sintetizar uma tríplice ordem de complexidades: a governação por uma junta militar originada num Golpe de Estado contra o presidente democraticamente eleito, a presença ostensiva de paramilitares russos da Africa Corps (sucessora do Grupo Wagner sob tutela do Ministério da Defesa da Rússia) e uma insurgência heterogénea que reúne desde autonomistas tuaregues do Azawad até jihadistas vinculados à al-Qaeda.

O presente ensaio analisa a dinâmica das intervenções militares dos EUA em África, contextualizando o seu percurso histórico desde o pós-Vietname e tomando como contraponto a intervenção recente na Nigéria para avaliar a viabilidade, os riscos e as implicações geopolíticas de uma eventual intervenção no Mali sob a era Trump, tendo como base reportagens e análises do The Washington Post (Hudson & Chason, 2026a) e da Deutsche Welle (Fröhlich 2026a e 2026b).

I. A “nova” Doutrina Militar de Trump e a aplicação prática no Norte da Nigéria

A abordagem estratégica da administração Trump para a segurança em África caracteriza-se pela rejeição de compromissos multilaterais extensos e pela priorização de acções de elevado impacto com uma pegada militar reduzida no terreno (light footprint). Em consonância com as directrizes analíticas expostas por publicações de análise estratégica como o Responsible Statecraft (Thurston, 2026), este modelo visa conter a proliferação do extremismo violento sem expor as forças terrestres norte-americanas a conflitos de erosão prolongados.

Na Nigéria, esta doutrina traduziu-se numa cooperação táctica e pontual com as Forças Armadas Nigerianas no combate aos focos do Estado Islâmico na Província da África Ocidental (ISWAP) e do Boko Haram. A intervenção norte-americana incidiu particularmente nos estados do norte nigeriano, onde imperam regiões predominantemente muçulmanas e sob a vigência do direito islâmico (Sharia) em que a vulnerabilidade sócio-económica e a fragilidade estatal permitiram a consolidação de santuários terroristas.

Como reportado pela RTP Notícias (RTP/LUSA, 2026) e por diversos órgãos da imprensa internacional, a eficácia desta fórmula traduziu-se em operações aéreas e de inteligência de alta precisão que culminaram na eliminação de algumas lideranças de topo de redes terroristas locais. A cooperação assentou num pressuposto fundamental: a existência de um governo central democraticamente legitimado em Abuja, capaz de fornecer a moldura jurídica e diplomática indispensável para a actuação das forças N-americanas. Nesse sentido, a acção na Nigéria serviu como validação empírica da premissa de que a capacidade militar dos EUA poderia ser projectada com sucesso em ambientes de maioria islâmica, desde que amparada por parcerias estatais reconhecidas e articuladas diplomaticamente.

II. O dilema maliano: legitimidade política e a fractura geopolítica

A perspectiva de transpor este modelo de intervenção para o Mali foi tornada pública por matérias exclusivas do The Washington Post (Hudson & Chason, 2026a), que revelaram que o Pentágono e a administração Trump ponderam seriamente opções militares contra alvos insurgentes naquele país do Sahel. Contudo, esta intenção confronta-se imediatamente com restrições de ordem política e institucional impreteríveis. Ao contrário do cenário nigeriano, o Mali vive um cenário de profunda ruptura constitucional. O país é governado por uma junta militar liderada pelo General Assimi Goïta, que ascendeu ao poder através de sucessivos Coup d’ États sobre Governos civis democraticamente eleitos.

Conforme analisa detalhadamente a Deutsche Welle (Fröhlich 2026a e 2026b), existe um risco substancial associado a uma intervenção militar dos EUA no Mali. A degradação da estabilidade política no Sahel acompanhou a decisão da junta de expulsar as forças ocidentais da Operação Barkhane[3] e de solicitar a cessação da missão de paz das Nações Unidas (MINUSMA). Como noticiam alguns órgãos de informação, nomeadamente, brasileiros como o CNN Brasil e o portal G1, além de naturalmente, o citado por aqueles, The Washington Post (Fröhlich, 2026b), qualquer acção militar da administração Trump no Mali suscita graves questões relativamente à legitimação indirecta do regime militar de Bamako, que pondera acolher a ideia de Trump (Hudson & Chason, 2026b), tal como a Nigéria o pondera (Ramos, 2025).

O direito internacional e as convenções da União Africana (UA) impõem severas limitações à cooperação de defesa com regimes inconstitucionais. Para os EUA, qualquer acção militar não concertada ou, inversamente, realizada em cumplicidade tácita com uma junta militar corrompe o discurso normativo da promoção da democracia e da ordem constitucional. No entanto, a realpolitik

Ademais, a dimensão geopolítica do Mali é exponencialmente mais gravosa devido ao alinhamento estratégico da junta militar com a Federação Russa. Conforme documentado pela Deutsche Welle (Fröhlich, 2026b), a presença activa de paramilitares da Africa Corps transforma o Mali num micro-teatro da rivalidade entre grandes potências. Uma intervenção militar dos EUA no espaço aéreo ou terrestre maliano comporta o risco iminente de incidentes tácitos ou confrontações indirectas com pessoal russo, elevando a tensão geopolítica global a patamares sem precedente no Sahel.

III. O mosaico da insurgência: a coligação sui-generis» no Azawad e o factor religioso

Para além dos entraves estatais e geopolíticos, a natureza das forças opositoras no Mali apresenta uma complexidade estrutural que contrasta vividamente com o quadro operacional da Nigéria. Enquanto na Nigéria o inimigo se encontra claramente delimitado sob a bandeira do extremismo salafista-jihadista, no Norte do Mali a linha de fractura é profundamente fluida e imprevisível.

O cenário bélico maliano é dominado por uma «coligação sui-generis» de conveniência que agrega dois actores fundamentalmente distintos:

  1. Os movimentos independentistas do Azawad: Grupos predominantemente laicos e étnicos (sobretudo tuaregues), representados historicamente pela Coordenação dos Movimentos do Azawad (CMA)[4] e pelo Quadro Estratégico Permanente (CSP-DPA)[5], cujo objectivo primacial é a auto-determinação ou autonomia da região setentrional do Azawad, sendo que o a FLA (Front de Libération de l’Azawad)[6], tenha recomeçado as suas actividades separatistas no início deste ano (Randrianarimanana, 2026)
  2. Os grupos extremistas islâmicos: Organizações jihadistas sob a tutela do Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), a filial oficial da al-Qaeda no Sahel (al-Qaeda no Magrebe Islâmico – AQIM), que procuram a imposição de um califado e a aplicação rigorosa da lei islâmica por toda a região (Almeida, 2022: 853-854; Almeida, 2026: 463-464).

Esta aliança táctica entre o nacionalismo separatista tuaregue e o extremismo religioso transnacional cria um ambiente operativo extremamente movediço. Como adverte a análise da Fröhlich (2026b), uma acção militar dos EUA destinada a erradicar elementos do JNIM arrisca atingir inadvertidamente facções independentistas que não possuem como agenda o terrorismo internacional, alimentando a narrativa de que Washington actua como força de opressão contra as populações locais do Norte do Mali.

Com efeito, sendo o Mali um país esmagadoramente muçulmano, a condução de operações militares ocidentais em território nacional é susceptível de instrumentalização propagandística pelos grupos radicais. Da mesma forma que na Nigéria a actuação em estados islâmicos exigiu extrema cautela sociológica, no Mali a presença militar estrangeira corre o risco constante de catalisar o sentimento anti-ocidental e unificar populações locais e insurgentes contra o que pode ser visto como uma eventual agressão externa.

Mas há dois factos que ajudam a esta vontade e aceitação de uma actuação dos EUA no Mali e que parece estar a ser pouco tido em conta. Em Outubro de 2025, o piloto missionário norte-americano Kevin Rideout, foi raptado da sua residência missionária da” Serving In Mission”, em Niamey, Níger, por um grupo islamita, pensa-se do JNIM, e que foi recentemente libertado (AFP, 2026) com o apoio das autoridades militares líbias que intermediaram esta libertação. Mas já em 2016 também um outro missionário norte-americano, Jeffery Woodke, foi raptado por islamitas radicais e libertado, em Março de 2023, na tríplice fronteira (confluência fronteiriça entre Burkina Faso, Mali e Níger) (CPAD News, 2023).

Ora no caso de Rideout, os EUA – porque tinham indicação que o mesmo poderia estar em território maliano – solicitaram ao Mali autorização para sobrevoo das áreas onde o missionário poderia estar detido no que foi aceite por este país (Abdi, 2026), tal como fizeram com o Níger, no caso de Woodke, mas sem concordância do Níger. Isto foi uma porta-aberta para a actual situação, já que EUA e Mali estão a negociar um acordo de segurança (Africa Table, 2026)

IV. A União Africana e a APSA: o confronto entre o intervencionismo unilateral e a soberania continental

A probabilidade de uma crescente intervenção militar norte-americana unilateral  pela administração Trump – ainda que sob a capa de acordo com Bamako –traz ao primeiro plano uma das contradições mais profundas da geopolítica africana contemporânea: o choque entre a projecção de poder externa e a arquitectura institucional de segurança do próprio continente.

A União Africana (UA), através da sua Arquitectura Africana de Paz e Segurança (APSA), sustentada pelo Conselho de Paz e Segurança (CPS) e pelo mecanismo da Força de Reserva Africana (ASF), é guiada pelo princípio basilar de “Soluções Africanas para Problemas Africanos” (Almeida, 2022). Esta doutrina visa, precisamente e em princípio, evitar que o continente permaneça um espaço passivo de projecção de forças de potências extra-continentais.

A abordagem de Washington nesta era Trump gera impactos e atritos directos no eco-sistema da UA e da APSA em três frentes fundamentais:

  1. A marginalização do multilateralismo Africano: a preferência da administração Trump pelo “bi-lateralismo pragmático” ou “transacional” conduz a parcerias directas com estados individuais (como na Nigéria) ou a acções unilaterais pontuais, contornando a UA e os blocos económicos regionais, como, no caso, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e, de certa forma, a nova e emergente Aliança dos Estados do Sahel (AES)[7]. Na eventualidade de operar à margem do Conselho de Paz e Segurança da UA (CSP-UA), os EUA podem enfraquecer as autoridades normativas continentais e alimentarão a fragmentação das respostas colectivas de segurança.
  2. A erosão da Arquitectura Africana de Governação (AGA): a APSA funciona de forma integrada com a Arquitectura Africana de Governação (AGA), que estabelece tolerância zero para alterações inconstitucionais de governo (Coup d’États ou Golpes de Estado). A actuação militar pragmática dos EUA no Sahel, caso acabe por cooperar operacionalmente ou negociar tacitamente com a junta militar de Bamako em prol da “luta anti-terrorista”, mina directamente as sanções e a política de isolamento impostas pela UA ao regime de Assimi Goïta, significando a legitimação de governos de facto que ascenderam pela força das armas.
  3. A armadilha da pependência e do vácuo financeiro: historicamente, a operacionalização da APSA tem padecido de uma vulnerabilidade crónica: a sistemática dependência de financiamento externo. Quando a política externa dos EUA reduz o apoio financeiro e logístico a missões multi-laterais organizadas ou validadas pela UA/ONU para favorecer operações americanas cirúrgicas e autónomas, a UA é empurrada para um dilema estratégico. Ora para preencher o vácuo, estados-membros ou juntas regionais recorrem a actores alternativos de segurança (como o da Rússia (Africa Corps) ou aos Estados do Golfo, nomeadamente a Arábia Saudita e os EAU), transformando o espaço da APSA num campo de batalha por procuração (proxy warfare) que desmantela a soberania continental almejada pela Agenda 2063, da UA.

Portanto, a proliferação do modelo de acção militar de Washington não só contorna a soberania estratégica que a APSA procura tentar edificar, como arrisca reduzir a UA a um espectador impotente perante a militarização crescente do Sahel.

V. Conclusão e perspectivas estratégicas

A comparação entre as intervenções militares norte-americanas na Nigéria e a ponderação de acções no Mali demonstra com clareza as delimitações da doutrina de intervenção pontual da actual era Trump quando aplicada a cenários de elevada volatilidade institucional.

Na Nigéria, a convergência de interesses entre Washington e um governo legítimo permitiu obter resultados pontuais significativos contra o ISWAP. No entanto, a transposição dessa estratégia para o Mali afigura-se extremamente problemática, tal como sublinhado por Hudson & Chason (2026a) e por Fröhlich (2026b). O Mali não oferece os pressupostos mínimos para uma cooperação militar sólida sem custos políticos demasiados elevados: a junta militar padece de défice de legitimidade, a presença dos paramilitares russos da Africa Corps introduz o risco de um possível conflito entre super-potências, e a insurgência do Azawad funde causas secessionistas e radicais que desafiam qualquer categorização simplista.

Além disso, a negligência relativamente à UA e aos mecanismos da APSA corrói as bases da governação multi-lateral e da estabilidade de longo prazo no continente. Em última análise, se os Estados Unidos optarem por avançar com ataques militares no Mali à margem do quadro normativo africano, arriscam-se a ficar enredados num conflito multi-dimensional onde os limites entre o combate ao terrorismo e a disputa geopolítica se esbatem. A experiência histórica das intervenções em África, desde a Somália e Líbia até ao presente, sugere que, na ausência de uma estratégia diplomática abrangente e articulada com as instituições continentais, o uso exclusivo da força militar de precisão corre o risco de desestabilizar, ainda mais, a periclitante região do Sahel e dividir a, cada vez mais frágil, governação da UA, como o Relatório do Representante Especial e Chefe do Gabinete das Nações Unidas para a África Ocidental e o Sahel (UNOWAS), Leonardo Santos Simão, deixa adivinhar (UN-SC, 2026).


Bibliografia

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*Eugénio Costa Almeida1, 2, 3, 4, 5, a, b

1. Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Lisboa, Portugal.

2. Investigador Colaborador do Centro Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL);

3. Investigador Sénior Associado da Associação CEDESA – Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África / ARN (Angola Research Network);

4.Investigador associado do Centro de Investigação Desenvolvimento e Inovação da Academia Militar (CINAMIL), Academia Militar, Instituto Universitário Militar, Lisboa, Portugal;

5. Doutorado em Ciências Sociais, especialidade de Relações Internacionais, (ISCSP-UTL).

a. ORCID: 0000-0002-1259-5764

b. email: eugenio.luis.almeida@iscte-iul.pt e elcalmeida@gmail.com


[1] Operação Gothic Serpent (Serpente Gótica, ou “Batalha de Mogadíscio”) foi uma operação militar dos Estados Unidos em Mogadíscio (Somália), em 3-4 de Outubro de 1993. O objetivo principal era capturar o líder guerrilheiro somali Mohamed Farrah Aidid, que liderava os ataques às forças “peacekiping” da ONU (UNOSOM II). Participaram nesta falhada operação militar – deu, depois, direito ao um filme “Black Hawk Down” –  três unidades de elite norte-americana: 2 do exército (Companhia B (Bravo), 3º Batalhão, 75º Regimento Ranger “Task-Force Ranger” e o Esquadrão C, 1º Destacamento Operacional de Forças Especiais-Delta “1st SFOD-D ou Delta Force”) e da aviação (a 160º Regimento de Operações Especiais de Aviação “ou Night Stalkers”) (Dos Santos & Perdue, 2022).

[2] Tongo Tongo é uma aldeia localizada no sudoeste do Níger, na região de Tillabéri, muito próxima da fronteira com o Mali (numa zona conhecida como a “região das três fronteiras”, que abrange o Níger, o Mali e o Burkina Faso)

[3] A “A Operação Barkhane, que substituiu a “Operação Serval”, exclusiva para o Mali, foi uma missão militar liderada pela França na região africana do Sahel, realizada entre Agosto de 2014 e Novembro de 2022. O seu principal objectivo passava pelo combate aos grupos armados jihadistas e terroristas, actuando em cooperação com cinco países da região (Mauritânia, Mali, Níger, Chade e Burkina Faso, agrupados no G5 Sahel). Esta operação terminou, formalmente, em Novembro de 2022, com a retirada total das tropas francesas do território maliano, após os sucessivos Golpes d’ État militares no Mali, Níger e Burkina Faso e da hostilização que estes países começaram a ter com a presença francesa na área (Almeida, 2022: 853-855).

[4] Coordenação dos Movimentos do Azawad (Coordination des Mouvements de l’Azawad – CMA), criada no final de 2013, é uma aliança de grupos rebeldes formada pelo Movimento Nacional de Libertação do Azawade (MNLA) – o mais antigo movimento independentista –, pelo Alto Conselho para a Unidade do Azawade (HCUA) e pelo Movimento Árabe do Azawade (MAA)

[5] O Quadro Estratégico para a Defesa do Povo de Azawad (Cadre stratégique permanent pour la défense du peuple de l’Azawad – CSP-DPA) foi criado Maio de 2021 (inicialmente como Cadre stratégique permanent pour la paix, la sécurité et le développement — CSP-PSD), com base os Acordos de Paz de Argel, de 2015, tendo adoptado a actual denominação em Abril de 2024, após a escalada de tensões quando a MINUSMA começou a retirar-se do país e o exército regular maliano (FaMa), apoiado pelo Africa Corps, ocupou bases militares no Norte que os rebeldes consideravam sob o seu controlo.. Formam esta “conglomerado” a CMA, a Plateforme des mouvements du 14 juin 2014 d’Alger (Plateforme) e um movimento encabeçado por figuras independentistas de Azawad (Randrianarimanana, 2026).

[6] A Frente de Libertação do Azawad (Front de libération de l’Azawad – FLA), uma coligação político-militar separatista de base tuaregue e árabe, ciada em Novembro de 2024, em Tinzaouatène, esteve um pouco inactiva tendo relançado a sua ofensiva armada no início de 2026. A FLA resultou do agrupamento de fações mais radicais e independentistas do CSP-DPA.

[7] Formam a Aliança dos Estados do Sahel (AES) o Burkina Faso, o mali e o Níger, havendo países que ponderam integrar esta aliança que resultou da saída daqueles três países da CEDEAO, como Togo (The Drone Front, 2025)

Metodologias Omissas e Duplos Padrões: Uma Análise Crítica dos Relatórios Internacionais sobre Angola

Nota Prévia

Os relatórios das organizações internacionais são um elemento fundamental para o progresso da democracia e estado de direito em Angola. Contudo, há que assegurar a sua crítica metodológica de modo a evitar enviesamentos ideológicos e etnocêntricos que prejudicam esse objetivo. É o que se pretende com exte texto crítico das metodologias dos relatórios internacionais.

O Sul Global tem de ser tratado metodologicamente da mesma forma que o Norte.

1-A necessidade de análise crítica das metodologias dos relatórios

Recentemente, surgiram dois relatórios internacionais que abordam Angola. Um da Amnistia Internacional[1] sobre o estado dos direitos humanos no mundo, e outro dos Repórteres sem Fronteiras acerca da liberdade de imprensa[2].

Em ambos, Angola surge mal classificada e apresentando problemas.

Contudo, é necessário encarar estes relatórios do ponto de vista das metodologias utilizadas e dos padrões subjacentes, pois parecem denotar algum viés eurocêntrico ou pelo menos a desconsideração dos contextos e evoluções significativas em algumas sociedades.

A verdade é que a análise crítica dos relatórios internacionais sobre Angola, particularmente os produzidos pela Amnistia Internacional (AI) e pela Repórteres Sem Fronteiras (RSF), revela um conjunto de fragilidades metodológicas, enviesamentos estruturais e assimetrias de tratamento que comprometem a objetividade e a comparabilidade das conclusões apresentadas.

A questão não se centra na negação dos problemas reais enfrentados por Angola, mas na forma como estes são descritos, quantificados e enquadrados, frequentemente de modo desconexo das práticas metodológicas aplicadas a países ocidentais.

Esta discrepância gera um duplo padrão analítico que reforça estereótipos racializados, obscurece avanços institucionais e impede a construção de diagnósticos equilibrados e úteis para o fortalecimento das instituições democráticas angolanas.

Na verdade, estes relatórios acabam por ter o efeito contrário.

2-O problema da opacidade concreta da metodologia

Um dos problemas mais recorrentes é a opacidade quantitativa presente nos índices e relatórios.

No caso da RSF, o Índice de Liberdade de Imprensa é construído com base em cinco indicadores — político, económico, legislativo, social e de segurança — mas a organização não explicita os pesos atribuídos a cada variável, nem os métodos concretos de recolha de dados.

Na metodologia refere-se que existe “uma análise qualitativa da situação em cada país, medida através das respostas de especialistas em liberdade de imprensa (jornalistas, pesquisadores, acadêmicos, defensores de direitos humanos, etc.).”[3]

No entanto, desconhece-se quem foram os peritos angolanos que responderam às questões. Basta haver um viés na escolha, por exemplo, procurando jornalistas ligados à oposição que falem inglês ou académicos críticos para a análise qualitativa se tornar uma mera opinião política e não objetiva.

A ausência de transparência impede a replicação independente dos resultados e compromete a validade científica do índice.

Em contextos académicos, a impossibilidade de replicação constitui uma falha grave, pois impede a verificação externa e abre espaço para arbitrariedades interpretativas.

A crítica torna-se mais evidente quando se observa que, para países ocidentais, a RSF frequentemente justifica variações nos rankings com recurso a estudos académicos, auditorias externas ou dados oficiais, enquanto para Angola a explicação se limita a descrições vagas e generalistas. Há uma procura de ciência quando se trata de países ocidentais, e bem. Já quando se chega a África existe a produção de opiniões e impressões.

3-Das perceções subjetivas às métricas

Outro elemento problemático é a conversão de perceções subjetivas em métricas estatísticas.

Tanto a AI como a RSF recorrem a testemunhos, perceções de especialistas e relatos de imprensa para construir indicadores que, posteriormente, são apresentados como dados objetivos. Alegações de censura, por exemplo, são frequentemente baseadas em episódios isolados ou em perceções de atores específicos, sem séries temporais, sem comparação com países de rendimento semelhante e sem validação independente.

A transformação de perceções em métricas é metodologicamente aceitável quando acompanhada de triangulação rigorosa e contextualização histórica, mas torna-se problemática quando é utilizada como base exclusiva para diagnósticos estruturais.

No caso angolano, esta prática é recorrente, mas raramente acompanhada de mecanismos de verificação.

Ao se passar do Norte para o Sul Global modificam-se os pressupostos científicos, deixa-se a analítica cuidadosa, e navega-se na opinião não comprovada.

4-Generalização de casos isolados e o racismo epistémico

A generalização de casos isolados constitui outra fragilidade central.

 A AI é frequentemente criticada por transformar incidentes individuais — como detenções pontuais ou confrontos entre manifestantes e forças de segurança — em diagnósticos estruturais sobre o funcionamento do Estado.

A ausência de representatividade estatística e de enquadramento histórico impede compreender se os incidentes representam agravamento, estabilidade ou melhoria.

Em contraste, quando episódios semelhantes ocorrem em França, Reino Unido ou Estados Unidos, as organizações tendem a contextualizar os eventos, distinguindo entre protestos pacíficos, tumultos, vandalismo ou criminalidade oportunista.

Esta distinção desaparece nos relatórios sobre Angola, onde fenómenos distintos são fundidos numa narrativa de “violência política difusa” ou “colapso generalizado”, reforçando estereótipos racializados sobre desordem africana.

Estes relatórios demonstram um certo racismo epistémico[4].

5-Fragilidade de seleção das fontes

A fragilidade na seleção e triangulação de fontes é igualmente evidente.

O relatório da AI sobre Angola baseia-se fortemente em notícias de imprensa, testemunhos de ativistas e declarações de organizações locais, mas raramente explicita critérios de validação independente, nem exerce qualquer tipo de contraditório com as autoridades.

Em contextos politicamente polarizados, a ausência de triangulação rigorosa — cruzamento entre fontes independentes, dados oficiais, estudos académicos e observação direta — compromete a fiabilidade das conclusões.

Em países ocidentais, a AI tende a recorrer a investigações oficiais, relatórios de auditoria e dados quantitativos, demonstrando maior rigor metodológico.

A discrepância sugere um padrão assimétrico: maior exigência para países ocidentais, maior permissividade para países africanos.

A assimetria de tratamento entre Angola e países ocidentais manifesta-se também na forma como incidentes são enquadrados.

Em França, por exemplo, existem registos documentados de dezenas de jornalistas feridos pela polícia durante protestos de grande escala, incluindo os “Gilets Jaunes”[5]. Apesar da gravidade destes episódios, raramente resultam em quedas drásticas nos rankings de liberdade de imprensa, nem são apresentados como sintomas de disfunção sistémica. Pelo contrário, a RSF tende a justificar variações com detalhe técnico, citando fontes oficiais e estudos académicos.

Em Angola, incidentes isolados são frequentemente extrapolados para diagnósticos estruturais, sem a mesma nuance analítica.

A AI, por sua vez, reconhece a complexidade operacional das forças de segurança francesas, distinguindo entre protestos legítimos e atos de vandalismo.

No caso angolano, essa distinção desaparece, e o Estado é descrito como um agente repressivo homogéneo, sem consideração pelas dinâmicas sociais, limitações materiais ou constrangimentos institucionais.

6-Omissão de contextos

Outro ponto crítico refere-se à omissão das determinantes económicas que moldam o ecossistema mediático angolano.

A RSF tende a assumir que qualquer restrição à atividade jornalística é de natureza política, ignorando fatores como custos de produção elevados, concentração de mercado, fragilidade do setor publicitário ou ausência de modelos de negócio sustentáveis.

Em países ocidentais, a organização reconhece que a concentração mediática e a crise dos modelos de negócio são fatores estruturais que afetam a pluralidade e a independência editorial.

Nos Estados Unidos, por exemplo, conglomerados privados controlam a esmagadora maioria da informação, mas a RSF raramente classifica essa concentração como ameaça estrutural comparável às restrições identificadas em países em desenvolvimento. Estudos académicos demonstram que a concentração mediática norte-americana tem impactos significativos na pluralidade, mas estes elementos são frequentemente omitidos nos diagnósticos da RSF[6].

Esta diferença de tratamento revela um enviesamento metodológico que favorece países ocidentais e penaliza países africanos.

A omissão de condicionantes estruturais é particularmente evidente no caso angolano.

A RSF e a AI raramente discutem desigualdades socioeconómicas, limitações orçamentais ou fragilidades administrativas como fatores que moldam a atuação das instituições.

 Em países ocidentais, estes elementos são considerados essenciais para compreender a eficácia das forças de segurança, dos tribunais ou dos meios de comunicação.

A ausência desta contextualização no caso angolano cria uma expectativa irrealista de que o Estado deve cumprir padrões ideais sem considerar os constrangimentos materiais reais. Esta abordagem reforça a narrativa de incapacidade estrutural frequentemente atribuída aos Estados africanos.

7-Desconsideração de autocorreções

Os relatórios internacionais ignoram mecanismos internos de autocorreção existentes em Angola.

Entre estes mecanismos incluem-se decisões judiciais que limitaram leis restritivas, absolvições de jornalistas investigativos e intervenções institucionais que demonstram capacidade de autocorreção[7].

A omissão destes elementos reforça a narrativa de que Angola carece de mecanismos internos de controlo, enquanto mecanismos semelhantes são valorizados em países ocidentais.

Esta omissão contribui para uma visão racializada da capacidade institucional africana, onde avanços são invisibilizados e falhas são amplificadas.

A diferença na análise de protestos pela AI constitui outro exemplo de assimetria.

Em países ocidentais, a organização distingue cuidadosamente entre protestos pacíficos, confrontos isolados, vandalismo e criminalidade oportunista.

Esta distinção permite compreender a complexidade das dinâmicas sociais e evita generalizações abusivas.

No caso angolano, a AI tende a fundir fenómenos distintos numa narrativa única de repressão estatal, ignorando a diversidade de atores, motivações e contextos. Esta abordagem não só compromete a precisão analítica, como reforça estereótipos racializados sobre violência e desordem em África.

A crítica metodológica estende-se também à forma como a RSF justifica variações nos rankings de países ocidentais. A organização recorre frequentemente a explicações técnicas detalhadas, citando estudos académicos, relatórios oficiais e auditorias externas. Esta prática demonstra rigor metodológico e transparência.

No caso angolano, as justificações são vagas, baseadas em perceções ou episódios isolados, sem explicitação de critérios ou fontes. A discrepância sugere que a RSF aplica critérios diferenciados consoante o país analisado, o que compromete a comparabilidade dos resultados.

A análise crítica sublinha ainda que os relatórios internacionais reforçam estereótipos racializados ao descreverem Angola como um espaço de violência política difusa, incapacidade institucional e ausência de mecanismos de autocorreção.

 Estes estereótipos são reforçados pela ausência de contextualização histórica, económica e institucional, bem como pela generalização de incidentes isolados.

Esta abordagem contribui para uma narrativa paternalista que trata países africanos como intrinsecamente frágeis e incapazes de progresso institucional, enquanto países ocidentais são descritos como complexos, dinâmicos e dotados de mecanismos de autocorreção.

CONCLUSÕES

Em síntese, a análise crítica dos relatórios da AI e da RSF sobre Angola revela algumas  fragilidades metodológicas significativas, enviesamentos estruturais e assimetrias de tratamento que comprometem a objetividade e a utilidade dos diagnósticos.

 A opacidade quantitativa, a conversão de perceções em métricas, a generalização de casos isolados, a fragilidade na triangulação de fontes, a omissão de determinantes económicas e a invisibilização de mecanismos internos de autocorreção constituem problemas centrais.

A comparação com países ocidentais evidencia um duplo padrão analítico que reforça estereótipos racializados e impede a construção de análises equilibradas.

Não se nega os desafios enfrentados por Angola, mas é fundamental haver rigor metodológico, transparência e contextualização, elementos essenciais para qualquer avaliação produtiva da liberdade de imprensa e dos direitos humanos em África.


[1] Amnesty International. (2026). O estado dos direitos humanos no mundo: Relatório 2025 (POL10/0320/2026). Amnesty International Ltd. https://www.amnesty.org

[2] Reporters Without Borders. (2026). World Press Freedom Index 2026. RSF. https://rsf.org

[3] https://rsf.org/pt-br/metodologia-detalhada-do-ranking-mundial-da-liberdade-de-imprensa-2026

[4] Baldé, M. A. B. (2023). Para além dos estereótipos: um enfoque endógeno e crítico do conhecimento sobre a África. África, (44). https://doi.org/10.11606/issn.2526-303X.i44pe214846

[5] Reporters Sans Frontières. (2019). Six mois de manifestations “gilets jaunes” et de violences policières : au moins 54 journalistes blessés et 120 incidents répertoriés. https://rsf.org/

[6] Benson, R., & Powers, M. (2011). Public media and political independence: Lessons for the future of journalism from around the world. Free Press.

McChesney, R. W. (2015). Rich media, poor democracy: Communication politics in dubious times (2nd ed.). The New Press.

[7] Público. (2018, julho 6). Jornalistas angolanos absolvidos em processo movido por ex-procurador. https://www.publico.pt/2018/07/06/mundo/noticia/jornalistas-angolanos-absolvidos-em-processo-movido-por-exprocurador-1837132

Retorno ao século XIX? A Nova Política Americana para África da Administração Trump

Rui VerdeDiretor Investigação CEDESA

Durante o primeiro ano do seu mandato, Donald Trump não demonstrou qualquer interesse particular por África.

O continente parecia permanecer na periferia das prioridades estratégicas de Washington, reduzido a notas de rodapé em discursos sobre terrorismo, migração ou uma putativa proteção do cristianismo na Nigéria.

Contudo, algo mudou recentemente. A súbita reorientação da política externa norte‑americana em direção ao continente africano não surge do nada: é impulsionada por J.D. Vance e Marco Rubio, que vêem mais além da retórica confusa de Trump e compreenderam que África se tornou um dos tabuleiros centrais da competição sistémica com a China.

A estratégia é subtil — ou pretende sê-lo — evitando hostilizar Beijing de forma explícita, mas o subtexto é evidente: os EUA querem recuperar terreno num continente onde a China consolidou uma presença económica, diplomática e industrial sem precedentes.

O que emerge agora é uma política americana para África que combina a possibilidade do poder militar, a capacidade financeira e a diplomacia agressiva, com o objetivo de garantir acesso privilegiado a terras raras, minerais críticos e recursos estratégicos indispensáveis às cadeias de valor do século XXI.

A retórica é moderna, mas a lógica lembra o retorno ao imperialismo das canhoneiras do século XIX: projeção de força, criação de dependências e captura de ativos estratégicos sob o pretexto de “estabilidade” e “parcerias”. O Estado imperial vai à frente, ou ao lado, para abrir caminho para as suas empresas privadas.

A cimeira inaugural de minerais críticos organizada por Washington esta semana — reunindo representantes de 54 países, muitos deles africanos — foi apresentada como um encontro diplomático.

Contudo, nos bastidores, a mensagem dirigida aos investidores foi inequívoca: os EUA e os seus aliados estão dispostos a gastar bastante dinheiro para redesenhar as cadeias globais de abastecimento mineral provenientes de África.

O secretário de Estado, Marco Rubio, evitou mencionar a China, preferindo alertar para cadeias de valor “excessivamente concentradas” e para a vulnerabilidade criada por décadas de deslocalização industrial. A mensagem implícita foi clara: assegurar estes recursos exigirá novas estratégias e capital político e financeiro.

A estratégia americana já está em marcha. Na véspera da cimeira, a Glencore — gigante suíça das commodities — acordou vender 40% dos seus ativos de cobre e cobalto na República Democrática do Congo (RDC) a um consórcio apoiado pelo governo dos EUA, por 3,6 mil milhões de dólares.

O valor surpreendeu analistas e operadores do setor. Como observou Calisto Radithipa, cofundador da Kemcore, “reflete como o capital ocidental está agora disposto a pagar para garantir controlo não chinês de ativos-chave”.

Rubio pretende tornar estes prémios sustentáveis, propondo uma Zona de Comércio Preferencial com preços mínimos que estabilizem mercados afetados por excesso de oferta e manipulação de preços. O objetivo é simples: dar confiança aos investidores de que projetos fora da esfera chinesa podem gerar retornos previsíveis.

A isto soma-se a proposta de um stock estratégico de 12 mil milhões de dólares para minerais críticos — um instrumento que a União Europeia e o Japão também estudam, numa tentativa de amortecer choques e contrariar práticas de mercado dominadas por Beijing

Para produtores africanos como Angola, RDC, Gabão, Nigéria e Zâmbia, esta mudança abre uma janela rara de alavancagem. O acordo da Glencore demonstra que os governos ocidentais estão dispostos a colocar dinheiro em cima da mesa.

Mas transformar este momento numa vantagem duradoura exige planeamento estratégico, e não oportunismo de curto prazo, para os governos africanos.

É sobretudo importante que os dirigentes africanos não desperdicem os eventuais ganhos em luxos e apropriação corrupta privada, e ao mesmo tempo, mantenham a sua autonomia estratégica face às grandes potências.

A presença do presidente da RDC em Washington esta semana ilustra bem esta dinâmica. Félix Tshisekedi procurou reforçar a posição do seu país num contexto de crescente interesse ocidental pelos minerais críticos.

Num evento da Câmara de Comércio dos EUA, apresentou a RDC como “parceiro estratégico” na tentativa americana de assegurar cadeias de abastecimento essenciais para veículos elétricos, tecnologias de defesa e inteligência artificial. Como outros países africanos, a RDC — maior produtora mundial de cobalto — quer ultrapassar o modelo de exportação de matérias-primas e avançar para o processamento e a manufatura.

O desafio é monumental: a cadeia de valor congolesa é dominada por empresas chinesas, desde a extração até à refinação, que ocorre maioritariamente na China.

Tshisekedi tenta inverter esta dependência, ligando a nova parceria com os EUA à segurança interna. Argumenta que a mineração ilícita e as cadeias informais alimentam a violência no leste da RDC. Formalizar essas cadeias e reforçar a rastreabilidade seria, segundo ele, essencial para estabilizar o país e proteger investimentos de longo prazo.

Há duas grandes dúvidas:

Tshisekedi é um líder fraco, que não domina o seu território, e está empenhado numa espécie de guerra civil, que tem estado a perder. Quer a intervenção da força dos Estados Unidos para contrapor ao Ruanda.

Além disso, a China tem estado silenciosa, a observar, mas é impossível que não reaja, quando perceber que há movimento efetivo no terreno, e não apenas a habitual retórica oca de Donald Trump. É que neste caso nem é ele o motor americano, mas dois dos seus ajudantes, que antes de o serem eram realistas e críticos das asneiras de Trump (Vance e Rubio).

Em termos da perspetiva africana, há que aferir se estamos perante uma nova oportunidade para África ou apenas perante uma atualização tecnológica do velho extrativismo imperial?

A disposição dos EUA para pagar prémios elevados por ativos estratégicos pode fortalecer a posição negocial dos países africanos, mas também pode cristalizar novas dependências, agora sob a bandeira da “segurança das cadeias de abastecimento”.

A história ensina que momentos como este são raros e perigosos. África encontra-se, mais uma vez, no centro de uma disputa global entre grandes potências.

A diferença é que, desta vez, o continente tem maior margem de manobra, maior consciência estratégica e maior capacidade de exigir contrapartidas.

A questão decisiva será saber se os governos africanos conseguem transformar esta conjuntura num projeto de desenvolvimento endógeno — ou se permitirão que o século XXI repita, com novos atores e novas tecnologias, as velhas lógicas das canhoneiras e as habituais práticas de corrupção e enriquecimento privado dos dirigentes.

E falta ver o que fará a China. Deng Xiao Ping ensinou que a estratégia mundial chinesa era “esconder a força e aguardar o momento certo” ((韬光养晦).

Referências:

Adekoge, Y. (2026), Reshaping supply chains, Semafor, https://www.semafor.com/newsletter/02/06/2026/critical-minerals-in-the-spotlight?utm_source=newslettershare&utm_medium=africa&utm_campaign=FirstWord#

Borges De Lima, I., & Leal Filho, W. (Eds.). (2015). Rare earths industry: Technological, economic, and environmental implications (1st ed.). Elsevier

Naidoo, P. (2024)Supply chain latest: US–China, Africa, and critical minerals.Bloomberg, https://www.bloomberg.com/news/newsletters/2024-08-19/supply-chain-latest-us-china-africa-and-critical-minerals

Kavanagh, M. (2025),Bloomberg.US vows over $1 billion for Congo critical minerals supply chain. (2025, December 5). https://www.bloomberg.com/news/articles/2025-12-05/us-vows-over-1-billion-for-congo-critical-minerals-supply-chain

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Campbell, B.K. (2013). Introduction. In: Campbell, B.K. (eds) Modes of Governance and Revenue Flows in African Mining. International Political Economy Series. Palgrave Macmillan, London. https://doi.org/10.1057/9781137332318_1

Briefing CEDESA: A nova estratégia africana da administração Trump

A administração Trump tem vindo a redefinir profundamente a sua estratégia para África, afastando‑se de abordagens maximalistas e optando por um pragmatismo seletivo que procura afastar a China apenas de setores considerados vitais para a resiliência económica norte‑americana.

Em vez de tentar competir com Pequim em grandes obras de infraestrutura — terreno onde a China consolidou uma vantagem quase incontornável — Washington concentra‑se agora em áreas de alto valor estratégico, sobretudo minerais críticos e cadeias de abastecimento essenciais para tecnologias avançadas.

Esta mudança de orientação foi explicitada por Nick Checker, responsável pelo Bureau de Assuntos Africanos, ao sublinhar que os Estados Unidos não pretendem disputar cada centímetro do continente, mas sim proteger segmentos sensíveis da sua economia, onde a dependência externa representa um risco sistémico.

A nova abordagem assenta numa combinação de diplomacia comercial, maior exigência aos países parceiros e métodos inovadores de assistência, procurando substituir discursos moralizantes por incentivos concretos ao crescimento económico e à estabilidade. Checker insiste que muitos governos africanos acolhem favoravelmente esta postura mais pragmática, que privilegia segurança, investimento e criação de valor local. Um e‑mail interno do Departamento de Estado descreveu África como “periférica” para os interesses dos EUA, mas não irrelevante, defendendo um envolvimento seletivo e orientado para resultados tangíveis.

 Esta franqueza estratégica reflete a perceção de que os recursos diplomáticos e financeiros norte‑americanos devem ser aplicados onde produzem maior retorno geopolítico.

Neste contexto, Washington tem dado atenção especial a países como Quénia, Angola e República Democrática do Congo, considerados polos regionais capazes de ancorar parcerias mais amplas.

Paralelamente, organiza agora uma cimeira dedicada aos minerais críticos com vários países africanos — entre eles a República Democrática do Congo, a Guiné, o Quénia e a Zâmbia — com o objetivo de reforçar alianças estratégicas e atrair investimento norte‑americano para o processamento e a refinação no próprio continente.

Esta iniciativa responde à crescente preocupação das empresas americanas com a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento dominadas pela China, sobretudo no que diz respeito ao cobalto, ao lítio e ao grafite. Para apoiar esta viragem, a administração está a requalificar pessoal diplomático, dotando‑o de competências em diplomacia comercial e negociação económica, numa tentativa de alinhar a ação externa com as necessidades das empresas norte‑americanas.

É neste quadro que se insere o renovado interesse dos Estados Unidos na República Democrática do Congo, país que detém algumas das maiores reservas mundiais de cobre, cobalto e coltan, minerais indispensáveis para baterias, semicondutores e veículos elétricos. Empresas como a Freeport‑McMoRan, que durante anos operou na mina de Tenke Fungurume antes de vender a sua participação à China Molybdenum, continuam a influenciar o debate político em Washington, defendendo a necessidade de contrabalançar a presença chinesa no setor mineiro congolês.

Gigantes tecnológicos como a Tesla, a Apple e a General Motors surgem frequentemente em relatórios do Congresso como beneficiários indiretos de uma cadeia de abastecimento mais estável e menos dependente de refinadores chineses, o que explica a intensificação da diplomacia económica norte‑americana em Kinshasa.

Embora os EUA evitem compromissos operacionais diretos, têm explorado com o governo congolês modelos de cooperação que combinam segurança, fiscalização e investimento em infraestruturas.

É precisamente neste espaço intermédio — onde interesses estratégicos se cruzam com a ausência de uma presença estatal robusta — que reaparece a figura controversa de Erik Prince. Conhecido pela fundação da Blackwater e por operações de segurança privada em múltiplos teatros de conflito, Prince tem procurado reposicionar‑se como fornecedor de soluções logísticas e de fiscalização para o setor mineiro congolês. Através da Frontier Resource Group e de outras estruturas empresariais sucessoras, negociou com Kinshasa um acordo destinado a reforçar a cobrança fiscal, combater o contrabando e organizar corredores logísticos, sobretudo na região de Katanga. Embora o mandato formal seja civil, a reputação de Prince e o seu histórico de tentativas de mobilizar ex‑militares estrangeiros — incluindo antigos legionários franceses — suscitam receios de uma privatização de funções soberanas num contexto já marcado por instabilidade e competição geopolítica. A ofensiva do M23 e a deterioração da segurança no Kivu do Norte obrigaram a deslocar o foco das operações inicialmente previstas para Goma, concentrando‑se em zonas mais estáveis do sul, mas sem abandonar a ambição de influenciar fluxos minerais estratégicos.

A convergência entre o interesse norte‑americano por minerais críticos e a presença de Prince não implica coordenação formal, mas revela uma dinâmica estrutural: enquanto Washington procura garantir cadeias de abastecimento seguras para empresas como a Ford, a IBM ou a Qualcomm, atores privados oferecem‑se para preencher lacunas de segurança e fiscalização que o Estado congolês não consegue suprir.

O resultado é um cenário em que interesses comerciais, pressões geopolíticas e iniciativas privadas de segurança se entrelaçam, moldando o futuro da exploração mineral na RDC e expondo o país a novas formas de dependência e contestação internacional.

Geração Z em África: Juventude, Mobilização Digital e Transformação Política no Século XXI

Eugénio Costa Almeida*

Investigador Sénior Associado do CEDESA/Angola Research Network

Resumo

A Geração Z, composta por jovens nascidos entre meados da década de 1990 e o início da de 2010, representa hoje a faixa etária mais numerosa do continente africano. Num contexto em que a mediana etária africana ronda os 19 anos, esta geração emerge como força sociopolítica capaz de alterar paradigmas de poder profundamente enraizados. O presente ensaio analisa o impacto da Geração Z na política africana, a forma como está a desafiar estruturas gerontocráticas e a condicionar processos eleitorais, bem como o seu papel crescente em regimes de maioria muçulmana. São abordados casos como Tanzânia e Camarões, onde a juventude digitalmente mobilizada questionou a justiça eleitoral. O texto examina também o uso das redes sociais como instrumento de mobilização e a tensão entre velhas elites políticas e uma geração que exige transparência, inclusão e futuro.

Palavras-chave: Geração Z; África; política; juventude; redes sociais; eleições

Abstract

Generation Z, comprising young people born between the mid-1990s and early 2010s, now represents the largest demographic group in Africa. With a median age of around 19, this generation is emerging as a sociopolitical force capable of reshaping entrenched power structures. This essay examines Generation Z’s impact on African politics, its challenge to gerontocratic regimes, and its influence on electoral processes, particularly in countries with Muslim majorities. Cases such as Tanzania and Cameroon illustrate how a digitally mobilized youth has questioned electoral fairness. The analysis also highlights how social media has become a tool for political engagement and resistance, as well as the tension between aging elites and a generation demanding transparency, inclusion, and opportunity.

Keywords: Generation Z; Africa; politics; youth; social media; elections

1. Introdução

Com mais de 400 milhões de africanos entre os 15 e os 35 anos (African Union, 2024), a juventude representa um dos principais fatores de mudança do continente. A Geração Z, mais educada e conectada que as anteriores, está a transformar o modo de participar na vida pública. A metodologia deste ensaio baseia-se numa análise qualitativa, combinando dados secundários de organismos internacionais, como o World Bank, UNDP, African Union, ou Afrobarometer, e estudos recentes sobre participação juvenil e digitalização política.

Esta abordagem permite observar tendências transversais – do activismo online ao voto de protesto – e compreender como esta geração desafia elites envelhecidas e instituições continentais frágeis, como a União Africana (UA), incapaz de conter uma sucessão de golpes militares e a crescente desconfiança social.

2. A Geração Z africana: perfil e modos de ação

A Geração Z caracteriza-se por uma literacia digital sem precedentes e por uma profunda desconfiança nas estruturas tradicionais de poder (Afrobarometer, 2025 e Sanny, van Wyk-Khosa & Asunka, 2023). A internet móvel – que atinge mais de 66% dos africanos com menos de 30 anos (Galal, 2025) – tornou-se um espaço de formação política e de contestação.

Estes jovens vivem entre a precariedade e a esperança: o desemprego juvenil supera os 30% em vários países, como Nigéria, África do Sul e Tunísia (ILO, 2024). Esta condição gera simultaneamente frustração e criatividade política. Plataformas como Twitter (X), TikTok e Instagram,[1] principalmente, transformaram-se em arenas de mobilização, como se observou nos protestos #EndSARS, na Nigéria (Uwazuruike, 2021), o movimento #ShutItAllDown, na Namíbia (Titus, 2020), ou #WeAreRemovingADictator, no Uganda (Ainomugisha & Mwesigire, 2024)

Para além da militância digital, há uma crescente entrada de jovens em partidos políticos e candidaturas independentes. Em Gana e no Quénia, observam-se tentativas de renovar as elites, no Burkina Faso, as medidas anti-ocidentais de Ibrahim Traoré são aplaudidas e celebradas pela juventude burkinaso e africana que o vêem como o novo “Herói Africano” (Stropasolas, 2025 & Veiga, 2025), enquanto em países autoritários, como Uganda, figuras como Bobi Wine encarnam a resistência da juventude urbana à gerontocracia (BBC News, 2025).

3. A gerontocracia africana e os seus mecanismos de reprodução

A gerontocracia – domínio político exercido por elites envelhecidas – permanece um dos traços mais marcantes da política africana contemporânea. Líderes septuagenários e octogenários, como Paul Biya (Camarões, 91 anos), Teodoro Obiang Nguema (Guiné Equatorial, 82), Yoweri Museveni (Uganda, 80) e Denis Sassou Nguesso (Congo, 81), entre outros,mantêm-se no poder há décadas (Reuters, 2025).

A manutenção destas lideranças é sustentada por redes clientelares, controlo militar e manipulação constitucional. No entanto, a crescente consciência política da juventude mina a legitimidade desses regimes. Pesquisas do Afrobarometer (2023 e 2025) indicam que mais de 70% dos jovens africanos acreditam que “a idade avançada limita a inovação política”.

Assim, a Geração Z não é apenas uma força demográfica; é um desafio cultural e simbólico à ideia de que “a autoridade vem da idade”. A linguagem política muda – #hashtags substituem slogans partidários – e a noção de “respeito pelo líder” cede lugar à exigência de resultados.

4. Eleições, legitimidade e contestação: os casos da Tanzânia e dos Camarões

Nas eleições presidenciais da Tanzânia[2], a juventude foi central na denúncia de irregularidades eleitorais e na mobilização digital. Organizações como Change Tanzania e movimentos universitários usaram as redes para expor censura, manipulação de votos e intimidação (Anyanzwa, 2025 & Global Democracy Coalition, s/d). De forma semelhante, nos Camarões, a juventude urbana, especialmente em Douala e Yaoundé, contestou a vitória de Paul Biya em 2018, acusando o regime de fraude sistemática (Amnesty International, 2019), repetindo nas recentes eleições de 2025. Em ambos os casos, a Geração Z transformou a insatisfação em discurso político, desafiando os limites impostos por regimes de longa duração, mesmo sujeita a confrontos com as autoridades (Murrey, 2025).

Além disso, o uso massivo dos VPN e plataformas cifradas indica a sofisticação tecnológica desta geração, que contorna censuras e cria redes transnacionais de solidariedade. Mesmo em países de maioria muçulmana, como Marrocos ou Tunísia, esta mobilização tem emergido em temas como direitos das mulheres e liberdade de expressão, sem se constituir como oposição religiosa, mas cívica (UNDP, 2024).

5. Mobilização digital e espaço cívico

De acordo dados estatísticos, o número de utilizadores africanos de redes sociais ultrapassou 640 milhões em 2024 (Galal, 2025), sendo 70% jovens. Este espaço virtual ampliou a participação cívica e a capacidade de fiscalização do poder.

Exemplos incluem a campanha #FreeSenegal (Oluwole, 2021), que denunciou repressão política, e o movimento #ZimbabweLivesMatter (Chingono, 2020), que levou à atenção internacional abusos estatais.

A Geração Z utiliza humor, ironia e estética digital para mobilizar através de memes e vídeos que substituem panfletos e discursos longos. Essa estética política, como nota Ndlovu-Gatsheni (Falola, 2023), é ao mesmo tempo lúdica e profundamente subversiva, pois reconfigura o espaço público em tempo real.

6. A União Africana e os limites institucionais

Apesar da retórica de “tolerância zero” a golpes de Estado, a União Africana (UA) tem-se revelado incapaz de travar a sua proliferação. Desde 2019, registaram-se 16 golpes militares ou tentativas, incluindo Mali, Burkina Faso, Níger, Gabão, São Tomé e Príncipe e Sudão (Duzor & Williamson, 2023).

As sanções impostas – suspensão de participação e congelamento de fundos – raramente produzem efeitos concretos. O principal problema reside na ausência de mecanismos coercivos e na dependência de consensos políticos entre Estados-membros, muitos deles liderados por elites igualmente autoritárias.

O atual presidente em exercício da UA, João Lourenço, representa um caso singular: Angola saiu de uma guerra-civil sem ter sofrido um golpe de Estado e tem-se posicionado como mediadora regional. No entanto, a sua capacidade de conter golpes é limitada pela falta de instrumentos jurídicos e pela resistência de regimes militares em transição.

A UA enfrenta ainda um dilema de credibilidade: enquanto condena rupturas constitucionais, permanece silenciosa perante manipulações eleitorais de líderes “eleitos” que governam há 30 ou 40 anos. Esta incoerência reduz a confiança das novas gerações na instituição continental.

7. Conclusão

A Geração Z africana é o espelho de um continente em mutação. Jovens, conectados e desiludidos com elites envelhecidas, estão a redefinir o que significa fazer política em África.

As redes sociais criaram uma arena trans-nacional de mobilização e vigilância cívica. Movimentos juvenis em países como Camarões, Nigéria, Tanzânia, e Tunísia demonstram que esta geração não é apenas demográfica, mas transformadora; ou aglutinadora, como no caso do Burkina Faso.

No entanto, o confronto entre juventude e gerontocracia permanece aberto. Enquanto as instituições continentais, como a União Africana, não adquirirem legitimidade prática e capacidade coerciva, os jovens continuarão a recorrer à mobilização digital como forma de resistência e reinvenção democrática.

Mais do que uma “ameaça”, a Geração Z é a oportunidade para repensar o contrato social africano. O seu impacto já não é potencial, é real, mensurável e irreversível.

Referências

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10.Novembro.2025

*por: Eugénio Costa Almeida1, 2, 3, 4, a, b

1. Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Lisboa, Portugal.

2. Investigador Colaborador do Centro Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL);

3.Investigador associado do Centro de Investigação Desenvolvimento e Inovação da Academia Militar, Academia Militar, Instituto Universitário Militar, Rua Gomes Freire, 1169-203, Lisboa, Portugal;

4. Doutorado em Ciências Sociais, especialidade de Relações Internacionais, (ISCSP-UTL).

a. ORCID: 0000-0002-1259-5764

b. email: eugenio.luis.almeida@iscte-iul.pt e elcalmeida@gmail.com


[1] Apesar do Facebook, com cerca de 77,27% de utilizadores, ser a plataforma social mais acedida, seguida do YouTube, com 8,51%; Instagram, 7,92%; Twitter/X, 3,44%; Pinterest, 2,2%;e  LinkedIn, 0,38% (Global Stats: statcounter, 2025).

[2] Tanto nas eleições de 28 de Outubro de 2020 (BBC, 2020), como nas mais recentes, de 29 de Outubro de 2025 (Siposhegyi, 2025), em que Samia Suluhu Hassan se legitimou como presidente do país, após ter sido confirmada ao seu antecessor John Magufuli, cuja morte se mantém especulativa (Muschketat, 2021) as contestações foram sempre violentamente reprimidas pelas autoridades.

China Invested 1.4 Billion USD in the Tanzania–Zambia Railway (TAZARA)

What is the impact on the Lobito Corridor?


João Shang
Associate Researcher at CEDESA (China–Africa Area)
Visiting Professor at Beijing University of International Business and Economics


Across the vast plateau of southern Africa stretches a steel artery symbolizing friendship and cooperation between China and Africa—the Tanzania–Zambia Railway (TAZARA). Spanning approximately 1,860 km, the railway connects the port of Dar es Salaam on the Indian Ocean to the city of Kapiri Mposhi in central Zambia, crossing Tanzania’s highlands and linking landlocked, mineral-rich countries to the outside world.

TAZARA is not only an infrastructure project but also a historic symbol of Africa’s economic independence and regional integration. For resource-rich countries such as Zambia, Tanzania, and the Democratic Republic of the Congo (DRC), the railway plays a crucial role in mineral transport, trade promotion, and regional cooperation.

Zambia: The Lifeline of the Copper Economy

Zambia is one of the world’s top copper producers, and copper exports account for about 70% of its foreign exchange earnings. With TAZARA, Zambia gained an independent railway route to the Indian Ocean, reducing reliance on routes controlled by former colonial powers.

Through this railway, copper produced in the Copperbelt region is transported to the port of Dar es Salaam for export to Asia and Europe. At its peak, TAZARA handled more than one million tons of copper and other goods annually. This transport network significantly reduced logistics costs and ensured Zambia’s economic stability.

The railway also promoted integration between mining areas and industrial cities, fostering the growth of towns such as Ndola and Kapiri Mposhi and creating thousands of direct and indirect jobs.

Tanzania: A Link Between the Port and the Economic Corridor

For Tanzania, TAZARA serves not merely as a national railway but as an international trade corridor. The port of Dar es Salaam has become one of East Africa’s main mineral export hubs thanks to this line.

The growing cargo volume—including minerals, fuels, fertilizers, and industrial products—has boosted the port’s growth and driven economic development in cities along the route, such as Mbeya and Mpika, forming a new internal economic axis. TAZARA has also strengthened Tanzania’s geostrategic position within the Southern African Development Community (SADC), consolidating its role as a regional hub.

Congo-Kinshasa: An Alternative Route to the Lobito Corridor

Katanga, in southeastern DRC, is extremely rich in copper, cobalt, tantalum, and lithium. Historically, exports of these minerals were hindered by poor infrastructure. With stronger regional cooperation, many Congolese mining companies began using TAZARA, transporting their products via Lubumbashi through Zambia and then by rail to Dar es Salaam.

Although this route is slightly longer than the Lobito Corridor in Angola, it offers greater stability, safety, and reliability, especially during political instability. With rising global demand for strategic minerals—particularly cobalt and copper—TAZARA has become essential for exporting DRC’s mineral wealth and securing a steady flow of foreign exchange.

TAZARA has enhanced logistical integration between inland and coastal countries of southern Africa. Beyond linking Zambia and Tanzania, it connects through branch lines and roads with the DRC, Malawi, Rwanda, and Burundi, providing direct access to the sea. This connectivity system has greatly increased intra-African trade, supporting the goals of the African Continental Free Trade Area (AfCFTA).

Reducing Costs and Increasing Efficiency

Compared with road transport, rail is cheaper, safer, and less polluting. For mining companies, rail use can reduce logistics costs by 30% to 40%. The railway also offers greater reliability and lower risk of cargo damage.

Before the railway, many of the regions it crosses were economically isolated. TAZARA created new opportunities for employment, trade, and services, fostering progress in education, healthcare, and social infrastructure. The project became a hallmark of Sino–African cooperation aimed at improving local livelihoods.

China Invested 1.4 Billion USD to Modernize the TAZARA Railway

Despite its historic significance, TAZARA faces major challenges: aging infrastructure, outdated locomotives, and reduced capacity. Yet it remains one of China’s most comprehensive overseas cooperation projects.

Years of wear, obsolete equipment, and management issues reduced operational efficiency. In the early 21st century, China, Tanzania, and Zambia began joint inspections and negotiations, reaching a preliminary agreement on TAZARA’s revitalization.

With rising global commodity prices, especially copper, both Tanzania and Zambia became more determined to boost mineral exports. They expressed a strong interest in modernizing and expanding the railway to meet growing transport demand.

During the Beijing Summit of the Forum on China–Africa Cooperation in September 2024, the three heads of state—China, Tanzania, and Zambia—signed a Memorandum of Understanding on the TAZARA Revitalization Project.

Early this year, the TAZARA Authority signed a concession agreement with a Chinese company under which China will invest 1.4 billion USD to modernize the railway.

Why Modernize TAZARA?

After modernization—reinforced tracks, upgraded signaling, renewed locomotives, and digital management systems—railway efficiency and safety improved substantially. Average train speeds rose from 30–40 km/h to 60–80 km/h, while cargo turnaround times fell by about 40%. Annual capacity increased from under 1 million tons to between 3 and 5 million tons, with potential for further growth.

This allows Zambia’s copper and DRC’s cobalt to reach international markets more efficiently. The logistics system between inland regions and the port became faster and more reliable. Rail transport costs dropped by 30%–40% compared to road, and energy consumption nearly halved.

For example, copper transport from the Copperbelt to Dar es Salaam, which previously took 10–14 days, now takes 5–7 days. For mining companies, this means lower costs, better predictability, and greater competitiveness in the global metals market.

Dar es Salaam’s port also benefits from increased exports, generating higher revenues from port fees, storage, and currency exchange—a win-win for all involved countries.

Modernization transformed TAZARA into a transnational economic corridor based on the “resources–transport–processing–export” model. The port of Dar es Salaam was expanded and upgraded, becoming an integrated mineral export and container transport hub.

The modernization process created over 30,000 direct and indirect jobs in construction, maintenance, logistics, and management. Cities like Mpika, Mbeya, and Kapiri Mposhi grew rapidly, with more business activity and real estate development.

New passenger trains are safer and more comfortable, boosting tourism and mobility. For rural communities, the railway provides vital access to schools, hospitals, and markets, greatly improving living conditions.

Modernization strengthened economic and institutional integration among Tanzania, Zambia, and the DRC. The railway now serves as both a physical and political link fostering customs cooperation, border facilitation, and regional trade—aligned with the African Union’s Agenda 2063 for a connected, industrialized, and self-reliant continent.

The new TAZARA also supports the AfCFTA by improving the mobility of goods and people across Africa’s east–south axis. It stands as a key landmark of China’s Belt and Road Initiative (BRI) in Africa.

Future Prospects and Strategic Value

In the context of China’s Belt and Road Initiative, TAZARA takes on new strategic relevance. In the future, it should consolidate itself not only as a mineral transport route, but also as an integrated economic corridor:

Adding value to minerals – creation of industrial zones for smelting and processing copper and cobalt; Formation of a regional economic corridor – integration between rail, road, port, and energy infrastructure; Green and sustainable transport – rail transport emits less carbon and promotes ecological development; Symbol of modern Sino-African cooperation – the revitalization of TAZARA represents a new model of partnership based on mutual benefit and joint development.

The Tanzania–Zambia Railway spans borders and generations. It embodies China–Africa friendship while powering southern Africa’s economy. From Zambia’s Copperbelt to the DRC’s cobalt mines and the port of Dar es Salaam, TAZARA connects Africa’s mineral wealth to the global market.

In today’s context of deeper African regional integration and Belt and Road cooperation, TAZARA is poised for renewed vitality, continuing its irreplaceable role in mineral transport and Africa’s economic development.

China investiu 1,4 bilhão dólares na Ferrovia Tanzânia-Zâmbia (TAZARA).

Qual o impacto no Corredor Lobito?

JOÃO SHANG

Investigador Associado ao CEDESA (área China-África)

Visiting Professor na Beijing University-International Business and Economics

No vasto planalto do sul de África, estende-se uma artéria de aço que simboliza a amizade e a cooperação entre a China e a África — a Ferrovia Tanzânia-Zâmbia (TAZARA). Com aproximadamente 1.860 km de extensão, a linha ferroviária liga o porto de Dar es Salaam, no oceano Índico, à cidade de Kapiri Mposhi, no centro da Zâmbia, atravessando o planalto da Tanzânia e conectando os países do interior ricos em recursos minerais ao mundo exterior.

A TAZARA não é apenas um projeto de infraestrutura, mas também um símbolo histórico da independência econômica e da integração regional africana. Para países ricos em recursos como Zâmbia, Tanzânia e República Democrática do Congo (RDC), esta ferrovia desempenha um papel fundamental no transporte de minerais, promoção do comércio e fortalecimento da cooperação regional.

Zâmbia: a linha vital da economia do cobre

A Zâmbia é um dos principais produtores mundiais de cobre, e as exportações do metal representam cerca de 70% das receitas de divisas do país. Com a TAZARA, a Zâmbia passou a dispor de uma rota ferroviária independente para o oceano Índico, reduzindo a dependência das rotas controladas por antigos regimes coloniais.

Por meio da ferrovia, o cobre produzido na região do Copperbelt é transportado até o porto de Dar es Salaam para exportação à Ásia e à Europa. No auge das suas operações, a TAZARA chegou a movimentar mais de 1 milhão de toneladas de cobre e outros produtos por ano. Essa rede de transporte reduziu significativamente os custos logísticos e garantiu a estabilidade da economia zambiana.

Além disso, a ferrovia estimulou a integração entre as áreas mineiras e as cidades industriais, promovendo o desenvolvimento urbano e industrial de localidades como Ndola e Kapiri Mposhi, e criando milhares de empregos diretos e indiretos.

Tanzânia: elo entre o porto e o corredor econômico

Para a Tanzânia, a TAZARA não é apenas uma ferrovia nacional, mas sim um corredor internacional de comércio. O porto de Dar es Salaam tornou-se, graças à ferrovia, um dos principais centros de exportação de minerais da África Oriental.

O aumento do volume de cargas — minerais, combustíveis, fertilizantes e produtos industriais — impulsionou o crescimento do porto e fomentou a economia das cidades ao longo da linha, como Mbeya e Mpika. Assim, formou-se um novo eixo econômico interno. A existência da TAZARA também fortaleceu a posição geoestratégica da Tanzânia dentro da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), consolidando o país como ponto de convergência regional.

Congo Kinshasa: rota alternativa ao Corredor do Lobito para exportação mineral

A região de Katanga, no sudeste da RDC, é extremamente rica em cobre, cobalto, tântalo e lítio. Historicamente, a exportação desses minerais era dificultada por uma infraestrutura rodoviária e ferroviária precária. Com o fortalecimento da cooperação regional, muitas empresas mineradoras congolesas passaram a utilizar a TAZARA: transportam seus produtos via Lubumbashi até a Zâmbia, e de lá seguem de trem até Dar es Salaam.

Embora esta rota seja ligeiramente mais longa que o corredor de Lobito (em Angola), ela oferece maior estabilidade, segurança e confiabilidade, especialmente em períodos de instabilidade política. Com a crescente demanda mundial por minerais estratégicos —especialmente cobalto e cobre —, a TAZARA tornou-se uma via essencial para o escoamento das riquezas da RDC, garantindo uma fonte estável de receitas em moeda estrangeira. A TAZARA promoveu a integração logística entre os países do interior e os do litoral do sul da África. Além de conectar a Zâmbia e a Tanzânia, a ferrovia interliga-se, por meio de ramais e estradas, com RDC, Maláui, Ruanda e Burundi, proporcionando-lhes acesso direto ao mar.

Esse sistema de conectividade aumentou significativamente o volume de comércio intra-africano, contribuindo para os objetivos da Zona de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA).

Redução de custos e aumento da eficiência

Comparado ao transporte rodoviário, o ferroviário é mais econômico, mais seguro e menos poluente. Para as empresas mineiras, o uso da ferrovia pode reduzir 30% a 40% dos custos logísticos. A ferrovia também oferece maior regularidade e menor risco de deterioração das cargas minerais.

Antes da ferrovia, muitas regiões atravessadas pela linha eram economicamente isoladas. A chegada da TAZARA gerou novas oportunidades de emprego, comércio e serviços, promovendo avanços em educação, saúde e infraestrutura social. Dessa forma, o projeto tornou-se um exemplo emblemático da cooperação sino-africana voltada ao bem-estar das populações locais.

China investiu 1.4 bilhão dólares americanos para modernização de ferrovia de TAZARA

Apesar da sua importância histórica, a TAZARA enfrenta desafios crescentes:

Infraestrutura envelhecida: trilhos e locomotivas obsoletos reduzem a velocidade e a capacidade de carga; mais até o momento, a Ferrovia TAZARA (Tanzânia–Zâmbia) continua a ser um dos maiores projetos de cooperação integral já apoiados pela China no exterior.

Devido ao desgaste ao longo dos anos, à obsolescência dos equipamentos e a problemas de gestão, a capacidade operacional da ferrovia diminuiu significativamente por um período prolongado. Para superar essa situação, no início do século XXI, China, Tanzânia e Zâmbia realizaram diversas negociações e inspeções conjuntas, chegando a um acordo preliminar sobre a revitalização da Ferrovia TAZARA.

Nos últimos anos, com o aumento dos preços internacionais das commodities, especialmente do cobre, tanto a Tanzânia quanto a Zâmbia tornou-se mais empenhadas em acelerar a exportação de seus recursos minerais. Nesse contexto, ambos os países expressaram o desejo de modernizar e expandir a ferrovia, a fim de atender à crescente demanda por transporte de carga.

Durante a Cúpula de Pequim do Fórum de Cooperação China–África, realizada em setembro de 2024, os chefes de Estado dos três países — China, Tanzânia e Zâmbia — assinaram um Memorando de Entendimento sobre o Projeto de Revitalização da Ferrovia TAZARA.

No início deste ano, a Administração da Ferrovia TAZARA firmou um acordo de concessão com uma empresa chinesa, pelo qual a parte chinesa investirá 1,4 bilhão de dólares americanos para modernizar a ferrovia de TAZARA.

Porquê modernizar a ferrovia de TAZARA?

Após o processo de modernização — que incluiu reforço das vias, atualização do sistema de sinalização, renovação das locomotivas e introdução de sistemas digitais de gestão — a eficiência e a segurança ferroviária melhoraram de forma substancial. A velocidade média dos comboios passou de 30–40 km/h para 60–80 km/h, e o tempo de rotação do transporte de mercadorias diminuiu cerca de 40%. A capacidade anual aumentou de menos de 1 milhão de toneladas para 3 a 5 milhões de toneladas, com potencial para crescer ainda mais. Isto permite que o cobre da Zâmbia e o cobalto da República Democrática do Congo (RDC) sejam exportados de forma mais estável e eficiente para os mercados internacionais. Com a modernização, o sistema logístico entre o interior e o porto tornou-se mais fiável e rápido. O custo de transporte ferroviário reduziu-se em cerca de 30% a 40% em relação ao transporte rodoviário, e o consumo energético diminuiu quase para metade.

Por exemplo, o transporte de cobre desde a região de Copperbelt até ao porto de Dar es Salaam, que antes demorava entre 10 e 14 dias, agora realiza-se em 5 a 7 dias. Para as empresas mineiras, isto representa poupança de custos, maior previsibilidade logística e competitividade acrescida no mercado global de metais.

O porto de Dar es Salaam também beneficia: o aumento do volume de exportações gera maiores receitas portuárias, de armazenagem e de câmbio, resultando numa situação de ganhos mútuos para todos os países envolvidos. A modernização da TAZARA não é apenas uma melhoria técnica — ela impulsionou a criação de um corredor económico transnacional baseado no conceito “recursos–transporte–transformação–exportação”. O porto de Dar es Salaam foi ampliado e modernizado, tornando-se um centro integrado para exportação mineral e transporte de contentores. Assim, a TAZARA deixou de ser apenas um canal de escoamento de matérias-primas, passando a constituir a espinha dorsal da integração económica regional.

O processo de modernização criou mais de 30.000 empregos diretos e indiretos em construção, manutenção, logística e gestão. Cidades como Mpika, Mbeya e Kapiri Mposhi cresceram rapidamente, com maior dinamismo comercial e desenvolvimento imobiliário.

As novas composições de passageiros são mais seguras e confortáveis, facilitando o turismo e a mobilidade interna.

Para as comunidades rurais, a ferrovia representa uma ligação vital a escolas, hospitais e mercados, melhorando significativamente a qualidade de vida ao longo da linha.

A modernização reforçou a integração económica e institucional entre Tanzânia, Zâmbia e RDC. A ferrovia tornou-se um elo físico e político que favorece acordos aduaneiros, facilitação de fronteiras e comércio intrarregional. Este avanço está em consonância com a Agenda 2063 da União Africana, que visa construir uma África interligada, industrializada e autossuficiente.

A nova TAZARA é também um instrumento de apoio à Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA), pois contribui para a mobilidade de mercadorias e pessoas no eixo leste-sul do continente. Reforço da cooperação sino-africana e da confiança internacional. A TAZARA modernizada é hoje um dos marcos mais emblemáticos da Iniciativa “Cinturão e Rota” (BRI) no continente africano.

Os resultados da modernização da Ferrovia Tanzânia-Zâmbia são profundos e multifacetados.

A linha recuperou a sua função estratégica de transporte e passou a desempenhar um papel central no crescimento económico da África Austral e Oriental.

A “nova TAZARA” acelera a exportação de minerais, dinamiza os portos, revitaliza as cidades e estreita a cooperação regional. Do ponto de vista económico, social, ambiental e político, a modernização desta ferrovia simboliza o renascimento da infraestrutura africana e o espírito de parceria ganha-ganha entre a China e a África, apontando para um futuro africano mais interligado, próspero e sustentável.

Perspetivas futuras e valor estratégico

No contexto da Iniciativa Cinturão e Rota da China, a TAZARA ganha nova relevância estratégica. No futuro, deverá consolidar-se não apenas como rota de transporte de minerais, mas também como corredor econômico integrado:

Agregação de valor aos minerais – criação de zonas industriais para fundição e processamento de cobre e cobalto; Formação de um corredor econômico regional – integração entre infraestrutura ferroviária, rodoviária, portuária e energética; Transporte verde e sustentável – o transporte ferroviário emite menos carbono e favorece o desenvolvimento ecológico; Símbolo da cooperação sino-africana moderna – a revitalização da TAZARA representa um novo modelo de parceria baseada em benefício mútuo e desenvolvimento conjunto.

A Ferrovia Tanzânia-Zâmbia é uma linha que atravessa fronteiras e gerações. Ela não apenas testemunha a amizade entre os povos da China e da África, mas também sustenta o pulso econômico do sul do continente. Do cinturão do cobre da Zâmbia às minas de cobalto da RDC, até o porto de Dar es Salam, a TAZARA conecta as riquezas minerais africanas ao mercado global.

Num novo contexto histórico, com a crescente integração regional africana e a cooperação no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota, a TAZARA certamente renascerá com vigor renovado, continuando a desempenhar um papel insubstituível no transporte de minerais e no desenvolvimento econômico da África.

EUA: Para resolver um problema, primeiro crie um!

Os dois elefantes gigantes lutam, quem sofre é o Capim!

JOÃO SHANG

Investigador Associado ao CEDESA (área China-África)

Visiting Professor na Beijing University-International Business and Economics

Em 30 de outubro de 2025, os presidentes Xi Jinping, da China, e Donald Trump, dos Estados Unidos, reuniram-se em Busan, Coreia do Sul, naquele que foi o primeiro encontro presencial entre ambos desde 2019. Apesar da brevidade, a reunião teve um impacto simbólico e estratégico significativo, sinalizando que China e Estados Unidos podem, em determinadas circunstâncias, alcançar êxitos mútuos e prosperidade compartilhada.

Nos últimos anos, a relação sino-americana foi marcada por tensões intensas — disputas tarifárias, conflitos tecnológicos, divergências sobre Taiwan, segurança no Indo-Pacífico e vulnerabilidades nas cadeias globais de abastecimento. O reencontro entre os dois líderes foi, portanto, interpretado como um gesto de distensão e um teste político de alto nível para reavaliar os equilíbrios entre as duas maiores potências do sistema internacional.

Comércio e Tarifas: Uma Trégua Temporária

O principal resultado da reunião foi a redução provisória das tarifas comerciais. Trump anunciou que os Estados Unidos diminuiriam a média das tarifas sobre produtos chineses de 57% para 47%, e que as tarifas punitivas sobre precursores químicos — associados à crise do fentanil — seriam reduzidas de 20% para 10%.

Em contrapartida, a China comprometeu-se a retomar a compra em larga escala de soja, milho e outros produtos agrícolas norte-americanos. Além disso, Pequim decidiu suspender, por um período de um ano, as restrições à exportação de terras raras — recurso essencial para a indústria tecnológica global. Esta decisão foi interpretada como um gesto de estabilidade e uma demonstração do peso estratégico da China nesse setor.

Trump classificou o encontro como “surpreendente e incrível”, chegando a afirmar que “daria nota 12 numa escala de 10”. Xi Jinping, por sua vez, considerou que as fricções entre China e EUA são “fenômenos normais”, destacando a importância de evitar “ciclos viciosos de retaliação mútua”. Ambos enfatizaram os termos “comunicação”, “estabilidade” e “cooperação”, contrastando com a retórica agressiva dos anos anteriores. No entanto, temas sensíveis como exportação de tecnologia, redes sociais, Taiwan e segurança regional foram apenas mencionados, sem avanços concretos.

Trégua Comercial, Não Solução Estrutural

O acordo representa, essencialmente, um retorno ao ponto anterior de estabilidade, sem configurar um avanço qualitativo. As divergências estruturais persistem, e a relação sino-americana pode deteriorar-se antes de melhorar. A estratégia de Trump parece consistir em criar o problema para, posteriormente, negociar sua resolução.

Iniciativa Estratégica Chinesa vs. Cálculo Político Norte-Americano

A China demonstrou maior iniciativa estratégica. Detendo cerca de 70% das reservas mundiais de terras raras e dominando a tecnologia de seu processamento, Pequim possui alavancas de negociação robustas. Trump, por outro lado, busca ganhos políticos imediatos — a redução de tarifas e o aumento das exportações agrícolas visam consolidar apoio nos estados rurais. A China, em contraste, adota uma visão de longo prazo: estabiliza o ambiente externo, reforça sua imagem internacional e prepara o terreno para ajustes internos.

As tarifas funcionam, para Trump, como instrumento de pressão. Sua lógica é provocar o impasse para, em seguida, negociar a solução.

Valor Simbólico Maior que Avanço Real

Os mercados globais reagiram com cautela, sinalizando que o encontro foi interpretado como gesto simbólico, não como virada estrutural. Analistas chineses consideram que se inicia uma nova fase de “competição em pé de igualdade” — uma rivalidade G2, em que ambos reconhecem a importância do outro, sem renunciar à disputa estratégica.

A trégua tarifária e a retomada das compras agrícolas geram benefícios imediatos: para os EUA, aliviam a pressão sobre o setor agrícola e oferecem ganhos políticos; para a China, reduzem o impacto nas exportações e ajudam a estabilizar o emprego e o consumo. Contudo, trata-se de uma medida paliativa. A competição industrial e tecnológica prossegue, e os desequilíbrios estruturais permanecem. Como afirmam os economistas, “esta trégua oferece um suspiro, mas não uma cura”.

A questão dos microchips e da exportação de tecnologias sensíveis foi mencionada, mas não houve acordo concreto. Washington mantém controle rigoroso sobre exportações tecnológicas, enquanto Pequim investe em autossuficiência. A suspensão temporária das restrições às exportações de terras raras é uma pausa estratégica — caso o contexto geopolítico se altere, a China poderá reativar tais medidas, com impacto direto sobre a indústria norte-americana e seus aliados.

Geopolítica e Narrativas Globais

O encontro simboliza tanto uma tentativa de reduzir tensões quanto uma nova etapa da competição estratégica. Para países terceiros — como Coreia do Sul, Japão e nações do Sudeste Asiático — a mensagem é clara: a rivalidade permanece, embora momentaneamente sob controle.

Xi Jinping defendeu uma “globalização inclusiva”, voltada para o Sul Global. Segundo o jornal espanhol El País, essa narrativa busca posicionar a China como alternativa à ordem liberal liderada pelos EUA, reforçando a tendência de multipolaridade. Trump encara a diplomacia como transação: cada acordo deve gerar benefícios tangíveis. Xi, por sua vez, atua com lógica de Estado — reforçando a imagem da China como potência racional, responsável e confiante.

Contradições Estruturais Persistem

Apesar do tom amistoso, as contradições fundamentais da relação sino-americana permanecem:

  • Tecnologia: os EUA temem a ascensão científica chinesa; a China considera a inovação autônoma uma questão de segurança nacional.
  • Cadeias de abastecimento: Washington busca “reduzir riscos”; Pequim acelera a substituição de importações.
  • Governança global: os EUA defendem a ordem liberal tradicional; a China propõe um modelo mais plural e inclusivo.
  • Questões regionais: Taiwan, Mar do Sul da China e segurança no Indo-Pacífico continuam como focos de tensão.

Perspectivas Futuras

Curto Prazo:
Nos próximos 12 meses, ambos deverão priorizar a estabilidade e o diálogo. A China aproveitará a trégua para reforçar sua base tecnológica e industrial, enquanto os EUA buscarão evitar choques externos antes das eleições intercalares.

Médio Prazo:
Se as medidas temporárias forem institucionalizadas — por meio de acordos sobre comércio agrícola, exportação de recursos estratégicos e normas tecnológicas — poderá emergir uma relação de competição controlada. Contudo, fatores como polarização política nos EUA ou desaceleração econômica na China podem comprometer esse processo.

Longo Prazo:
Especialistas projetam três cenários possíveis:

  1. Cooperação limitada: competição contínua com áreas de coordenação estável;
  2. Retorno da confrontação: reativação de tensões por crises regionais ou políticas internas;
  3. Transformação estrutural: redefinição da ordem global com nova divisão de poder e papéis complementares.

O cenário mais provável é o primeiro — uma coexistência competitiva, marcada por rivalidade estratégica, mas gerida por canais diplomáticos permanentes.

Impactos sobre Terceiros e a Economia Global

Estados Unidos:
Estados agrícolas e setores exportadores serão beneficiados a curto prazo. Contudo, os desafios industriais e tecnológicos persistem.

China:
A reunião reforça a imagem da China como potência estável e dialogante, oferecendo alívio à sua economia e restaurando a confiança dos mercados.

Economia Global:
O sinal de distensão contribui para estabilizar as cadeias de suprimentos, especialmente nos setores de alta tecnologia e energia. Ainda assim, países intermediários continuarão vulneráveis às oscilações da rivalidade sino-americana.

Conclusão:
O encontro entre Xi Jinping e Donald Trump em Busan representa um marco relevante, mas não uma inflexão definitiva. Trata-se de um gesto de moderação estratégica — cada parte buscou ganhos específicos e evitou o agravamento das tensões. As divergências estruturais — tecnológicas, econômicas e ideológicas — continuam a moldar o pano de fundo da relação. Ainda assim, o restabelecimento do diálogo de alto nível constitui, por si só, um progresso institucional significativo.

Num mundo marcado por crescente incerteza, o futuro das relações sino-americanas dependerá da capacidade de ambos os países de converter uma rivalidade inevitável em uma cooperação estrategicamente gerida. A chamada “trégua de Busan” pode não resolver as contradições profundas, mas inaugura um novo capítulo — mais cauteloso, mais pragmático e, possivelmente, mais amadurecido.

A estabilização do desenvolvimento económico da China e dos Estados Unidos tem potencial para impulsionar significativamente a economia global. Por outro lado, uma nova escalada de tensões entre essas duas potências teria efeitos negativos profundos sobre o sistema internacional. Como diz o provérbio africano: _“Quando dois elefantes lutam, quem sofre é o capim.”_

Uma parceria económica instável entre China e Estados Unidos representa um risco sistémico para o mundo inteiro. No entanto, o progresso e a revitalização da China não são incompatíveis com o objetivo declarado do Presidente Trump de “tornar a América grande outra vez”. Pelo contrário, há espaço para êxito mútuo e prosperidade compartilhada.

China e Estados Unidos devem ser parceiros e não adversários — esta é uma lição que a história ensina e uma exigência imposta pela realidade contemporânea. A China manifesta plena disposição para continuar a trabalhar com o Presidente Trump na construção de uma base sólida para as relações bilaterais, promovendo um ambiente propício ao desenvolvimento sustentável de ambas as nações.

O mundo unipolar desapareceu para sempre

“Mais do que um espaço económico, o Fórum Macau tem que funcionar como “ponte estratégica para promover confiança política e aproximação cultural entre a China e o mundo lusófono”, diz João Shang, investigador associado no Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA). Para o investigador, os PALOP “não constituem uma potência económica ou militar comparável a outros blocos regionais, mas têm um valor significativo em termos culturais, linguísticos e geopolíticos que a China valoriza”

Como é que Pequim vê os PALOP dentro da sua relação mais ampla com a África?

João Shang — A China tem-se esforçado por construir boas relações com todos os países africanos e, naturalmente, isso inclui também os seis países lusófonos africanos. Apesar do peso económico dos PALOP não ser muito grande, a China pretende manter uma amizade de longo prazo. Entre os PALOP, Angola, Moçambique e a Guiné Equatorial são atualmente os parceiros comerciais mais importantes da China, devido ao elevado volume de trocas comerciais; Cabo Verde e São Tomé e Príncipe destacam-se como destinos turísticos para viajantes chineses; e as relações políticas com a Guiné-Bissau mantêm-se num ótimo nível no plano internacional.

Dado o alargamento dos BRICS e o papel da China nesse processo, vê espaço para que os PALOP — em particular Angola — possam aderir num futuro próximo?

J.S. – O mundo de hoje é diversificado, o mundo unipolar desapareceu para sempre. Por isso, é necessário cultivar uma atmosfera cultural e política diversificada, sobretudo entre os países do Sul Global, em desenvolvimento ou subdesenvolvidos. O surgimento dos BRICS corresponde à expectativa de muitos desses países, que procuram obter mais benefícios e apoio através dessa plataforma.

Na realidade, o papel dos BRICS é muito diferente do das alianças ocidentais. Não se trata de uma entidade militar, mas sim de um mecanismo económico, no qual todos os membros têm direitos iguais. Não existe um líder que controle os BRICS — China, Índia ou África do Sul têm direitos equivalentes. Portanto, não se pode dizer que a China seja o “líder” dos BRICS.

Atualmente, a África do Sul procura atrair mais países africanos para o grupo. A Etiópia e o Egito tornaram-se membros oficiais em 1 de janeiro de 2024. Além disso, após a cimeira de 2023, países como o Zimbabué e a Argélia manifestaram interesse em aderir, embora ainda não o tenham feito. Os países lusófonos africanos precisariam de apresentar formalmente a sua candidatura.

Nos últimos anos, o Governo angolano tem-se aproximado dos Estados Unidos e a relação com a Rússia não é boa. Parece-me, por isso, que Angola terá primeiro de convencer Moscovo a apoiar a sua entrada. A China, por seu lado, continua ao lado de Angola. Em 2024, os dois países assinaram a Declaração Conjunta sobre o Estabelecimento da Parceria de Cooperação Estratégica Global, um acordo de grande importância que reforça os laços bilaterais.

Considera que uma eventual federalização ou integração política mais forte dos PALOP os tornaria parceiros mais atrativos para a China?

J.S. – No cenário mundial, os PALOP não constituem uma potência económica ou militar comparável a outros blocos regionais, mas têm valor significativo em termos culturais, linguísticos e geopolíticos. Angola e Moçambique destacam-se como as maiores economias do grupo, sobretudo graças ao petróleo, gás natural, carvão e outros minerais estratégicos. Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, apesar da sua dimensão, têm importância estratégica devido à localização atlântica, servindo como pontos de apoio logístico e de segurança marítima.

Politicamente, os países do grupo participam ativamente na União Africana e nas Nações Unidas, muitas vezes de forma coordenada. Angola tem desempenhado um papel relevante na mediação de conflitos regionais, enquanto Cabo Verde se afirma como exemplo de estabilidade democrática em África.

Assim, a China vê oportunidades de cooperação acrescidas com os PALOP, sobretudo na importação de matérias-primas e no setor agrícola. Há, portanto, muito espaço para expandir a cooperação.

Angola é o segundo maior parceiro comercial lusófono da China, depois do Brasil, mas as suas exportações para Pequim têm vindo a cair. Quais são os fatores que explicam esta queda e como poderá Angola diversificar as suas exportações para além do petróleo?

J.S. – As exportações angolanas para a China deverão cair cerca de 17% em 2025, sobretudo porque Pequim diversificou os seus fornecedores de petróleo, privilegiando países como a Rússia e outros no Médio Oriente, com preços e custos de transporte mais baixos. Assim, a diminuição das compras de petróleo angolano não surpreende.

Além disso, Angola atravessa atualmente um período económico difícil. A escassez de divisas, os cortes nos subsídios, a desvalorização da moeda, o aumento dos preços do petróleo e a inflação reduziram o poder de compra interno, levando também à queda das importações provenientes da China.

Desde 2014, o Governo angolano tem tentado diversificar a economia, consciente dos riscos da chamada “doença holandesa” [Em economia, doença holandesa refere-se à relação entre a exportação de recursos naturais e o declínio do setor manufatureiro]. Foram promovidos projetos agrícolas, mineiros, industriais e turísticos para reduzir a dependência do petróleo. Contudo, a reforma económica revelou-se um teste exigente para todo o sistema governativo, exigindo forte coordenação interministerial.

Onze anos depois, o petróleo continua a ser o pilar da economia, dada a sua elevada rentabilidade e os menores custos de investimento comparativamente a outros setores. Houve investimentos em agricultura e mineração, mas com resultados limitados. O Governo instou as províncias a atrair mais investimento, mas o ambiente de negócios desafiante tem afastado investidores ocidentais. As empresas chinesas, por sua vez, concentram-se sobretudo na construção e no comércio, criando empregos e mais recentemente apostando em fábricas locais, o que gera oportunidades para a juventude angolana.

Angola tem laços históricos com a Rússia e está também a explorar parcerias com a União Europeia. Como é que a China gere a diplomacia multivetorial angolana?

J.S. – Antes de mais, a China segue uma política de não-interferência nos assuntos internos de outros países, reconhecendo que o Governo angolano tem o direito de escolher os seus próprios parceiros. Atualmente, as relações entre Angola e a Rússia estão a desenvolver-se, mas não de forma tão sólida como se poderia esperar. Interesses divergentes conduziram a abordagens distintas e até conflituosas, levando cada parte a seguir a sua própria agenda.

Desde 2017, Angola tem procurado financiamento e apoio ocidental. Contudo, muitos desses apoios não se materializaram na prática. Um exemplo é o Corredor do Lobito: após os EUA anunciarem de forma abrupta que não participariam no projeto, Angola viu-se obrigada a procurar assistência junto de países árabes, de Israel, da Coreia do Sul e do Banco Africano de Desenvolvimento.

Quão eficaz tem sido a promoção de investimento e comércio via Fórum Macau, sobretudo para economias mais pequenas como São Tomé e Príncipe ou a Guiné-Bissau?

J.S. – Um dos papéis centrais do Fórum Macau é o de aprofundar a cooperação económica e comercial. Têm sido promovidos investimentos bilaterais, facilitação do comércio e parcerias em setores estratégicos como energia, infraestruturas, agricultura, pescas e finanças. Para além disso, iniciativas como o Fundo de Cooperação e Desenvolvimento China–Países de Língua Portuguesa apoiam projetos concretos de desenvolvimento.

O Fórum desempenha igualmente um papel importante no intercâmbio cultural e humano. Através de programas de formação e capacitação, promove-se a transferência de conhecimento e o fortalecimento das relações entre profissionais e instituições. Macau, pela sua herança sino-lusófona e pelo uso oficial da língua portuguesa, funciona como ponto de encontro privilegiado nesse diálogo.

Sendo a única cidade da China onde o português é língua oficial, Macau pode servir de ponte entre a China e os PALOP. O Fórum de Macau, em articulação com a CPLP, constitui uma plataforma estratégica de intercâmbio e cooperação, onde o idioma comum reforça a confiança e a proximidade entre os membros. Em síntese, o Fórum Macau é muito mais do que um espaço económico: é uma ponte estratégica que promove confiança política, desenvolvimento conjunto e aproximação cultural entre a China e o mundo lusófono.

Tendo em conta as mais recentes estatísticas que mostram uma queda nas exportações dos PALOP para a China, espera que Pequim reajuste as suas políticas ou os seus instrumentos de financiamento, como o Fundo de Cooperação para o Desenvolvimento China–Países de Língua Portuguesa?

J.S. – A China tem interesse em manter relações comerciais robustas com os PALOP, tanto para garantir o fornecimento de matérias-primas (petróleo, minerais, etc.) como para expandir o acesso a novos mercados consumidores.

Em 2023, o Fundo Sino-Lusófono flexibilizou as regras de acesso ao financiamento, permitindo que mais empresas lusófonas recorressem às suas linhas de crédito. Essa tendência poderá traduzir-se em mais capital, empréstimos mais acessíveis ou condições financeiras mais favoráveis (juros, prazos, garantias) para projetos de exportação ou produção nos PALOP.

A ideia é também incentivar os países produtores a agregar valor aos seus produtos, para exportarem não apenas matérias-primas, mas também bens transformados com maior valor acrescentado. Outro eixo de ação passa por apoiar reformas portuárias, infraestruturais e aduaneiras, reduzindo tarifas e barreiras não-tarifárias que ainda dificultam as exportações africanas.

Desde o Fórum de Cooperação China-África de 2025, Pequim concedeu isenção de tarifas a 90% dos produtos provenientes de países africanos, pelo que os PALOP podem beneficiar significativamente dessa medida.

A Viragem da Diplomacia Pública Chinesa: Direitos Humanos como Ferramenta Estratégica e as Implicações para África e Angola

Rui Verde

Nota prévia: O CEDESA não pretende aprovar nem desaprovar as opiniões expressas neste texto. Essas opiniões devem ser consideradas como pertencentes ao autor.

A revolução dos paradigmas

Pelos menos desde o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que os Estados Unidos da América representavam um paradigma, o da chamada civilização Ocidental que afirmava a liberdade, a democracia, os direitos fundamentais e a economia livre. Eram uma espécie de “farol” para que os outros países olhavam e se inspiravam. Não quer isto dizer que o comportamento dos EUA fosse perfeito ou imaculado. Erros e tragédias aconteceram, Vietnam, Iraque, apoio a ditadores, hesitações espúrias, mas no final do dia, os EUA eram vistos como uma “força para o bem” e, sobretudo, traduziam um paradigma de sociedade que se ambicionava[1].

A partir de dada altura já no século XXI, esse papel dos EUA começou a ser posto em dúvida. Na realidade, os próprios EUA começaram uma espécie de autocrítica e entraram numa dúvida persistente sobre o seu papel, sobre a real existência do conceito de Ocidente, acerca da sua história, do seu sentido, mesmo do que era ser americano. Enfim, sobre tudo, e, como predisse Schumpeter, o sistema começou-se a desmoronar[2]. Este relativismo ou mesmo niilismo abriu as portas à eleição de Donald Trump que acabou com as ilusões. Trump vê-se como uma espécie de “ditador eleito” com um mandato popular para preencher o vácuo do relativismo e do niilismo intelectual que se tinha apoderado dos EUA, mas sem uma noção estratégica, a não ser fazer o que quer, descurando o papel paradigmático estabilizador internacional dos Estados Unidos. Não o entende, ou não o quer entender. Portanto, abriu a porta para outros ocuparam o espaço internacional deixado livre pelos EUA.

A China, sábia e atenta, está a aproveitar. Em primeiro lugar, tornou-se a defensora do comércio livre e da sociedade internacional organizada segundo regras, papel anteriormente promovido e ocupado pelos Estados Unidos[3].

Agora faz uma entrada na área da defesa dos Direitos Humanos, que deixa muitos surpreendidos.

A publicação do relatório chinês sobre as violações dos direitos humanos nos Estados Unidos em 2024, The Report on Human Rights Violations in the United States in 2024, representa uma mudança significativa na diplomacia pública da China. Tradicionalmente[4], Beijing tem rejeitado a linguagem dos direitos humanos como uma imposição Ocidental e uma forma de ingerência nos seus assuntos internos. No entanto, ao adotar essa mesma linguagem para criticar os Estados Unidos, a China sinaliza uma reconfiguração estratégica da sua atuação internacional, indo desafiar os Estados Unidos no seu habitual campo de eleição.

Esta viragem não implica uma adesão chinesa aos valores liberais, mas sim uma apropriação instrumental dos direitos humanos como ferramenta de influência geopolítica e narrativa.

A mudança ocorre num contexto de retração da liderança moral americana, especialmente com a presidência de Donald Trump, cuja política externa retirou qualquer relevância aos direitos humanos em favor de abordagens transacionais e nacionalistas. A China aproveita este vazio para ocupar um espaço simbólico que antes era hegemonicamente americano, com possíveis repercussões profundas nas suas relações com o continente africano.

A Diplomacia Pública Chinesa: De Defesa à Denúncia

Durante décadas, a China posicionou-se como defensora da soberania nacional e da não interferência, rejeitando críticas ocidentais sobre direitos humanos como tentativas de desestabilização. A sua diplomacia pública era marcada por uma postura defensiva, centrada em justificar o seu modelo político e económico como alternativa legítima ao liberalismo ocidental. No entanto, a publicação do relatório acima referido revela uma nova abordagem. O documento, detalhado e abrangente, denuncia práticas como a manipulação eleitoral, a violência policial, o racismo sistémico, a crise dos sem-abrigo, a degradação das condições de vida dos migrantes e a persistência de desigualdades estruturais nos EUA.

Este tipo de relatório não é novo — a China tem publicado documentos semelhantes desde 1998 — mas o grau de sofisticação, abrangência e timing político do relatório de 2024 sugere uma mudança qualitativa. Ao invés de apenas responder às críticas, Beijing passa a atacar proactivamente, utilizando os direitos humanos como arma retórica. Esta mudança insere-se numa estratégia mais ampla de contra narrativa, em que a China procura deslegitimar a autoridade moral dos Estados Unidos e apresentar-se como alternativa ao desnorte Ocidental.

O Vazio Americano: A Era Trump e o Desalinhamento Moral

A oportunidade para esta viragem surge num momento de enfraquecimento da liderança moral americana. Com a presidência de Donald Trump os direitos humanos deixaram de ser prioridade na política externa dos EUA. O governo Trump cortou financiamento a organismos internacionais, retirou-se de acordos multilaterais e adotou uma abordagem transacional nas relações bilaterais, privilegiando interesses económicos de curto-prazo em detrimento de valores normativos. Esta postura está a influenciar definitivamente a política externa, com uma crescente fadiga diplomática e polarização interna que minam a capacidade dos EUA de se apresentarem como paladinos  modelo liberal e  democrático[5].

O relatório chinês capitaliza precisamente sobre este contexto. Ao destacar as falhas sistémicas dos EUA — como a manipulação dos distritos eleitorais, a exclusão de minorias do processo democrático, a violência policial e a crise dos sem-abrigo — Beijing procura minar a autoridade moral americana e apresentar-se como voz crítica da ordem liberal. Esta estratégia não visa substituir os EUA como defensora dos direitos humanos, mas sim deslegitimar o discurso ocidental e reforçar a ideia de que nenhum país tem o monopólio da virtude.

Direitos Humanos como Ferramenta de Soft Power Chinês

A apropriação da linguagem dos direitos humanos pela China insere-se numa lógica de soft power, em que a construção de narrativas e perceções se torna tão importante quanto o poder económico ou militar. Ao denunciar os abusos nos EUA, Beijing vai influenciar a opinião pública internacional, especialmente nos países do Sul Global, onde o ressentimento contra o paternalismo Ocidental é mais forte. Esta estratégia visa criar um espaço discursivo em que a China possa apresentar-se como parceira respeitadora da soberania, mas também como crítica legítima das falhas do modelo liberal.

Este tipo de diplomacia pública tem precedentes. A China tem investido em meios de comunicação internacionais como a CGTN, em institutos Confúcio, em parcerias académicas e em campanhas de comunicação digital para moldar perceções globais. A introdução dos direitos humanos como tema central dessas campanhas representa uma evolução significativa, que pode ter implicações concretas nas relações bilaterais, especialmente em contextos de tensão ou conflito.

O continente africano é um dos principais palcos da influência chinesa. Desde o início do século XXI, a China tem intensificado a sua presença em África através de investimentos em infraestruturas, comércio, cooperação técnica e diplomacia cultural[6]. Esta relação tem sido marcada por uma abordagem pragmática, em que Beijing evita condicionar a cooperação ao respeito pelos direitos humanos, ao contrário dos países ocidentais. Esta postura tem sido bem recebida por muitos governos africanos, que valorizam a não interferência e a previsibilidade das relações com a China.

No entanto, a nova abordagem chinesa pode alterar este equilíbrio. Ao introduzir a linguagem dos direitos humanos na sua diplomacia pública, mesmo que seletivamente, Beijing pode começar a usar esse discurso como instrumento de pressão ou justificação.

Em relações que correm mal — por exemplo, em casos de incumprimento de contratos, instabilidade política ou críticas públicas — os direitos humanos podem emergir como argumento retórico, poderá ser o caso com Angola. Ainda que não se traduzam em sanções ou condicionamentos formais, estas narrativas podem influenciar perceções públicas, reputações governamentais e dinâmicas diplomáticas.

Além disso, a apropriação da linguagem dos direitos humanos pela China pode gerar ambivalência entre os parceiros africanos. Por um lado, pode reforçar a legitimidade da China como ator global responsável. Por outro, pode criar desconforto entre regimes autoritários ou sem tradição democrática, que até agora viam Beijing como parceiro silencioso. Esta ambivalência pode abrir espaço para novas negociações, reequilíbrios e até concorrência entre modelos de cooperação.

A viragem da China insere-se numa batalha mais ampla pelas narrativas globais. Os direitos humanos, longe de serem apenas valores universais, são também instrumentos de poder simbólico. Ao denunciar os abusos nos EUA, Beijing procura reverter a lógica tradicional em que os países ocidentais criticam o Sul Global. Esta inversão tem efeitos discursivos importantes: relativiza as críticas ocidentais, reforça a ideia de multipolaridade e legitima a China como ator normativo, isto é, criador de regras globais.

O caso de Angola

O recente interesse da China pelos direitos humanos em Angola pode ser interpretado sob três prismas distintos, cada um com implicações políticas e diplomáticas bastante diferentes. A forma como este movimento será recebido e explorado dependerá não apenas das intenções chinesas, mas também da capacidade angolana de gerir a sua imagem internacional num momento de tensão interna.

Num primeiro cenário, este novo posicionamento da China pode ser simplesmente ignorado por Angola e pela comunidade internacional, sendo visto como parte da habitual disputa geopolítica entre Pequim e Washington. Neste caso, os direitos humanos seriam apenas um instrumento retórico usado pela China para se contrapor às críticas ocidentais, sem qualquer impacto real sobre a situação angolana. Angola, por sua vez, poderia optar por não se envolver, tratando o tema como um assunto externo, sem relevância direta para a sua política interna ou para as suas relações bilaterais com a China.

Num segundo movimento possível, o governo angolano pode aproveitar esta nova retórica chinesa para se reaproximar de Pequim, apresentando a China como uma parceira que também valoriza os direitos humanos — ainda que sob uma definição própria e muitas vezes divergente dos padrões ocidentais. Esta estratégia permitiria a Angola suavizar a sua imagem internacional, especialmente num momento em que o país volta a ser alvo de críticas severas devido à repressão violenta de protestos em julho de 2025, que resultaram em várias mortes. Ao alinhar-se com uma China que se mostra mais vocal sobre direitos humanos, o governo angolano poderia tentar neutralizar parte da pressão internacional, sem necessariamente implementar reformas profundas.

Por fim, há uma terceira hipótese, mais ousada e potencialmente transformadora: a China pode decidir adotar uma postura mais ativa na política interna angolana, apoiando uma transição de governo que favoreça lideranças mais comprometidas com os direitos humanos. Este movimento, embora improvável à primeira vista, não pode ser descartado, sobretudo num contexto em que as relações entre Angola e China estão em processo de recalibração. Se Beijing entender que a estabilidade angolana — e, por extensão, os seus interesses estratégicos e económicos no país — dependem de uma maior abertura política e respeito pelos direitos fundamentais, pode vir a exercer influência nesse sentido, mesmo que de forma discreta.

Cada uma dessas possibilidades revela não apenas os contornos da diplomacia contemporânea, mas também os limites e as oportunidades que se abrem para Angola num momento de escrutínio internacional e redefinição de alianças. O modo como o governo angolano responder a este novo interesse chinês poderá determinar o rumo das suas relações externas e, talvez, o futuro da sua própria governabilidade.

Conclusão: Uma Nova Era de Diplomacia Pública

A publicação do relatório sobre os EUA em 2024 marca uma nova era na diplomacia pública chinesa. Ao apropriar-se da linguagem dos direitos humanos, Beijing não se torna liberal, mas sim mais estratégica. Esta mudança insere-se numa lógica de competição narrativa, em que os direitos humanos deixam de ser monopólio Ocidental e passam a ser campo de disputa simbólica. Para África, esta mudança pode ter implicações profundas, alterando perceções, dinâmicas diplomáticas e equilíbrios de poder. A China não abandona o pragmatismo, mas acrescenta uma nova camada discursiva à sua atuação internacional — uma camada que pode redefinir o futuro das relações Sul-Sul e da ordem global.

Em relação a Angola, o novo interesse da China pelos direitos humanos pode ser interpretado como uma oportunidade estratégica com múltiplas leituras: ignorado como parte da rivalidade sino-americana, aproveitado pelo governo angolano para melhorar sua imagem internacional, ou até como um sinal de que Pequim poderá influenciar uma transição política angolana mais alinhada com valores de direitos humanos. Num momento em que Angola enfrenta críticas renovadas pela repressão violenta de julho de 2025 e as suas relações com a China passam por uma fase de recalibração, a forma como este gesto será recebido poderá ter implicações profundas para o futuro político e diplomático do país.


[1] Judt, T. (2005), Postwar: A History of Europe Since 1945. New York: Penguin Press,

[2] Schumpeter, J. A. (1942). Capitalism, socialism and democracy. New York: Harper & Brothers.

[3] Observador. (2024, dezembro 16). Guerra comercial entre China e União Europeia resultará em perdas para ambos, diz ministro dos Negócios Estrangeiros chinês. https://observador.pt/2024/12/16/guerra-comercial-entre-china-e-uniao-europeia-resultara-em-perdas-para-ambos-diz-ministro-dos-negocios-estrangeiros-chines/

[4] State Council Information Office of the People’s Republic of China. (2025, August 17). The report on human rights violations in the United States in 2024. https://en.people.cn/n3/2025/0818/c90000-20353810.html

[5] Ver o nosso anterior relatório: https://www.cedesa.pt/2025/07/22/angola-e-a-administracao-trump-entre-a-trump-organization-e-a-diplomacia-do-desinteresse/

[6] Alden, C. (2007). China in Africa. London: Zed Books.