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Angola-Rússia sob João Lourenço: pragmatismo estratégico e os limites da cooperação bilateral

Miguel Almeida Dias: Secretário-Geral do CEDESA | Mestre em Economia Política Internacional

Introdução

As relações Angola-Rússia constituem um caso paradigmático de continuidade histórica e reconfiguração estratégica no sistema internacional contemporâneo. Enraizadas em décadas de solidariedade ideológica e apoio soviético durante a guerra de independência e o conflito civil angolano, estas relações atravessaram transformações profundas após o colapso da União Soviética, transitando de um alinhamento baseado em afinidades político-ideológicas para uma parceria fundamentada em interesses económicos e de segurança pragmáticos. Desde a ascensão do Presidente João Lourenço ao poder em setembro de 2017, a política externa angolana tem evidenciado um reajustamento significativo, caracterizado por campanhas anticorrupção, esforços de diversificação económica e uma estratégia de multialinhamento internacional.[1]

Esta análise procura avaliar criticamente a evolução das relações Angola-Rússia durante o mandato de Lourenço (2017-presente), com enfoque particular na cooperação económica nas indústrias extrativas, na colaboração técnico-militar e nas implicações geopolíticas decorrentes da invasão russa da Ucrânia em 2022. Argumenta-se que, não obstante a retórica diplomática favorável ao aprofundamento dos laços bilaterais, a cooperação económica permanece estruturalmente limitada por constrangimentos financeiros russos, sanções internacionais e pela estratégia angolana de diversificação de parcerias, que privilegia múltiplos polos de poder num sistema internacional crescentemente multipolar e fragmentado.[2]

A relevância desta relação bilateral transcende a mera análise das interações diplomáticas convencionais. Angola, enquanto segundo maior produtor de petróleo em África e importante exportador de diamantes, ocupa uma posição estratégica nos mercados globais de matérias-primas. A Rússia, ao procurar reafirmar a sua influência em África após décadas de retração pós-soviética, identifica Angola como parceiro relevante, com laços históricos que remontam ao apoio ao partido que dirige os destinos do país desde a sua independência; o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Contudo, esta relação enfrenta constrangimentos estruturais significativos: a limitada capacidade financeira russa sob sanções ocidentais, a concorrência de investidores chineses e ocidentais, e a necessidade imperiosa de diversificação económica angolana. Compreender esta dinâmica bilateral revela-se essencial para antecipar a evolução da geopolítica na África Austral e avaliar a resiliência de alianças forjadas durante a Guerra Fria no contexto do século XXI.

Fundamentos históricos: da solidariedade soviética ao pragmatismo pós-Guerra Fria

As raízes das relações Angola-Rússia remontam a 1975, quando a União Soviética estabeleceu relações diplomáticas com a recém-independente República Popular de Angola e prestou apoio militar, político e ideológico decisivo ao MPLA durante a luta de libertação e a subsequente guerra civil (1975-2002). A assistência soviética foi abrangente, incluindo equipamento militar, formação de quadros, destacamento de conselheiros militares e ajuda económica, consolidando uma relação estratégica baseada na afinidade ideológica marxista-leninista e na competição geopolítica com forças apoiadas pelas potências ocidentais e pela África do Sul do apartheid.[3]

Esta parceria da Guerra Fria não foi meramente transacional, mas refletiu um alinhamento profundo de visões políticas, com o MPLA a adotar formalmente princípios marxistas-leninistas e a URSS a encarar Angola como ponto chave importante na sua projeção de influência na África Austral.[4]

O colapso da União Soviética em 1991 provocou uma contração acentuada da cooperação bilateral. As relações económicas enfraqueceram significativamente, embora a colaboração político-militar tenha persistido, sobretudo nos esforços multilaterais para resolver o prolongado conflito civil angolano. As décadas de 1990 e o início dos anos 2000 marcaram um período de menor intensidade relacional, enquanto a Federação Russa enfrentava a sua própria transformação política e económica interna, e Angola transitava gradualmente da guerra para a paz sob a liderança de José Eduardo dos Santos. Ainda assim, a relação bilateral não se dissolveu completamente, entrando numa fase de latência mantida por canais diplomáticos e ligações remanescentes no setor da defesa e segurança.

Nas décadas de 2000 e 2010 registou-se uma recuperação gradual, impulsionada pelo renovado interesse russo em África como componente da sua estratégia de reafirmação global e de acesso a recursos naturais e mercados emergentes. Esta nova fase substituiu progressivamente a solidariedade ideológica por interesses económicos e de segurança mais pragmáticos. O Presidente Eduardo dos Santos manteve proximidade política com a Rússia, mas a parceria económica permaneceu assimétrica e limitada por fragilidades institucionais e lacunas estratégicas. Visitas de alto nível e encontros à margem de cimeiras multilaterais deram novo impulso político, embora os avanços económicos concretos tenham permanecido modestos e aquém das expectativas mútuas.[5]

A era Lourenço: continuidade estratégica e reajustamento pragmático (2017-Presente)

A presidência de João Lourenço introduziu simultaneamente elementos de continuidade e mudança nas relações Angola-Rússia. Mantendo formalmente a amizade histórica e os laços derivados do apoio soviético ao MPLA, Lourenço adotou uma política externa mais diversificada e pragmática, procurando equilibrar estrategicamente relações com múltiplas potências globais e regionais. A visita de Estado de Lourenço à Rússia em abril de 2019 ilustrou esta abordagem dual, com destaque para acordos de cooperação na mineração e processamento de diamantes, bem como para compromissos de colaboração económica e técnica mais ampla. Angola procurou beneficiar da experiência tecnológica russa nas indústrias extrativas, particularmente no setor diamantífero, onde a empresa estatal russa Alrosa detinha participação significativa, por exemplo, na mina de Catoca, a maior operação diamantífera angolana.

Contudo, a dimensão económica bilateral não registou a expansão significativa que alguns analistas antecipavam. A Rússia preserva cooperação militar e intercâmbios educativos, mas não se verificaram grandes investimentos ou projetos estruturantes nos setores petrolífero e de gás natural. Este quadro reflete constrangimentos estruturais múltiplos: a menor capacidade financeira russa comparativamente a concorrentes chineses e ocidentais, o impacto progressivamente restritivo das sanções internacionais impostas à Rússia desde 2014 (Crimeia) e intensificadas após 2022 (Ucrânia), e a estratégia deliberada angolana de diversificar investidores e parceiros económicos para evitar dependência excessiva de qualquer ator singular.[6]

A cooperação técnico-militar constituiu historicamente o pilar mais sólido da relação bilateral, mas encontra-se em processo de reconfiguração acelerada desde 2022. O legado é inegável: em 2013, Angola celebrou um contrato de cerca de mil milhões de dólares com a Rosoboronexport para fornecimento de 12 caças Su-30K, helicópteros Mi-17, tanques, munições e peças sobresselentes, incluindo ainda a construção de uma fábrica de munições em território angolano. Contudo, em dezembro de 2022, o próprio Presidente Lourenço declarou publicamente à Voice of America que pretendia convidar os Estados Unidos a participar no programa de reequipamento das FAA, afirmando: “entendemos que chegou o momento de rearmar as FAA com equipamento NATO, e consideramos os EUA o caminho ideal para alcançar esta transição”. Esta declaração — de um presidente cujas forças armadas operam maioritariamente com equipamento de origem soviética — representa uma ruptura estratégica de enorme significado. Em 2024, o Ministro da Defesa angolano deslocou-se ao Pentágono, onde o Secretário de Defesa Lloyd Austin descreveu Angola como “parceiro estratégico” dos EUA, tendo-se iniciado conversações sobre aquisição de veículos logísticos Oshkosh, viaturas táticas General Motors Defence e outro equipamento de fabrico americano. Os dados do SIPRI Arms Transfers Database confirmam esta tendência: entre 2017 e 2024, a única transferência formal de armamento russo registada para Angola foi a entrega dos 12 Su-30K em 2019, não havendo qualquer registo adicional nos anos subsequentes. A cooperação remanescente limita-se essencialmente à manutenção do parque de equipamento soviético existente, à formação de quadros em instituições russas e a intercâmbios educativos de menor dimensão — uma relação que é, cada vez mais, de cliente dependente de suporte técnico herdado do passado, e não de parceria estratégica activa.[7][8][9][10][11]

Parcerias económicas: recursos minerais, energia e limitações estruturais

A arquitetura económica das relações entre os dois Estados concentra-se predominantemente nas indústrias extrativas, com destaque particular para o setor diamantífero. Durante a visita de Estado de 2019, os dois governos enfatizaram a cooperação na prospeção, extração, processamento e valorização de diamantes. A experiência tecnológica russa, particularmente através da Alrosa, foi apresentada como potencial contributo para a estratégia angolana de aumentar o valor acrescentado nacional e reduzir a dependência de exportações de diamantes brutos. Contudo, as sanções internacionais impostas à Alrosa após a invasão da Ucrânia criaram dificuldades operacionais significativas, afetando a credibilidade de Angola nos mercados internacionais de diamantes e conduzindo à decisão governamental de forçar a saída da empresa russa, substituída por investidores do Omã em 2024-2025.[12][13]

No setor estratégico do petróleo e gás natural, a cooperação bilateral permanece notavelmente limitada. Apesar de ambos os Estados serem produtores relevantes de hidrocarbonetos a nível global, não se registaram avanços económicos significativos neste domínio. O setor petrolífero angolano continua dominado por empresas multinacionais ocidentais (TotalEnergies, BP, Chevron, ExxonMobil) e, crescentemente, por empresas estatais chinesas. As empresas russas, incluindo a Rosneft, enfrentam limitações financeiras, tecnológicas e logísticas substanciais, agravadas progressivamente por sucessivas rondas de sanções ocidentais, o que dificulta severamente a sua capacidade competitiva em Angola.

Os fluxos comerciais e de investimento direto estrangeiro (IDE) entre Angola e Rússia são modestos quando comparados com as relações económicas angolanas com a China, a União Europeia e os Estados Unidos. Apesar do discurso político oficial favorável ao reforço dos laços económicos bilaterais, os volumes efetivos de comércio bilateral e de investimento russo em Angola mantêm-se reduzidos. Esta realidade reflete padrões mais amplos das relações económicas Rússia-África, onde o dinamismo diplomático e a projeção de soft power nem sempre se traduzem em resultados económicos tangíveis e estruturantes.[14]

Entre os principais constrangimentos à expansão económica bilateral destacam-se: (i) a menor disponibilidade de financiamento de desenvolvimento por parte da Rússia comparativamente à China e às instituições financeiras internacionais; (ii) o impacto cumulativo e progressivamente restritivo das sanções ocidentais sobre entidades e setores económicos russos; (iii) os desafios económicos internos de Angola, incluindo níveis elevados de dívida pública, necessidade urgente de diversificação económica e constrangimentos institucionais; e (iv) a concorrência intensa de parceiros económicos que oferecem pacotes integrados de investimento, transferência tecnológica, financiamento concessionado e acesso preferencial a mercados de consumo.

Implicações geopolíticas: multialinhamento estratégico na era Pós-2022

A invasão russa da Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022 marcou um ponto de inflexão crítico nas relações Angola-Rússia e, mais amplamente, na diplomacia africana contemporânea. O conflito obrigou os Estados africanos, incluindo Angola, a gerir pressões concorrentes entre a Federação Russa, as potências ocidentais e os seus próprios interesses nacionais. O padrão de votação angolano na Assembleia Geral das Nações Unidas revela uma posição mais complexa do que a de simples não-alinhamento: Angola absteve-se na resolução de março de 2022 que condenava a invasão (ES-11/1), partilhando essa posição com outros 16 países africanos; contudo, em outubro de 2022, votou expressamente a favor da resolução ES-11/4 que declarava ilegais as anexações russas das regiões ucranianas de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporíjia, justificando o voto com o princípio da integridade territorial consagrado na Carta das Nações Unidas e no Acto Constitutivo da União Africana. Esta diferenciação de posições — abstenção na condenação da invasão, mas voto favorável contra as anexações — traduz um posicionamento calibrado que procura distinguir a questão da soberania territorial, de natureza jurídica mais clara, da questão política mais ampla da atribuição de responsabilidades pelo conflito.[15]

Este padrão de votação diferenciada reflecte um cálculo pragmático multidimensional. Angola procura preservar relações funcionais com múltiplos parceiros estratégicos e evitar custos políticos, diplomáticos e económicos associados à escolha inequívoca de um dos lados num confronto geopolítico que não ameaça directamente os seus interesses de segurança nacional. A memória histórica do apoio soviético durante a guerra civil influencia esta postura de equidistância, mas não impede Angola de defender princípios jurídicos fundamentais — como a integridade territorial — quando a pressão diplomática multilateral o exige. Simultaneamente, o país afirma crescentemente a sua autonomia estratégica e rejeita alinhamentos automáticos em questões externas ao continente africano, procurando posicionar-se como potência média emergente com capacidade de mediação e influência regional.

A Rússia tem intensificado significativamente a sua diplomacia em África, apresentando-se como parceiro sem legado colonial histórico e oferecendo cooperação em segurança sem condicionalidades políticas explícitas relacionadas com governação democrática ou direitos humanos. Contudo, a capacidade económica russa de sustentar esta ofensiva diplomática permanece severamente limitada por sucessivas rondas de sanções ocidentais e por restrições financeiras internas. Angola segue uma estratégia deliberada de multialinhamento que lhe permite manter simultaneamente laços históricos de defesa e segurança com a Rússia, parcerias económicas estruturantes com a China, e acesso privilegiado a mercados ocidentais e instituições financeiras internacionais. Esta gestão estratégica de múltiplas parcerias exige equilíbrio diplomático constante e capacidade sofisticada de navegação em contextos geopolíticos crescentemente polarizados.[16]

Não esquecer, todavia, do designado “cinturão russo”, situado na região do Sahel. João Lourenço procura firmar Angola como potência regional, com proximidade ao Ocidente e relações funcionais com a China e a Rússia, defendendo simultaneamente soluções africanas para problemas africanos. Assim, a consolidação de um “cinturão russo” em África constitui um obstáculo estratégico a essa ambição. Uma presença russa reforçada na articulação entre o Norte e o Sul do continente tende a reduzir a margem de projeção regional de Angola e a reintroduzir dinâmicas de rivalidade entre grandes potências, reminiscentes da Guerra Fria. Deste modo, tal configuração geopolítica colide com os interesses regionais de Angola e com a sua aposta na estabilidade e na resolução autónoma de conflitos em África.[17]

Cenários futuros: trajetórias plausíveis para a próxima década

A evolução futura das relações Angola-Rússia dependerá criticamente de múltiplos fatores estruturais e conjunturais: a posição internacional da Rússia após o eventual término do conflito na Ucrânia, a evolução política interna angolana (incluindo as eleições de 2027), a dinâmica dos mercados globais de matérias-primas, e as estratégias competitivas de potências concorrentes, particularmente China e Estados Unidos. Três cenários principais emergem como plausíveis.

Primeiro: um cenário de aprofundamento pragmático limitado. Neste cenário, Angola e Rússia expandem seletivamente a cooperação em nichos específicos como mineração não-diamantífera, defesa e projetos pontuais de infraestruturas. Este cenário pressupõe o desenvolvimento de mecanismos financeiros alternativos para contornar sanções ocidentais e a identificação de setores onde a tecnologia russa oferece vantagens comparativas claras. A probabilidade deste cenário é moderada, condicionada pela capacidade russa de mobilizar recursos financeiros suficientes.

Segundo: um cenário de continuidade com limitações estruturais. Este cenário mantém essencialmente o padrão atual de relações, com diplomacia ativa e cooperação moderada concentrada em setores específicos (formação militar, intercâmbios educativos limitados), sem avanços económicos estruturais significativos nos setores estratégicos de petróleo e gás. Este cenário parece o mais provável no médio prazo (5-7 anos), dada a persistência de constrangimentos financeiros russos e a prioridade angolana de diversificação de parcerias económicas.

Terceiro: um cenário de divergência estratégica condicionada. Neste cenário, pressões internacionais intensificadas ou incentivos económicos substanciais provenientes de potências ocidentais conduzem Angola a reduzir significativamente o peso relativo da Rússia nas suas parcerias estratégicas. Este cenário dependeria criticamente da intensidade da polarização geopolítica global, de eventuais mudanças políticas internas em Angola após 2027, e da capacidade ocidental de oferecer alternativas económicas credíveis e atrativas.

Conclusão

As relações Angola-Rússia sob a presidência de João Lourenço ilustram a complexidade das parcerias estratégicas no sistema internacional atual. A relação combina elementos de continuidade histórica, derivados da solidariedade soviética durante a luta de libertação e guerra civil, com pragmatismo contemporâneo centrado nas indústrias extrativas e na cooperação de defesa e segurança. Apesar do dinamismo diplomático e da retórica política favorável, a dimensão económica bilateral permanece estruturalmente limitada por múltiplos constrangimentos: capacidade financeira russa reduzida, sanções internacionais progressivamente restritivas, política do “cinturão russo” que esbarra com os interesses angolanos no continente e forte concorrência de parceiros económicos alternativos com maior capacidade de mobilização de recursos.

O conflito na Ucrânia tem vindo a testar a estratégia angolana de multialinhamento estratégico. O governo de Lourenço tem optado por preservar margem de manobra diplomática e manter canais de comunicação abertos com diferentes polos de poder global, evidenciando sofisticação estratégica mas também vulnerabilidades potenciais caso a polarização internacional se intensifique substancialmente. Esta estratégia de não-alinhamento pragmático serve os interesses nacionais angolanos no contexto atual, mas pode enfrentar desafios crescentes se as pressões para escolhas dicotómicas se intensificarem.

No horizonte previsível de médio prazo, as relações Angola-Rússia deverão evoluir de forma assimétrica: a cooperação técnico-militar, que foi o pilar histórico mais sólido desta parceria, encontra-se em contracção deliberada e acelerada, com Luanda a orientar-se progressivamente para Washington e para o equipamento de padrão NATO. A coordenação diplomática em foruns multilaterais e a manutenção do parque de equipamento soviético herdado constituirão os últimos elos funcionais desta relação bilateral. Transformações estruturais mais profundas dependerão da evolução do conflito ucraniano, da posição internacional da Rússia no pós-guerra, e das prioridades estratégicas internas de Angola — em particular do resultado das eleições de 2027 e da capacidade do próximo ciclo político de aprofundar ou reverter a reorientação ocidental que Lourenço iniciou.


[1] Middle power dreaming: The geopolitics of Angola’s emergence. (2025). European Council on Foreign Relations. Disponível em: https://ecfr.eu/publication/middle-power-dreaming-the-geopolitics-of-angolas-emergence/

[2] Alves, A. C., & Arkhangelskaya, A. A. (2013). Russia and Angola: The Rebirth of a Strategic Partnership? South African Institute of International Affairs (SAIIA).

[3] Pearce, J. (2017). A guerra civil em Angola, 1975–2002. Tinta-da-China.

[4] Arkhangelskaya, A., & Shubin, V. (2013). Is Russia Back? Realities of Russian Engagement in Africa. London School of Economics IDEAS Reports.

[5] Arkhangelskaya, A., & Shubin, V. (2013). Is Russia Back? Realities of Russian Engagement in Africa. London School of Economics IDEAS Reports.

[6] Verde, R. (2021). Angola at the Crossroads. From kleptocracy to Development. I.B. Tauris.

[7] Sputnik International (16 de outubro de 2013). Angola Inks $1Bln Arms Deals With Russia. Disponível em: https://sputnikglobe.com/20131016/Angola-Inks-1Bln-Arms-Deals-With-Russia–Paper-184180992.html

[8] Why Angola is looking to dump Russia as its arms supplier and opt for the US. (2022, 21 de dezembro). News24. Disponível em: https://www.news24.com/news24/africa/news/why-angola-is-looking-to-dump-russia-as-its-arms-supplier-and-opt-for-the-us-20221221

[9] Angola looking to acquire military hardware from the United States. (2024, 7 de junho). DefenceWeb. Disponível em: https://defenceweb.co.za/land/land-land/angolan-looking-to-acquire-military-hardware-from-the-united-states/

[10] SIPRI Arms Transfers Database — Angola/Russia: registo Su-30K (entrega 2019). Stockholm International Peace Research Institute. Disponível em: https://armstransfers.sipri.org

[11] As novas ameaças e o reforço das Forças Armadas Angolanas. (2022). CEDESA. Disponível em: https://www.cedesa.pt/2022/02/14/as-novas-ameacas-e-o-reforco-das-forcas-armadas-angolanas/  

[12] Angola replaces Alrosa with Oman in diamond-mining operations. (2024). Rapaport. Disponível em: https://rapaport.com/news/angola-replaces-alrosa-with-oman-in-diamond-mining-operations/

[13] Oman firm replaces sanctioned Alrosa in Angolan diamond miner. (2024). Mining.com. Disponível em: https://www.mining.com/web/oman-firm-replaces-sanctioned-alrosa-in-angolan-diamond-miner/

[14] Ramsey, A. (2023). Are Morocco and Angola Benefiting from the Ukraine Conflict? Bowdoin College. Disponível em: https://www.bowdoin.edu/news/2023/08/are-morocco-and-angola-benefiting-from-the-ukraine-conflict.html

[15] United Nations General Assembly Resolution ES-11/4 (12 de outubro de 2022). Disponível em: https://press.un.org/en/2022/ga12458.doc.htm

[16] Ramsey, A. (2023). Are Morocco and Angola Benefiting from the Ukraine Conflict? Bowdoin College. Disponível em: https://www.bowdoin.edu/news/2023/08/are-morocco-and-angola-benefiting-from-the-ukraine-conflict.html

[17] O cinturão russo no Sahel e Angola. (2023). CEDESA. Disponível em: https://www.cedesa.pt/2023/08/07/o-cinturao-russo-no-sahel-e-angola-2/

Jantar CEDESA de 25 de Março de 2025

Trump e África: Vitória da China e Rússia?

Decorreu no dia 25 de Março no Pestana Palace em Lisboa, o Jantar-Debate incluído nas comemorações dos 50 anos da Independência de Angola que o CEDESA leva a cabo durante este ano com o tema Trump e África: Vitória da China e Rússia?

Estiveram presentes académicos, jornalistas e empresários com ligações a Angola, um conjunto diverso de personalidades que debateu de forma viva e livre o tema, sem facciosismos e de maneira construtiva.

Tivemos um antigo deputado-coordenador do PSD na comissão dos Negócios Estrangeiros da Assembleia da República que moderou o debate, jornalistas da LUSA, Jornal de Negócios, Correio da Manhã, DW e RTP África, professores em universidades portuguesas e estrangeiras.

Notou-se um forte interesse no tema, destacando-se a intensificação dos esforços russos de estabelecimento em África através de acordos militares, a presença constante e pragmática da China, novos actores como a Índia e a Turquia, as possibilidades que se abrem para a União Europeia, e o absentismo dos EUA que já teve como consequência o incremento dos conflitos em África. A situação africana é instável, as fronteiras podem mudar e as guerras alastrar. Estas foram as principais conclusões.

As presenças foram mais ricas e oportunas.

The “Russian belt” in the Sahel and Angola

The coup in Niger

Mr Mohamed Bazoum was the freely elected president of Niger in 2021. He was deposed in July 2023 by the Presidential Guard, joined by the army. At the time of writing, General Abdourahmane Tchiani, who had led the presidential guard since 2011, announced that he was the top leader of the military junta that took power in that African country[1] .

The formal pattern of seizure of power by a “National Council for the Safeguarding of the Homeland” (NCSH), seems to follow the coup of Assimi Goïta in Mali in 2020. In fact, the methods are the same: suspension of the constitutional order, establishment of a curfew, closure of borders. A state of exception that recent experiences among Sahelian neighbours affected by this military epidemic show can last for months or even years.

Most interestingly, however, the first Russian flags began to appear in the hands of some of the pro-junta demonstrators on the streets of the Nigerian capital,[2] as has happened in other coups in Francophone African countries.

Indeed, the fall of Bazoum may possibly represent the fall of one of the last French bastions in the Sahel, and most likely, another step by Russia in the creation of a “red” belt in this African region, although at this point there are still disagreements about the existence or extent of Russian intervention in the coup[3] . Even if Russia did not have a direct role in the coup, it may, in line with what has been its recent opportunistic policy in Africa, seize the moment.

Let’s look at recent military coups, African geography, and how Russia establishes its belt.

The formation of the “Russian belt”

Starting on the Atlantic coast, in 2021, we have the coup d’état in Guinea Conakry carried out by a military man, Colonel Mamady Doumbouya, who for the moment has established an authoritarian regime, albeit with the promise of elections in 2025. Although, there was no Russian appearance at the genesis of the coup, as Russia had a good relationship with Alpha Condé, the deposed president, apparently, after the coup relations between Guinea and Russia have been intensifying with several Russian visits to the presidential palace in 2022. In any case, Mamady Doumbouya seems, for the moment, to be the typical populist nationalist military man who is still looking for a way forward, and the truth is that one cannot yet speak of manifest Russian influence in Guinea-Conakry.

Unlike in Mali and Burkina Faso, it is not the head of the ruling military junta in Conakry who will go to St Petersburg. Colonel Mamadi Doumbouya was represented by Dr Dansa Kourouma (President of the National Transitional Council) and Dr Morissanda Kouyaté (Minister of Foreign Affairs). Thus, in Guinea Conakry a clear pro-Russian regime does not yet seem to be established, but it is unique in the recent coup movements in the Sahel/Central African zone.

Bordering Guinea-Conakry is Mali, here the situation is quite clear and marks the effective beginning of what we will call the “Russian belt”. In Mali there was a coup d’état in 2021, in which Colonel Assimi Goïta took power. Russian military personnel have been in Mali since mid-2022, and the presence of the Wagner group is also confirmed. Mali and Russia have signed a cooperation agreement on security, intelligence, risk and disaster management, counter-narcotics and personnel training. The Russian presence is undeniable, as is France’s loss of influence in the country, which has withdrawn militarily, with some of its forces going to Niger (where they may now be leaving). Mali’s president was at the Russia Africa Forum.

Next to Mali is Burkina Faso. Here, the military coup took place in 2022, in fact there were two coups that year. In the final coup, the officer Ibrahim Traoré took power. The result of the takeover was the expulsion of the French military contingent in the country and rapprochement with Russia. Traoré also went to St Petersburg.

If you look at Niger, if the coup and the rapprochement with Russia materialize, it adds a large territory to the Russian belt. Chad is actually missing, as Sudan and Eritrea are next.

Eritrea is a fearsome dictatorship, where there have never been elections. Along with Belarus, Syria and North Korea, Eritrea was one of four countries, not including Russia, to vote against a UN General Assembly resolution condemning Russia’s invasion of Ukraine in 2022.

As for Sudan, the presence of the Wagner group has been recorded since 2017. Sudan is among the few countries that officially recognized the annexation of Crimea by the Russian Federation and voted against UN General Assembly Resolution 68/262 (which condemned the Russian annexation of the Ukrainian territory), which demonstrated the close relations between Russia and Sudan. In July 2022, Russia obtained gold from Wagner facilities near Abidiya in Sudan to support the war in Ukraine. Russia is the main arms supplier to Sudan.

In February 2023, Russian Foreign Minister Sergey Lavrov met with Sudanese officials in Khartoum, including Sudanese Armed Forces Commander-in-Chief Abdel Fattah al-Burhan, Rapid Support Forces leader Mohamed Hamdan Dagalo, and Acting Foreign Minister Ali Al-Sadiq Ali to strengthen relations and to finalize the review of an agreement to build a naval base in Port Sudan, which awaits ratification by Sudan’s yet-to-be-formed legislative body. As we know, the situation in Sudan is very turbulent, but there is a lot of Russian influence.

The “Russian belt”

Therefore, we have an almost continuous line from east to west Africa where a “Russian belt” is forming.

In practice, Chad remains, where French influence is strong, but instability and the existence of guerrilla groups are noticeable. And it is enough to mention that Chad could be totally surrounded, as to the north in Libya there is a strong presence of the Wagner group, as on the southern border in the Central African Republic, taking into account that to the west there is Niger and to the east Sudan, one can anticipate that Chad is surrounded and could soon complete the “Russian belt”.

Roughly speaking, the “Russian belt” can be said to correspond to the Sahel region. There are some exceptions, such as Mauritania and Senegal, and some additions such as the Central African Republic. But what is certain is that a line is being drawn in the sand that divides Africa, precisely in the area where sub-Saharan Africa meets North Africa.

Possibly, the Russian intervention did not follow a pre-established plan, but opportunistically took advantage of various events in the area, in which the French ineptitude in developing the countries and securing the support of the population of the region, and the Islamic incursions stand out.

It is also true that Russian control is not homogeneous in all countries and the situation is perilous. There is no hard data, other than the peoples’ search for ways out of the neo-colonial recipes offered by France and the West’s general inattention to the suffering of this area of the globe, despite politically correct discourses.

The space occupied by Russia is not so much the result of the call for any solution from Moscow, but the displeasure at the lack of solutions from the West.

But that a “Russian order” is being established is a fact. Recent proof of this is Vladimir Putin’s offer of grain to six African countries. Among them are members of this “belt”, four to be precise: Burkina Faso, Mali, Central African Republic and Eritrea. The remaining two are Zimbabwe and Somalia[4] . It is clear to see the weight that the “Russian belt” already has in defining Russian policy.

Fig. 1- Sahel in Africa where the “Russian belt” passes. Photo published by the BBC at https://www.bbc.com/news/world-africa-66322914

Fig. 2- Ongoing “Russian belt”. Libya is not part of the belt, but it is an area where Russia participates with the Wagner group in the civil war

The global effects of the ‘Russian belt’

Having established the construction of the “Russian belt” in the African Sahel, it is worth noting the main consequences both globally and for Angola.

The first global consequence is Russia’s political reassertion. The country is demonstrating that it knows how to globalize a dispute, not by situating it only in Ukraine, but by globalizing it, bringing together a set of supports that may seem weak individually, but together achieve extreme strategic relevance, already calling into question French influence in the region. For the moment, the big loser is France, but Russia can project other losses or gains, depending on the perspective, both strategic and economic.

In strategic terms, it is well known that the Sahel region has a strong and direct strategic importance for Europe in two areas, in the fight against terrorism and migration. In fact, António Costa, Prime Minister of Portugal when the country held the presidency of the European Union, emphasized that “The Sahel is a strategic region for the European Union, taking into account the security challenges and its role in the broader regional context, including Libya, the Gulf of Guinea and the Central African Republic” and added that the security of the Sahel “is undeniably linked to the security of Europe; that is why we must work together, as equals, with a very clear objective: to achieve lasting peace and build shared prosperity together”.[5]

From now on, Russia has a pressure valve on the EU in terms of terrorism and migration, and can in practice increase or decrease migration flows from Africa to European shores.

As for Islamist terrorism, Russia has been its enemy, but recent events have made it a de facto ally of Iran and sometimes the “enemy of our enemy is our friend”. It should not be forgotten that the Islamist insurgency in Afghanistan in the 1980s was initially funded by the United States as a way of weakening the Soviet Union. Nothing prevents the reverse from happening.

Moreover, this “belt” allows for easier projection of force, whether political or military, whether in formal terms or in what is called “asymmetric warfare”. Below is the Democratic Republic of Congo, a source of immense wealth that arouses global greed. Above and beside Libya is Egypt and its Suez Canal. These are two “prizes” that will get closer the moment Russia draws a straight line of dominance coast to coast in Africa.

From an economic point of view, although they are countries in extreme poverty, often, in terms of mineral and natural resources they have something to note. In very brief terms, Mali has gold, Burkina Faso has various non-ferrous and industrial metals, Niger oil and uranium, the Central African Republic gold, and so on. There is a wealth of resources to exploit.

Angola and the “Russian belt”

Finally, it is worth reflecting on Angola’s role vis-à-vis a “Russian belt”. Angola was traditionally a Russian ally, one of the main ones in Africa. It no longer is.

The current President is trying to position the country as a regional power close to the West and with good relations with China and Russia, but trying to solve African problems in Africa. It is clear that the creation of the “Russian belt” poses major obstacles to this desire for Angola. With a strong Russia mediating between North and South Africa, Angola’s role as a regional power is emptied, and everything returns to the clashes of the Cold War, now renewed.

Thus, the “Russian belt” clashes directly with Angola’s regional prospective interests and its desire for peace and stability on the continent.

And there is a second aspect, which is João Lourenço’s promotion of constitutional normality. The Angolan President has condemned all non-constitutional changes in Africa. The fact is that the changes promoted by Russia are non-constitutional, based on coups d’état promoted by the military.

And directly, Angola’s national stability and security would be jeopardised if there were any kind of intervention in the Democratic Republic of Congo that would agitate the country even more than it already is.

To this extent, Angola is not currently likely to take a favourable view of the extension of the “Russian belt” in the Sahel, despite the cordial relations that exist between the two countries.


[1] https://www.publico.pt/2023/07/28/mundo/noticia/golpe-niger-chefe-guarda-presidencial-declarase-lider-junta-militar-2058484

[2] https://euobserver.com/world/157310

[3] https://www.bbc.com/news/world-africa-66322914

[4] https://www.dn.pt/internacional/putin-diz-que-a-russia-esta-a-fazer-tudo-para-evitar-uma-crise-alimentar-global-16762635.html

[5] https://www.portugal.gov.pt/pt/gc22/comunicacao/noticia?i=primeiro-ministro-sublinha-importancia-para-a-europa-da-estabilidade-em-africa

O “cinturão russo” no Sahel e Angola

O golpe no Níger

Mohamed Bazoum era o presidente do Níger, livremente eleito em 2021. Foi deposto no mês de Julho de 2023 pela Guarda Presidencial, a que se juntou o Exército. Quando escrevemos, o general Abdourahmane Tchiani, que liderava a guarda presidencial desde 2011, anunciou ser o dirigente máximo da junta militar que assumiu o poder naquele país africano[1].

O padrão formal de tomada de poder por um “Conselho Nacional para a Salvaguarda da Pátria” (CNSP), parece seguir o golpe de Assimi Goïta no Mali em 2020. Aliás, os métodos são os mesmos: suspensão da ordem constitucional, estabelecimento de recolher obrigatório, fecho das fronteiras. Um estado de exceção que as experiências recentes entre os vizinhos do Sahel atingidos por esta epidemia militar demonstram podem durar meses ou mesmo anos.

Contudo, o mais interessante é que as primeiras bandeiras russas começaram a surgir nas mãos de alguns dos manifestantes pró-junta nas ruas da capital nigeriana,[2]tal como aconteceu noutros golpes em países africanos francófonos.

Na verdade, a queda de Bazoum pode representar possivelmente a queda de um dos últimos bastiões franceses no Sahel, e muito provavelmente, mais um passo da Rússia na criação de um cinturão “vermelho” nesta região africana, embora nesta altura ainda existam divergências sobre a existência ou extensão da intervenção russa no golpe[3]. Mesmo que a Rússia não tenha tido um papel direto no golpe, pode, de acordo com aquilo que tem sido a sua recente política oportunista em África, aproveitar o momento.

Vejamos os recentes golpes de estado militares, a geografia africana, e a forma como a Rússia estabelece o seu cinturão.

A formação do “cinturão russo”

Começando na costa atlântica temos em 2021, o golpe de estado na Guiné-Conacri levado a cabo por um militar, o coronel Mamady Doumbouya, que de momento implantou um regime autoritário, embora com a promessa de eleições em 2025. Embora, não houvesse aparência russa na génese do golpe, pois a Rússia tinha uma boa relação com Alpha Condé, o presidente deposto, aparentemente, depois do golpe as relações entre a Guiné e a Rússia têm estado a intensificar-se com várias visitas russas ao palácio presidencial em 2022. De todo o modo, Mamady Doumbouya parece, de momento, ser o típico militar nacionalista populista que ainda procura um caminho, e a verdade é que ainda não se pode falar de manifesta influência russa na Guiné-Conacri.

Ao contrário do Mali e do Burkina Faso, não é o chefe da junta militar no poder em Conacri que irá a São Petersburgo. O Coronel Mamadi Doumbouya foi representado pelo Dr. Dansa Kourouma (Presidente do Conselho Nacional da Transição) e pelo Dr. Morissanda Kouyaté (Ministro dos Negócios Estrangeiros). Portanto, na Guiné-Conacri ainda não parece estar estabelecido um claro regime pró-russo, mas é caso único nos recentes movimentos golpistas na zona Sahel/centro-africana.

Fazendo fronteira com a Guiné-Conacri está o Mali, aqui a situação é bem clara e marca o início efetivo daquilo a que apelidaremos o “cinturão russo”. No Mali houve um golpe de estado em 2021, em que o Coronel Assimi Goïta assumiu o poder. Desde meados de 2022 que estão militares russos no Mali, sendo também confirmada a presença do grupo Wagner. O Mali e Rússia assinaram um acordo de cooperação em segurança, inteligência, gestão de riscos e desastres, combate ao narcotráfico e treino de pessoal. A presença russa é indesmentível, assim como a perda de influência da França no país, que se retirou militarmente, tendo algumas das suas forças ido para o Níger (de onde talvez saiam agora). O presidente do Mali esteve no Fórum Rússia África.

Ao lado do Mali, está o Burkina Faso. Aqui o golpe militar foi em 2022, aliás nesse ano houve dois golpes, No golpe final, o oficial Ibrahim Traoré tomou o poder. O resultado da tomada de poder foi a expulsão do contingente militar francês existente no país e a aproximação à Rússia. Traoré também foi a São Petersburgo.

Se repararmos, o Níger, concretizando-se o golpe e a aproximação à Rússia, acrescenta um largo território ao cinturão russo. Faltará na verdade cair o Chade, pois a seguir estão o Sudão e a Eritreia.

A Eritreia é uma temível ditadura, onde nunca houve eleições. Juntamente com a Bielorrússia, a Síria e a Coreia do Norte, a Eritreia foi um dos quatro países, sem incluir a Rússia, a votar contra uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas que condenava a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.

Quanto ao Sudão, desde 2017, que há registos da presença do grupo Wagner. O Sudão está entre os poucos países que reconheceram oficialmente a anexação da Crimeia pela Federação Russa e votaram contra a Resolução 68/262 da Assembleia Geral das Nações Unidas (que condenou a anexação russa do território ucraniano), o que demonstrou as relações estreitas entre a Rússia e o Sudão. Em julho de 2022, a Rússia obteve ouro de instalações da Wagner perto de Abidiya, no Sudão, para apoiar a guerra na Ucrânia. A Rússia é o principal fornecedor de armas para o Sudão.

Em fevereiro de 2023, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, reuniu-se com autoridades sudanesas em Cartum, incluindo o comandante-em-chefe das Forças Armadas Sudanesas, Abdel Fattah al-Burhan, o líder das Forças de Apoio Rápido, Mohamed Hamdan Dagalo, e o ministro das Relações Exteriores em exercício, Ali Al-Sadiq Ali para reforçar  as relações e para concluir a revisão de um acordo para construir uma base naval em Port Sudan, que aguarda ratificação do ainda a ser formado corpo legislativo no Sudão. Como se sabe a situação no Sudão é bastante agitada, mas o certo é que existe uma enorme influência russa.

O “cinturão russo”

Temos assim uma linha quase contínua de leste a oeste de África onde se está a formar um “cinturão russo”.

Na prática, falta cair o Chade, onde a influência francesa é grande, mas a instabilidade e a existência de grupos de guerrilha se faz notar. E basta referir que o Chade pode ficar totalmente cercado, pois a Norte na Líbia existe uma forte presença do grupo Wagner, como na fronteira Sul na República Centro Africana, tendo em conta que a Oeste tem o Níger e a Leste o Sudão, pode-se antecipar que o Chade está cercado e em breve poderá completar o “cinturão russo”.

Grosso modo, pode-se dizer que o “cinturão russo” corresponde à região do Sahel. Há algumas exceções, como por exemplo, a Mauritânia e o Senegal e alguns acréscimos como a República Centro Africana. Todavia o certo é que está a ser traçada uma linha na areia que divide África, precisamente na zona de intermediação da África subsaariana com a África do Norte.

Possivelmente, a intervenção russa não obedeceu a um plano pré-estabelecido, foi aproveitando oportunisticamente vários eventos na área, em que sobressai a inépcia francesa em desenvolver os países e assegurar o apoio da população da região, e as incursões islâmicas.

Também é verdade que o controlo russo não é homogéneo em todos os países e a situação é periclitante. Não há dados adquiridos, a não ser a procura dos povos de saídas diferentes das receitas neocoloniais oferecidas pela França e a desatenção geral do Ocidente ao sofrimento desta área do globo, apesar dos discursos politicamente corretos.

O espaço ocupado pela Rússia não é tanto o resultado do apelo por qualquer solução de Moscovo, mas o desagrado pela falta de soluções do Ocidente.

Mas, que está a ser estabelecida uma “ordem russa” é um facto. Prova recente disso, é a oferta de cereais que Vladimir Putin fez a seis países africanos. Entre eles estão membros deste “cinturão”, quatro, para ser mais preciso: Burkina Faso, Mali, República Centro-Africana e Eritreia. Os dois restantes são o Zimbabué e a Somália[4]. Vê-se obviamente o peso que o “cinturão russo” tem já na definição da política russa.

Fig. nº 1- Sahel em África por onde passa o “cinturão russo”. Foto publicada pela BBC em https://www.bbc.com/news/world-africa-66322914

Fig. n.º 2- “Cinturão russo” em curso. A Líbia não faz parte do cinturão, mas é uma zona onde a Rússia participa com o grupo Wagner na guerra civil

Os efeitos globais do “cinturão russo”

Estabelecida que está a construção do “cinturão russo” na zona do Sahel africano, convém assinalar quais as principais consequências quer globais quer para Angola.

A primeira consequência global é a reafirmação política da Rússia. O país demonstra que sabe globalizar uma contenda, não a situando apenas na Ucrânia, mas mundializando-a, reunindo um conjunto de apoios que podem parecer fracos individualmente, mas juntos alcançam extrema relevância estratégica, colocando já em causa a influência francesa na região. De momento, a grande derrotada é a França, mas a Rússia pode projetar outras perdas ou ganhos, dependendo da perspetiva, quer estratégicas quer económicas.

Em termos estratégicos é sabido que a zona do Sahel tem uma forte e direta importância estratégica para a Europa em dois âmbitos, no combate ao terrorismo e à migração. Aliás António Costa, primeiro-ministro de Portugal quando o país ocupava a presidência da União Europeia realçou que “O Sahel é uma região estratégica para a União Europeia, tendo em consideração os desafios de segurança e o seu papel no contexto regional mais vasto, incluindo a Líbia, o Golfo da Guiné e a República Centro-Africana” e acrescentou estar a segurança Do Sahel  “incontestavelmente ligada à segurança da Europa; é por isso que devemos trabalhar juntos, como iguais, com um objetivo muito claro: alcançar uma paz duradoura e construir juntos uma prosperidade partilhada”[5]

A partir de agora, a Rússia dispõe de uma válvula de pressão em relação à União Europeia em termos de terrorismo e migração, podendo, na prática aumentar ou diminuir os fluxos migratórios de África para as costas europeias.

Quanto ao terrorismo islâmico, a Rússia tem sido inimiga deste, contudo, eventos recentes tornaram-na aliada de facto do Irão e por vezes, o “inimigo do nosso inimigo é nosso amigo”. É preciso não esquecer que a insurgência islâmica no Afeganistão nos anos 1980s começou por ser financiada pelos Estados Unidos da América, como forma de enfraquecer a União Soviética. Nada impede que o reverso aconteça.

Além disso, este “cinturão” permite uma mais fácil projeção de força, seja política, seja militar, quer em termos formais ou daquilo que se chama “guerra assimétrica”. Abaixo está a República Democrática do Congo, fonte de riquezas imensas que desperta a cobiça mundial. Acima e ao lado da Líbia está o Egipto e o seu canal do Suez. Estes são dois “prémios” que ficam mais próximos a partir do momento em que a Rússia trace uma linha reta de domínio costa a costa em África.

Do ponto de vista económico, embora sendo países em pobreza extrema, muitas vezes, o certo é que em termos de recursos minerais e naturais temo algo a assinalar. Em termos muito resumidos, o Mali tem ouro, o Burkina Faso possui vários metais não ferrosos e industriais, o Níger petróleo e urânio, a República Centro Africana, ouro, e por aí adiante. Há um manancial de recursos para explorar.

Angola e o “cinturão russo”

Finalmente, convém refletir qual o papel de Angola face a um “cinturão russo”. Angola foi tradicionalmente um aliado russo, um dos principais em África. Já não é.

O atual Presidente tenta colocar o país como uma potência regional próxima do Ocidente e com boas relações com a China e Rússia, mas tentando resolver os problemas africanos em África. Torna-se evidente que a criação do “cinturão russo” levanta obstáculos de monta a este desejo de Angola. Com uma Rússia forte na intermediação entre o Norte e o Sul de África, o papel de Angola como potência regional fica esvaziado, e tudo se volta a resumir aos embates da Guerra Fria, agora renovada.

Assim, o “cinturão russo” choca diretamente com os interesses prospetivos regionais de Angola e com o seu desejo de paz e estabilidade no continente.

E há um segundo aspeto, que é a promoção que João Lourenço tem feito da normalidade constitucional. O Presidente angolano tem condenado todas as alterações não constitucionais em África. O facto é que as alterações promovidas pela Rússia são não constitucionais, assentam em golpes de força promovidos pelos militares.

E, diretamente, a estabilidade e segurança nacional angolana ficaria ameaçada se houvesse qualquer tipo de intervenção na República Democrática do Congo que agitasse ainda mais o país do que já está.

Nesta medida, no presente momento, Angola não deverá estar a ver com bons olhos o alargamento do “cinturão russo” no Sahel, apesar das relações cordiais que existem entre os dois países.


[1] https://www.publico.pt/2023/07/28/mundo/noticia/golpe-niger-chefe-guarda-presidencial-declarase-lider-junta-militar-2058484

[2] https://euobserver.com/world/157310

[3] https://www.bbc.com/news/world-africa-66322914

[4] https://www.dn.pt/internacional/putin-diz-que-a-russia-esta-a-fazer-tudo-para-evitar-uma-crise-alimentar-global-16762635.html

[5] https://www.portugal.gov.pt/pt/gc22/comunicacao/noticia?i=primeiro-ministro-sublinha-importancia-para-a-europa-da-estabilidade-em-africa

As consequências económicas em Angola da guerra da Ucrânia

É um facto que a guerra na Ucrânia está a afetar a totalidade da economia mundial, e, naturalmente, esse impacto também terá consequências políticas,[1] como aliás desde logo reconheceu o Fundo Monetário Internacional (FMI). 

A questão que se vai abordar neste relatório é acerca do impacto específico da guerra na economia angolana, que como se sabe passa um tempo exigente de reforma e se apresta a sair duma crise profunda. Também se avaliará superficialmente se os impactos económicos terão influência política.

As duas faces do impacto do preço do petróleo em Angola

Naturalmente, que o primeiro impacto em Angola se refere ao preço do petróleo. A subida do preço do petróleo era uma tendência que já perdurava há algum tempo e foi acentuada com o deflagrar da guerra. Em certa medida, não é uma novidade trazida pela crise ucraniana, mas uma direção que já estava em curso há meses.

 A 31 de janeiro de 2022, o preço do barril de Brent estava a USD 89,9, a 14 de fevereiro de 2022, o valor situava-se nos USD 99,2. É um facto que com o início da guerra chegou a atingir os USD 129,3 a 8 de março. Neste momento (16 de março), estabilizou nos USD 99,11. Parece que o preço de equilíbrio do petróleo nos próximos tempos andará entre os USD 95-100, havendo, obviamente, a possibilidade de choques que o façam subir ou descer abruptamente.

Fig. nº 1- Gráfico Diário do Preço do Barril de Brent (Maio 2021-Março 2022)

Fonte: Trading Economics.com

Em relação a Angola, temos de partir da previsão orçamentada para 2022 que calculou o preço do barril a USD 59. Portanto, haverá uma mais-valia desde o início do ano correspondente a mais 50%, no mínimo. Nesse sentido, como o orçamento estava equilibrado, quer dizer que haverá um excedente financeiro, o que obviamente é uma boa notícia.

Esta subida do preço do petróleo tem então, numa primeira linha, dois efeitos positivos para Angola.

O primeiro é ao nível da receita extraordinária do Tesouro que naturalmente aumentará. Em termos simples, pode-se afirmar que haverá mais dinheiro disponível por parte do Estado.

O segundo efeito, que também já se sente, é o chamado feel good factor (ou índice de confiança). Os empresários e as famílias refazem as suas expectativas num sentido mais positivo, esperando melhores sinais da economia. Segundo o Instituto Nacional de Estatística angolano, os empresários estão, finalmente, otimistas quanto às perspetivas da economia nacional no curto prazo, depois de permanecerem mais de 6 anos pessimistas.[2] A subida do preço do petróleo não é o único motivo para o otimismo revelado, mas ajuda.

Note-se, no entanto, que os ganhos do preço do petróleo não se transformam diretamente em saldo orçamental positivo. Há vários constrangimentos na tradução da subida do preço do petróleo em vantagens orçamentais diretas para Angola.

O primeiro deles é o tipo de relação com a China. A China é o principal comprador do petróleo angolano. Não sabemos de que forma estão feitos os contratos e se estes refletem automaticamente as oscilações de preço. No passado, alguns intermediários das compras e vendas de petróleo para a China chegaram a fazer contratos de preço fixo que prejudicaram enormemente o Tesouro angolano.[3] Imagina-se que tais “esquemas” já não existam, mas não há certezas. Certo é que, provavelmente, os contratos entre Angola e China referentes ao petróleo conterão algum tipo de “amortecedores” que implicarão que não haja uma repercussão direta dos preços. Além do mais, alguns peritos petrolíferos, como os da Chatham House, entendem que o facto de a China comprar cerca de 2/3 do petróleo angolano (na verdade 70%[4]) lhe permite um certo controlo monopolista do preço, querendo com isto significar que as compras chinesas são feitas de modo a minorar as subidas de preço, prejudicando as vantagens angolanas[5].

Em segundo lugar, temos o serviço da dívida. Aparentemente, existem mecanismos contratuais que implicam que um preço mais elevado do petróleo implica um aumento do serviço da dívida, isto é, dos pagamentos a efetuar. A ministra das Finanças, Vera Daves, já reconheceu que “o que resulta do aumento do preço não pode ser feita uma conta aritmética com a produção” e que o preço do barril de petróleo, acima dos cem dólares, obriga Angola a pagar mais aos seus credores internacionais[6].

Além do mais a subida do preço do petróleo tem também um possível efeito negativo no Orçamento angolano, que se refere ao preço dos combustíveis vendidos ao público. Como se sabe esse preço é subsidiado pelo Estado; nessa medida, se o custo do petróleo aumenta e o governo não aumentar os combustíveis, quer dizer que vai ter de suportar mais subsídios e gastar mais para manter os preços dos combustíveis. Se não o fizer pode estar a alimentar inflação, que já não é baixa em Angola e criar problemas sociais e de descontentamento.

Há aqui quatro fatores: aumento do preço, relações com a China, aumento das obrigações de pagamento de dívida e aumento do subsídio dos combustíveis que têm de ser tidos em conta para avaliar o real impacto da subida do preço do petróleo nas contas e economia angolana.

Na realidade, não dispomos de números precisos sobre esses impactos, apenas ideias de grandezas, e face a estas, a conclusão que se pode retirar é que um aumento de 50% do preço do petróleo em relação ao que está previsto no Orçamento deixa uma folga de tesouraria ainda acentuada depois do aumento do pagamento do serviço da dívida e do suporte à subida do preço dos combustíveis, sendo indubitável que uma “almofada” financeira será criada.

A esta “almofada” financeira, que, repete-se, não é diretamente proporcional ao aumento do preço do petróleo, acresce o fator feel good, de quantificação intangível, mas que já se nota nos principais atores económicos angolanos.

Quer isto dizer que depois de anos de grande sacrifício, há, finalmente, razões para um otimismo moderado relativamente à economia angolana.

A questão do preço dos alimentos

A par com o preço do petróleo, muitas outras classes de produtos básicos estão a aumentar de preço. Uma delas é a dos cereais, designadamente o trigo.

A Ucrânia e Rússia juntas respondem por um quarto de todas as exportações mundiais de trigo. O conflito está a elevar dramaticamente os preços do trigo. Com o início da guerra, o preço do alqueire de trigo subiu para US$ 12,94, 50% mais caro do que no início de 2022.

No meio de uma guerra, não está claro se os agricultores da Ucrânia estarão dispostos a gastar o capital que tiverem para plantar na próxima colheita, ou mesmo se estarão em condições de o fazer. O que é certo é que a Ucrânia anunciou a proibição de todas as exportações de trigo, aveia e outros alimentos básicos para evitar uma enorme emergência alimentar dentro de suas fronteiras. Portanto, exportações de trigo da Ucrânia, mesmo que exista produção, estão comprometidas.

Ao contrário do petróleo, que afeta os preços quase que no imediato, os preços dos grãos levam semanas, se não meses, para chegar aos consumidores. Na realidade, o grão cru precisa ser enviado para as instalações de processamento para fazer pão e outros alimentos básicos – e isso leva tempo. Nesse sentido, possivelmente, não será uma crise imediata para Angola, mas chegará ao país.

De acordo com fontes governamentais, Angola é autossuficiente em seis produtos agrícolas base: mandioca, batata-doce, banana, o ananás, os ovos e a carne de cabrito. No entanto, o trigo é a mercadoria mais importada, representando 11%.[7] Lembremo-nos que o trigo é um elemento essencial da dieta dos angolanos, o que aliás levou há alguns meses o ministro da Indústria e Comércio a sugerir a substituição do pão pela mandioca, batata-doce, banana assada e ginguba. Esta afirmação gerou muitas críticas. Contudo, do estrito ponto da autossuficiência económica talvez faça sentido, uma vez que possivelmente o preço do pão irá subir e eventualmente o preço dos bens nacionais pode descer, se existir mercado concorrencial adequado.

O que é certo é que Angola poderá correr o mesmo perigo do Egito, uma cultura extremamente assente no trigo que sofre perturbações sociais quando o preço do trigo sobe.

Quando os preços dos grãos dispararam em 2007-2008, os preços do pão no Egito subiram 37%. Com o desemprego a aumentar, mais pessoas ficaram dependentes de pão subsidiado– mas o governo não reagiu. A inflação anual dos alimentos no Egito continuou e atingiu 18,9% antes da queda do presidente Mubarak.

A maioria dos pobres nesses países não tem acesso a redes de segurança social. Imagens de pão tornaram-se centrais nos protestos egípcios que levaram à queda de Mubarak. Embora as revoluções árabes estivessem unidas sob o slogan “o povo quer derrubar o regime” e não “o povo quer mais pão”, a comida foi um catalisador. Aliás, note-se que os “motins do pão” vêm ocorrendo regularmente desde meados da década de 1980, geralmente após a implementação de políticas “aconselhadas” pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional.

Angola não é o Egito, mas é fundamental que o governo esteja muito atento à evolução do preço do trigo e do pão para evitar agitação social, numa fase em que começa a sair da prolongada crise.

No entanto, tal como no caso do petróleo existe uma outra face, e neste caso é positiva. A crise da produção agrícola derivada da guerra pode ser um momento de inflexão para uma aposta em Angola de investidores estrangeiros na agropecuária. Angola é dos países do mundo com mais potencialidades, como aliás já referimos em relatório anterior[8], portanto este pode ser o tempo de oportunidades para investidores verem a capacidade agrícola angolana e desfrutarem dela. Um dos sectores mais promissores e com mais potencial é a agropecuária. Há neste momento uma conjugação de fatores que a tornam uma das apostas mais rentáveis para o investimento em Angola.

Conclusões e recomendações

A guerra na Ucrânia tem variados impactos na economia angolana.

A subida do preço do petróleo, não trazendo receitas diretamente proporcionais, cria uma “almofada” no Tesouro e um feel good factor no empresariado, que poderá ser potenciador de crescimento.

A subida do preço dos cereais, em especial do trigo, pode criar graves pressões inflacionistas e descontentamento entre a população, situação para a qual o governo deve estar atento. Ao mesmo tempo, chamará a atenção para o potencial enorme de investimento que Angola tem como país agropecuário.

O governo deveria criar uma reserva especial proveniente das mais-valias do petróleo para garantir o abastecimento de cereais à população mais carenciada e também para promover o investimento agropecuário em Angola.


[1] https://www.imf.org/en/News/Articles/2022/03/05/pr2261-imf-staff-statement-on-the-economic-impact-of-war-in-ukraine

[2] https://www.angonoticias.com/Artigos/item/70611/optimismo-regressa-no-seio-dos-empresarios-seis-anos-depois

[3] Rui Verde, Angola at the Crossroads. Between Kleptocracy and Development (2021), p. 24.

[4] https://www.forumchinaplp.org.mo/pt/china-foi-o-destino-de-71-do-petroleo-exportado-por-angola-em-2020/

[5] Explicações dadas em reunião da Chatham House que aqui replicamos, respeitando as regras da casa.

[6] https://rna.ao/rna.ao/2022/03/03/preco-do-petroleo-a-cima-dos-cem-dolares-obriga-governo-angolano-a-pagar-mais-aos-credores/

[7] https://www.expansao.co.ao/economia/interior/grupo-carrinho-destaca-se-nas-importacoes-e-exportacoes-do-pais-106709.html

[8] https://www.cedesa.pt/2020/06/15/plano-agro-pecuario-de-angola-diversificar-para-o-novo-petroleo-de-angola/

The economic consequences in Angola of the Ukraine war

It is a fact that the war in Ukraine is affecting the entire world economy, and, certainly, this impact will also have political consequences[1], as the International Monetary Fund (IMF) immediately recognized.

The question that will be addressed in this report is about the specific impact of the war on the Angolan economy, which, as we know, is undergoing a demanding reform period and is about to emerge from a deep crisis. It will also superficially assess whether the economic impacts will have political influence.

The two faces of the impact of the oil price in Angola

Naturally, the first impact in Angola refers to the price of oil. The rise in the price of oil was a trend that had been going on for some time and was accentuated with the outbreak of the war. To some extent, it is not a novelty brought about by the Ukrainian crisis, but a direction that has been underway for months.

 On January 31, 2022, the price of a barrel of Brent was USD 89.9, on February 14, 2022, the value was USD 99.2. It is a fact that with the beginning of the war it reached USD 129.3 on March 8. At this point (March 16), it stabilized at USD 99.11. It seems that the equilibrium price of oil in the near future will be between USD 95-100, with, obviously, the possibility of shocks that make it rise or fall abruptly.

Fig. nº 1- Daily Chart of the Price of a Barrel of Brent (May 2021-March 2022)

Source: Trading Economics.com

In relation to Angola, we have to start from the budgeted forecast for 2022, which calculated the price of a barrel at USD 59. Therefore, there will be an added value since the beginning of the year corresponding to a minimum of 50% more. In this sense, as the budget was balanced, it means that there will be a financial surplus, which is obviously good news.

This rise in the price of oil therefore has, in the first place, two positive effects for Angola.

The first is at the level of extraordinary Treasury revenue, which will naturally increase. In simple terms, it can be said that there will be more money available from the state.

The second effect, which is already being felt, is the so-called “feel good factor” (or confidence index). Entrepreneurs and families are rethinking their expectations in a more positive direction, hoping for better signs from the economy. According to the Angolan National Statistics Institute, businesspeople are finally optimistic about the short-term prospects of the national economy, after remaining pessimistic for more than 6 years[2]. The rise in the price of oil is not the only reason for the optimism revealed, but it helps.

Note, however, that oil price gains do not translate directly into a positive budget balance. There are several constraints in translating the rise in oil prices into direct budgetary benefits for Angola.

The first of these is the type of relationship with China. China is the main buyer of Angolan oil. We do not know how the contracts are made and whether they automatically reflect price fluctuations. In the past, some intermediaries in the purchases and sales of oil to China even entered into fixed-price contracts that greatly harmed the Angolan Treasury[3]. It is imagined that such “schemes” no longer exist, but there are no certainties. What is certain is that, probably, the contracts between Angola and China regarding oil will contain some type of “dampers” that will imply that there is no direct impact on prices. Furthermore, some oil experts, such as those at Chatham House, believe that the fact that China buys around 2/3 of Angolan oil (actually 70%[4]) allows it a certain monopolistic control of the price, meaning that Chinese purchases are made in order to lessen price rises, undermining Angolan advantages[5].

Second, we have debt service. Apparently, there are contractual mechanisms that imply that a higher price of oil implies an increase in debt service, that is, in payments to be made. The Minister of Finance, Vera Daves, has already acknowledged that “what results from the price increase cannot be made an arithmetic account with production” and that the price of a barrel of oil, above one hundred dollars, forces Angola to pay more to their international creditors[6].

Furthermore, the rise in the price of oil also has a possible negative effect on the Angolan budget, which refers to the price of fuel sold to the public. As is well known, this price is subsidized by the State; to that extent, if the cost of oil increases and the government does not increase fuel, it means that it will have to bear more subsidies and spend more to maintain fuel prices. If you don’t, you could be fueling inflation, which is no longer low in Angola, and creating social problems and discontent.

There are four factors here: price increase, relations with China, increase in debt payment obligations and increase in fuel subsidy that have to be taken into account to assess the real impact of the rise in oil prices on the accounts and the Angolan economy.

In fact, we do not have precise figures on these impacts, only ideas of magnitude, and in view of these, the conclusion that can be drawn is that a 50% increase in the price of oil in relation to what is foreseen in the Budget leaves a treasury slack that is still accentuated after the increase in debt service payments and support for the rise in fuel prices, and it is undoubted that a financial “cushion” will be created.

The question of food prices

Alongside the price of oil, many other commodity classes are rising in price. One of them is cereals, namely wheat.

Ukraine and Russia together account for a quarter of all world wheat exports. The conflict is dramatically driving up wheat prices. With the start of the war, the price of a bushel of wheat rose to $12.94, 50% more expensive than at the beginning of 2022.

In the midst of a war, it is unclear whether Ukraine’s farmers will be willing to spend whatever capital they have to plant the next harvest, or even if they will be in a position to do so. What is certain is that Ukraine has announced a ban on all exports of wheat, oats and other staple foods to avoid a massive food emergency within its borders. Therefore, wheat exports from Ukraine, even if there is production, are compromised.

Unlike oil, which affects prices almost immediately, grain prices take weeks, if not months, to reach consumers. In reality, raw grain needs to be shipped to processing facilities to make bread and other staples – and that takes time. In this sense, possibly, it will not be an immediate crisis for Angola, but it will reach the country.

According to government sources, Angola is self-sufficient in six basic agricultural products: cassava, sweet potato, banana, pineapple, eggs and goat meat. However, wheat is the most imported commodity, accounting for 11%[7]. Let us recall that wheat is an essential element in the diet of Angolans, which a few months ago led the Minister of Industry and Commerce to suggest replacing bread with cassava, sweet potatoes, roasted bananas and “ginguba” (peanuts). This statement has generated much criticism. However, from the strict point of economic self-sufficiency it may make sense, since possibly the price of bread will rise and eventually the price of national goods may fall, if there is an adequate competitive market.

What is certain is that Angola could be in the same danger as Egypt, an extremely wheat-based crop that suffers social upheaval when the price of wheat rises.

When grain prices soared in 2007-2008, bread prices in Egypt rose by 37%. With unemployment on the rise, more people became dependent on subsidized bread – but the government didn’t react. Annual food inflation in Egypt continued and reached 18.9% before the fall of President Mubarak.

Most of the poor in these countries do not have access to social safety nets. Bread images became central to the Egyptian protests that led to Mubarak’s downfall. Although the Arab revolutions were united under the slogan “the people want to overthrow the regime” and not “the people want more bread”, food was a catalyst. Incidentally, it should be noted that “bread riots” have been occurring regularly since the mid-1980s, usually after the implementation of policies “advised” by the World Bank and the International Monetary Fund.

Angola is not Egypt, but it is essential that the government pay close attention to the evolution of wheat and bread price to avoid social unrest, at a stage when it begins to emerge from the prolonged crisis.

However, as in the case of oil, there is another side, and in this case it is positive. The crisis in agricultural production resulting from the war could be a turning point for foreign investors to invest in agriculture in Angola. Angola is one of the countries in the world with the most potential, as we have already mentioned in a previous report[8], so this may be the time of opportunity for investors to see Angola’s agricultural capacity and take advantage of it. One of the most promising sectors with the most potential is agriculture. There is currently a combination of factors that make it one of the most profitable bets for investment in Angola.

Conclusions and recommendations

The war in Ukraine has several impacts on the Angolan economy.

The rise in the price of oil, not bringing directly proportional revenues, creates a “cushion” in the Treasury and a “feel good factor” in the business community, which could be a growth booster.

The rise in the price of cereals, especially wheat, can create serious inflationary pressures and discontent among the population, a situation for which the government must be aware. At the same time, it will draw attention to the enormous investment potential that Angola has as an agricultural country.

The government should create a special reserve derived from the gains from oil to guarantee the supply of cereals to the poorer sections of the population and also to promote agricultural investment in Angola.


[1] https://www.imf.org/en/News/Articles/2022/03/05/pr2261-imf-staff-statement-on-the-economic-impact-of-war-in-ukraine

[2] https://www.angonoticias.com/Artigos/item/70611/optimismo-regressa-no-seio-dos-empresarios-seis-anos-depois

[3] Rui Verde, Angola at the Crossroads. Between Kleptocracy and Development (2021), p. 24.

[4] https://www.forumchinaplp.org.mo/pt/china-foi-o-destino-de-71-do-petroleo-exportado-por-angola-em-2020/

[5] Explanations given at a Chatham House meeting that we replicate here, respecting the house rules.

[6] https://rna.ao/rna.ao/2022/03/03/preco-do-petroleo-a-cima-dos-cem-dolares-obriga-governo-angolano-a-pagar-mais-aos-credores/

[7] https://www.expansao.co.ao/economia/interior/grupo-carrinho-destaca-se-nas-importacoes-e-exportacoes-do-pais-106709.html

[8] https://www.cedesa.pt/2020/06/15/plano-agro-pecuario-de-angola-diversificar-para-o-novo-petroleo-de-angola/

Os realinhamentos da política externa de Angola

1-Introdução. O reposicionamento geopolítico de Angola

No momento, em que terminamos este relatório, o Presidente da República de Angola encontra-se em Paris com o Presidente da República Francesa. Este encontro representa um dos pontos do realinhamento em curso da política externa de Angola. Basta lembrar que nos últimos tempos de José Eduardo dos Santos, os franceses estavam de “castigo” devido ao seu papel no Angolagate.

Angola não é um país indiferente. Tem desempenhado um papel geopoliticamente relevante ao longo da sua curta, mas intensa história após a independência. Primeiramente, foi um dos palcos violentos da Guerra Fria, onde americanos e soviéticos se digladiaram com a virulência que não podiam adotar noutras localizações geográficas. Angola acabou por ser um bastião soviético de grande nomeada, onde estes na realidade ganharam quando em confronto com os Estados Unidos. Depois da fase soviética, Angola foi mais uma vez inovadora e tornou-se o primeiro país africano a receber a nova China que se abria ao mundo e procurou em África um continente para a sua expansão e teste das suas ideias. Angola tornou-se um parceiro por excelência da China.

            Obviamente, sendo uma simplificação, do ponto de vista das grandes tendências a posição geopolítica de Angola começou por estar alinhada com a União Soviética e após a queda desta, com a China. Não se tratando dum país rabidamente antiocidental, muito longe disso, até porque Angola tem uma profunda influência da cultura europeia, o país ancorou-se em outras paragens ao longo do tempo.

Por várias razões, neste momento, Angola ensaia uma diferente aproximação geopolítica que tende a desvalorizar o papel quer da Rússia, quer da China, e a encontrar novas referências e diálogos políticos. Este texto debruçar-se-á sobre essa desvalorização, os novos vetores que influenciam o reposicionamento angolano, os países que agora desempenharão um papel mais relevante nas preocupações externas de Angola, além de uma curta nota sobre Portugal. Não se abordará a influência de Angola na África Austral e o seu papel de estabilização nos Congos.

2-O declínio da relação angolana com a Rússia e a China

O declínio da relação soviética (agora russa) com Angola é fácil de descrever. A aposta da União Soviética em Angola fazia parte de uma estratégia de longo-prazo de envolvimento do Atlântico Norte através dos países do Sul. A incursão em África que foi acelerada pela “perda” da influência no Médio-Oriente nos anos 1970s derivada do corte promovido por Sadat do Egipto e pelo aproveitamento oportuno de Kissinger. De repente, a União Soviética viu-se sem um dos suportes principais que tinha no Médio Oriente e de onde esperava condicionar os americanos. O certo é que essa situação levou a um aprofundamento de várias alternativas entre as quais mais tarde se destacou Angola. Naturalmente, que a queda do Muro de Berlim em 1989 e o final da Guerra Fria, com a consequente desagregação da União Soviética levaram a que o interesse russo em África esmorecesse consideravelmente. A Rússia que emergiu após o colapso de Gorbachev já não estava interessada em qualquer competição mundial com os Estados Unidos, mas na sua sobrevivência e transformação. Rapidamente perdeu o interesse em Angola.

            É certo que atualmente, Putin recuperou alguma da dinâmica imperial e procura alguma influência em África, mas ainda é de curto alcance e tem-se traduzido no envio de mercenários do grupo Wagner, que têm tido pouca eficácia, designadamente em Moçambique. Em Angola, não se nota uma atuação relevante da Rússia, sobretudo como parceiro essencial e determinante. Existem obviamente contactos e relações. Fala-se muito na influência russa em Isabel dos Santos, que será cidadã desse país, mas o certo é que não são visíveis investimentos ou laços russos com Luanda com manifesto relevo. Em 2019, foram anunciados investimentos russos em Angola de 9 mil milhões de euros, mas não se conhece sequência de tal. A isto acresce que a dívida pública externa de Angola à Rússia é zero de acordo com os dados do Banco Nacional de Angola (BNA), tendo sido liquidada na sua totalidade até 2019.

            Mais difícil é concluir pelo declínio da relação com a China. Na verdade, o investimento chinês em Angola tem vindo a crescer, pelo menos até 2020, e a dívida pública externa angolana face à China representava em 2020, 22 mil milhões de dólares, o equivalente a mais de 40% do total. A implantação chinesa em Angola é grande, bastando referir em termos sociológicos a relevância da Cidade da China.

            No entanto, há indícios que a preferência chinesa está a diminuir, ou pelo menos, a ser mitigada. O primeiro indício refere-se às negociações de um novo empréstimo que levou João Lourenço à China no início do seu mandato. As primeiras informações para a imprensa davam conta de montantes avultados a serem disponibilizados pela China, na ordem dos 11 mil milhões de dólares. A realidade é que houve variadas procrastinações nesse empréstimo, que acabou aparentemente para envolver uma quantia reduzida de 2 mil milhões de dólares que terá servido para fazer pagamentos de dívida angolana a empresas chinesas.

O certo é que se analisarmos a evolução da dívida pública externa angolana à China verificaremos que um houve um salto assinalável entre 2015 e 2016, de cerca de 11,7 mil milhões de dólares para 21,6 mil milhões de dólares, que a dívida atingiu o pico em 2017, 23 mil milhões de dólares e que desde aí tem vindo a diminuir com uma cadência significativa. Afigura-se que a China não se quer envolver mais com Angola, preferindo ir gerindo o atual envolvimento.

            Se da parte da China se poderá vislumbrar alguma recalcitrância na relação com Angola, da parte angolana também existem obstáculos. O primeiro deles é a natureza da dívida angolana à China. Muitos alegam que uma boa parte desta dívida é o que se chama “dívida odiosa”, isto é, serviu para beneficiar interesses privados corruptos e não o desenvolvimento do país. Existe a impressão que a opacidade com que se fazem os negócios com a China permitiu a criação de situações de corrupção demasiado evidentes e prejudiciais ao país. Assim, a dívida da China é, em parte, vista como dívida da corrupção. A isto acresce que surgiram problemas de qualidade nalgumas construções chinesas em Angola financiadas por dívida chinesa. Não está claro se essa falta de qualidade se deve a qualquer negligência chinesa ou a comportamentos censuráveis por parte de responsáveis angolanos, mas o certo é que a imagem persiste.

            Isto quer dizer que sendo ainda a China um parceiro fundamental de Angola, está-se, neste momento, numa espécie de fase de reavaliação. Forçosamente há que resolver o problema da dívida do passado ligada à corrupção, do modo de agir contratual demasiado opaco por parte da China e também as questões ligadas à qualidade. É uma tarefa exigente, mas necessária para reativar o interesse comum chinês e angolano.

            Se a relação com a Rússia não tem a relevância do passado e com a China está numa fase de reavaliação e recondicionamento, é evidente que Angola, sobretudo, atendendo às mudanças porque passa, terá que buscar novos parceiros ativamente.

3-Os novos vetores de atuação angolana: objetivos e países

A relação angolana com a Rússia e a China coincidiu com a necessidade de afirmar uma soberania própria e independente de interferências externas, e também da obtenção de fundos para a guerra e reconstrução pós-guerra. A atual política externa de João Lourenço coloca-se num patamar ligeiramente diferenciado, em que é importante congregar o apoio externo para as duas grandes reformas que estão a ser levadas a cabo internamente: a reforma económica e a luta contra a corrupção. Ambas as reformas necessitam de colaboração externa, sem o qual podem não sobreviver.

            A reforma económica assenta no chamado consenso de Washington proposto pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), embora os intelectuais e burocratas internacionais tenham já abandonado esta designação e a recusem. Ainda assim, implica a adoção de políticas de alargamento dos impostos e restrição da despesa com a respetiva consolidação fiscal. Naturalmente que este tipo de políticas é recessivo, aumenta, no curto-prazo, a crise económica em Angola. A grande forma de ultrapassar este efeito é obter investimento externo e muito. Aliás, diz a teoria seguida, que havendo estas reformas disciplinadoras do FMI, os investidores estrangeiros passam a confiar nos governos que as seguem e sentem-se seguros para investir. Em resumo, o investimento estrangeiro é o contrapeso necessário às reformas do FMI e a chave do sucesso destas. Consequentemente, não admira que um dos principais vetores da política externa angolana seja a aproximação a países com capacidade de investimento reprodutor assinalável e com provas dadas.

            Naquilo que diz respeito à luta contra a corrupção, o panorama que se apresenta é que, de uma maneira geral, são os países com potencialidades para investir em Angola, aqueles em que é necessária a colaboração judicial para recuperação de ativos ou traço de movimentos financeiros ilegais. As oligarquias angolanas que desviaram fundos públicos remeteram-nos para os países mais avançados ou com maior potencial financeiro.

Portanto, há um grupo de países que atualmente interessa de sobremaneira a Angola: são aqueles com capacidade de investimento eficiente e com um sistema financeiro por onde passaram muitos dos movimentos ilícitos de fundos angolanos, bem como onde se sedearam ativos comprados, possivelmente, com esses fundos. Neste momento, nem a China, nem a Rússia são países de onde se espere mais investimento, nem foram os locais escolhidos, aparentemente, para parquear bens ou ativos ilícitos. Ou se foram não há qualquer conhecimento do que lá se passa e está acolhido.

            É neste contexto que tem assumido relevância uma série de países. Um primeiro grupo são os países da Europa Ocidental que se têm destacado em visitas e anúncios de investimentos em Angola. No início deste mês de Abril de 2021, o primeiro-ministro de Espanha, Pedro Sanchez, fez uma visita a Angola. Esta visita foi acompanhada de grande empenho espanhol, afirmando Angola como um dos parceiros preferenciais de Espanha em África, e esta como uma grande aposta espanhola. Anunciou-se que Angola era a “proa” duma empreitada de Madrid a que chamou “Foco África 2023.” No ano passado, tinha sido a vez da Chanceler alemã Angela Merkel visitar Angola no âmbito de um Fórum Económico Angola-Alemanha e mais alargadamente de um Plano Marshall alemão para África. Também, o Presidente Macron anunciou uma visita a Angola, que tem sido adiada devido à Covid-19. Por sua vez o Presidente italiano já havia visitado Angola em 2019. Em relação ao Reino Unido não tem havido visitas deste nível tão elevado, mas começa a notar-se algum interesse por Angola devido às imposições do Brexit, que exigem novos mercados para o Reino Unido, embora haja um enorme desconhecimento.

            Às visitas têm sucedido variadas promessas de investimento da Europa Ocidental. A empresa italiana de petróleos (ENI) prevê investir sete mil milhões de dólares (5,9 mil milhões de euros), nos próximos quatro anos, na pesquisa, produção, refinação e energia solar, anunciou no início de abril de 2021. Antes empresários britânicos afirmaram pretender investir em Angola cerca de 20 mil milhões de dólares. Também a Alemanha e a França têm vários projetos em curso.

            Este eixo da Europa Ocidental tornou-se fundamental na política externa angolana, pois estes países necessitam de novos mercados e investimentos, para saírem da excessiva dependência da China, e no caso britânico, também para procurar alternativas pós-Brexit, e sendo mercado maduros, têm de ir ao encontro de onde está a juventude e o futuro, e isso está em África.

Conseguindo João Lourenço passar a imagem que rege um governo competente e com regras macroeconómicas estáveis e viradas para o mercado livre, os investidores espanhóis, franceses, britânicos, italianos ou alemães sentir-se-ão seguros para investir. Ao mesmo tempo, nestes países residem muitas das fortunas saídas de Angola, portanto, haverá oportunidade de criar mecanismos para a sua recuperação ou redirecção.

            Note-se que ao contrário do que se poderia pensar, esta Ocidentalização da política externa de Lourenço não passa por Portugal, mas indica uma abordagem direta entre os países europeus e Angola e vice-versa.

            A este eixo Europeu Ocidental há que adicionar outro, o eixo do Golfo. Os países do Golfo, em que se destacam os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita. Estes países, previamente dependentes do petróleo, entraram numa política de diversificação. O Dubai já há alguns anos e com tremendo sucesso. A Arábia Saudita ainda dá os primeiros passos, com a chamada Visão 2030, mas o certo é que querem investir fora do seu âmbito tradicional e encontrar novos mercados. Na verdade, o Dubai já tem vários investimentos em Luanda e uma sua empresa tomou agora conta do Porto de Luanda e na Arábia Saudita, Luanda abriu agora uma Embaixada, o que revela bem o interesse no reino. Por outro lado, como se sabe, o Dubai é um centro financeiro internacional de grande nomeada e por onde passou variada movimentação financeira angolana, bem como foi utilizado nos esquemas de fuga ao fisco no comércio de diamantes. Alegadamente, ao contrário do que tem sido a sua prática, o Dubai estará a colaborar com os pedidos de auxílio judiciário angolanos, representando um exemplo típico do novo eixo geopolítico que estamos a descrever, países com potencial de investimento e de colaboração judicial na luta contra corrupção.

            Sumariamente, concluímos que uma nova aproximação geopolítica angolana se centra nos países da Europa Ocidental e do Golfo Pérsico. Mas não se fica por aqui.

4-O potencial da Índia

            A quantidade de comércio entre a África Subsaariana e a Índia tem crescido de forma consistente, e hoje a Índia é um parceiro comercial fundamental de África. Relativamente a Angola, o país é hoje o terceiro exportador na África subsaariana mais importante para a Índia, quando em 2005 não tinha relevância. Em 2017, o Embaixador da Índia emitiu um comunicado no qual destacou: “O comércio entre Angola e a Índia aumentou 100% para US $ 4,5 biliões em 2017, (…) No final de julho, à margem da 10ª cimeira dos BRICS, em Joanesburgo, o presidente de Angola, João Lourenço, reuniu-se com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e os dois reafirmaram a necessidade de aumentar o comércio e a cooperação em áreas como energia, agricultura, alimentos e processamento farmacêutico.”. Há medida que a Índia vai crescendo e se tornando um ator muito importante a nível mundial, é normal que Angola olhe para este país com uma nova visão. Trata-se de um mercado milionário para onde uma imensidão das exportações angolanas pode chegar.

5-Estados Unidos da América. The ultimate prize

            A relação entre Angola e os Estados Unidos tem sido ambígua. Na verdade, mesmo nos tempos em que a administração norte-americana apoiava Jonas Savimbi e a UNITA, havia um relacionamento com Luanda ligado ao petróleo e à proteção das multinacionais americanas a operar em território dominado pelo governo do MPLA.

            Atualmente, os Estados Unidos representam tudo o que Angola deseja, o país do dólar com uma capacidade de investimento e inovação financeira invejável, com uma estrutura jurídica universalizante que permite lançar mão de múltiplos instrumentos legais por todo o mundo para perseguir as fortunas da corrupção. É também dos Estados Unidos que Angola necessita que sejam levantados os vários “sinais vermelhos” que foram sendo erguidos nos tempos de José Eduardo dos Santos e tornaram a vida financeira angolana muito mais difícil. Os Estados Unidos são o país chave para esta nova fase angolana de investimento externo e combate à corrupção, porque daqui pode vir os estímulos definitivos de avanço.

            De certa forma, João Lourenço teve azar em se deparar com Trump, quando necessitava dos EUA. É conhecido que Trump não tinha qualquer interesse em África, que apenas serviu para a sua mulher realizar uma viagem em trajes estilo colonial.  Pior teria sido impossível. Mas a indiferença americana não tem de ser um obstáculo a um maior empenho angolano nas relações com a superpotência. No início dos anos 1970, Anwar Sadat do Egipto também decidiu que se queria aproximar dos Estados Unidos. Estes ocupados com mil e uma crises, entre as quais se destacava o Vietname não deram qualquer atenção a Sadat, que não deixou de seguir a sua linha, expulsando os conselheiros soviéticos e iniciando uma aproximação aos norte-americanos.

Comparações e evoluções históricas à parte-Sadat acabou assassinado por ter assinado um acordo da paz com Israel sobre os auspícios americanos- o que parece mais lógico para Angola nesta fase é acentuar uma aproximação aos Estados Unidos, mesmo que estes não estejam atentos. E não estarão, pois entre a Covid- 19, a China e a Rússia, e múltiplas pequenas crises internas têm muito com que se ocupar. No entanto, o apoio efetivo e real dos EUA à nova política angolana é fundamental para que o país saia do marasmo e deixe de ter os condicionalismos financeiros externos, portanto, uma vigorosa aproximação à administração norte-americana seria aconselhável por parte de Angola, apesar da desconfiança mútua que existe.

6-Portugal é diferente

            A propósito da visita de Pedro Sanchez, primeiro-ministro espanhol, a Angola surgiu algumas críticas ao governo português, acusando-o de inação e de estar a ser ultrapassado por Espanha. Isto é um disparate. Nem Portugal pode pensar ter o monopólio das relações com Angola, nem sequer há qualquer perigo nas relações luso-angolanas. Portugal é sempre um caso à parte, a sua influência vem menos do governo e mais do soft power, da ligação umbilical que se mantém entre os povos de ambos os países. Luanda continua a parar quando o Sporting ganha o campeonato ou o Benfica tem um jogo muito importante, o destino preferido da maior parte dos angolanos é Portugal, as relações pessoais fáceis estabelecem-se entre portugueses e angolanos. Os empresários portugueses olham sempre para Angola como uma possibilidade de expansão dos seus negócios. As relações entre Angola e Portugal têm subjacente um entrosamento entre os povos antes da intervenção dos governos.

            A nível oficial o governo português é geralmente acolhedor em relação a Angola. Em 2005 acolheu os desejos de investimento angolano, atualmente, acedeu aos pedidos de cooperação judicial de Angola relativamente a Isabel dos Santos, como antes acabou por enviar o processo de Manuel Vicente para Angola após grande pressão de Luanda. Digamos que há uma porosidade manifesta da posição portuguesa, adaptando-se com facilidade às posições e necessidades de Luanda. Esta posição aliada ao interesse das elites angolanas em Portugal, tem acabado por consolidar uma boa relação entre os dois países, apesar de um ou outro solavanco. É evidente que após o 25 de Abril de 1974, Portugal desinteressou-se de África, fazendo como sua prioridade número um a adesão à Europa e o tornar-se um país moderno ocidental. Este projeto está um pouco enrodilhado desde 2000, mas não levou Portugal ainda a uma revisão do seu foco europeu, apenas o obrigou a um olhar mais prolongado para África, depois de décadas de desinteresse. Talvez exista um momento em que Portugal queira centrar a sua política externa nos países lusófonos, mas esta não é a altura, como não é para Angola, que quer abraçar outras fonias, como a anglófona e francófona, portanto, o melhor que os governos podem fazer é facilitar o máximo a vida aos seus povos que desejem trabalhar em comum e apoiar mutuamente as solicitações de cada uma das partes, mas pouco mais.

Conclusão

O sumário da nova posição geopolítica angolana é que Angola aposta nos vetores ligados ao investimento externo e combate contra a corrupção, assumindo relevância na política externa parcerias com a Europa Ocidental, Espanha, França, Itália, Alemanha, Reino Unido, com o Golfo Pérsico, Emirados e Dubai, e com a Índia. Ao mesmo tempo, antecipa-se um reforço das relações com os Estados Unidos. Portugal terá sempre um lugar à parte.


Bibliografia utilizada

-Banco Nacional de Angola-Estatísticas- www.bna.ao

-Douglas Wheeler e René Pélissier, História de Angola, 2011

-Ian Taylor, India’s rise in Africa, International Affairs, 2012

-José Milhazes, Angola – O Princípio do Fim da União Soviética, 2009

-Robert Cooper, The Ambassadors: Thinking about Diplomacy from Machiavelli to Modern Times, 2021

-Rui Verde, Angola at the Crossroads. Between Kleptocracy and Development, 2021

-Saudi Vision 2030- https://www.vision2030.gov.sa/en

-Tom Burgis, The Looting Machine. Warlords, Tycoons, Smugglers and the Systematic Theft of Africa’s Wealth, 2015.

-Factos públicos e informativos retirados da Lusa, DW, Jornal de Negócios, Jornal de Angola, Angonotícias e Novo Jornal.