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Retorno ao século XIX? A Nova Política Americana para África da Administração Trump

Rui VerdeDiretor Investigação CEDESA

Durante o primeiro ano do seu mandato, Donald Trump não demonstrou qualquer interesse particular por África.

O continente parecia permanecer na periferia das prioridades estratégicas de Washington, reduzido a notas de rodapé em discursos sobre terrorismo, migração ou uma putativa proteção do cristianismo na Nigéria.

Contudo, algo mudou recentemente. A súbita reorientação da política externa norte‑americana em direção ao continente africano não surge do nada: é impulsionada por J.D. Vance e Marco Rubio, que vêem mais além da retórica confusa de Trump e compreenderam que África se tornou um dos tabuleiros centrais da competição sistémica com a China.

A estratégia é subtil — ou pretende sê-lo — evitando hostilizar Beijing de forma explícita, mas o subtexto é evidente: os EUA querem recuperar terreno num continente onde a China consolidou uma presença económica, diplomática e industrial sem precedentes.

O que emerge agora é uma política americana para África que combina a possibilidade do poder militar, a capacidade financeira e a diplomacia agressiva, com o objetivo de garantir acesso privilegiado a terras raras, minerais críticos e recursos estratégicos indispensáveis às cadeias de valor do século XXI.

A retórica é moderna, mas a lógica lembra o retorno ao imperialismo das canhoneiras do século XIX: projeção de força, criação de dependências e captura de ativos estratégicos sob o pretexto de “estabilidade” e “parcerias”. O Estado imperial vai à frente, ou ao lado, para abrir caminho para as suas empresas privadas.

A cimeira inaugural de minerais críticos organizada por Washington esta semana — reunindo representantes de 54 países, muitos deles africanos — foi apresentada como um encontro diplomático.

Contudo, nos bastidores, a mensagem dirigida aos investidores foi inequívoca: os EUA e os seus aliados estão dispostos a gastar bastante dinheiro para redesenhar as cadeias globais de abastecimento mineral provenientes de África.

O secretário de Estado, Marco Rubio, evitou mencionar a China, preferindo alertar para cadeias de valor “excessivamente concentradas” e para a vulnerabilidade criada por décadas de deslocalização industrial. A mensagem implícita foi clara: assegurar estes recursos exigirá novas estratégias e capital político e financeiro.

A estratégia americana já está em marcha. Na véspera da cimeira, a Glencore — gigante suíça das commodities — acordou vender 40% dos seus ativos de cobre e cobalto na República Democrática do Congo (RDC) a um consórcio apoiado pelo governo dos EUA, por 3,6 mil milhões de dólares.

O valor surpreendeu analistas e operadores do setor. Como observou Calisto Radithipa, cofundador da Kemcore, “reflete como o capital ocidental está agora disposto a pagar para garantir controlo não chinês de ativos-chave”.

Rubio pretende tornar estes prémios sustentáveis, propondo uma Zona de Comércio Preferencial com preços mínimos que estabilizem mercados afetados por excesso de oferta e manipulação de preços. O objetivo é simples: dar confiança aos investidores de que projetos fora da esfera chinesa podem gerar retornos previsíveis.

A isto soma-se a proposta de um stock estratégico de 12 mil milhões de dólares para minerais críticos — um instrumento que a União Europeia e o Japão também estudam, numa tentativa de amortecer choques e contrariar práticas de mercado dominadas por Beijing

Para produtores africanos como Angola, RDC, Gabão, Nigéria e Zâmbia, esta mudança abre uma janela rara de alavancagem. O acordo da Glencore demonstra que os governos ocidentais estão dispostos a colocar dinheiro em cima da mesa.

Mas transformar este momento numa vantagem duradoura exige planeamento estratégico, e não oportunismo de curto prazo, para os governos africanos.

É sobretudo importante que os dirigentes africanos não desperdicem os eventuais ganhos em luxos e apropriação corrupta privada, e ao mesmo tempo, mantenham a sua autonomia estratégica face às grandes potências.

A presença do presidente da RDC em Washington esta semana ilustra bem esta dinâmica. Félix Tshisekedi procurou reforçar a posição do seu país num contexto de crescente interesse ocidental pelos minerais críticos.

Num evento da Câmara de Comércio dos EUA, apresentou a RDC como “parceiro estratégico” na tentativa americana de assegurar cadeias de abastecimento essenciais para veículos elétricos, tecnologias de defesa e inteligência artificial. Como outros países africanos, a RDC — maior produtora mundial de cobalto — quer ultrapassar o modelo de exportação de matérias-primas e avançar para o processamento e a manufatura.

O desafio é monumental: a cadeia de valor congolesa é dominada por empresas chinesas, desde a extração até à refinação, que ocorre maioritariamente na China.

Tshisekedi tenta inverter esta dependência, ligando a nova parceria com os EUA à segurança interna. Argumenta que a mineração ilícita e as cadeias informais alimentam a violência no leste da RDC. Formalizar essas cadeias e reforçar a rastreabilidade seria, segundo ele, essencial para estabilizar o país e proteger investimentos de longo prazo.

Há duas grandes dúvidas:

Tshisekedi é um líder fraco, que não domina o seu território, e está empenhado numa espécie de guerra civil, que tem estado a perder. Quer a intervenção da força dos Estados Unidos para contrapor ao Ruanda.

Além disso, a China tem estado silenciosa, a observar, mas é impossível que não reaja, quando perceber que há movimento efetivo no terreno, e não apenas a habitual retórica oca de Donald Trump. É que neste caso nem é ele o motor americano, mas dois dos seus ajudantes, que antes de o serem eram realistas e críticos das asneiras de Trump (Vance e Rubio).

Em termos da perspetiva africana, há que aferir se estamos perante uma nova oportunidade para África ou apenas perante uma atualização tecnológica do velho extrativismo imperial?

A disposição dos EUA para pagar prémios elevados por ativos estratégicos pode fortalecer a posição negocial dos países africanos, mas também pode cristalizar novas dependências, agora sob a bandeira da “segurança das cadeias de abastecimento”.

A história ensina que momentos como este são raros e perigosos. África encontra-se, mais uma vez, no centro de uma disputa global entre grandes potências.

A diferença é que, desta vez, o continente tem maior margem de manobra, maior consciência estratégica e maior capacidade de exigir contrapartidas.

A questão decisiva será saber se os governos africanos conseguem transformar esta conjuntura num projeto de desenvolvimento endógeno — ou se permitirão que o século XXI repita, com novos atores e novas tecnologias, as velhas lógicas das canhoneiras e as habituais práticas de corrupção e enriquecimento privado dos dirigentes.

E falta ver o que fará a China. Deng Xiao Ping ensinou que a estratégia mundial chinesa era “esconder a força e aguardar o momento certo” ((韬光养晦).

Referências:

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Briefing CEDESA: A nova estratégia africana da administração Trump

A administração Trump tem vindo a redefinir profundamente a sua estratégia para África, afastando‑se de abordagens maximalistas e optando por um pragmatismo seletivo que procura afastar a China apenas de setores considerados vitais para a resiliência económica norte‑americana.

Em vez de tentar competir com Pequim em grandes obras de infraestrutura — terreno onde a China consolidou uma vantagem quase incontornável — Washington concentra‑se agora em áreas de alto valor estratégico, sobretudo minerais críticos e cadeias de abastecimento essenciais para tecnologias avançadas.

Esta mudança de orientação foi explicitada por Nick Checker, responsável pelo Bureau de Assuntos Africanos, ao sublinhar que os Estados Unidos não pretendem disputar cada centímetro do continente, mas sim proteger segmentos sensíveis da sua economia, onde a dependência externa representa um risco sistémico.

A nova abordagem assenta numa combinação de diplomacia comercial, maior exigência aos países parceiros e métodos inovadores de assistência, procurando substituir discursos moralizantes por incentivos concretos ao crescimento económico e à estabilidade. Checker insiste que muitos governos africanos acolhem favoravelmente esta postura mais pragmática, que privilegia segurança, investimento e criação de valor local. Um e‑mail interno do Departamento de Estado descreveu África como “periférica” para os interesses dos EUA, mas não irrelevante, defendendo um envolvimento seletivo e orientado para resultados tangíveis.

 Esta franqueza estratégica reflete a perceção de que os recursos diplomáticos e financeiros norte‑americanos devem ser aplicados onde produzem maior retorno geopolítico.

Neste contexto, Washington tem dado atenção especial a países como Quénia, Angola e República Democrática do Congo, considerados polos regionais capazes de ancorar parcerias mais amplas.

Paralelamente, organiza agora uma cimeira dedicada aos minerais críticos com vários países africanos — entre eles a República Democrática do Congo, a Guiné, o Quénia e a Zâmbia — com o objetivo de reforçar alianças estratégicas e atrair investimento norte‑americano para o processamento e a refinação no próprio continente.

Esta iniciativa responde à crescente preocupação das empresas americanas com a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento dominadas pela China, sobretudo no que diz respeito ao cobalto, ao lítio e ao grafite. Para apoiar esta viragem, a administração está a requalificar pessoal diplomático, dotando‑o de competências em diplomacia comercial e negociação económica, numa tentativa de alinhar a ação externa com as necessidades das empresas norte‑americanas.

É neste quadro que se insere o renovado interesse dos Estados Unidos na República Democrática do Congo, país que detém algumas das maiores reservas mundiais de cobre, cobalto e coltan, minerais indispensáveis para baterias, semicondutores e veículos elétricos. Empresas como a Freeport‑McMoRan, que durante anos operou na mina de Tenke Fungurume antes de vender a sua participação à China Molybdenum, continuam a influenciar o debate político em Washington, defendendo a necessidade de contrabalançar a presença chinesa no setor mineiro congolês.

Gigantes tecnológicos como a Tesla, a Apple e a General Motors surgem frequentemente em relatórios do Congresso como beneficiários indiretos de uma cadeia de abastecimento mais estável e menos dependente de refinadores chineses, o que explica a intensificação da diplomacia económica norte‑americana em Kinshasa.

Embora os EUA evitem compromissos operacionais diretos, têm explorado com o governo congolês modelos de cooperação que combinam segurança, fiscalização e investimento em infraestruturas.

É precisamente neste espaço intermédio — onde interesses estratégicos se cruzam com a ausência de uma presença estatal robusta — que reaparece a figura controversa de Erik Prince. Conhecido pela fundação da Blackwater e por operações de segurança privada em múltiplos teatros de conflito, Prince tem procurado reposicionar‑se como fornecedor de soluções logísticas e de fiscalização para o setor mineiro congolês. Através da Frontier Resource Group e de outras estruturas empresariais sucessoras, negociou com Kinshasa um acordo destinado a reforçar a cobrança fiscal, combater o contrabando e organizar corredores logísticos, sobretudo na região de Katanga. Embora o mandato formal seja civil, a reputação de Prince e o seu histórico de tentativas de mobilizar ex‑militares estrangeiros — incluindo antigos legionários franceses — suscitam receios de uma privatização de funções soberanas num contexto já marcado por instabilidade e competição geopolítica. A ofensiva do M23 e a deterioração da segurança no Kivu do Norte obrigaram a deslocar o foco das operações inicialmente previstas para Goma, concentrando‑se em zonas mais estáveis do sul, mas sem abandonar a ambição de influenciar fluxos minerais estratégicos.

A convergência entre o interesse norte‑americano por minerais críticos e a presença de Prince não implica coordenação formal, mas revela uma dinâmica estrutural: enquanto Washington procura garantir cadeias de abastecimento seguras para empresas como a Ford, a IBM ou a Qualcomm, atores privados oferecem‑se para preencher lacunas de segurança e fiscalização que o Estado congolês não consegue suprir.

O resultado é um cenário em que interesses comerciais, pressões geopolíticas e iniciativas privadas de segurança se entrelaçam, moldando o futuro da exploração mineral na RDC e expondo o país a novas formas de dependência e contestação internacional.

Trump e o seu “International Law” ou como a “força da lei” é estilhaçada pela “lei da força”

por: Eugénio Costa Almeida

1. Como referiam, Morgenthau (1949), Bull (2002), e Ikenberry (2011), a ordem internacional liberal construída no pós-Segunda Guerra Mundial assentou num compromisso histórico entre poder e norma. A experiência traumática de dois conflitos mundiais levou à convicção de que a estabilidade internacional não poderia depender exclusivamente do equilíbrio de forças, mas exigia um enquadramento jurídico capaz de limitar o recurso arbitrário à violência. A Carta das Nações Uni[i]das, o desenvolvimento do direito internacional público e a consolidação do multilateralismo institucionalizaram princípios como a soberania, a integridade territorial, a igualdade jurídica dos Estados e a proibição do uso da força, estabelecendo uma arquitetura normativa destinada a conter a lógica do facto consumado.

Todavia, esta ordem nunca foi isenta de tensões. Desde o início, coexistiram nela o poder material das grandes potências e a pretensão universalista das normas. O que distingue o momento atual é a erosão deliberada dessas normas a partir do interior do próprio Ocidente. O presidente norte-americano Donald J. Trump emerge como um dos principais catalisadores dessa ruptura, não por propor uma alternativa coerente ao Direito Internacional, mas por reduzir a legalidade internacional a um instrumento contingente, subordinado à lógica da vantagem imediata.

A visão trumpiana das Relações Internacionais assenta num transacionalismo radical. Tratados, alianças e compromissos multilaterais são avaliados como contratos comerciais: mantêm-se enquanto gerarem benefícios tangíveis e descartam-se quando implicam custos políticos, financeiros ou estratégicos.

Nesta perspetiva, o Direito Internacional – na perspectiva anglófona e mais adoptada, ultimamente, ou Direito Internacional Público, na perspectiva latina – deixa de ser um quadro normativo vinculativo e transforma-se numa ferramenta seletiva, aplicada de forma assimétrica. A lei não desaparece, mas deixa de ser universal; passa a ser funcional ao poder.

Esta abordagem aproxima-se de uma leitura empobrecida do realismo político. Ao contrário do realismo clássico, que reconhece a utilidade das normas para reduzir incertezas e estabilizar sistemas de poder, Trump parece rejeitar mesmo essa dimensão instrumental. A coerção directa, a pressão económica, as sanções unilaterais e a ameaça implícita do uso da força tornam-se mecanismos preferenciais de acção externa. O resultado é um sistema internacional mais volátil, menos previsível e estruturalmente mais permissivo à violência.

2. A guerra na Ucrânia constitui, continua a constituir, o exemplo mais claro dessa erosão normativa. A invasão russa, de Fevereiro de 2022, representou uma violação inequívoca da Carta das Nações Unidas e do princípio da integridade territorial. No entanto, Trump adoptou uma postura ambígua e, em vários momentos, complacentep em relação ao líder russo Vladimir Putin. As suas iniciais declarações públicas sugerindo que a Rússia foi “provocada” pela NATO ou que a Ucrânia deveria aceitar perdas territoriais para alcançar a paz contribuem para uma narrativa que relativiza a responsabilidade do agressor.

Esta posição tem consequências estratégicas profundas. Ao legitimar implicitamente a revisão de fronteiras pela força, Trump fragiliza um dos pilares centrais da ordem internacional contemporânea. Se a soberania territorial se torna negociável em função do poder militar, o sistema regressa a uma lógica pré-Westfaliana1, onde a força prevalece sobre a norma. Além disso, esta ambiguidade mina a credibilidade das garantias de segurança ocidentais e da NATO e incentiva outras potências revisionistas a testar os limites da ordem internacional.

A relação de Trump com a NATO reforça esta leitura. Ao reduzir a Aliança Atlântica a uma equação financeira baseada nos níveis de despesa militar dos aliados, Trump ignora o seu carácter político e estratégico. A segurança colectiva deixa de ser entendida como um bem público e passa a ser tratada como um serviço transaccionável. Esta lógica enfraquece a coesão transatlântica, aumenta a percepção de vulnerabilidade na Europa e compromete a eficácia da dissuasão coletiva.

3. No Indo-Pacífico, a questão de Taiwan revela outra faceta crítica do “International Law” trumpiano. Apesar de Taiwan representar um caso paradigmático de democracia liberal sob ameaça, Trump raramente a enquadra numa lógica de valores ou de direito à auto-determinação. A secessionista ilha chinesa surge, sobretudo, como um activo estratégico, central para as cadeias globais de semi-condutores e, por conseguinte, para a competitividade tecnológica e militar dos Estados Unidos.

Esta instrumentalização de Taiwan reduz uma questão jurídico-política complexa a uma variável de barganha no confronto económico com a China. A ambiguidade estratégica, quando não sustentada por um compromisso normativo claro, aumenta o risco de erro de cálculo. Trump, ao não afirmar, inequivocamente, o princípio da não alteração do “status quo” pela força – o que de certa forma vai ao encontro do que está a ponderar com um vizinho e aliado, como adiante será descrito –, contribui para um ambiente regional mais instável e propenso à escalada.

A relação com Pequim evidencia igualmente um pragmatismo económico selectivo, particularmente visível na questão dos minérios raros. Estes recursos são fundamentais para a transição energética, a indústria tecnológica e os sistemas de defesa avançados, conferindo à China uma vantagem estrutural significativa. Em vez de promover uma resposta multilateral coordenada ou um regime internacional de gestão estratégica desses recursos, Trump privilegia negociações bilaterais e acordos “ad hoc”, frequentemente desprovidos de enquadramento jurídico sólido.

Esta lógica de curto prazo compromete a construção de resiliência estratégica a médio e longo prazo. Ao subordinar princípios normativos a ganhos económicos imediatos, os Estados Unidos – leia-se, Donald Trump – contribuem para a fragmentação da governança global e para o enfraquecimento das instituições internacionais que, paradoxalmente, sustentaram a sua própria hegemonia.

Os casos da Venezuela e da Gronelândia constituem, talvez, os exemplos mais explícitos da subordinação do político ao económico, na visão trumpiana.

4. A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela foi justificada pela administração Trump com um conjunto de razões políticas e económicas entrelaçadas, embora muitos analistas (re)afirmem que as explicações oficiais encobrem motivações mais profundas e controversas.

Politicamente, a Casa Branca apresentou a Venezuela como um Estado que representaria uma ameaça directa à segurança regional por sua participação no narcotráfico e no apoio a grupos terroristas, e como um exemplo de autoritarismo que deveria ser substituído por um governo mais alinhado com os interesses dos EUA no hemisfério ocidental. Críticos desta narrativa sublinham que a retórica de Trump tendia a deslocar o foco dos princípios democráticos para a simples criação de uma “vizinhança amigável” ou uma esfera de influência na América Latina – em linha com uma versão moderna da “Doutrina Monroe”, e que Trump parece ter designada de “Doutrina Donroe” – em que Caracas deveria ser um Estado cujo alinhamento geopolítico e político servisse a Washington.

Economicamente, poucas nações possuem reservas de petróleo tão vastas quanto a Venezuela. Embora a produção tenha sido severamente reduzida por décadas de má-gestão e sanções, o país continua a deter uma das maiores reservas do mundo. As operações militares e a subsequente detenção – ou rapto, como muitos analistas fazem questão de sublinhar – de Nicolás Maduro e pelos EUA foram amplamente interpretados como impulsionadas pelo objectivo de assegurar influência sobre esses recursos petrolíferos, não apenas para garantir fornecimento energético, mas também para revitalizar companhias petrolíferas americanas depois de décadas de competição com empresas estatais aliados de Caracas.

A própria dinâmica da intervenção, incluindo a captura do presidente venezuelano e as declarações subsequentes de que os EUA “governariam” e reconstruiriam o país, reforça a crítica de que, por detrás das justificações públicas de combate ao crime transnacional ou à tirania, há um interesse económico profundo ligado ao petróleo e à (re)influência estratégica de Washington DC na América do Sul, o que está a preocupar alguns dirigentes políticos latino-americanos.

5. Já quanto à proposta de Trump de adquirir ou mesmo ocupar a Gronelândia – um território autónomo pertencente à Dinamarca, por acaso um aliado da NATO, – foi apresentada como uma iniciativa de “segurança nacional” e prevenção contra supostas intenções expansionistas de Rússia e China no Ártico. A ilha tem uma localização geoestratégica crítica no Alto Atlântico e no Ártico, controlando o chamado GIUK Gap (Groenlândia, Islândia, Reino Unido), um “checkpoint” para a defesa e vigilância entre o Atlântico Norte e o Ártico. Controlar esta rota marítima e aérea significaria, segundo a lógica de Trump, antecipar qualquer movimento russo ou chinês capaz de ameaçar os Estados Unidos ou as cadeias de abastecimento euro-atlânticas.

Paralelamente, a Gronelândia contém vastos recursos naturais, incluindo minérios raros, urânio, petróleo, gás e outros minerais estratégicos, que se tornam mais acessíveis devido ao degelo acelerado pelo aquecimento global. Para uma administração que já demonstrou uma preferência pragmática por ganhos económicos rápidos, a possibilidade de controle directo sobre esses recursos é um incentivo adicional.

Porém, a forma como Trump articulou essa intenção – com declarações de que os EUA fariam isso “de qualquer maneira” e recusando descartar o uso da força – foi amplamente criticada como hostil e potencialmente violadora da soberania de um aliado da NATO. As reacções de Copenhaga e de Nuuk2 foram firmes: a Gronelândia “não está à venda” e permanece sob a soberania dinamarquesa, com uma clara preferência dos Inuítes3 por manter laços com a Dinamarca, a União Europeia e a NATO.

O risco estratégico aqui é duplo. Primeiro, colocar um aliado da NATO sob ameaça de ocupação ou aquisição unilateral por parte dos EUA pode minar a confiança nas garantias coletivas da Aliança Atlântica, criando um precedente em que outros territórios colaboradores – como os Açores, no Atlântico, bases no Pacífico, ou outras ilhas estratégicas – poderiam ser vistos como vulneráveis a pressões ou exigências semelhantes. Isso enfraquece não só a coesão da NATO, mas também as normas que regem a soberania e a integridade territorial no sistema internacional, num momento em que alianças fortes deveriam ser reforçadas diante de desafios como a Rússia e a China.

Segundo, a insistência em anexar ou controlar territórios sob a justificação de segurança estratégica – em vez de reforçar mecanismos cooperativos e consensuais dentro da própria NATO – pode desencadear uma espiral de insegurança entre aliados, que podem começar a questionar a confiabilidade das garantias de defesa mútua se os EUA passam a reforçar um padrão de ações unilaterais que desconsideram alianças e soberanias.

Terceiro, a justificação geopolítica e geo-estratégica de Trump para a ocupação/anexação da Gronelândia, no que tange à Rússia, é, só por si, absurda na medida em que os russos estão a poucas milhas de território norte- americano e da NATO: o estreito de Bering, que na sua parte mais estreita separa os dois países – Rússia, pela Ilha Diomedes Maior (ou Ratmanov, altamente militarizada); e os EUA (Alasca), pela ilha Diomedes Menor –, distam, somente, de cerca de 4 km um do outro; e a parte mais larga, entre os dois países, não ultrapassa cerca de 88 km entre o Estado do Alasca (EUA) e Provideniya (Rússia), pelo que o estreito de Bering, até pelo efeito das alterações climáticas e do degelo do Ártico, se está a tornar num, cada vez maior, uma zona militarizada – onde os chineses já derrotam e efectuam manobra militares, algumas conjuntas com russos – e um corredor marítimo que começa a ser caracterizado como uma importante rota marítima estratégica (Referência)

6. Face a estes dois preocupantes padrões político-económicos de Trump, coloca-se a questão sobre as implicações para a credibilidade dos EUA no seio da NATO e para a ordem Euro-Atlântica.

A postura de Donald Trump em relação à Venezuela e à Gronelândia não deve ser analisada como um conjunto de episódios isolados ou excentricidades retóricas, mas como manifestações coerentes de uma visão estratégica que coloca em causa a credibilidade dos Estados Unidos enquanto pilar central da NATO e da ordem euro-atlântica. Ao privilegiar abordagens unilaterais, transacionais e frequentemente coercivas, Trump introduz uma tensão estrutural entre o papel histórico dos EUA como garante da segurança colectiva e a sua nova inclinação para uma política externa baseada na lógica do poder bruto.

No contexto da NATO, a credibilidade americana assenta menos na sua superioridade militar – que permanece incontestável – e mais na previsibilidade do seu compromisso político. O artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte não é apenas uma cláusula jurídica; é um instrumento de dissuasão cuja eficácia depende da convicção de que os Estados Unidos honrarão os seus compromissos independentemente de cálculos conjunturais de custo-benefício. Quando Trump sugere que a defesa de aliados depende do seu nível de contribuição financeira – que deverá chegar a 5% do PIB de cada um dos Estados-membros – ou ameaça implicitamente a soberania de um aliado, como no caso da Gronelândia, território de um Estado-membro da NATO, essa convicção é profundamente abalada.

Este comportamento introduz um paradoxo estratégico: ao justificar acções unilaterais como necessárias para travar Rússia e China, Trump acaba por enfraquecer precisamente o sistema de alianças que constitui o principal activo estratégico dos Estados Unidos face a essas potências. A Rússia beneficia directamente de qualquer erosão da coesão Euro-Atlântica, enquanto a China observa atentamente os sinais de fragmentação do Ocidente para calibrar a sua própria estratégia de longo prazo. A desconfiança entre aliados torna-se, assim, um multiplicador de poder para os adversários sistémicos dos EUA.

Mais preocupante ainda é o precedente normativo criado por esta abordagem. Se os Estados Unidos, principal arquitecto da ordem liberal internacional, passam a legitimar a pressão, a coerção ou mesmo a ocupação de territórios aliados em nome da “segurança estratégica”, abrem espaço para que outros “players” façam o mesmo. A distinção entre aliados e adversários torna-se difusa, substituída por uma hierarquia informal em que a soberania é respeitada apenas enquanto não colidir com interesses estratégicos imediatos de Washington DC.

Neste contexto, territórios estratégicos como os Açores, fundamentais para a projecção de poder dos EUA no Atlântico, ou ilhas no Pacífico utilizadas como plataformas de defesa e vigilância, podem passar a ser percecionados não como espaços de cooperação soberana, mas como activos indispensáveis à “defesa ultramarina” americana. Ainda que não exista uma intenção explícita de ocupação, a simples normalização do discurso que relativiza a soberania de aliados enfraquece a posição destes nas negociações futuras e aumenta a assimetria de poder dentro da Aliança.

Do ponto de vista do Direito Internacional e da Arquitectura de Segurança Euro- Atlântica, esta deriva tem consequências profundas. A NATO sempre funcionou como uma comunidade política baseada em valores partilhados, como Democracia, Estado de Direito e respeito pela soberania. A substituição gradual dessa lógica por uma abordagem puramente instrumental transforma a Aliança numa estrutura funcional, desprovida de legitimidade normativa, e mais vulnerável a fraturas internas.

Em termos estratégicos, a política de Trump conduz a uma erosão silenciosa, mas cumulativa, da liderança americana. Liderar não é apenas dispor de meios militares superiores, mas ser reconhecido como um actor confiável, previsível e comprometido com regras comuns. Ao privilegiar a “lei da força” em detrimento da “força da lei”, os Estados Unidos arriscam-se a perder aquilo que nenhuma potência rival conseguiu ainda substituir: a centralidade moral, política e estratégica que sustentou a ordem Euro-Atlântica durante mais de sete décadas.

7. A circulação de narrativas extremas, como a possibilidade de captura ou remoção forçada de um Chefe-de-Estado, contribui para a “normalização” de práticas incompatíveis com o Direito Internacional contemporâneo. Independentemente da sua exequibilidade, tais discursos corroem princípios fundamentais como a inviolabilidade dos líderes políticos e a igualdade soberana dos Estados, aproximando a política externa de uma lógica neocolonial baseada no controlo de recursos.

Em termos estruturais, o “International Law” de Donald Trump não constitui um sistema normativo alternativo, mas a negação da própria ideia de norma vinculativa. Trata-se de uma ordem informal, hierárquica e assimétrica, onde a lei se aplica seletivamente e o poder material determina a sua eficácia. Esta abordagem não só fragiliza a ordem internacional existente, como legitima comportamentos semelhantes por parte de outras potências, acelerando a fragmentação do sistema global.

Para decisores políticos, analistas estratégicos e comunidades académicas, as implicações são claras. A erosão do direito internacional aumenta o risco de conflitos armados, reduz os incentivos à cooperação multilateral e penaliza desproporcionalmente os Estados mais vulneráveis. A substituição da “força da lei” pela “lei da força” não representa apenas uma opção política conjuntural, mas um retrocesso estrutural com impactos duradouros na estabilidade global e na própria ideia de ordem internacional.


  1. Refere-se ao sistema de organização política e jurídica que predominava antes da Paz de Vestfália (1648), caracterizado pela ausência de Estados soberanos com fronteiras definidas e autoridade suprema dentro do seu próprio território. ↩︎
  2. Capitais, respectivamente, da Dinamarca e da Gronelândia ↩︎
  3. Naturais da Gronelândia, que também se denominam de Kalaallit, ou groenlandeses. ↩︎

Alguma Bibliografia

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RTP/LUSA. (2026). Razões do interesse estratégico e mineiro dos Estados Unidos pela Gronelândia. RTP, 14 Janeiro 2026; https://www.rtp.pt/noticias/mundo/razoes-do-interesse-estrategico-e-mineiro-dos- estados-unidos-pela-gronelandia_n1710153

Ruge, Majda. (2023). Primary concern: Trump, Ukraine, and the Republicans’ foreign policy divisions. European Council on Foreign Relations; https://ecfr.eu/article/primary-concern-trump-ukraine-and-the-republicans-foreign- policy-divisions/

Trump afirma que os EUA “governarão” a Venezuela, cita interesses petrolíferos e publica imagem de Maduro com os olhos vendados. Reddit, 3.Janeiro.2026; https://www.reddit.com/r/geopolitica/comments/1q33xpq/trump_afirma_que_os_e ua_governar%C3%A3o_a_venezuela/

Vidal Liy, Macarena. (2026). La intervención en Venezuela reaviva la obsesión de Trump por Groenlandia. El País, 07 ENE 2026; https://elpais.com/internacional/2026-01-07/la-intervencion-en-venezuela- reaviva-la-obsesion-de-trump-por-groenlandia.html

USA: To Solve a Problem, First Create One!

When Two Giant Elephants Fight, It’s the Grass That Suffers!

JOÃO SHANG
Associate Researcher at CEDESA (China‑Africa area)
Visiting Professor at Beijing University of International Business and Economics


On October 30, 2025, Chinese President Xi Jinping and U.S. President Donald Trump met in Busan, South Korea, in what was their first face‑to‑face encounter since 2019. Despite its brevity, the meeting carried significant symbolic and strategic weight, signaling that China and the United States can, under certain circumstances, achieve mutual success and shared prosperity.

In recent years, Sino‑American relations have been marked by intense tensions — tariff disputes, technological conflicts, disagreements over Taiwan, Indo‑Pacific security issues, and vulnerabilities in global supply chains. The reunion between the two leaders was therefore interpreted as a gesture of détente and a high‑level political test to reassess the balance between the two largest powers in the international system.

Trade and Tariffs: A Temporary Truce

The main outcome of the meeting was the provisional reduction of trade tariffs. Trump announced that the United States would lower the average tariff on Chinese products from 57% to 47%, and that punitive tariffs on chemical precursors — linked to the fentanyl crisis — would be reduced from 20% to 10%.

In return, China committed to resuming large‑scale purchases of U.S. soybeans, corn, and other agricultural goods. Additionally, Beijing decided to suspend, for one year, restrictions on the export of rare earth elements — a resource essential to the global technology industry. This decision was interpreted as a gesture of stability and a demonstration of China’s strategic weight in that sector.

Trump described the meeting as “surprising and incredible,” even saying he would “rate it a 12 out of 10.” Xi Jinping, for his part, considered the frictions between China and the U.S. to be “normal phenomena,” emphasizing the importance of avoiding “vicious cycles of mutual retaliation.” Both leaders stressed the terms “communication,” “stability,” and “cooperation,” in contrast with the aggressive rhetoric of previous years. However, sensitive topics such as technology exports, social media, Taiwan, and regional security were mentioned only briefly, with no concrete progress.

Trade Truce, Not a Structural Solution

The agreement essentially represents a return to a previous point of stability rather than a qualitative breakthrough. Structural divergences persist, and Sino‑American relations may deteriorate before they improve. Trump’s strategy appears to consist of creating a problem first, then negotiating its resolution.

Chinese Strategic Initiative vs. U.S. Political Calculation

China demonstrated greater strategic initiative. Holding roughly 70% of the world’s rare‑earth reserves and dominating the technology for their processing, Beijing possesses strong negotiating leverage. Trump, on the other hand, seeks immediate political gains — tariff reductions and increased agricultural exports aim to consolidate support in rural states.

China, by contrast, adopts a long‑term perspective: stabilizing the external environment, strengthening its international image, and preparing the ground for internal adjustments. For Trump, tariffs serve as a tool of pressure — his logic is to provoke deadlock and then negotiate its solution.

Symbolic Value Greater Than Real Progress

Global markets reacted cautiously, interpreting the meeting as a symbolic gesture rather than a structural turning point. Chinese analysts believe a new phase of “competition on equal footing” is beginning — a G2 rivalry in which both sides acknowledge each other’s importance without abandoning strategic competition.

The tariff truce and the resumption of agricultural purchases generate immediate benefits: for the U.S., they relieve pressure on the farming sector and bring political gains; for China, they mitigate export impacts and help stabilize employment and consumption. Yet this is only a palliative measure. Industrial and technological competition continues, and structural imbalances remain. As economists put it, “this truce offers a breath, but not a cure.”

The issue of microchips and the export of sensitive technologies was mentioned, but no concrete agreement was reached. Washington maintains strict control over technology exports, while Beijing invests in self‑sufficiency. The temporary suspension of rare‑earth export restrictions is a strategic pause — if the geopolitical context shifts, China could reinstate such measures, directly affecting U.S. industry and its allies.

Geopolitics and Global Narratives

The meeting symbolizes both an attempt to ease tensions and a new stage of strategic competition. For third countries — such as South Korea, Japan, and Southeast Asian nations — the message is clear: rivalry remains, though momentarily under control.

Xi Jinping advocated for an “inclusive globalization” oriented toward the Global South. According to the Spanish newspaper El País, this narrative seeks to position China as an alternative to the U.S.‑led liberal order, reinforcing the trend toward multipolarity. Trump views diplomacy as a transaction — every deal must yield tangible benefits. Xi, on the other hand, acts with a state logic, portraying China as a rational, responsible, and confident power.

Structural Contradictions Persist

Despite the amicable tone, the fundamental contradictions in Sino‑American relations remain:

– Technology: The U.S. fears China’s scientific rise; China views autonomous innovation as a matter of national security.
– Supply chains: Washington seeks to “de‑risk,” while Beijing accelerates import substitution.
– Global governance: The U.S. defends the traditional liberal order; China proposes a more plural and inclusive model.
– Regional issues: Taiwan, the South China Sea, and Indo‑Pacific security continue to be flashpoints.

Future Outlook

Short Term:
Over the next 12 months, both sides are expected to prioritize stability and dialogue. China will use the truce to strengthen its technological and industrial base, while the U.S. will seek to avoid external shocks ahead of the midterm elections.

Medium Term:
If the temporary measures become institutionalized — through agreements on agricultural trade, strategic resource exports, and technology standards — a relationship of controlled competition may emerge. However, factors such as political polarization in the U.S. or economic slowdown in China could undermine this process.

Long Term:
Experts foresee three possible scenarios:

1. Limited cooperation: ongoing competition with stable areas of coordination;
2. Renewed confrontation: reactivation of tensions due to regional crisis or domestic politics;
3. Structural transformation: redefinition of the global order with a new division of power and complementary roles.

The most likely scenario is the first — competitive coexistence, marked by strategic rivalry but managed through permanent diplomatic channels.

Impacts on Third Parties and the Global Economy

United States:
Agricultural states and export sectors will benefit in the short term, though industrial and technological challenges persist.

China:
The meeting reinforces China’s image as a stable and dialogue‑oriented power, providing relief to its economy and restoring market confidence.

Global Economy:
The signal of détente helps stabilize supply chains, particularly in high‑tech and energy sectors. Still, middle‑tier countries remain vulnerable to fluctuations in Sino‑American rivalry.

Conclusion

The meeting between Xi Jinping and Donald Trump in Busan marks a significant milestone, but not a definitive turning point. It represents a gesture of strategic moderation — each side sought specific gains and avoided further escalation of tensions. Structural divergences — technological, economic, and ideological — continue to shape the backdrop of the relationship. Even so, the reestablishment of high‑level dialogue is, in itself, a meaningful institutional advancement.

In a world marked by growing uncertainty, the future of Sino‑American relations will depend on both countries’ ability to turn an inevitable rivalry into strategically managed cooperation. The so‑called “Busan Truce” may not resolve deep‑rooted contradictions, but it opens a new chapter — more cautious, more pragmatic, and perhaps more mature.

The stabilization of economic development in China and the United States has the potential to significantly boost the global economy. Conversely, a renewed escalation of tensions between these two powers would have deeply negative effects on the international system. As the African proverb says: “When two elephants fight, it’s the grass that suffers.”

An unstable economic partnership between China and the United States poses a systemic risk to the entire world. Yet China’s progress and revitalization are not incompatible with President Trump’s stated goal of “making America great again.” On the contrary, there is room for mutual success and shared prosperity.

China and the United States must be partners, not adversaries — a lesson taught by history and demanded by contemporary reality. China expresses full willingness to continue working with President Trump in building a solid foundation for bilateral relations, fostering an environment conducive to the sustainable development of both nations.

EUA: Para resolver um problema, primeiro crie um!

Os dois elefantes gigantes lutam, quem sofre é o Capim!

JOÃO SHANG

Investigador Associado ao CEDESA (área China-África)

Visiting Professor na Beijing University-International Business and Economics

Em 30 de outubro de 2025, os presidentes Xi Jinping, da China, e Donald Trump, dos Estados Unidos, reuniram-se em Busan, Coreia do Sul, naquele que foi o primeiro encontro presencial entre ambos desde 2019. Apesar da brevidade, a reunião teve um impacto simbólico e estratégico significativo, sinalizando que China e Estados Unidos podem, em determinadas circunstâncias, alcançar êxitos mútuos e prosperidade compartilhada.

Nos últimos anos, a relação sino-americana foi marcada por tensões intensas — disputas tarifárias, conflitos tecnológicos, divergências sobre Taiwan, segurança no Indo-Pacífico e vulnerabilidades nas cadeias globais de abastecimento. O reencontro entre os dois líderes foi, portanto, interpretado como um gesto de distensão e um teste político de alto nível para reavaliar os equilíbrios entre as duas maiores potências do sistema internacional.

Comércio e Tarifas: Uma Trégua Temporária

O principal resultado da reunião foi a redução provisória das tarifas comerciais. Trump anunciou que os Estados Unidos diminuiriam a média das tarifas sobre produtos chineses de 57% para 47%, e que as tarifas punitivas sobre precursores químicos — associados à crise do fentanil — seriam reduzidas de 20% para 10%.

Em contrapartida, a China comprometeu-se a retomar a compra em larga escala de soja, milho e outros produtos agrícolas norte-americanos. Além disso, Pequim decidiu suspender, por um período de um ano, as restrições à exportação de terras raras — recurso essencial para a indústria tecnológica global. Esta decisão foi interpretada como um gesto de estabilidade e uma demonstração do peso estratégico da China nesse setor.

Trump classificou o encontro como “surpreendente e incrível”, chegando a afirmar que “daria nota 12 numa escala de 10”. Xi Jinping, por sua vez, considerou que as fricções entre China e EUA são “fenômenos normais”, destacando a importância de evitar “ciclos viciosos de retaliação mútua”. Ambos enfatizaram os termos “comunicação”, “estabilidade” e “cooperação”, contrastando com a retórica agressiva dos anos anteriores. No entanto, temas sensíveis como exportação de tecnologia, redes sociais, Taiwan e segurança regional foram apenas mencionados, sem avanços concretos.

Trégua Comercial, Não Solução Estrutural

O acordo representa, essencialmente, um retorno ao ponto anterior de estabilidade, sem configurar um avanço qualitativo. As divergências estruturais persistem, e a relação sino-americana pode deteriorar-se antes de melhorar. A estratégia de Trump parece consistir em criar o problema para, posteriormente, negociar sua resolução.

Iniciativa Estratégica Chinesa vs. Cálculo Político Norte-Americano

A China demonstrou maior iniciativa estratégica. Detendo cerca de 70% das reservas mundiais de terras raras e dominando a tecnologia de seu processamento, Pequim possui alavancas de negociação robustas. Trump, por outro lado, busca ganhos políticos imediatos — a redução de tarifas e o aumento das exportações agrícolas visam consolidar apoio nos estados rurais. A China, em contraste, adota uma visão de longo prazo: estabiliza o ambiente externo, reforça sua imagem internacional e prepara o terreno para ajustes internos.

As tarifas funcionam, para Trump, como instrumento de pressão. Sua lógica é provocar o impasse para, em seguida, negociar a solução.

Valor Simbólico Maior que Avanço Real

Os mercados globais reagiram com cautela, sinalizando que o encontro foi interpretado como gesto simbólico, não como virada estrutural. Analistas chineses consideram que se inicia uma nova fase de “competição em pé de igualdade” — uma rivalidade G2, em que ambos reconhecem a importância do outro, sem renunciar à disputa estratégica.

A trégua tarifária e a retomada das compras agrícolas geram benefícios imediatos: para os EUA, aliviam a pressão sobre o setor agrícola e oferecem ganhos políticos; para a China, reduzem o impacto nas exportações e ajudam a estabilizar o emprego e o consumo. Contudo, trata-se de uma medida paliativa. A competição industrial e tecnológica prossegue, e os desequilíbrios estruturais permanecem. Como afirmam os economistas, “esta trégua oferece um suspiro, mas não uma cura”.

A questão dos microchips e da exportação de tecnologias sensíveis foi mencionada, mas não houve acordo concreto. Washington mantém controle rigoroso sobre exportações tecnológicas, enquanto Pequim investe em autossuficiência. A suspensão temporária das restrições às exportações de terras raras é uma pausa estratégica — caso o contexto geopolítico se altere, a China poderá reativar tais medidas, com impacto direto sobre a indústria norte-americana e seus aliados.

Geopolítica e Narrativas Globais

O encontro simboliza tanto uma tentativa de reduzir tensões quanto uma nova etapa da competição estratégica. Para países terceiros — como Coreia do Sul, Japão e nações do Sudeste Asiático — a mensagem é clara: a rivalidade permanece, embora momentaneamente sob controle.

Xi Jinping defendeu uma “globalização inclusiva”, voltada para o Sul Global. Segundo o jornal espanhol El País, essa narrativa busca posicionar a China como alternativa à ordem liberal liderada pelos EUA, reforçando a tendência de multipolaridade. Trump encara a diplomacia como transação: cada acordo deve gerar benefícios tangíveis. Xi, por sua vez, atua com lógica de Estado — reforçando a imagem da China como potência racional, responsável e confiante.

Contradições Estruturais Persistem

Apesar do tom amistoso, as contradições fundamentais da relação sino-americana permanecem:

  • Tecnologia: os EUA temem a ascensão científica chinesa; a China considera a inovação autônoma uma questão de segurança nacional.
  • Cadeias de abastecimento: Washington busca “reduzir riscos”; Pequim acelera a substituição de importações.
  • Governança global: os EUA defendem a ordem liberal tradicional; a China propõe um modelo mais plural e inclusivo.
  • Questões regionais: Taiwan, Mar do Sul da China e segurança no Indo-Pacífico continuam como focos de tensão.

Perspectivas Futuras

Curto Prazo:
Nos próximos 12 meses, ambos deverão priorizar a estabilidade e o diálogo. A China aproveitará a trégua para reforçar sua base tecnológica e industrial, enquanto os EUA buscarão evitar choques externos antes das eleições intercalares.

Médio Prazo:
Se as medidas temporárias forem institucionalizadas — por meio de acordos sobre comércio agrícola, exportação de recursos estratégicos e normas tecnológicas — poderá emergir uma relação de competição controlada. Contudo, fatores como polarização política nos EUA ou desaceleração econômica na China podem comprometer esse processo.

Longo Prazo:
Especialistas projetam três cenários possíveis:

  1. Cooperação limitada: competição contínua com áreas de coordenação estável;
  2. Retorno da confrontação: reativação de tensões por crises regionais ou políticas internas;
  3. Transformação estrutural: redefinição da ordem global com nova divisão de poder e papéis complementares.

O cenário mais provável é o primeiro — uma coexistência competitiva, marcada por rivalidade estratégica, mas gerida por canais diplomáticos permanentes.

Impactos sobre Terceiros e a Economia Global

Estados Unidos:
Estados agrícolas e setores exportadores serão beneficiados a curto prazo. Contudo, os desafios industriais e tecnológicos persistem.

China:
A reunião reforça a imagem da China como potência estável e dialogante, oferecendo alívio à sua economia e restaurando a confiança dos mercados.

Economia Global:
O sinal de distensão contribui para estabilizar as cadeias de suprimentos, especialmente nos setores de alta tecnologia e energia. Ainda assim, países intermediários continuarão vulneráveis às oscilações da rivalidade sino-americana.

Conclusão:
O encontro entre Xi Jinping e Donald Trump em Busan representa um marco relevante, mas não uma inflexão definitiva. Trata-se de um gesto de moderação estratégica — cada parte buscou ganhos específicos e evitou o agravamento das tensões. As divergências estruturais — tecnológicas, econômicas e ideológicas — continuam a moldar o pano de fundo da relação. Ainda assim, o restabelecimento do diálogo de alto nível constitui, por si só, um progresso institucional significativo.

Num mundo marcado por crescente incerteza, o futuro das relações sino-americanas dependerá da capacidade de ambos os países de converter uma rivalidade inevitável em uma cooperação estrategicamente gerida. A chamada “trégua de Busan” pode não resolver as contradições profundas, mas inaugura um novo capítulo — mais cauteloso, mais pragmático e, possivelmente, mais amadurecido.

A estabilização do desenvolvimento económico da China e dos Estados Unidos tem potencial para impulsionar significativamente a economia global. Por outro lado, uma nova escalada de tensões entre essas duas potências teria efeitos negativos profundos sobre o sistema internacional. Como diz o provérbio africano: _“Quando dois elefantes lutam, quem sofre é o capim.”_

Uma parceria económica instável entre China e Estados Unidos representa um risco sistémico para o mundo inteiro. No entanto, o progresso e a revitalização da China não são incompatíveis com o objetivo declarado do Presidente Trump de “tornar a América grande outra vez”. Pelo contrário, há espaço para êxito mútuo e prosperidade compartilhada.

China e Estados Unidos devem ser parceiros e não adversários — esta é uma lição que a história ensina e uma exigência imposta pela realidade contemporânea. A China manifesta plena disposição para continuar a trabalhar com o Presidente Trump na construção de uma base sólida para as relações bilaterais, promovendo um ambiente propício ao desenvolvimento sustentável de ambas as nações.

A Viragem da Diplomacia Pública Chinesa: Direitos Humanos como Ferramenta Estratégica e as Implicações para África e Angola

Rui Verde

Nota prévia: O CEDESA não pretende aprovar nem desaprovar as opiniões expressas neste texto. Essas opiniões devem ser consideradas como pertencentes ao autor.

A revolução dos paradigmas

Pelos menos desde o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que os Estados Unidos da América representavam um paradigma, o da chamada civilização Ocidental que afirmava a liberdade, a democracia, os direitos fundamentais e a economia livre. Eram uma espécie de “farol” para que os outros países olhavam e se inspiravam. Não quer isto dizer que o comportamento dos EUA fosse perfeito ou imaculado. Erros e tragédias aconteceram, Vietnam, Iraque, apoio a ditadores, hesitações espúrias, mas no final do dia, os EUA eram vistos como uma “força para o bem” e, sobretudo, traduziam um paradigma de sociedade que se ambicionava[1].

A partir de dada altura já no século XXI, esse papel dos EUA começou a ser posto em dúvida. Na realidade, os próprios EUA começaram uma espécie de autocrítica e entraram numa dúvida persistente sobre o seu papel, sobre a real existência do conceito de Ocidente, acerca da sua história, do seu sentido, mesmo do que era ser americano. Enfim, sobre tudo, e, como predisse Schumpeter, o sistema começou-se a desmoronar[2]. Este relativismo ou mesmo niilismo abriu as portas à eleição de Donald Trump que acabou com as ilusões. Trump vê-se como uma espécie de “ditador eleito” com um mandato popular para preencher o vácuo do relativismo e do niilismo intelectual que se tinha apoderado dos EUA, mas sem uma noção estratégica, a não ser fazer o que quer, descurando o papel paradigmático estabilizador internacional dos Estados Unidos. Não o entende, ou não o quer entender. Portanto, abriu a porta para outros ocuparam o espaço internacional deixado livre pelos EUA.

A China, sábia e atenta, está a aproveitar. Em primeiro lugar, tornou-se a defensora do comércio livre e da sociedade internacional organizada segundo regras, papel anteriormente promovido e ocupado pelos Estados Unidos[3].

Agora faz uma entrada na área da defesa dos Direitos Humanos, que deixa muitos surpreendidos.

A publicação do relatório chinês sobre as violações dos direitos humanos nos Estados Unidos em 2024, The Report on Human Rights Violations in the United States in 2024, representa uma mudança significativa na diplomacia pública da China. Tradicionalmente[4], Beijing tem rejeitado a linguagem dos direitos humanos como uma imposição Ocidental e uma forma de ingerência nos seus assuntos internos. No entanto, ao adotar essa mesma linguagem para criticar os Estados Unidos, a China sinaliza uma reconfiguração estratégica da sua atuação internacional, indo desafiar os Estados Unidos no seu habitual campo de eleição.

Esta viragem não implica uma adesão chinesa aos valores liberais, mas sim uma apropriação instrumental dos direitos humanos como ferramenta de influência geopolítica e narrativa.

A mudança ocorre num contexto de retração da liderança moral americana, especialmente com a presidência de Donald Trump, cuja política externa retirou qualquer relevância aos direitos humanos em favor de abordagens transacionais e nacionalistas. A China aproveita este vazio para ocupar um espaço simbólico que antes era hegemonicamente americano, com possíveis repercussões profundas nas suas relações com o continente africano.

A Diplomacia Pública Chinesa: De Defesa à Denúncia

Durante décadas, a China posicionou-se como defensora da soberania nacional e da não interferência, rejeitando críticas ocidentais sobre direitos humanos como tentativas de desestabilização. A sua diplomacia pública era marcada por uma postura defensiva, centrada em justificar o seu modelo político e económico como alternativa legítima ao liberalismo ocidental. No entanto, a publicação do relatório acima referido revela uma nova abordagem. O documento, detalhado e abrangente, denuncia práticas como a manipulação eleitoral, a violência policial, o racismo sistémico, a crise dos sem-abrigo, a degradação das condições de vida dos migrantes e a persistência de desigualdades estruturais nos EUA.

Este tipo de relatório não é novo — a China tem publicado documentos semelhantes desde 1998 — mas o grau de sofisticação, abrangência e timing político do relatório de 2024 sugere uma mudança qualitativa. Ao invés de apenas responder às críticas, Beijing passa a atacar proactivamente, utilizando os direitos humanos como arma retórica. Esta mudança insere-se numa estratégia mais ampla de contra narrativa, em que a China procura deslegitimar a autoridade moral dos Estados Unidos e apresentar-se como alternativa ao desnorte Ocidental.

O Vazio Americano: A Era Trump e o Desalinhamento Moral

A oportunidade para esta viragem surge num momento de enfraquecimento da liderança moral americana. Com a presidência de Donald Trump os direitos humanos deixaram de ser prioridade na política externa dos EUA. O governo Trump cortou financiamento a organismos internacionais, retirou-se de acordos multilaterais e adotou uma abordagem transacional nas relações bilaterais, privilegiando interesses económicos de curto-prazo em detrimento de valores normativos. Esta postura está a influenciar definitivamente a política externa, com uma crescente fadiga diplomática e polarização interna que minam a capacidade dos EUA de se apresentarem como paladinos  modelo liberal e  democrático[5].

O relatório chinês capitaliza precisamente sobre este contexto. Ao destacar as falhas sistémicas dos EUA — como a manipulação dos distritos eleitorais, a exclusão de minorias do processo democrático, a violência policial e a crise dos sem-abrigo — Beijing procura minar a autoridade moral americana e apresentar-se como voz crítica da ordem liberal. Esta estratégia não visa substituir os EUA como defensora dos direitos humanos, mas sim deslegitimar o discurso ocidental e reforçar a ideia de que nenhum país tem o monopólio da virtude.

Direitos Humanos como Ferramenta de Soft Power Chinês

A apropriação da linguagem dos direitos humanos pela China insere-se numa lógica de soft power, em que a construção de narrativas e perceções se torna tão importante quanto o poder económico ou militar. Ao denunciar os abusos nos EUA, Beijing vai influenciar a opinião pública internacional, especialmente nos países do Sul Global, onde o ressentimento contra o paternalismo Ocidental é mais forte. Esta estratégia visa criar um espaço discursivo em que a China possa apresentar-se como parceira respeitadora da soberania, mas também como crítica legítima das falhas do modelo liberal.

Este tipo de diplomacia pública tem precedentes. A China tem investido em meios de comunicação internacionais como a CGTN, em institutos Confúcio, em parcerias académicas e em campanhas de comunicação digital para moldar perceções globais. A introdução dos direitos humanos como tema central dessas campanhas representa uma evolução significativa, que pode ter implicações concretas nas relações bilaterais, especialmente em contextos de tensão ou conflito.

O continente africano é um dos principais palcos da influência chinesa. Desde o início do século XXI, a China tem intensificado a sua presença em África através de investimentos em infraestruturas, comércio, cooperação técnica e diplomacia cultural[6]. Esta relação tem sido marcada por uma abordagem pragmática, em que Beijing evita condicionar a cooperação ao respeito pelos direitos humanos, ao contrário dos países ocidentais. Esta postura tem sido bem recebida por muitos governos africanos, que valorizam a não interferência e a previsibilidade das relações com a China.

No entanto, a nova abordagem chinesa pode alterar este equilíbrio. Ao introduzir a linguagem dos direitos humanos na sua diplomacia pública, mesmo que seletivamente, Beijing pode começar a usar esse discurso como instrumento de pressão ou justificação.

Em relações que correm mal — por exemplo, em casos de incumprimento de contratos, instabilidade política ou críticas públicas — os direitos humanos podem emergir como argumento retórico, poderá ser o caso com Angola. Ainda que não se traduzam em sanções ou condicionamentos formais, estas narrativas podem influenciar perceções públicas, reputações governamentais e dinâmicas diplomáticas.

Além disso, a apropriação da linguagem dos direitos humanos pela China pode gerar ambivalência entre os parceiros africanos. Por um lado, pode reforçar a legitimidade da China como ator global responsável. Por outro, pode criar desconforto entre regimes autoritários ou sem tradição democrática, que até agora viam Beijing como parceiro silencioso. Esta ambivalência pode abrir espaço para novas negociações, reequilíbrios e até concorrência entre modelos de cooperação.

A viragem da China insere-se numa batalha mais ampla pelas narrativas globais. Os direitos humanos, longe de serem apenas valores universais, são também instrumentos de poder simbólico. Ao denunciar os abusos nos EUA, Beijing procura reverter a lógica tradicional em que os países ocidentais criticam o Sul Global. Esta inversão tem efeitos discursivos importantes: relativiza as críticas ocidentais, reforça a ideia de multipolaridade e legitima a China como ator normativo, isto é, criador de regras globais.

O caso de Angola

O recente interesse da China pelos direitos humanos em Angola pode ser interpretado sob três prismas distintos, cada um com implicações políticas e diplomáticas bastante diferentes. A forma como este movimento será recebido e explorado dependerá não apenas das intenções chinesas, mas também da capacidade angolana de gerir a sua imagem internacional num momento de tensão interna.

Num primeiro cenário, este novo posicionamento da China pode ser simplesmente ignorado por Angola e pela comunidade internacional, sendo visto como parte da habitual disputa geopolítica entre Pequim e Washington. Neste caso, os direitos humanos seriam apenas um instrumento retórico usado pela China para se contrapor às críticas ocidentais, sem qualquer impacto real sobre a situação angolana. Angola, por sua vez, poderia optar por não se envolver, tratando o tema como um assunto externo, sem relevância direta para a sua política interna ou para as suas relações bilaterais com a China.

Num segundo movimento possível, o governo angolano pode aproveitar esta nova retórica chinesa para se reaproximar de Pequim, apresentando a China como uma parceira que também valoriza os direitos humanos — ainda que sob uma definição própria e muitas vezes divergente dos padrões ocidentais. Esta estratégia permitiria a Angola suavizar a sua imagem internacional, especialmente num momento em que o país volta a ser alvo de críticas severas devido à repressão violenta de protestos em julho de 2025, que resultaram em várias mortes. Ao alinhar-se com uma China que se mostra mais vocal sobre direitos humanos, o governo angolano poderia tentar neutralizar parte da pressão internacional, sem necessariamente implementar reformas profundas.

Por fim, há uma terceira hipótese, mais ousada e potencialmente transformadora: a China pode decidir adotar uma postura mais ativa na política interna angolana, apoiando uma transição de governo que favoreça lideranças mais comprometidas com os direitos humanos. Este movimento, embora improvável à primeira vista, não pode ser descartado, sobretudo num contexto em que as relações entre Angola e China estão em processo de recalibração. Se Beijing entender que a estabilidade angolana — e, por extensão, os seus interesses estratégicos e económicos no país — dependem de uma maior abertura política e respeito pelos direitos fundamentais, pode vir a exercer influência nesse sentido, mesmo que de forma discreta.

Cada uma dessas possibilidades revela não apenas os contornos da diplomacia contemporânea, mas também os limites e as oportunidades que se abrem para Angola num momento de escrutínio internacional e redefinição de alianças. O modo como o governo angolano responder a este novo interesse chinês poderá determinar o rumo das suas relações externas e, talvez, o futuro da sua própria governabilidade.

Conclusão: Uma Nova Era de Diplomacia Pública

A publicação do relatório sobre os EUA em 2024 marca uma nova era na diplomacia pública chinesa. Ao apropriar-se da linguagem dos direitos humanos, Beijing não se torna liberal, mas sim mais estratégica. Esta mudança insere-se numa lógica de competição narrativa, em que os direitos humanos deixam de ser monopólio Ocidental e passam a ser campo de disputa simbólica. Para África, esta mudança pode ter implicações profundas, alterando perceções, dinâmicas diplomáticas e equilíbrios de poder. A China não abandona o pragmatismo, mas acrescenta uma nova camada discursiva à sua atuação internacional — uma camada que pode redefinir o futuro das relações Sul-Sul e da ordem global.

Em relação a Angola, o novo interesse da China pelos direitos humanos pode ser interpretado como uma oportunidade estratégica com múltiplas leituras: ignorado como parte da rivalidade sino-americana, aproveitado pelo governo angolano para melhorar sua imagem internacional, ou até como um sinal de que Pequim poderá influenciar uma transição política angolana mais alinhada com valores de direitos humanos. Num momento em que Angola enfrenta críticas renovadas pela repressão violenta de julho de 2025 e as suas relações com a China passam por uma fase de recalibração, a forma como este gesto será recebido poderá ter implicações profundas para o futuro político e diplomático do país.


[1] Judt, T. (2005), Postwar: A History of Europe Since 1945. New York: Penguin Press,

[2] Schumpeter, J. A. (1942). Capitalism, socialism and democracy. New York: Harper & Brothers.

[3] Observador. (2024, dezembro 16). Guerra comercial entre China e União Europeia resultará em perdas para ambos, diz ministro dos Negócios Estrangeiros chinês. https://observador.pt/2024/12/16/guerra-comercial-entre-china-e-uniao-europeia-resultara-em-perdas-para-ambos-diz-ministro-dos-negocios-estrangeiros-chines/

[4] State Council Information Office of the People’s Republic of China. (2025, August 17). The report on human rights violations in the United States in 2024. https://en.people.cn/n3/2025/0818/c90000-20353810.html

[5] Ver o nosso anterior relatório: https://www.cedesa.pt/2025/07/22/angola-e-a-administracao-trump-entre-a-trump-organization-e-a-diplomacia-do-desinteresse/

[6] Alden, C. (2007). China in Africa. London: Zed Books.

Angola e a Administração Trump: Entre a Trump Organization e a diplomacia do desinteresse

Com o regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, Angola encontra-se perante um dilema estratégico que exige uma abordagem realista e desprovida de ilusões. A relação entre os dois países, que conheceu avanços significativos durante a administração Biden — nomeadamente com o investimento no Corredor do Lobito e o reconhecimento de Angola como parceiro estratégico[1] — está agora sujeita à lógica transacional e imprevisível que caracteriza o estilo político de Trump.

A ausência de uma estratégia americana para África

É fundamental reconhecer que os Estados Unidos, sob Trump, deixaram de ter uma estratégia coerente para África. A política externa americana tornou-se errática, centrada em interesses imediatos e pessoais, sem uma visão de longo prazo para o continente. É expectável que, sob a liderança de Trump, os Estados Unidos privilegiem acordos comerciais pontuais, com especial incidência nos setores da exploração de petróleo e mineração. Esta abordagem revela um desinteresse pelas dinâmicas africanas e uma preferência por relações bilaterais que favoreçam diretamente os interesses empresariais do presidente.

O certo é que a política externa dos Estados Unidos para África, sob a liderança de Donald Trump, revela uma ausência preocupante de estratégia, profundidade e compromisso institucional. Ao contrário de administrações anteriores que, mesmo com limitações, procuravam articular uma visão geopolítica para o continente africano, a atual abordagem caracteriza-se por superficialidade, centralização excessiva e desinteresse sistémico.

Um dos sinais mais evidentes dessa desarticulação é a falta de nomeações diplomáticas relevantes. Até julho de 2025, a administração Trump ainda não havia preenchido cargos-chave relacionados com África, incluindo o Subsecretário de Estado para Assuntos Africanos e o Embaixador junto da União Africana¹. Esta lacuna institucional compromete a capacidade dos EUA de manter diálogo estruturado com os países africanos e de responder a crises regionais com eficácia[2].

Além disso, a estrutura diplomática americana está a ser desmantelada. A administração anunciou o encerramento de várias embaixadas e consulados considerados “não essenciais” na África Subsaariana, com o objetivo de reduzir custos e concentrar recursos em regiões consideradas prioritárias. Esta decisão, aliada à extinção de gabinetes temáticos dedicados a direitos humanos, democracia e alterações climáticas, representa um recuo significativo na presença diplomática americana no continente.

A centralização da política africana no Gabinete do Enviado Especial para Assuntos Africanos, subordinado diretamente ao Conselho de Segurança Nacional, em vez do Departamento de Estado, reforça a lógica de controlo político e enfraquece a diplomacia tradicional[3]. Esta mudança institucional reflete uma abordagem mais securitária e menos cooperativa, onde os interesses estratégicos imediatos se sobrepõem ao desenvolvimento sustentável e à estabilidade regional.

No plano da segurança, a nova doutrina americana para África baseia-se na “partilha de encargos”. O Comando Militar dos EUA em África (AFRICOM) anunciou que os países africanos devem assumir maior responsabilidade pela sua própria segurança, com os EUA a reduzirem a sua presença militar e a focarem-se em operações mais letais e pontuais. Esta reconfiguração implica a retirada de apoio logístico, tecnológico e formativo, afetando diretamente a capacidade dos países africanos de combater o extremismo violento e de manter a paz em zonas instáveis.

A política externa americana tornou-se, assim, transacional e oportunista. Em vez de promover parcerias estruturadas, os EUA, como referido, privilegiam acordos pontuais baseados em recursos estratégicos, como petróleo, gás natural e minerais raros.

Países como Angola podem beneficiar de negociações diretas, mas sem garantias de apoio em áreas humanitárias, educativas ou de saúde pública. Esta lógica de curto prazo compromete a construção de relações duradouras e coloca os países africanos numa posição vulnerável.

As implicações geopolíticas desta ausência estratégica são profundas. O vazio deixado pelos EUA está a ser rapidamente preenchido por potências rivais como a China e a Rússia, que intensificaram os seus investimentos em infraestrutura, segurança e formação militar em África[4].

Em suma, a política americana para África sob Trump carece de visão, continuidade e profundidade. A falta de nomeações, os cortes abruptos em programas essenciais e a abordagem transacional revelam uma postura de desinteresse que contrasta com o dinamismo de outras potências globais. África, portanto, enfrenta o desafio de se posicionar com autonomia, diversificar parcerias e exigir respeito estratégico — sem esperar por um “salvador” externo.

Face a este cenário, o que pode Angola fazer?

Hipótese 1: Manter relações institucionais e esperar: a diplomacia do desinteresse

Uma das opções mais sensatas que Angola pode adotar perante a nova administração Trump não é resistir nem confrontar, mas simplesmente ignorar. Trata-se de manter relações diplomáticas formais e funcionais com os Estados Unidos, sem investir energia política ou capital estratégico numa relação que, neste momento, não promete estabilidade nem reciprocidade. Em vez de tentar agradar ou de se proteger ativamente, Angola pode optar por mergulhar na sua própria agenda de desenvolvimento, diversificação de parcerias e afirmação regional, deixando os EUA à margem enquanto persistirem na sua deriva política.

Durante os anos 1980, Angola enfrentou uma pressão intensa por parte da administração Reagan, que apoiava abertamente a UNITA. Na altura, o país respondeu com resistência ativa, simbolizada pelo slogan “Reagan tira as mãos de Angola!”. Hoje, no entanto, o contexto é diferente: não há uma guerra ideológica, mas sim um vazio estratégico. A ausência de uma política americana coerente para África torna desnecessária qualquer forma de resistência. O que se impõe é o desinteresse calculado.

Ao manter uma postura institucional mínima — sem rupturas, mas também sem entusiasmo — Angola protege-se de envolvimentos que possam comprometer a sua soberania ou reputação internacional. Ignorar, neste caso, é uma forma de inteligência diplomática: não se trata de esperar por melhores dias, mas de não perder tempo com interlocutores que não têm uma proposta clara.

É verdade que esta abordagem pode implicar a perda de oportunidades de investimento imediato, sobretudo em setores como energia ou infraestruturas. Pode também significar uma certa marginalização nas prioridades comerciais dos EUA. No entanto, esses riscos são relativizados pela própria realidade americana: a ausência de uma estratégia para África torna qualquer esforço de aproximação irrelevante. Os Estados Unidos, sob Trump, não parecem interessados em manter relações estruturadas com o continente — e Angola não tem obrigação de preencher esse vazio.

Ao invés de tentar interpretar ou influenciar uma política externa errática, Angola pode concentrar-se em aprofundar relações com parceiros que demonstram compromisso e visão de longo prazo — como a União Europeia, a Índia, os países do Golfo e os blocos africanos. A diplomacia do desinteresse, neste caso, não é passividade: é foco.

Hipótese 2: Agradar aos interesses privados de Trump: pragmatismo comercial

A segunda hipótese é mais pragmática: Angola poderia oferecer oportunidades comerciais à Trump Organization, como forma de garantir atenção e investimento. Esta abordagem já foi adotada por países como o Qatar e o Vietname, com resultados concretos.

O Qatar ofereceu a Trump um Boeing 747 avaliado em 400 milhões de dólares, além de um projeto imobiliário da Trump Organization em Doha, aquando da visita de Trump ao país.

O envolvimento da Trump Organization no Vietname representa outro exemplo claro de como países podem adotar uma abordagem pragmática e comercial para cultivar relações com a administração Trump.

Em maio de 2025, foi lançada oficialmente a construção do Trump International Hung Yen, um megaempreendimento imobiliário e turístico avaliado em 1,5 mil milhões de dólares, localizado na província de Hung Yen, a sul de Hanói.Este projeto, desenvolvido em parceria com a Kinh Bac City Development Holding Corporation, cobre cerca de 990 hectares e inclui dois campos de golfe de padrão internacional, um hotel cinco estrelas, vilas de luxo e uma zona urbana moderna. A Trump Organization receberá 5 milhões de dólares em licenças de marca e assumirá a gestão do complexo após a sua conclusão, prevista para o segundo trimestre de 2029. Durante a cerimónia de lançamento, estiveram presentes Eric Trump, vice-presidente executivo da Trump Organization, e o Primeiro-Ministro vietnamita Pham Minh Chinh, que destacou o projeto como um marco na Parceria Estratégica Abrangente entre os EUA e o Vietname. O projeto foi descrito como um símbolo de excelência e compromisso com o desenvolvimento sustentável, com promessas de criação de empregos, transferência de tecnologia e promoção da imagem internacional do Vietname. Além disso, a Trump Organization está em negociações para desenvolver um arranha-céus em Ho Chi Minh City, na zona de Thu Thiem, o que reforça a intenção de expandir a presença da marca Trump no país[5].

O caso vietnamita mostra como um país pode “agradar” a Trump através de investimentos que envolvem diretamente a sua organização empresarial, garantindo visibilidade e benefícios económicos imediatos.

Para Angola, esta abordagem pode representar uma oportunidade estratégica para atrair investimentos diretos e imediatos em setores-chave como o petróleo, a mineração e o turismo. Ao estabelecer parcerias com a Trump Organization, Angola poderá beneficiar da visibilidade internacional da marca, impulsionar projetos de grande escala e posicionar-se como destino preferencial para investidores americanos. Esta aproximação pode também abrir portas a novas formas de cooperação económica, reforçando a presença angolana em mercados globais e diversificando as suas fontes de financiamento e desenvolvimento.

Considerações finais: entre o pragmatismo e a prudência

Angola deve reconhecer que os Estados Unidos, sob Trump, não têm uma estratégia para África. Como observou um anterior relatório da CEDESA, “há um absentismo americano em África”. Esta ausência de direção exige que Angola adote uma política externa mais calculista, orientada para os seus próprios interesses.

A chave está em equilibrar pragmatismo com prudência.

Num mundo pós-internacional, onde os tratados são ignorados e as alianças são fluidas, Angola deve posicionar-se como um ator soberano, capaz de negociar com firmeza e proteger os seus interesses. A relação com os Estados Unidos sob Trump não deve ser guiada por ilusões, mas por uma estratégia clara, pragmática e orientada para o desenvolvimento sustentável.


[1] Jornal Económico, Joe Biden será o primeiro presidente dos EUA a visitar oficialmente Angola, 2024. https://jornaleconomico.pt/noticias/joe-biden-sera-o-primeiro-presidente-dos-eua-a-visitar-oficialmente-angola-1098433

[2] Horn Review, Realigning Priorities: U.S.–Africa Policy Across Two Trump Presidencies, 2025. https://hornreview.org/us-africa-policy-trump-2025

[3] Idem

[4] African Security Analysis, As America Pulls Back, Russia and China Step In Across Africa, maio de 2025.

[5] The Independent – Vietnam fast-tracks $1.5B Trump golf resort amid tariff threats https://www.independent.co.uk/news/world/americas/us-politics/vietnam-trump-trade-tariffs-golf-course-b2757581.html

Angola and the New Post-International Order (of Trump and others)

1-For decades, there have been calls for a New World Order. Generally, these calls came from the so-called Third World countries at the time, and from left-wing intellectuals and ideologues who wanted a fairer, more united world, without so many financial rules and not based on the dictates of US capitalism.[1] In fact, an international order had been established at the Bretton Woods Conference and the San Francisco Conference (both in the United States) to create, respectively, the international financial structure and organizations and the United Nations from 1944/1945, with a view to creating a world in which international law was a reality and international relations were based on rules, the economy on free trade and peace was the ultimate goal of coexistence between peoples.

Despite many bumps in the road, this order based on rules, free trade and a trend towards globalization has endured, if not as a practice, at least as a paradigm or benchmark.

Everything began to change in the 2010s. In a number of countries, leaders with authoritarian tendencies emerged who understood that in order to develop their countries and give them the projection to which their size and history entitled them, they had to break with the internationalist paradigm of 1944/1945 and impose a revision of the world order.

This vision was not the solidarity-based and fair alternative of the past, but a reinvention of the power of the affirmative sovereign state with imperial tendencies that prevailed in the 19th century. A new paradigm of great powers in which the reference is their strength has once again taken shape. It was Putin in Russia, Xi Jinping in China, Modi in India, among others. All of them once again have as their main objective the emergence of their countries as great powers, and are willing to do this through the use of force, not necessarily military force, although in some cases it is also[2]

The United States and the European Union have not reacted to these attempts to change the international paradigm. They have remained complacent in advancing their agendas, which over time have become confused and irrational, mixing millenarian desires with destructive social engineering, betting on societies of leisure and consumption, with no benchmarks. Western electorates are beginning to react to the dysfunction of policies with their needs, and the extreme right is emerging in force in Europe and Trump in the United States. Trump’s first term could have been a blip. It wasn’t. His election in 2024 was the catalyst moment for the death of the international paradigm.

International relations can no longer be thought of as based on law, rules, respecting agreements or established facts. Alliances will change, countries’ interests and identities will be strengthened. Force will play a key role in re-establishing an international paradigm. Trump is leading the American reaction to this “death” of the 1944/1945 international system. And he is taking on board the new signs, already enunciated by Putin and Xi Jinping: international treaties are no longer relevant, alliances are changing, borders are not sacred, countries are not equal, democracy and free trade are not the only possible systems and certainly do not represent the end of history. Trump doesn’t hesitate to claim Greenland, Panama and even Canada. Just as Putin has already taken Crimea and is trying to take back Ukraine. When it will be Taiwan’s and China’s turn is unknown, but it all depends on calculations of strength and probability. This is the post-international system.

The European Union, also an essentially American creation in the post-war period, within the system devised for peace and prosperity by Acheson and Marshall, among others, did not understand the historical movements and above all did not understand from President Obama’s mandate onwards that it was no longer an American priority. Now, its creator (the USA) has withdrawn its support. It has to live for itself. It’s a dysfunctional structure with no unambiguous decision-making power in which countries with different interests live. The old European powers, Germany, France, the United Kingdom and perhaps Spain and Italy, will probably have to take over the running of affairs in an articulated way, but in which the national interest takes precedence, in order to reorient Europe.

2-Of course, this radical change in the international paradigm has very important implications for Africa, which are already being felt, and for Angola, which are not yet particularly visible, but will soon become so.

Recently, Africa seems to have returned to the 19th century and the time of the “race to Africa”. Its natural resources, its strategic position in the Global South, its demography, which is a sign of vitality for the future but also a threat of migration to Europe, and the persistent fragility of its institutions, have once again made the continent the target of interest and intervention by various external countries. Russia has set its sights on creating a belt of countries aligned in the Sahel, signing several military agreements, pushing ahead with the so-called Africa Corps (formerly Wagner) and planning to set up nuclear power plants with several African countries. It is possibly the most active power in Africa at the moment.[3] China is always more discreet, but its economic influence is growing and it is an essential partner for many African governments. Little is decided in Africa without China. As someone quoted a Vietnamese saying, China is “an oil slick that spreads without anyone noticing, but sticks to your feet[4] “. Other countries such as Turkey and the Persian Gulf countries are also making rapid strides in Africa, as is India, albeit more slowly.

The European Union has strong relations with Africa, it has several programs and realizes the importance of Africa, but it hesitates, between the problems that migration brings and the regulations it imposes on its companies, it drags its feet, without a defined strategy for Africa, it realizes that it is important, but it prevaricates. France used to dominate African affairs. It is now clearly losing its influence. The European decolonization complex also contributes to its ambiguous attitude[5] . Europe has the know-how and the funding, but it doesn’t leverage it enough

The United States seemed to realize what was happening with the Biden administration. They created a consistent strategy, returned to Africa, were developing projects and pairing up with the European Union, taking it out of its hesitations. Everything went downhill with Trump’s new mandate. The US has become absent, there is an American absenteeism in Africa.[6] Trump hadn’t even managed to get the African team set up by the end of March.

3-There have already been consequences of this new post-international paradigm in Africa, with an impact on Angola. The major advance by the combined forces of M23 and Rwanda to conquer Goma and Kivu in the east of the Democratic Republic of Congo (DRC), creating a clearly relevant intervention zone, took place after Trump took office, cementing the idea that the international order has changed and borders can be changed. The same effect may have been at the origin of the fact that Tshisekedi and Kagame left Angolan mediation to resolve their dispute and went to Qatar. Angola had the US as a support in this negotiation, which gave it negotiating strength. With Trump’s absenteeism, that Angolan advantage no longer exists – at least for now – and there is a strange appetite for holding talks in the Gulf countries. The war in eastern Congo is in danger of becoming even bigger. The American attitude is having effects that could be dramatic .[7]

In this sense, it must be emphasized that all of this has consequences for Angola. In the Second Congo War, Kagame was defeated with the Angolan contribution, and therefore has a “score to settle” with Angola. M23 won’t stop there and the Islamic Republic of East Africa is putting pressure on Cabo Delgado and possibly, according to some analysts, is already in Angola.[8]

In fact, the disruption of the international order and Trump’s absenteeism, which as we have seen is already having consequences in the DRC and the possible spread of Islam, have consequences for Angola, some at a political level and others at a security level.

On a political level, it is clear that the choices and adoption of democratic governance processes are strictly an Angolan matter. It is not and will not be the international community that imposes any political model. Clearly, the time of the end of history described by Francis Kukuyama[9] as democracy and a free economy is no more. Each country is left to its own devices. In fact, the very extinction of the Voice of America, which propagated these goals throughout the world, is the greatest example of this end. Don’t expect outside intervention in any way in the Angolan general elections in 2027. Those appeals to the international community no longer make any sense.

However, it is at the level of sovereignty, border definition and security that the greatest challenges for Angola arise in this new post-international order. A revisionist process of borders in Africa is underway. As we know, the borders in Africa after independence were largely inherited from the colonial period. During the Berlin Conference (1884-1885), the European powers divided the African continent among themselves, often ignoring local cultural, ethnic and geographical realities.

After independence, the Organization of African Unity (OAU) adopted the principle of uti possidetis juris, which stated that colonial borders should be maintained to avoid territorial conflicts. Over the years, there have only been two successful attempts to redefine borders, the creation of Eritrea in 1993 and South Sudan in 2011.

However, this principle of border stability is now being called into question. The M23 incursion with the support of Rwanda may want to establish new borders in the area. This will no longer depend on international law, but on force.

As a result, Angola’s borders are under threat, the call for secession of territories (Cabinda; Lundas?) will become stronger and the validity of the OAU declaration will be called into question. At the same time, migration caused by changes in other countries (DRC, for example) will put pressure on Angola’s borders. It is clear that this is also a time of threat to any country, by another that feels stronger, or that wants to sow instability as may be the case with Rwanda in relation to Angola or any Islamic republic proclaiming .[10]

In this sense, it would be useful for Angolan security to think about creating external perimeters as buffers to stabilize and maintain territory, especially in the event of serious upheaval in DRC territory, from the most sensitive areas, such as Cabinda and the Lundas, huge border lines with potential sources of danger.

The ongoing redefinition of the international system will inevitably lead Angola to a need to strengthen its internal unity and possibly to increase (and revise) its national security doctrine in order to combat threats to the stability of the state and its borders. 


[1] For example, Antônio Carlos Wolkmer, 1989, The third world and the new international order

[2] Michael Kimmage, (2025) The World Trump Wants, Foreign Affairs. March/April 2025, Vol.104. N.2.

[3] Eugénio Costa Almeida, speech at the CEDESA dinner-debate on March 25, 2025.

[4] Maria José de Melo, IDEM above.

[5] IDEM.

[6] Rui Verde, speech at the CEDESA dinner-debate on March 25, 2025.

[7] IDEM

[8] Eugénio Costa Almeida, cit.

[9] Francis Fukuyama, 1992, The End of History and the Last Man,

[10] Eugénio Costa Almeida, IDEM.

Angola e a Nova Ordem pós-Internacional (de Trump e outros)

1-Durante décadas, clamou-se por uma Nova Ordem Mundial. Geralmente, tais apelos vinham dos então chamados países do Terceiro Mundo, e de intelectuais e ideólogos de esquerda, que pretendiam um mundo mais justo e solidário, sem tantas regras financeiras e não assente nos ditames do capitalismo norte-americano.[1] Na verdade, uma ordem internacional tinha sido estabelecida a partir da Conferência de Bretton Woods e da Conferência de São Francisco (ambas nos Estados Unidos) para criação respetivamente da estrutura e organizações financeiras internacionais e das Nações Unidas a partir de 1944/1945, com vista a criar um mundo em que o direito internacional fosse uma realidade e as relações internacionais assentassem em regras, a economia em trocas livres e a paz fosse o objetivo último da coexistência entre os povos.

Apesar de imensos solavancos, esta ordem baseada em regras, no comércio livre e numa tendencial globalização foi perdurando, senão como prática, pelo menos como paradigma ou referência.

Tudo começou a mudar a partir dos anos 2010s. Numa série de países irromperam líderes com tendências autoritárias que entenderam que para desenvolver os seus países e lhes dar a projeção a que o seu tamanho e história davam direito, tinham de romper o paradigma internacionalista de 1944/1945 e impor uma revisão da ordem do mundo.

Essa visão não foi a alternativa solidária e justa dos alternativos do passado, mas uma reinvenção do poder do Estado soberano afirmativo com tendências imperiais que vigorou no século XIX. Um novo paradigma de grandes potências em que a referência é a sua força voltou a tomar forma. Foi Putin na Rússia, Xi Jinping na China, Modi na Índia, entre outros. Todos voltaram a ter como principal objetivo a emergência dos seus países como grandes potências, dispondo-se a fazer tal com o uso da força, não necessariamente militar, embora nalguns casos também[2].

Os Estados Unidos e a União Europeia não reagiram as estas tentativas de mudar o paradigma internacional, continuaram complacentes a avançar as suas agendas, que com o tempo se tornaram confusas e irracionais, misturando anseios milenaristas com engenharias sociais destrutivas, apostando em sociedades de lazer e consumo, sem referenciais. Os eleitorados ocidentais começam a reagir à disfunção das políticas com as suas necessidades e surgem as extremas-direitas em força na Europa e Trump nos Estados Unidos. O primeiro mandato de Trump poderia ter sido um blip. Não foi. A sua eleição em 2024, representou o momento catalisador da morte do paradigma internacional.

Não se podem pensar mais as relações internacionais como baseadas no direito, em regras, respeitando acordos ou factos estabelecidos. As alianças vão mudar, os interesses dos países e as suas identidades vão ser reforçadas. A força vai desempenhar um papel fundamental no restabelecimento dum paradigma internacional. Trump lidera a reação americana a esta “morte” do sistema internacional de 1944/1945. E assume os novos sinais, já enunciados por Putin e Xi Jinping: os tratados internacionais são pouco relevantes, as alianças mudam, as fronteiras não são sagradas, os países não são iguais, a democracia e o comércio livre não são os únicos sistemas possíveis e certamente não representam a finalidade da história. Trump não hesita em reivindicar a Gronelândia, o Panamá e até mesmo o Canadá. Tal como Putin já tomou a Crimeia e tenta reaver a Ucrânia. Quando chegará a vez de Taiwan e da China, não se sabe, mas tudo já só depende de cálculos de força e probabilidade. Este é o sistema pós-internacional.

A União Europeia, também uma criação essencialmente americana no pós-guerra, dentro do sistema idealizado para a paz e prosperidade por Acheson e Marshall entre outros, não percebeu os movimentos históricos e sobretudo não entendeu a partir do mandato do Presidente Obama que já não era prioridade americana. Agora, o seu criador (os EUA) retiraram-lhe o apoio. Tem de viver por si. Dificilmente o fará, é uma estrutura disfuncional sem poder de decisão unívoco em que vivem países com interesses diferentes. Provavelmente, as velhas potências europeias, Alemanha, França, Reino Unido e talvez Espanha e Itália, vão ter de assumir a direção dos negócios de forma articulada, mas em que o interesse nacional é preferencial, para reorientarem a Europa.

2-Obviamente, que esta mudança radical de paradigma internacional tem implicações muito relevantes para África, que já se estão a notar, e para Angola, ainda não especialmente visíveis, mas que se tornarão em breve.

Recentemente, África parece retornada ao século XIX e ao tempo da “corrida para África”. Os seus recursos naturais, a sua posição estratégica no Sul Global, a sua demografia que constitui um sintoma de vitalidade para o futuro, mas também uma ameaça de migração para a Europa e a persistente fragilidade das suas instituições, tornaram o continente, de novo, alvo do interesse e intervenção de vários países externos. A Rússia apostou na criação dum cinturão de países alinhados no Sahel, assinando vários acordos militares, fazendo avançar o dito Africa Corps (ex Wagner) e prevendo com vários países africanos a instalação de centrais nucleares. Possivelmente, neste momento, será a potência mais ativa em África.[3] A China é sempre mais discreta, mas a sua influência económica alastra e é parceiro essencial de muitos governos africanos. Já pouco se decide em África sem a China. Como alguém citou referindo um dito vietnamita, a China é “uma mancha de óleo que se alastra sem ninguém notar, mas que se cola aos pés[4]”. Outros países como a Turquia e os países do golfo Pérsico também dão passos acelerados em África, tal como a Índia, embora mais lenta.

A União Europeia tem fortes relações com África, tem vários programas e percebe a importância de África, mas hesita, entre os problemas que as migrações lhe trazem e as regulações que impõe às suas empresas, arrasta-se, sem uma estratégia definida para África, percebe que é importante, mas tergiversa. A França é que dominava os assuntos africanos. Neste momento, está nitidamente a perder a sua influência. O complexo europeu da descolonização também contribui para a sua atitude ambígua[5]. A Europa tem know-how e financiamento, mas não o alavanca suficientemente.

Os Estados Unidos pareciam ter noção do que se passava com a administração Biden. Criaram uma estratégia consistente, voltaram a África, estavam a desenvolver projetos e a emparceirar com a União Europeia, retirando-a das hesitações. Tudo descambou com o novo mandato de Trump. Os EUA tornaram-se ausentes, há um absentismo americano em África.[6] Trump ainda nem tinha conseguido ter a equipa africana constituída no final de março.

3-Já houve consequências deste novo paradigma pós-internacional em África com reflexo em Angola. O grande avanço das forças combinados do M23 e do Ruanda para conquista de Goma e Kivu no Leste da República Democrática do Congo (RDC), criando uma zona de intervenção manifestamente relevante, ocorreu após a tomada de posse de Trump, sedimentando a ideia que a ordem internacional mudou e as fronteiras podem ser mudadas. O mesmo efeito poderá ter estado na origem do facto de Tshisekedi e Kagame terem saído da mediação angolana para resolver a sua contenda e terem ido para o Qatar. Angola tinha os EUA como suporte nesta negociação, o que lhe dava força negocial. Com o absentismo de Trump, tal vantagem angolana deixou-pelo menos por agora-de existir e há uma estranha apetência por realizar conversações nos países do Golfo. A Guerra no Leste do Congo corre o risco de se tornar ainda maior. A atitude americana está a originar efeitos que podem ser dramáticos[7].

Neste sentido, há que enfatizar que tudo isto tem consequências para Angola. Na Segunda Guerra do Congo, Kagame foi derrotado com o contributo angolano, e por isso tem “contas a ajustar” com Angola. O M23 não vai ficar por aqui e a República Islâmica da África Oriental está a pressionar Cabo Delgado e possivelmente, segundo alguns analistas, já estará implementada em Angola.[8]

Efetivamente, a disrupção da ordem internacional e o absentismo de Trump, que como se viu está já a ter consequências na RDC e no eventual alastramento islâmico, têm consequências para Angola, umas a nível político e outras a nível de segurança.

A nível político, torna-se evidente que as escolhas e a adoção de processo democráticos de governação são estritamente um assunto angolano. Não é, nem será a comunidade internacional a impor qualquer modelo político. Claramente, o tempo da finalidade da história descrita por Francis Kukuyama[9] como democracia e economia livre, deixou de o ser. Cada país está entregue a si próprio. Aliás, a própria extinção da Voz da América que propagava esses objetivos por todo o mundo, é o maior exemplo desse final. Não se esperem intervenções externas em qualquer sentido nas eleições gerais angolanas de 2027. Aqueles apelos que se faziam à Comunidade Internacional deixaram de fazer qualquer sentido.

Contudo, é a nível da soberania, definição de fronteiras e segurança que os maiores desafios colocados em relação a Angola surgem com esta nova ordem pós-internacional. Está em curso um processo revisionista das fronteiras em África. Como se sabe, as fronteiras em África após as independências foram, em grande parte, herdadas do período colonial. Durante a Conferência de Berlim (1884-1885), as potências europeias dividiram o continente africano entre si, muitas vezes ignorando as realidades culturais, étnicas e geográficas locais.

Após as independências, a Organização de Unidade Africana (OUA) adotou o princípio de uti possidetis juris que afirmava que as fronteiras coloniais deveriam ser mantidas para evitar conflitos territoriais. Ao longo dos anos, houve apenas duas tentativas relevantes de redefinir fronteiras bem-sucedidas, a criação da Eritreia em 1993 e do Sudão do Sul em 2011.

No entanto, este princípio de estabilidade fronteiriça está hoje colocado em causa. Possivelmente, a incursão do M23 com o apoio do Ruanda quererá estabelecer novas fronteiras na zona. Tal já não dependerá do direito internacional, mas da força.

Assim sendo, as fronteiras angolanas estão ameaçadas, surgirá com mais força o apelo a secessões de territórios (Cabinda; Lundas?) e a validade da declaração da OUA será colocada em causa. Ao mesmo tempo, as migrações provocadas por alterações noutros países (RDC, por exemplo) colocarão pressões nas fronteiras angolanas. Torna-se evidente que este é, também, um tempo de ameaça a qualquer país, por outro que se sinta mais forte, ou que queira semear instabilidade como pode ser o caso do Ruanda em relação a Angola ou qualquer república islâmica a proclamar[10].

Nesse sentido, tornar-se-ia útil pensar ao nível da segurança angolana criar perímetros externos como tampões de estabilização e manutenção do território, sobretudo no caso de grave convulsão no território da RDC, a partir das zonas mais sensíveis, como Cabinda e as Lundas, linhas fronteiriças enormes com potenciais fontes de perigo.

Forçosamente, a redefinição do sistema internacional em curso levará Angola a uma necessidade de reforço da sua unidade interna e possivelmente ao incremento (e revisão) da sua doutrina de segurança nacional para combater ameaças à estabilidade do Estado e às suas fronteiras. 


[1] A título de exemplo, Antônio Carlos Wolkmer, 1989, O terceiro mundo e a nova ordem internacional

[2] Michael Kimmage, (2025) The World Trump Wants, Foreign Affairs. March/April 2025, Vol.104. N.2.

[3] Eugénio Costa Almeida, intervenção no jantar-debate CEDESA a 25 de março de 2025.

[4] Maria José de Melo, IDEM supra.

[5] IDEM.

[6] Rui Verde, intervenção no jantar-debate CEDESA a 25 de Março de 2025.

[7] IDEM

[8] Eugénio Costa Almeida, cit.

[9] Francis Fukuyama,1992, O Fim da História e o Último Homem,

[10] Eugénio Costa Almeida, IDEM.

CEDESA dinner on March 25, 2025

Trump and Africa: Victory for China and Russia?

The Dinner-Debate included in CEDESA’s celebrations of the 50th anniversary of Angola’s Independence took place on March 25 at the Pestana Palace in Lisbon, with the theme Trump and Africa: Victory for China and Russia?

In attendance were academics, journalists and businesspeople with links to Angola, a diverse group of personalities who debated the topic in a lively and free manner, without factionalism and in a constructive way.

We had a former PSD deputy-coordinator of the Assembly of the Republic’s Foreign Affairs Committee who moderated the debate, journalists from LUSA, Jornal de Negócios, Correio da Manhã, DW and RTP Africa, and professors from Portuguese and foreign universities.

There was a great deal of interest in the topic, highlighting the intensification of Russia’s efforts to establish itself in Africa through military agreements, the constant and pragmatic presence of China, new players such as India and Turkey, the possibilities opening up for the European Union, and the absenteeism of the US, which has already led to an increase in conflicts in Africa. The African situation is unstable, borders can change and wars can spread. These were the main conclusions.

Attendance was richer and more relevant.