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Apenas a industrialização pode salvar Angola

João Shang

Investigador Associado ao CEDESA (área China-África)

Angola é, sem dúvida, um dos países mais ricos em recursos naturais do continente africano. Petróleo, gás natural, diamantes, minerais metálicos, vastas extensões de terras aráveis e um enorme potencial hidroelétrico colocam o país numa posição privilegiada do ponto de vista dos fatores naturais de produção. Poucos países africanos dispõem de uma combinação tão abrangente de recursos estratégicos.

No entanto, a experiência das últimas décadas demonstra que a abundância de recursos, por si só, não garante desenvolvimento sustentável, prosperidade duradoura nem estabilidade social. Apesar de períodos de forte crescimento económico, Angola continua a enfrentar desafios estruturais profundos: dependência excessiva do petróleo, fraca diversificação produtiva, elevado desemprego juvenil, forte dependência das importações e vulnerabilidade às oscilações externas.

Esses desafios não são circunstanciais nem transitórios. Eles revelam um problema de fundo: o modelo de crescimento baseado predominantemente na exportação de matérias-primas atingiu os seus limites. Neste contexto, torna-se cada vez mais evidente que apenas a industrialização pode alterar, de forma estrutural e duradoura, o destino económico e social de Angola.

A economia dos recursos: vantagens iniciais e limites estruturais

Durante muitos anos, o setor petrolífero desempenhou um papel decisivo na reconstrução nacional e no financiamento do Estado angolano. As receitas do petróleo permitiram investir em infraestruturas, estabilizar as finanças públicas em determinados períodos e inserir Angola nos fluxos da economia global.

Contudo, essa mesma dependência criou fragilidades profundas. A exportação de matérias-primas caracteriza-se por um baixo nível de transformação local, reduzido valor acrescentado e fraca capacidade de geração de emprego. Além disso, os preços dos recursos naturais são definidos nos mercados internacionais, fora do controlo nacional.

Sempre que o preço do petróleo sobe, a economia beneficia temporariamente.

Quando cai, surgem pressões cambiais, défices fiscais, inflação e dificuldades sociais. Esta dinâmica cíclica demonstra que a riqueza baseada exclusivamente em recursos é instável e imprevisível.

Mais ainda, uma economia excessivamente dependente de recursos tende a negligenciar o desenvolvimento de outros setores produtivos, enfraquecendo a base industrial e tecnológica do país. O resultado é uma economia vulnerável, pouco diversificada e dependente do exterior.

Industrialização: de extração para criação de valor

A industrialização representa uma mudança qualitativa no modelo económico. Em vez de exportar recursos em estado bruto, a indústria permite transformá-los, agregar valor e criar cadeias produtivas completas dentro do território nacional.

Um barril de petróleo exportado gera uma receita única. Mas quando esse petróleo é transformado localmente em combustíveis, produtos petroquímicos, plásticos, fertilizantes ou materiais industriais, ele passa a gerar valor de forma contínua, criando empregos, competências técnicas e receitas fiscais recorrentes.

O mesmo princípio aplica-se aos minerais, à agricultura e a outros recursos naturais. A diferença entre um país rico em recursos e um país desenvolvido reside precisamente na sua capacidade de industrializar esses recursos.

O emprego como eixo central do desenvolvimento

Angola possui uma população jovem e em rápido crescimento. Este fator demográfico pode ser uma vantagem estratégica, mas apenas se o país for capaz de criar empregos suficientes e de qualidade.

O setor petrolífero, apesar da sua importância económica, emprega relativamente poucas pessoas. A agricultura, embora essencial, ainda enfrenta desafios estruturais relacionados com produtividade, infraestruturas e acesso a mercados. O setor dos serviços, quando não apoiado por uma base industrial sólida, tende a concentrar-se em atividades informais e de baixo valor.

Neste contexto, a industrialização surge como a única via capaz de criar emprego em larga escala, especialmente empregos intermédios, que são fundamentais para a formação de uma classe média sólida. Técnicos industriais, operadores, mecânicos, engenheiros, gestores de produção e profissionais de logística são pilares de uma economia moderna.

Sem indústria, o país corre o risco de desperdiçar o seu capital humano, agravando tensões sociais e limitando as oportunidades para as novas gerações.

A indústria como base da estabilidade social

A experiência internacional demonstra que sociedades mais estáveis e equilibradas são aquelas que conseguem formar uma classe média numerosa. Essa classe média não surge da distribuição de rendas de recursos, mas sim do trabalho produtivo, da indústria e da economia real.

A industrialização cria rendimentos estáveis, previsíveis e baseados no mérito e na qualificação. Ao fazê-lo, fortalece a coesão social, reduz desigualdades extremas e cria expectativas de progresso individual e coletivo.

Sem uma base industrial, a economia tende a polarizar-se entre uma pequena elite ligada aos recursos e uma grande maioria com rendimentos instáveis, o que fragiliza o tecido social e político.

Capacidade do Estado e soberania económica

Um Estado moderno necessita de receitas fiscais estáveis para cumprir as suas funções fundamentais: educação, saúde, infraestruturas, segurança e governação eficiente. As receitas provenientes dos recursos naturais são elevadas, mas altamente voláteis. Já a indústria gera uma base fiscal mais diversificada e previsível.

Além disso, a indústria fortalece a soberania económica. Países sem base industrial dependem fortemente de importações de bens essenciais, equipamentos e tecnologia. Em períodos de crise global, essa dependência pode tornar-se crítica.

A pandemia, as tensões geopolíticas e as ruturas nas cadeias globais de abastecimento mostraram claramente os riscos da dependência excessiva do exterior. A industrialização é, portanto, também uma questão de segurança nacional.

Agricultura e serviços: pilares complementares, não substitutos

Não se trata de opor indústria à agricultura ou aos serviços. Pelo contrário, um modelo de desenvolvimento equilibrado exige a integração dos três setores. A agricultura fornece matérias-primas e segurança alimentar. A indústria transforma, agrega valor e cria emprego. Os serviços avançados surgem como consequência natural de uma economia produtiva forte.

A história económica mostra que nenhum país alcançou o desenvolvimento sustentável ignorando a industrialização. Saltar diretamente de uma economia primária para uma economia de serviços sofisticados é uma ilusão que raramente se concretiza.

Uma industrialização adaptada à realidade angolana

Industrializar não significa repetir modelos ultrapassados ou ambientalmente insustentáveis. Angola tem a oportunidade de seguir uma via de industrialização moderna, gradual e estratégica, baseada nas suas vantagens comparativas e nas exigências do século XXI.

Entre as prioridades destacam-se:

  • transformação local de recursos naturais;
  • desenvolvimento da agroindústria;
  • indústrias de substituição de importações;
  • materiais de construção e bens essenciais;
  • criação de zonas económicas especiais e parques industriais;
  • atração de investimento estrangeiro com transferência de tecnologia;
  • formação técnica e profissional alinhada com as necessidades industriais;
  • integração regional através da SADC e da Zona de Comércio Livre Continental Africana.

O sucesso da industrialização exige políticas públicas coerentes, estabilidade institucional, investimento em capital humano e uma parceria estratégica entre o Estado e o setor privado.

Conclusão: o futuro constrói-se com indústria

Os recursos naturais podem definir o ponto de partida de uma nação, mas não determinam o seu futuro. O verdadeiro desenvolvimento nasce da capacidade de transformar, produzir, empregar e inovar.

Sem indústria, a riqueza esgota-se e a economia permanece vulnerável. Com indústria, os recursos tornam-se a base de um crescimento inclusivo, soberano e sustentável. Para Angola, a industrialização não é uma opção ideológica nem uma escolha entre várias alternativas equivalentes. É uma necessidade histórica e estratégica.

O país dispõe dos recursos, da juventude e do potencial necessários. O desafio agora é transformar essas vantagens em capacidade produtiva real. O destino de Angola não será decidido pelo que extrai do subsolo, mas pelo que consegue produzir com inteligência, trabalho e visão de longo prazo.

A indústria é o caminho. E o tempo para o percorrer é agora.

Reformas para a inversão do declínio da Sonangol

Rui Verde[1]

1-O declínio estrutural da Sonangol

A Sonangol atravessa um processo de declínio que não pode ser explicado apenas por conjunturas desfavoráveis, como a pandemia ou a volatilidade dos preços internacionais do petróleo. O que se observa é uma erosão estrutural, resultante da fragilidade institucional e da sua incapacidade em aumentar a produção petrolífera.

Ao mesmo tempo, os investimentos fora do petróleo — em saúde, transportes, telecomunicações ou imobiliário — revelaram-se insustentáveis, acumulando centenas de milhões de dólares em prejuízos e funcionando como um peso crónico sobre as contas[2]. A má governança, marcada por corrupção, nepotismo e esquemas de desvio de combustível, corroeu a credibilidade da empresa e expôs a sua vulnerabilidade institucional[3].

Assim, o declínio da Sonangol não é conjuntural, mas estrutural: resulta da fragilidade dos seus negócios paralelos, da má gestão e da incapacidade de aumentar a produção. O que está em causa não é apenas a oscilação de resultados financeiros, mas a própria relevância da empresa no futuro de Angola.

2-Números do declínio e a sua opacidade

Os números comprovam o declínio sustentado da companhia. Há visível uma tendência de queda dos lucros anuais: em dólares, passaram de 2,1 mil milhões, em 2021, para os 846 milhões USD em 2024. O seu volume de negócios também vai decrescendo, USD 11 483 milhões em 2023 para USD 10 445 212 095 em 2024. Enquanto, isso a sua produção de petróleo está estagnada nos 200 milhões de barris/ mês[4].

***

Ao mesmo tempo, a auditora EY continua a alertar para a opacidade em alguns dos aspetos mais fundamentais da contabilidade da empresa, afigurando-se que a situação é bem mais difícil e insustentável do que aquilo que uma primeira leitura dos números evidenciaria.

De acordo, com a EY, os ativos financeiros da Sonangol apresentam sinais de imparidade: Os investimentos em subsidiárias (544,8 mil milhões de kwanzas) e outros ativos financeiros (666,8 mil milhões) não apresentam provas suficientes para confirmar a sua recuperabilidade futura e é impossível verificar se todos os investimentos estão corretamente reconhecidos.

Igualmente, nas contas a receber do Estado e de entidades públicas, o saldo total ascende a 6,5 biliões de kwanzas, dos quais mais de 1,1 biliões estão em processo de validação e reconciliação, sem que seja possível confirmar a sua existência, propriedade ou recuperabilidade. O restante saldo (5,3 biliões) carece de um plano de reembolso, o que torna impossível determinar se deve ser classificado como um ativo corrente ou não corrente. As relações entre o Estado angolano e a Sonangol EP não podem ser consideradas totalmente credíveis ou transparentes devido a uma série de fatores que revelam opacidade estrutural, falta de mecanismos de verificação pública e dependência de estimativas internas não auditadas. Em primeiro lugar, os acordos de compensação celebrados entre as duas partes — em 2019, 2020 e novamente em 2023 — baseiam-se em processos de reconciliação de saldos que não estão sujeitos a escrutínio externo ou auditoria independente. A validação de créditos e dívidas é realizada utilizando metodologias internas definidas pelo Conselho de Administração da Sonangol, o que torna impossível verificar se os valores compensados refletem com precisão a realidade económica das partes.

Além disso, a conversão de ativos e passivos denominados em kwanzas para dólares americanos é realizada utilizando a taxa de câmbio média do ano fiscal em que as transações foram geradas, sem especificar se este critério foi acordado com o Estado ou se existem mecanismos de controlo para garantir a equidade dessa conversão. Esta prática introduz uma margem de discricionariedade contabilística que pode distorcer os saldos finais.

No final de 2024, a Sonangol efetuou uma compensação adicional de créditos e dívidas com o Estado e outras entidades públicas, com base no artigo 59.º do Código Geral Tributário. No entanto, esclarece-se que apenas foram considerados os créditos reconhecidos pelo órgão estatal competente na data do balanço, o que implica que existem outros créditos não reconhecidos cuja existência e legitimidade permanecem em dúvida.

Por fim, o saldo remanescente a favor da Sonangol — 4,537 mil milhões de dólares — é o resultado de uma cadeia de compensações sucessivas, sem a publicação de um relatório consolidado que permita a verificação da rastreabilidade das operações, os critérios de inclusão ou exclusão de itens ou o impacto fiscal dessas compensações.

***

Estas reservas refletem uma opacidade significativa na contabilidade da Sonangol, especialmente no que diz respeito à fiabilidade dos seus ativos financeiros e à sua relação de crédito com o Estado angolano. A falta de documentação adequada e de processos de verificação contabilística concluídos levanta dúvidas sobre a transparência, exatidão e apresentação fiel das contas consolidadas.

Em conjunto, estes elementos revelam uma relação marcada pela falta de transparência documental, pela ausência de auditoria pública e pela dependência de estimativas internas, o que compromete a credibilidade dos saldos entre a Sonangol e o Estado angolano.

Na verdade, as reservas da EY demonstram que não se sabe precisamente a situação financeira e patrimonial da Sonangol.

3-Falta de eficácia da gestão

A eficácia da gestão da Sonangol tem sido cada vez mais questionada, especialmente à luz do declínio sustentado do investimento e da produção de petróleo, que reflete uma desconexão entre os objetivos estratégicos declarados e os resultados operacionais reais.

Durante anos, a Sonangol foi considerada o motor económico de Angola, mas o seu desempenho recente mostra sinais de estagnação estrutural. Apesar dos esforços de reestruturação iniciados em 2017, a empresa continua a enfrentar desafios significativos em termos de eficiência operacional, governação corporativa e capacidade de investimento.

 A produção interna total de petróleo tem diminuído constantemente, passando de mais de 1,8 milhões de barris por dia em 2008 para menos de 1,1 milhões em 2024, com a Sonangol a não conseguir reverter esta tendência com novas tecnologias de exploração ou de recuperação melhorada, a sua produção está estagnada.

Um dos fatores críticos tem sido a redução do investimento em exploração e desenvolvimento. Em vez de priorizar o reinvestimento produtivo, a Sonangol tem alocado recursos para a compensação da dívida com o Estado, operações financeiras opacas e manutenção de ativos não estratégicos. Esta orientação limitou a sua capacidade de atrair parceiros internacionais e renovar reservas, comprometendo a sua sustentabilidade a longo prazo.

Além disso, a gestão da empresa tem sido marcada por decisões centralizadas e falta de transparência na execução do orçamento. Embora tenham sido anunciados planos de privatização parcial — como uma oferta pública inicial de até 30% das suas ações —, permanecem dúvidas sobre a qualidade da informação financeira e da governança interna, o que desmotiva potenciais investidores.

Em suma, o declínio na produção e a contração do investimento refletem uma gestão ineficaz que não conseguiu adaptar a empresa a um ambiente energético global mais competitivo e diversificado. Sem uma reforma profunda do seu modelo de governação e uma estratégia clara de reinvestimento produtivo, a Sonangol corre o risco de perder o seu papel central na economia angolana.

4-O plano de reforma da Sonangol

A reforma da Sonangol deve ser concebida como um processo estruturado e transparente, capaz de responder simultaneamente às exigências de eficiência empresarial, credibilidade institucional e benefício social.

O modelo proposto assenta em várias linhas de ação complementares.

  • Em primeiro lugar, a privatização de 45% do capital em mercado internacional, com a salvaguarda de que um terço dessa fatia seja reservado aos empregados, cria um duplo efeito positivo: por um lado, abre a empresa ao investimento externo, trazendo capital fresco e know-how internacional; por outro, garante que os trabalhadores se tornam acionistas, participando diretamente nos resultados e adquirindo legitimidade para ocupar lugares na administração. Esta medida não apenas democratiza a estrutura acionista, mas também introduz práticas de gestão mais modernas e menos dependentes de lógicas político-partidárias.
  • Em paralelo, a privatização seletiva das grandes áreas da Sonangol que sistematicamente dão prejuízo, e também da Sonangol Distribuição, responde a uma racionalidade económica clara. O segmento downstreaming, que envolve refinação, transporte e distribuição de combustíveis, é tradicionalmente mais exposto a custos elevados, volatilidade de preços e margens reduzidas. Ao transferir estas operações para investidores privados, cria-se espaço para que o Estado e a Sonangol concentrem esforços nos segmentos estratégicos e rentáveis, como a exploração e produção. A privatização do downstreaming permite ainda maior concorrência no mercado interno, o que pode resultar em preços mais competitivos e melhor qualidade de serviço para os consumidores.
  • Outro eixo fundamental da reforma é a introdução de uma lei que proíba militantes de partidos políticos de ocupar cargos na Sonangol. Esta medida visa blindar a empresa contra a captura partidária e assegurar que a gestão se pauta por critérios técnicos e meritocráticos. A independência da administração é condição indispensável para atrair investidores internacionais e recuperar a confiança pública, evitando que a Sonangol seja utilizada como instrumento de clientelismo político.
  • No plano social, o modelo prevê que uma parte das receitas seja destinada diretamente às comunidades locais e às províncias onde se obtém petróleo. Esta redistribuição territorial contribui para reduzir desigualdades regionais, reforçar a legitimidade da exploração de recursos e criar um vínculo positivo entre a população e a empresa. Ao canalizar fundos para infraestruturas, educação e saúde nas zonas produtoras, a Sonangol pode transformar-se num agente de desenvolvimento inclusivo, mitigando tensões sociais e ambientais.
  • Finalmente, o aumento do investimento em investigação e desenvolvimento (R&D) é essencial para garantir a sustentabilidade futura da empresa. Num contexto global de transição energética, a Sonangol deve investir em tecnologias de eficiência, energias renováveis e soluções de descarbonização. Este esforço em inovação não apenas diversifica a sua base de negócios, mas também posiciona Angola como ator relevante na economia energética do futuro.

Em síntese, este modelo de reforma combina abertura ao capital internacional, democratização interna, racionalização económica, blindagem institucional contra interferências partidárias, redistribuição social e aposta em inovação. Trata-se de um desenho que procura equilibrar eficiência empresarial com responsabilidade social e credibilidade política, criando as condições para que a Sonangol se transforme numa empresa moderna, competitiva e legitimada perante a sociedade angolana e a comunidade internacional.


[1] Este texto conta com os subsídios obtidos na Jornada de Estudos sobre Companhias Nacionais de Petróleo em que participei ocorrida no Colégio do México em Novembro de 2025.

[2] https://portalangoline.com/negocios-fora-do-petroleo-dao-850-milhoes-usd-de-prejuizos-em-5-anos/

[3] https://diariodosnegocios.com/sonangol-corrupcao-distribuidora-fraude-combustivel/

[4] Cfr. Relatórios da Sonangol em https://www.sonangol.co.ao/

Policy brief-CEDESA

Dossier Surveillance in Angola

Rui Verde

This policy brief examines the current state of intelligence surveillance oversight in Angola, highlighting the legislative framework, its shortcomings, and the reforms needed to align national practices with democratic standards and international norms.

Intelligence surveillance in Angola has historically been shaped by the country’s authoritarian legacy and the central role of security services in maintaining political control. Since independence in 1975, the intelligence apparatus has been closely tied to the presidency and ruling party, with limited checks on its activities. Oversight mechanisms have remained weak, and surveillance has often been deployed against political opponents, civil society activists, and journalists. The legacy of discretionary power and opacity continues to undermine trust in institutions, despite recent reforms aimed at modernizing Angola’s legal framework and governance structures. 

The legislation and general operational framework

The legislative framework governing surveillance is fragmented and lacks clarity. Angola’s Constitution recognizes fundamental rights such as privacy, freedom of expression, and due process, but these guarantees are often undermined by broad national security provisions. The National Security Bill, debated in recent years, has raised concerns among legal analysts and civil society because of its vague definitions of threats and its expansive powers granted to intelligence agencies. Critics argue that the bill risks institutionalizing surveillance practices without adequate safeguards, thereby perpetuating a culture of impunity. The courts, which should act as a check on executive power, have historically struggled to assert independence, as illustrated by the 15+2 case (2016), where activists were convicted under dubious charges of plotting rebellion. Public and international outcry eventually forced parliament to adopt an amnesty law, demonstrating that external pressure rather than institutional oversight was decisive in curbing abuse. 

Recent legal reforms in Angola, particularly under President João Lourenço, have sought to improve governance and fight corruption. These include new anticorruption laws, reforms to public financial management, and efforts to align Angola’s legal system with international standards. However, reforms in the intelligence and surveillance sector have lagged behind. While Angola has made progress in transparency in some areas, it remains on the Financial Action Task Force’s grey list for weaknesses in anti-money laundering and counter-terrorism financing frameworks. This highlights the persistence of systemic vulnerabilities in oversight mechanisms, especially in sectors where secrecy is justified under national security. 

The absence of a dedicated, independent oversight body for intelligence surveillance is a major gap. In democratic systems, parliamentary committees, judicial review, and independent regulators play a crucial role in ensuring that surveillance powers are exercised lawfully and proportionately. In Angola, parliamentary oversight remains limited to the Second Commission of the National Assembly, with security services enjoying broad discretion. Civil society organizations have attempted to fill this gap, but their capacity is constrained by political pressures and limited access to information. International actors, including NGOs and foreign governments, have occasionally exerted influence, as seen in the Luanda Reading Club case, but such interventions are episodic and cannot substitute for institutionalized oversight. 

The need for reforms

The need for reform is urgent. Angola’s surveillance framework must be recalibrated to balance national security with individual rights.

First, legislation should clearly define the scope of surveillance powers, establish strict criteria for authorization, and require judicial approval for intrusive measures such as wiretapping or data interception.

Second, parliamentary oversight should be strengthened through the creation of a specialized committee with access to classified information and the mandate to scrutinize intelligence operations.

Third, independent regulators should be empowered to audit surveillance practices, investigate abuses, and report publicly on compliance with legal standards.

Fourth, civil society participation should be institutionalized, ensuring that watchdog organizations can contribute to oversight without fear of reprisal. 

Reforms must also address the broader governance environment. Intelligence surveillance does not operate in isolation; it is embedded in a political system where corruption, weak rule of law, and executive dominance persist. Strengthening judicial independence is therefore essential, as courts must be able to adjudicate surveillance-related cases without political interference. Similarly, enhancing transparency in public administration and reinforcing anticorruption measures will create a more conducive environment for effective oversight. International cooperation can play a supportive role, particularly in capacity-building and technical assistance, but reforms must be domestically owned to ensure sustainability. 

The Angolan government faces a strategic choice. Continued reliance on opaque surveillance practices risks eroding public trust, deterring foreign investment, and undermining Angola’s international credibility. Conversely, embracing reform could signal a genuine commitment to democratization and human rights, strengthening Angola’s position in global governance forums. The experience of other countries in Southern Africa demonstrates that oversight of intelligence surveillance is possible even in challenging political contexts. By institutionalizing checks and balances, Angola can move beyond episodic responses to crises and build a durable framework that protects both national security and civil liberties. 

Conclusion

In conclusion, Angola’s current oversight of intelligence surveillance is inadequate, characterized by weak legislative safeguards, limited institutional checks, and reliance on external pressure to curb abuses. While recent governance reforms have improved transparency in other sectors, surveillance oversight remains underdeveloped. The path forward requires comprehensive legislative reform, stronger parliamentary and judicial oversight, independent regulatory mechanisms, and meaningful civil society participation. These measures are not merely technical adjustments; they are essential to consolidating democracy, protecting fundamental rights, and ensuring that intelligence surveillance serves the public interest rather than political expediency. Angola’s future stability and credibility depend on its ability to transform its surveillance framework into one that is transparent, accountable, and aligned with international norms. 

Sources:

-Committee to Protect Journalists. (2024, April 1). Angola’s proposed national security law threatens press freedom, puts journalists at risk* CPJ. https://cpj.org/2024/04/cpj-angolas-proposed-national-security-law-threatens-press-freedom-puts-journalists-at-risk/

-DCAF. (2011). ntelligence oversight: Ensuring accountable intelligence within a framework of democratic governance*. Geneva Centre for Security Sector Governance. https://www.dcaf.ch/sites/default/files/publications/documents/DCAF_BG_11_Intelligence%20Oversight.pdf

-Generis Online. (2024, November 7). Recent legal reforms in Angola: An overview of new laws and their implications. Generis Online. https://generisonline.com/recent-legal-reforms-in-angola-an-overview-of-new-laws-and-their-implications/

-Human Rights Watch. (2024, April 23). Angola: Proposed security law threatens rights*. Human Rights Watch. https://www.hrw.org/news/2024/04/23/angola-proposed-security-law-threatens-rights

-Human Rights Watch. (2025). World Report 2025: Angola. Human Rights Watch. https://www.hrw.org/world-report/2025/country-chapters/angola

-Intelwatch. (2024, February). Mapping intelligence oversight laws in Southern Africa. Intelwatch & Media Policy and Democracy Project. https://intelwatch.org.za/wp-content/uploads/2024/04/Mapping-intelligence-oversight-Laws-in-Southern-Africa_FIN-COMPRESSED.pdf

-OHCHR. (2025). Angola | UN Human Rights Office. Office of the High Commissioner for Human Rights. https://www.ohchr.org/en/countries/angola

-U.S. Department of State. (2024). Angola 2024 human rights report. U.S. Department of State. https://www.state.gov/wp-content/uploads/2025/07/62451_ANGOLA-2024-HUMAN-RIGHTS-REPORT.pdf

-University of Glasgow. (2024). Watching the watchers: Strengthening public oversight of intelligence-driven surveillance – Angola case study. University of Glasgow. https://www.gla.ac.uk/research/az/watchingthewatchers/angola/

-Ver Angola. (2024, August 14). Parliament approves law on national security and UNITA questions “grey areas”. Ver Angola. https://www.verangola.net/va/en/082024/Politics/41166/Parliament-approves-law-on-National-Security-and-UNITA-questions-%E2%80%9Cgrey-areas%E2%80%9D.htm

-Verde, R. (2021). Israeli involvement in electronic surveillance in Angola: A step towards transparency or the sophistication of illegal practices?*Media Policy and Democracy Project. http://www.mediaanddemocracy.com/uploads/1/6/5/7/16577624/angola_report.pdf

This policy brief is an original from CEDESA. The briefing forms part of an eight-country research project titled “Public Oversight of Digital Surveillance for Intelligence Purposes: A Comparative Case Study of Oversight Practices in Southern Africa,” supported by the British Academy Global Professorship Programme through the University of Glasgow.

Unconstitutionalities: the Security and Vandalism Laws

Dossier Surveillance in Angola

Newspaper article

Rui Verde

Disliking a law is not the same as declaring it unconstitutional. In fact, democracy exists to decide on disagreements and is defined by majority decision, respecting the Constitution.

This question arises in relation to two recent laws passed by the National Assembly: the National Security Law (Law No. 15/24 of 10 September) and the Law against Vandalism of Public Property (Law No. 13/24 of 29 August).

The discussion of these laws has sparked heated debates and disputes, with only one extreme position on each side of the argument: either the laws were totally unconstitutional and should be eradicated outright, or they were perfect and there was nothing to change.

The reality, however, is different. Both laws raise questions about certain unconstitutionalities that need to be removed or clarified, but contrary to what has been described, they are not draconian monstrosities. Perhaps for this reason, UNITA, the main opposition party, abstained in the final vote on both laws, not voting against them.

In this sense, it is important to distinguish between a maximalist approach and a minimalist view of unconstitutionality.

Unconstitutionality is not a political or a matter of taste, it is a technical issue and, in simple terms, it translates into the non-compliance of a legal norm with a constitutional norm.

The Constitution is the supreme norm and, as such, is necessarily general, based mainly on principles and sparse indications of the main rules that should prevail in a country. This means that, by its very nature, the Constitution does not provide a direct answer to all legal questions, and the interpretative effort is both greater and more careful than in the interpretation of a law. The foundations of the State, the freedom of citizens and the functioning of institutions are always at stake.

That is why a minimalist and technical approach to questions of unconstitutionality is advocated, freeing them as much as possible from political baggage.

The best contribution that can be made to the fair enforcement of the National Security Law and the Law Against Vandalism of Public Property is to point out specifically and concretely their possible unconstitutionalities, so that the Constitutional Court can effectively rule on them, rather than issuing generalised anathemas that mix everything up and solve nothing.

As the poet Camões beautifully wrote in a sonnet, ‘I embrace the whole world and hold nothing’. Those who opt for a maximalist view of unconstitutionalities are like the lyrical self in Camões’ sonnet: they embrace everything and hold nothing.

Thus, in summary, in order to be specific and not just use general words, the main unconstitutionalities that can be seen in the aforementioned laws are listed below.

With regard to the National Security Law – in the version of the proposed law and not the final version – it was understood that Article 40 (Special duty of cooperation) would be unconstitutional, as it established a general duty to report threats to national security, which were not clearly specified and only vaguely stated. In turn, Articles 39 (Duty to cooperate) and 36 (Preventive measures) did not appear to be unconstitutional (although the issue is debatable), since, based on their wording, they did not appear to be prescriptive rules, i.e., they did not impose a legal command. Article 39 created a civic and patriotic duty to cooperate in the pursuit of national security objectives, rather than a legal duty, let alone a sanctioned one. Article 36 – the one that caused the most uproar, as it appeared to grant broad powers to the security forces – did not, in fact, grant new or different powers to the security forces, but merely listed those already provided for in other laws and in the Constitution.

All of this was explained in an article on this website last February.

The truth is that, once the final version of the law was published (Series I, No. 174, 10 September 2024), it became clear that the detailed discussion in the National Assembly had been fruitful, and the enacted law no longer contained the main problems that had been noted.

Thus, the article that caused the most controversy – the famous Article 36 on preventive measures – no longer exists. Similarly, the former Article 40 on the special duty of collaboration, which we called the “generalised snitching” article, has been transformed into Article 37, with a defined scope based on express law, dispelling the spectre of an absurd duty to report.

However, Article 39, which was dedicated to the duty of patriotic and civic cooperation with the intelligence services, has been retained, now as Article 36. It is understood that this article does not create any legal obligation and that failure to comply with it does not entail any penalty. In any case, a constitutional assessment of the issue would be enlightening.

The novelty lies in Article 35, which reworded what was previously Article 38, which established a duty for citizens to participate in the national security system, specifying what that participation would entail: ‘[n]ot fulfilling their duty to serve in National Defence, Public Security and Internal Order’. The current Article 35 is short, stating that ‘national citizens have a duty to participate in the achievement of National Security objectives, in accordance with the Constitution and the Law.’ It has become an overly vague and generic rule, which may allow the enforcer a margin of latitude that is not well defined.

In conclusion, the final form of the National Security Law does not present the dangers anticipated in its initial version, prior to public and legislative discussion, demonstrating that civic and public discussion of the issues is fundamental. It has been modified for the better. However, in terms of legal certainty, it would be beneficial to see a clear interpretation of Articles 35 and 36.

As for the Vandalism Law, there are two articles that are cause for concern: Article 7 (Destruction of public road, rail and water transport infrastructure or means of transport) and Article 9 (Promotion of vandalism of public property and services).

These articles have two problems. Firstly, they provide for the maximum penalty of 25 years, which is disproportionate. The principle of proportionality, enshrined in Article 2 of the Constitution, establishes a balance between crime and punishment in order to ensure criminal justice. It makes no sense for the destruction of public property to be equated with genocide or aggravated murder.

Secondly, they propose a vague nature of the criminal offence, which violates the principle of criminal legality (Article 65 of the CRA). The principle of criminal legality includes what is known as criminal typicality. Typicality prevents the legislator from using vague, uncertain or indefinable formulas in the description of legal types of crime. There is a constitutional requirement for the content of criminal law to be determinable, both so that citizens can clearly understand what behaviour is not permitted and to avoid arbitrariness in the application of the law.

In summary, and according to the minimalist perspective of unconstitutionality defended here, the Constitutional Court should be called upon to rule on Articles 35 and 36 of the National Security Law as a matter of establishing constitutional interpretation, and on Articles 7 and 9 of the Law against Vandalism of Public Property.

This article was originally published in MakaAngola on the 16 February 2024. The article forms part of an eight-country research project titled “Public Oversight of Digital Surveillance for Intelligence Purposes: A Comparative Case Study of Oversight Practices in Southern Africa,” supported by the British Academy Global Professorship Programme through the University of Glasgow.

Generalised Nonsense Law

Dossier Surveillance in Angola

Newspaper article

Rui Verde

Bizarre things happen in Angolan politics. The most recent concerns the proposed National Security Law. This legislation has already been approved in general terms by the National Assembly, with 112 votes in favour, zero against and 85 abstentions. Therefore, no one, not even any party, voted against it. However, after the vote, a storm arose, with some claiming that this law would establish a dictatorship, transforming Angola into North Korea, and so on.

The truth is that this discussion should have taken place before the general approval, in the context of the debates in the National Assembly. While it is legitimate to discuss the issue now, it is not clear why the proposal was not sufficiently scrutinised prior to the vote.

It is necessary to read the text of the law carefully, with as much distance and objectivity as possible, in order to understand what it actually does or does not endanger. That is what we propose to do here.

Let us begin with what cannot be included in the law. This is Article 40, which stipulates that all civil servants, administrative agents of public and private companies and others have a special duty to report to the national security system any facts that come to their knowledge in the course of their duties, or because of them, and which constitute risks and threats to national security. The same article adds that violation of this duty is subject to disciplinary or criminal liability, in accordance with the law.

This rule is poorly worded, as it is not clear who it covers. All employees of public and private companies? Does the owner of a private company not have this duty to report? What about a sole trader? In addition, the meaning of the term “others” to identify who has this duty is unclear. Other employees? Other people? Who?

This shows that the rule would be impracticable. Similarly, there is no known law that imposes criminal liability on those who violate this duty. Where is this law?

Therefore, we have here a legal mess, with a rule that is vaguely worded, inoperative, and absolutely unconstitutional. If the aim of the rule was to copy a recent provision of Chinese security law, which makes every citizen a potential spy (the National Intelligence Law of the People’s Republic of China, which was enacted in 2017), requiring all organisations and citizens to cooperate with and support intelligence agencies in their work and granting them immunity from legal liability for their actions, then the law is obviously unconstitutional because it violates the rights of freedom enshrined in Article 36 of the Constitution of the Angolan Republic (CRA), namely the right to enjoy full physical and mental integrity, as well as the freedom of conscience in Article 41, among others.

In short, Article 40 of the proposed National Security Law seems to want to establish a general duty to report threats to national security, which are not clearly specified and are only vaguely stated. Consequently, Article 40 should be removed from the law. Generalised ‘snitching’ does not build a democratic rule of law.

Along the same lines, although no longer creating legal duties, but merely civic ones – and therefore without binding legal force – is Article 39, which prescribes to citizens and legal persons the patriotic and civic duty to collaborate in the pursuit of national security objectives and not to obstruct the normal functioning of the sectors, institutions, bodies and services of that system.

This is merely a moral statement, and not a threat of legal action. Similarly, this rule is meaningless, not least because it is not a true legal rule.

Article 36 has been much debated, especially paragraph 4, which would allow the security system’s forces and services to propose the temporary interruption of land, air, sea and river communication routes, telecommunications systems, access and movement of persons, as well as the evacuation or temporary abandonment of places or means of transport.

This rule is not injunctive, i.e. it does not create a new and immediate right. It is merely a list of possibilities that must be specifically provided for or limited by other laws. This means that, for example, the security services may propose internet cuts, provided that this is provided for in other legislation or within the limits of other legislation. This is not a new right established without limitation by this rule, neither in this case nor in any of the measures set out in Article 36. Perhaps the wording could be improved.

If we look closely, this problem (internet disruption) arises in other Western countries and with dubious responses. For example, in the United States, it seems to be accepted that the government can disrupt the internet for national security reasons, although it is not clear exactly who can do so. The President of the United States has executive authority to declare a national emergency and take the necessary measures to protect the nation from external or internal threats. However, the President’s power is subject to constitutional and legal limitations, as well as judicial and congressional oversight. The Department of Homeland Security (DHS), which is the primary federal agency responsible for coordinating and implementing national security strategy, including cybersecurity and critical infrastructure protection, has the authority to issue binding operational directives to federal agencies and request the cooperation of private sector entities to address cyber threats and vulnerabilities.  The Department of Justice (DOJ) has the authority to request or obtain court orders to compel or authorise the interception or disruption of communications for law enforcement or national security purposes.  The Federal Communications Commission (FCC), which is the independent federal agency that regulates the telecommunications sector, including the internet, has the authority to issue rules and orders that affect the availability and quality of communications services, as well as to enforce its regulations and impose penalties for violations. This is a confusing legal framework.

Essentially, the rest of the Angolan bill does not consist of prescriptive rules, i.e. rules that require certain conduct, but merely principles and framework rules that create general guidelines and are essentially organisational. Few elements of this law have immediate application and effect on citizens.

In fact, when it comes to issues related to security services, laws can hardly be perfect. The question that always arises is whether there should be a law on this subject, even if it is imperfect, or whether, on the contrary, there should be no law at all, leaving the services to act in the best way possible in the world of mere facts.

This article was originally published in MakaAngola on the 5 February 2024. The article forms part of an eight-country research project titled “Public Oversight of Digital Surveillance for Intelligence Purposes: A Comparative Case Study of Oversight Practices in Southern Africa,” supported by the British Academy Global Professorship Programme through the University of Glasgow.

O Corredor do Lobito: Retórica, Engenharia Financeira e Disputas de Valores

Rui Verde[1]

O Fórum Global Gateway realizado em Bruxelas em outubro de 2025 reafirmou o posicionamento da União Europeia (UE) como ator geoeconómico estratégico na África Austral. No centro das atenções esteve o Corredor do Lobito — a infraestrutura ferroviária que liga o porto angolano de Lobito às regiões mineiras da República Democrática do Congo (RDC) e da Zâmbia. Apresentado pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, como um dos projetos mais ambiciosos do programa europeu, o corredor é descrito como uma alavanca para garantir o acesso a minerais críticos, promover o processamento local e estimular cadeias de valor regionais (CEDESA, 2024a; European Commission, 2025).

Ambiguidade Estrutural e Engenharia Financeira

Apesar da retórica otimista, os diálogos entre especialistas e diplomatas revelam uma ambiguidade estrutural no funcionamento do Global Gateway. Ao contrário do que muitos pressupõem, o programa não constitui um mecanismo de financiamento direto e integral. Trata-se, antes, de uma plataforma de articulação entre fundos públicos, empréstimos concessionais e investimentos privados. A UE tem privilegiado o financiamento de estudos técnicos, estruturação de transações e apoio institucional, enquanto a construção física das infraestruturas depende de montagens financeiras complexas — envolvendo o Banco Europeu de Investimento (BEI), bancos comerciais e operadores como Trafigura e Mota-Engil (CEDESA, 2024a; AfDB, 2024).

A tendência de agrupar sob o rótulo “Global Gateway” iniciativas díspares, anteriores ou paralelas, levanta questões sobre transparência, coordenação e rastreabilidade dos compromissos. A ausência de um quadro consolidado que permita distinguir entre promessas políticas, investimentos efetivos e financiamentos condicionados dificulta a avaliação do impacto real do programa. A fragmentação das fontes — entre UE, EUA, operadores privados e instituições multilaterais — exige uma abordagem mais integrada e transparente, capaz de alinhar interesses estratégicos com desenvolvimento local e soberania africana sobre os seus recursos (Consilium, 2024).

O Envolvimento dos Estados Unidos: Retórica versus Realidade

A contribuição dos Estados Unidos, frequentemente citada como superior a cinco mil milhões de dólares, também merece escrutínio. Segundo fontes ligadas a uma empresa belga com conhecimento do projeto, os empréstimos americanos seguem condições de mercado, e grande parte dos investimentos efetivos provém de empresas privadas. A expectativa é que novos anúncios sejam feitos, mas permanece incerto o grau de comprometimento público versus privado, e o equilíbrio entre financiamento e execução (CEDESA, 2024b; RFI, 2025).

Este padrão de envolvimento revela uma lógica de exportação de capital e influência, onde o valor estratégico dos minerais africanos é mobilizado para justificar investimentos que também beneficiam indústrias ocidentais. A retórica de “parcerias equitativas” contrasta com a realidade de cadeias de valor ainda dominadas por centros de refinação fora do continente africano.

Angola como Plataforma Energética e Geopolítica

Paralelamente, o anúncio de um projeto energético de grande escala reforça a centralidade estratégica de Angola na arquitetura infraestrutural regional. A empresa americana Hydro-Link, subsidiária da Symbion Power, assinou um acordo preliminar com a RDC para construir uma linha de transmissão elétrica avaliada em 1,5 mil milhões de dólares, que partirá de centrais hidroelétricas angolanas rumo à região mineira de Kolwezi. Este traçado não apenas posiciona Angola como fornecedor energético regional, mas também como pivô logístico na integração dos mercados de minerais críticos da África Austral. O projeto visa fornecer 1.200 MW à zona com os maiores depósitos mundiais de cobre, cobalto, zinco, lítio e manganês, atualmente limitada por um défice energético superior a 1.500 MW (Mitrelli, 2025; Pumps Africa, 2025).

A escolha de Angola como ponto de origem da energia elétrica não é meramente técnica, mas revela uma aposta geoeconómica na estabilidade institucional e na capacidade instalada do país. Ao canalizar energia angolana para alimentar a mineração congolesa, o projeto reforça a interdependência regional e amplia o papel de Angola como plataforma de exportação de recursos energéticos e minerais. Além disso, a engenharia financeira do projeto — que combina financiamento da US Development Finance Corporation, garantias da US TDA e do Ex-Im Bank, e contratos com fornecedores americanos — inscreve Angola numa lógica de valorização estratégica dos seus ativos energéticos, com implicações diretas na sua posição negocial e na atração de investimentos estruturantes.

O projeto liderado pela Hydro-Link inscreve-se numa lógica de política externa americana que mobiliza aliados empresariais próximos de Donald Trump. O CEO da Symbion Power, Paul Hinks, tem histórico de colaboração com agências federais como a Millennium Challenge Corporation e o Ex-Im Bank, e é ativo em fóruns empresariais que promovem a presença americana em África. A possível assinatura do projeto durante a U.S.–Africa Business Summit em Luanda — organizada pelo Corporate Council on Africa, entidade com ligações históricas a administrações republicanas — reforça o alinhamento com a política “America First”, que privilegia contratos com fornecedores dos EUA e a exportação de capital estratégico (Business Insider Africa, 2025; African Business, 2025).

Também relevante é a participação do grupo Mitrelli, com forte implantação em Angola, liderado pelo israelita, Haim Taib, o que permite antecipar uma aliança entr o poder económico angolano (e político, uma vez que ambos estão ligados) e os interesses financeiros de possíveis aliados de Donald Trump.

Disputas de Valores e Narrativas Concorrentes

O Corredor do Lobito tornou-se um palco de disputas de valores e narrativas concorrentes. A UE promove uma abordagem centrada na sustentabilidade, inclusão e desenvolvimento local, enquanto os Estados Unidos enfatizam a segurança energética e a competitividade industrial. A China, embora menos visível neste projeto específico, continua a ser um ator dominante na mineração africana, com redes logísticas e industriais já consolidadas, pelo que dificilmente, o Corredor do Lobito poderá ser um sucesso sem a participação e colaboração chinesa.

Neste contexto, a retórica de “parcerias equitativas” deve ser confrontada com indicadores concretos de transferência de tecnologia, capacitação local e participação africana nas cadeias de valor. A ausência de centros de refinação no continente, por exemplo, perpetua uma dependência estrutural que limita os ganhos de valor agregado para os países produtores. A engenharia financeira sofisticada, embora necessária, não pode substituir compromissos claros com a soberania económica africana.

Rastreabilidade e Transparência: A necessidade de um Observatório Independente Africano para o Corredor do Lobito

Por fim, a questão da rastreabilidade dos compromissos permanece central. A falta de um inventário público e verificável dos projetos, montantes e beneficiários dificulta a avaliação do impacto real do Global Gateway e dos acordos bilaterais. A fragmentação das fontes — entre UE, EUA, operadores privados e instituições multilaterais — exige uma abordagem mais integrada e transparente (Consilium, 2024; European Commission, 2025).

A criação de um observatório independente, com participação africana, é fundamental para consolidar dados, monitorar compromissos e avaliar impactos. Tal iniciativa permite distinguir entre promessas políticas, investimentos efetivos e financiamentos condicionados, promovendo maior responsabilização e alinhamento com os objetivos de desenvolvimento sustentável, e evitando mais um projeto neocolonial de mero extrativismo acelerado.

Referências

AfDB. (2024). *Global Gateway: Comissão Europeia e Grupo Banco Africano de Desenvolvimento desbloqueiam novos financiamentos para projetos de infraestruturas em África*. https://afdb.africa-newsroom.com

African Business. (2025). *US firm to build $1.5bn Angola to DRC power line*. https://african.business

Business Insider Africa. (2025). *US firm to build $1.5B power line linking Angola, DRC*. https://africa.businessinsider.com

CEDESA. (2024a). *Corredor do Lobito: A nova geopolítica dos minerais críticos*. https://www.cedesa.pt

CEDESA. (2024b). *Análise económica: Angola 2025*. https://www.cedesa.pt

CEDESA. (2024c). *Quem somos*. https://www.cedesa.pt

Consilium. (2024). *Global Gateway: Conselho aprova lista de projetos emblemáticos para 2025


[1] O texto conta com variados contributos dos participantes no II Fórum Angola-RDC realizado a 15 de setembro de 2025 no Club Prince Albert, em Bruxelas. Uma vez que se aplicam as regras Chatham House, apenas as ideias são divulgadas, mas não quem as adiantou.

O mundo unipolar desapareceu para sempre

“Mais do que um espaço económico, o Fórum Macau tem que funcionar como “ponte estratégica para promover confiança política e aproximação cultural entre a China e o mundo lusófono”, diz João Shang, investigador associado no Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA). Para o investigador, os PALOP “não constituem uma potência económica ou militar comparável a outros blocos regionais, mas têm um valor significativo em termos culturais, linguísticos e geopolíticos que a China valoriza”

Como é que Pequim vê os PALOP dentro da sua relação mais ampla com a África?

João Shang — A China tem-se esforçado por construir boas relações com todos os países africanos e, naturalmente, isso inclui também os seis países lusófonos africanos. Apesar do peso económico dos PALOP não ser muito grande, a China pretende manter uma amizade de longo prazo. Entre os PALOP, Angola, Moçambique e a Guiné Equatorial são atualmente os parceiros comerciais mais importantes da China, devido ao elevado volume de trocas comerciais; Cabo Verde e São Tomé e Príncipe destacam-se como destinos turísticos para viajantes chineses; e as relações políticas com a Guiné-Bissau mantêm-se num ótimo nível no plano internacional.

Dado o alargamento dos BRICS e o papel da China nesse processo, vê espaço para que os PALOP — em particular Angola — possam aderir num futuro próximo?

J.S. – O mundo de hoje é diversificado, o mundo unipolar desapareceu para sempre. Por isso, é necessário cultivar uma atmosfera cultural e política diversificada, sobretudo entre os países do Sul Global, em desenvolvimento ou subdesenvolvidos. O surgimento dos BRICS corresponde à expectativa de muitos desses países, que procuram obter mais benefícios e apoio através dessa plataforma.

Na realidade, o papel dos BRICS é muito diferente do das alianças ocidentais. Não se trata de uma entidade militar, mas sim de um mecanismo económico, no qual todos os membros têm direitos iguais. Não existe um líder que controle os BRICS — China, Índia ou África do Sul têm direitos equivalentes. Portanto, não se pode dizer que a China seja o “líder” dos BRICS.

Atualmente, a África do Sul procura atrair mais países africanos para o grupo. A Etiópia e o Egito tornaram-se membros oficiais em 1 de janeiro de 2024. Além disso, após a cimeira de 2023, países como o Zimbabué e a Argélia manifestaram interesse em aderir, embora ainda não o tenham feito. Os países lusófonos africanos precisariam de apresentar formalmente a sua candidatura.

Nos últimos anos, o Governo angolano tem-se aproximado dos Estados Unidos e a relação com a Rússia não é boa. Parece-me, por isso, que Angola terá primeiro de convencer Moscovo a apoiar a sua entrada. A China, por seu lado, continua ao lado de Angola. Em 2024, os dois países assinaram a Declaração Conjunta sobre o Estabelecimento da Parceria de Cooperação Estratégica Global, um acordo de grande importância que reforça os laços bilaterais.

Considera que uma eventual federalização ou integração política mais forte dos PALOP os tornaria parceiros mais atrativos para a China?

J.S. – No cenário mundial, os PALOP não constituem uma potência económica ou militar comparável a outros blocos regionais, mas têm valor significativo em termos culturais, linguísticos e geopolíticos. Angola e Moçambique destacam-se como as maiores economias do grupo, sobretudo graças ao petróleo, gás natural, carvão e outros minerais estratégicos. Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, apesar da sua dimensão, têm importância estratégica devido à localização atlântica, servindo como pontos de apoio logístico e de segurança marítima.

Politicamente, os países do grupo participam ativamente na União Africana e nas Nações Unidas, muitas vezes de forma coordenada. Angola tem desempenhado um papel relevante na mediação de conflitos regionais, enquanto Cabo Verde se afirma como exemplo de estabilidade democrática em África.

Assim, a China vê oportunidades de cooperação acrescidas com os PALOP, sobretudo na importação de matérias-primas e no setor agrícola. Há, portanto, muito espaço para expandir a cooperação.

Angola é o segundo maior parceiro comercial lusófono da China, depois do Brasil, mas as suas exportações para Pequim têm vindo a cair. Quais são os fatores que explicam esta queda e como poderá Angola diversificar as suas exportações para além do petróleo?

J.S. – As exportações angolanas para a China deverão cair cerca de 17% em 2025, sobretudo porque Pequim diversificou os seus fornecedores de petróleo, privilegiando países como a Rússia e outros no Médio Oriente, com preços e custos de transporte mais baixos. Assim, a diminuição das compras de petróleo angolano não surpreende.

Além disso, Angola atravessa atualmente um período económico difícil. A escassez de divisas, os cortes nos subsídios, a desvalorização da moeda, o aumento dos preços do petróleo e a inflação reduziram o poder de compra interno, levando também à queda das importações provenientes da China.

Desde 2014, o Governo angolano tem tentado diversificar a economia, consciente dos riscos da chamada “doença holandesa” [Em economia, doença holandesa refere-se à relação entre a exportação de recursos naturais e o declínio do setor manufatureiro]. Foram promovidos projetos agrícolas, mineiros, industriais e turísticos para reduzir a dependência do petróleo. Contudo, a reforma económica revelou-se um teste exigente para todo o sistema governativo, exigindo forte coordenação interministerial.

Onze anos depois, o petróleo continua a ser o pilar da economia, dada a sua elevada rentabilidade e os menores custos de investimento comparativamente a outros setores. Houve investimentos em agricultura e mineração, mas com resultados limitados. O Governo instou as províncias a atrair mais investimento, mas o ambiente de negócios desafiante tem afastado investidores ocidentais. As empresas chinesas, por sua vez, concentram-se sobretudo na construção e no comércio, criando empregos e mais recentemente apostando em fábricas locais, o que gera oportunidades para a juventude angolana.

Angola tem laços históricos com a Rússia e está também a explorar parcerias com a União Europeia. Como é que a China gere a diplomacia multivetorial angolana?

J.S. – Antes de mais, a China segue uma política de não-interferência nos assuntos internos de outros países, reconhecendo que o Governo angolano tem o direito de escolher os seus próprios parceiros. Atualmente, as relações entre Angola e a Rússia estão a desenvolver-se, mas não de forma tão sólida como se poderia esperar. Interesses divergentes conduziram a abordagens distintas e até conflituosas, levando cada parte a seguir a sua própria agenda.

Desde 2017, Angola tem procurado financiamento e apoio ocidental. Contudo, muitos desses apoios não se materializaram na prática. Um exemplo é o Corredor do Lobito: após os EUA anunciarem de forma abrupta que não participariam no projeto, Angola viu-se obrigada a procurar assistência junto de países árabes, de Israel, da Coreia do Sul e do Banco Africano de Desenvolvimento.

Quão eficaz tem sido a promoção de investimento e comércio via Fórum Macau, sobretudo para economias mais pequenas como São Tomé e Príncipe ou a Guiné-Bissau?

J.S. – Um dos papéis centrais do Fórum Macau é o de aprofundar a cooperação económica e comercial. Têm sido promovidos investimentos bilaterais, facilitação do comércio e parcerias em setores estratégicos como energia, infraestruturas, agricultura, pescas e finanças. Para além disso, iniciativas como o Fundo de Cooperação e Desenvolvimento China–Países de Língua Portuguesa apoiam projetos concretos de desenvolvimento.

O Fórum desempenha igualmente um papel importante no intercâmbio cultural e humano. Através de programas de formação e capacitação, promove-se a transferência de conhecimento e o fortalecimento das relações entre profissionais e instituições. Macau, pela sua herança sino-lusófona e pelo uso oficial da língua portuguesa, funciona como ponto de encontro privilegiado nesse diálogo.

Sendo a única cidade da China onde o português é língua oficial, Macau pode servir de ponte entre a China e os PALOP. O Fórum de Macau, em articulação com a CPLP, constitui uma plataforma estratégica de intercâmbio e cooperação, onde o idioma comum reforça a confiança e a proximidade entre os membros. Em síntese, o Fórum Macau é muito mais do que um espaço económico: é uma ponte estratégica que promove confiança política, desenvolvimento conjunto e aproximação cultural entre a China e o mundo lusófono.

Tendo em conta as mais recentes estatísticas que mostram uma queda nas exportações dos PALOP para a China, espera que Pequim reajuste as suas políticas ou os seus instrumentos de financiamento, como o Fundo de Cooperação para o Desenvolvimento China–Países de Língua Portuguesa?

J.S. – A China tem interesse em manter relações comerciais robustas com os PALOP, tanto para garantir o fornecimento de matérias-primas (petróleo, minerais, etc.) como para expandir o acesso a novos mercados consumidores.

Em 2023, o Fundo Sino-Lusófono flexibilizou as regras de acesso ao financiamento, permitindo que mais empresas lusófonas recorressem às suas linhas de crédito. Essa tendência poderá traduzir-se em mais capital, empréstimos mais acessíveis ou condições financeiras mais favoráveis (juros, prazos, garantias) para projetos de exportação ou produção nos PALOP.

A ideia é também incentivar os países produtores a agregar valor aos seus produtos, para exportarem não apenas matérias-primas, mas também bens transformados com maior valor acrescentado. Outro eixo de ação passa por apoiar reformas portuárias, infraestruturais e aduaneiras, reduzindo tarifas e barreiras não-tarifárias que ainda dificultam as exportações africanas.

Desde o Fórum de Cooperação China-África de 2025, Pequim concedeu isenção de tarifas a 90% dos produtos provenientes de países africanos, pelo que os PALOP podem beneficiar significativamente dessa medida.

A EVOLUÇÃO DO PAPEL POLÍTICO DA MULHER ANGOLANA

Por: Tânia de Carvalho

Nota introdutória:         

Angola este ano completa cinquenta anos de soberania nacional, no entanto, a presença das mulheres na liderança e na política continua sendo um tema de debate e transformação, sobretudo por ser um país onde os desafios históricos e culturais moldam o cenário político. Um cenário político que sempre negou à mulher um lugar de protagonista nas diferentes lutas de libertação nacional e alcance da estabilidade política.

A presente legislatura, historicamente, é a legislatura que mais mulheres elegeu. Num universo de duzentos e vinte lugares, noventa mulheres foram eleitas parlamentares. Dos cinco partidos políticos com assento parlamentar, as duas maiores forças políticas praticamente partilham entre si os noventa lugares conquistados pelo género.

O MPLA, elegeu 124 deputados, dentre os quais 75 mulheres e 52 homens, a UNITA, elegeu 90 deputados, dentre os quais 76 homens e apenas 14 mulheres. O Partido Humanista de Angola, elegeu apenas uma mulher, que por sinal, é a Presidente do próprio partido.  O que que estes números podem representar para a sociedade angolana? O que nos quer dizer um partido político histórico, quando a sua lista parlamentar não respeita os desígnios do empoderamento do género ou mesmo quando não caminha para a paridade?

Contexto:

O percurso histórico de Angola é profundamente marcado por longos períodos de violência, resultantes sobretudo, do processo de escravidão, colonização, colonialismo, fascismo e da guerra civil. Estes períodos influenciam a prática quotidiana da cidadania e participação, na medida em que condiciona a génese das dinâmicas e processos sociais que caracterizam a situação política, económica, social e cultural presente.

Os eventos históricos, as dinâmicas políticas que em muitas casos contrariam a moral e a própria Constituição da República, assim como a situação económica e social, contribuíram em grande medida para um afastamento dos angolanos e das angolanas sobre as questões de política, governação e, consequentemente, para um fraco exercício de cidadania e participação pública e política (Domingos:2015). No entanto, vale lembrar que, nas últimas legislaturas (2017-2022), registou-se um forte crescimento da consciência política e cívica assim como aumento qualitativo no debate público. Pelo que, permitimo-nos questionar os mecanismos para o cumprimento dos instrumentos internacionais ratificados para mudar as questões de género em angola, assim como o impacto das reais nomeações e ou indicações de mulheres a cargos de liderança, direcção e chefia na avida de outras mulheres que compõe os 52% da população angolana, como reza o Censo de 2014 (INE:2014).   

Podemos afirmar ser uma preocupação do governo angolano lidar com as questões relativas ao empoderamento e igualdade de género em Angola, atesta veracidade a essa afirmação os diferentes instrumentos internacionais ratificados e implementados ao longo dos 50 anos de independência nacional.

Um ano depois da proclamação da nossa independência, no dia 1 de dezembro de 1976, Angola passou a fazer parte das Nações Unidas, no mesmo ano, foi declarada a década para as mulheres das Nações Unidas, um período que durou entre 1976 a 1985.

INSTRUMENTOS INTERNACIONAIS RATIFICADOS PELO GOVERNO ANGOLANO

1984 – Angola ratificou a Convenção sobre eliminação de todas as formas de discriminação contra as mulheres (CEDAW).

1990 – Enquanto estado membro da União Africana, Angola ratificou a carta africana sobre os direitos humanos e dos povos que reconhecem os instrumentos regionais e internacionais relativos aos direitos humanos e às práticas africanas mormente à protecção dos direitos da mulher;

1995 – Na Quarta Conferência Mundial sobre as Mulheres em Beijing, foram assumidos compromissos nacionais em prol da igualdade entre mulheres e homens e da capacitação das mulheres angolanas,

1997 – Angola subscreveu a Declaração de Género e Desenvolvimento da SADC, segundo a qual os Chefes de Estado e de Governo da SADC se comprometem a: Alcançar a meta de, pelo menos, 30 por cento de mulheres nas estruturas políticas e de tomada de decisão até 2005; promover o pleno acesso e controlo por parte das mulheres, sobre os recursos produtivos para reduzir o nível de pobreza entre as mulheres; revogar e reformar todas as leis, emendar constituições e mudar práticas sociais que ainda sujeitem as mulheres a discriminação; os Estados comprometem-se ainda em tomar medidas urgentes para prevenir e tratar dos níveis crescentes de violência contra as mulheres,

2003 – Angola ratifica à Carta Africana Sobre os Direitos Humanos e dos Povos, comummente conhecida por Protocolo de Maputo, que é um instrumento internacional de direitos humanos que visa proteger e promover os direitos das mulheres em África. É um dos instrumentos mais importantes no âmbito da luta pelos direitos da mulher, 80% dos Estados Membros da União Africana já o ratificaram.  

A nível interno, vários instrumentos foram criados o que sustenta um quadro legal efetivo para materialização de acções que possam garantir um cenário favorável para igualdade de género, por exemplo, a Política Nacional para Igualdade e Equidade de Género de Angola, aprovada em 2013, pelo Decreto Presidencial nº222/13.

A MULHER ANGOLANA, CIDADANIA E PARTICIPAÇÃO

Margarida Paredes (2015), toca a nossa alma quando descreve com emoção os relatos das mulheres que têm experiência de vida militar entrevistadas para a sua pesquisa sobre as mulheres na luta armada em Angola.  Mulheres que também estiveram na linha de frente dos diferentes combates, mas, no entanto, hoje ainda lutam pelo reconhecimento igual aos homens militares e nacionalistas. Em muitos casos, uma ausência de reconhecimento que as impede de serem incluídas na história como protagonistas as mulheres procuram quebrar o silêncio na primeira oportunidade declinando o anonimato e a reclamar acessos aos espaços públicos como sujeitos históricos quebrando a narrativa de vítimas do processo histórico.

“O que o homem pode, a mulher pode” é uma frase que motivou e guiou o sonho de vitória das mulheres que estiveram nas diferentes lutas e viverem a experiência de guerra no feminino independentemente do lado da guerra (Paredes:2015).

O que o homem pode, a mulher pode, é uma frase que ainda ecoa diferente quando o assunto é o reconhecimento das batalhas vencidas no dia a dia das vidas das mulheres angolanas, mas que transmite reconhecimento por parte das mulheres angolanas das suas próprias capacidades e compromisso com a pátria nos mais diferentes lugares que a sociedade angolana as oferece. 

Segundo dados do censo da população angolana, realizado em 2014, as mulheres representam 52% da população. Essa mesma mulher é o rosto da economia informal considerada como a coluna vertebral da economia formal, a mesma mulher que também é o rosto da pobreza em Angola[1].

Segundo a Organização Internacional do Trabalho/OIT, a economia informal  representa cerca de 60% da população mundial economicamente ativa, para o caso de Angola, em particular, as estáticas do género na informalidade, deve reconhecer a economia informal enquanto uma via para o crescimento económico e social do país e a redução da pobreza, concomitantemente ela também deverá ser reconhecida como a manifestação pura dos altos índices de pobreza do género e a negação de determinados direitos, por parte dos órgãos de governação, como é o caso do direito ao acesso ao Bilhete de identidade (Mosaiko:2020).

A MOSAIKO[2], no seu relatório sobre avaliação participativa sobre o acesso à justiça, 2019-2020; conclui que a desigualdade no acesso ao Bilhete de identidade promove desigualdade em todos os outros sectores. 

A situação da Mulher e da Criança, em Angola, apesar dos esforços do Governo e da Sociedade Civil, continua a ser precária em muitos aspectos: acesso a documentos de identificação pessoal, à Saúde, ao emprego no sector formal e à Educação (dados de 2018 do Ministério da Educação apontam que o número de inscritos no ensino primário é equilibrado, em termos de Género, mas as meninas representam maior taxa de abandono escolar e menor número de inscrições no Ensino Superior). O Acesso à Justiça também é mais difícil, para Mulheres e Crianças (embora por razões diferentes), e a desigualdade no acesso a este Direito promove desigualdade em todos os outros sectores.” (MOSAIKO 2020:21)

Inicialmente, podemos afirmar que quem não tem bilhete de identidade não existe. Uma afirmação que traduz o drama real dos indivíduos com essa dificuldade, quem não tem bilhete de idade não contribui, pois, não tem o número de identificação fiscal, quem não tem bilhete de identidade não conta nas estatísticas nacionais, o que agudiza a dificuldade das mulheres para verem os seus filhos registados.

“O Registo de uma criança exige a apresentação dos documentos dos seus progenitores. Para famílias em que ninguém tem documentos, esta situação provoca uma impossibilidade de romper o ciclo de falta de documentos. Há também situações em que o avô da criança é o único a ter documentos, mas o seu Bilhete de Identidade “é daqueles, dos antigos” e, segundo os relatos, os funcionários do Posto de Registo não aceitam documentação que não está actualizada, inviabilizando o Registo dos descendentes”

 “Tenho uma vizinha, mãe de gémeos, não tem documentos. O avô dos gémeos tem aquele bilhete amarelo, com esse bilhete antigo, a filha não tem documentos” (Mulheres, Mbanza Congo, Zaire). Segundo um informantechave, “há previsão de realização de Registo Civil em massa, nas escolas, mas o facto de os pais não terem bilhete, isso vai continuar a atrapalhar. Vai ser a mesma coisa, poucos serão registados” (representante da delegação da Educação, Mbanza Congo, Zaire)”

(MOSAIKO 2020: 43)

A ausência do bilhete de identidade, inicialmente, condiciona a possibilidade do exercício de um dos direitos mais alto a nível da nossa soberania, que é o direito ao voto, pelo que, a realidade para o registo eleitoral comparativamente ao acesso ao bilhete de identidade é completamente diferente.

O dever cívico de registo eleitoral está salvaguardado pela mesma instituição que a todos os níveis, devia facilitar a emissão do bilhete de identidade, no entanto, é a mesma instituição que se reservou ao direito de criar mecanismos para o registo eleitoral, ainda que na ausência do Bilhete de identidade, desacelerando, deste modo, todos os exercícios para facilitar o acesso ao Bilhete de identidade.   

A professora Cesaltina Abreu, define cidadania como um conjunto dos direitos e deveres de um indivíduo que lhe permitem intervir na direcção dos assuntos públicos do Estado, participando de modo directo ou indirecto na formação do governo e na sua administração: ao votar (directo) ou ao concorrer a um cargo público (indirecto) (MOSAIKO:2020).

A   ativação da cidadania, mesmo   nas   sociedades   democráticas contemporâneas, está condicionada ao paradoxo entre liberdade e igualdade. Efectivamente, se no plano formal as pessoas são livres nas suas escolhas e opções, no   plano   material   esta   liberdade   fica   aprisionada   às   diferentes condições de existência de cada indivíduo.  (Ferreira 2010).

Garantir a liberdade e cidadania das mulheres angolanas, é um imperativo que deve começar por definição, desenho e implementação de políticas públicas que sejam inclusivas, abrangentes e realistas para as jovens, raparigas e mulheres rural periurbana e urbana. Lembrar que, políticas públicas, quer como discurso quer como prática, é um conceito que vem ganhando cada vez mais importância nos domínios públicos e administrativos dos Estados. Dois factores podem ser apontados como responsáveis por isso: por um lado, o aumento da consciência social sobre os usos dos recursos de exercício da cidadania, às várias demandas populares sobre a gestão dos seus interesses públicos — o que tem contribuído para uma maior pressão sobre o aumento da qualidade da construção do processo democrático; e, por outro lado, como já referimos acima, o compromisso com o cumprimento dos vários acordos e convenções que o país tem ratificado. Como exemplo, a agenda mundial governamental dos últimos anos: os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas.

A mulher é a principal vítima de violência doméstica. Em termos de privação, é o individuo com menos acesso a recursos, direitos e oportunidades, consequentemente, também está excluída dos mais recentes processos de transição verde e transformação digital. Os principais dados apontam para uma estratificação regional e de género da pobreza em Angola (INE, 2020). As populações nas áreas rurais, são as que mais sofrem com a pobreza multidimensional, e dentro deste grupo, as mulheres estão ainda mais abaixo (GOV, 2017, 2022; INE:2020). A proporção de mulheres no sector agrícola é maior em comparação aos homens. Elas constituem mais de 70% da mão-de-obra neste sector, sendo também as principais responsáveis pela gestão do lar, pelas actividades domésticas e pela produção agrícola para a sobrevivência do agregado familiar (Telo:2024)

A MULHER RURAL EM ANGOLA

Os constragimentos relacionados com a Mulher Rural em Angola datam desde a era colonial, por causa do conflito armado que o país viveu, grande parte dos campos que eram utilizados para o cultivo e a produção dos principais produtos de subsistência acabaram por ser minados. Como consequência a pobreza extrema e desigualdades sociais é um dos grandes desafios para a sociedade angolana. O perfil sociocultural do meio rural em angola é o barómetro fiel do nível das desigualdades sociais económicas e políticas que o país vive.

No meio rural as dificuldades são mais acentuadas, pelo que, a mulher rural enfrenta dificuldades de acesso aos direitos sociais básicos, como saúde, educação, emprego, acesso ao bilhete de identidade e consequenteme, acesso a posse de terra e a recursos naturais. “No caso das mulheres, a titularidade, além da posse de terra, pode ser considerada como requisito indispensável para as situar nos processos de produção que concorrem para o empoderamento económico, a sustentabilidade da sua actividade agrícola virada para o auto-sustento e empresariado (Telo:2024).

O relatório temático sobre o género produzido pelo INE – Instituto Nacional de Estatística entre 2017 a 2019 mostra-nos que os agregados familiares liderados por mulheres representam um terço e os liderados por homens dois terços, a maior proporção dos agregados familiares vive nas áreas urbanas, representando 59,5% dos mesmos. O mesmo relatório conclui que cerca de 19% das mulheres chefes de agregados familiares, não possui nenhum nível de escolaridade ao contrário de 24,4% para os homens chefes dos agregados familiares. Entretanto, 20,1% dos homens chefes de agregados familiares possuem o nível secundário ou o superior ao contrário das mulheres, que ficam em apenas 3,5% (INE:2022)

Por Despacho Presidencial N.º 14/18 de 19 de fevereiro, foi criado o Programa “MINHA TERRA” assim como a comissão interministerial sobre coordenação do Ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do Presidente da República de Angola. O programa consiste em atribuir títulos de concessao de terra às famílias camponesas para garantir segurança, inibir a usurpação de terrenos, combater a pobreza e assegurar o desenvolvimento económico.

Dois anos depois da sua criação, a comissão interministerial cuja uma das atribuições era Promover a atribuição de direitos fundiários aos detentores de parcelas de terrenos que reúnam os requisitos legais, produziu um relatório onde deixa claro que um dos constrangimentos era a “Ausência de um Quadro Normativo para a Atribuição de Direitos Fundiários no Âmbito do Programa Minha Terra, em forma de Decreto” (PMT- 2020).

Se no cômputo geral a realidade angolana nos mostra a mulher como a primeira vítima da pobreza, a mulher rural é o rosto mais carcaterístico da pobreza em Angola. É interessante ver como a história da mulher rural é descrita pelos dados estatísticos descritos socioculturalmente pelo sociólogo Eugénio Silva, que nos apresenta um quadro desfavorável que não só torna difícil a vida das mulheres do meio rural, como também as remete para condições pouco dignas de existência.

Numa sociedade onde apenas 22,8% da poppulação tem acesso a água potável, e apenas 31,1% tem acesso a saneamento básico, a mulher e crianças são logo as primeiras vítimas, fazendo estatísticas nos índices de mortalidade materno infantil, assim como também no aumento do volume de trabalho de cuidados, a mulher tem que peercorrer longas distâncias para acarretar água apara o consumo de toda a família, por socialização, acredita-se, ser a mulher a resposanvel pelos trabalhos de cuidados.  Numa sociedade onde a taxa de analfabestimos sugere 66% para as mulheres no seio rural é imperioso questionarmos o impacto real das políticas públicas de alfabetização no seio rural.

A Constituição da República de Angola estabelece o princípio da igualdade de género, proibindo qualquer discriminação em função do sexo (art. 21º, alínea h, e 23º nº 2 da CRA). O relatório do Projecto Matuning sugere que, na prática, as disparidades são evidentes, incluindo o acesso à terra para a prática agrícola.

No âmbito do projecto MA TUNINGI[3], constatou-se que a posse de terra é, em regra, masculina, apesar de a maioria informar ser um bem do casal. Pelas práticas locais, a mulher, quando se separa do marido, perde a posse da terra porque “não estava mais na casa dele”. Igualmente, constataram-se casos de aquisição por herança materna ou paterna. Nos últimos anos tem havido mais casos de venda de terra, mas nem sempre há consenso entre a família, pois já houve situações em que o pai vendeu a terra e os filhos não aceitaram, por não concordarem com o valor cobrado. Neste caso, não foi mencionada a posição da mãe/esposa neste processo. (Telo:2024)

MULHER ANGOLANA NA SOCIEDADE CIVIL

Âurea Mouzinho e Sizaltina Cutaia, são duas mulheres incontornáveis no histórico das mulheres angolanas na sociedade civíl. Ambas são co-fundadoras de um dos movimentos mais pró-activos em prol dos direitos das mulheres, que é o movimento Ondjango feminista. Ambas também são autoras de um artigo escrito em 2017, onde emitem as suas opiniões sobre as organizações femininas em Angola.  (https://www.ondjangofeminista.com/ondjango/2021/10/31/reflexes-sobre-as-organizaes-feministas-em-angola-1 )

Concordamos com as autoras quando afirmam que a história das organizações femininas em a Angola confunde-se com a história da Organização da Mulher Angolana (OMA)[4], no entanto, na sociedade angolana, também é unânime o reconhecimento deste órgão na luta contra a violência doméstica. A OMA vem actuando como um Centro de reconciliação de famílias, no entanto, sem poder jurídico, o que não retira o seu mérito no trabalho e contributo para as causas da família e da mulher realizado junto ao MASFAMU[5], com o contributo da mesma organização e também da sociedade civil, hoje o país tem a Lei nº 25/11 de 14 de julho de 2011 que estabelece o regime jurídico de prevenção da Violência doméstica, de proteção e assistência as vítimas.

… “A OMA relizou actividades importantes que sustentaram a resistência do MPLA durante a luta de libertação. Trabalhando como educadoras, professoras, secretárias, correspondente, activista, camponesas e cuidadoras, as suas membras també fizeram programas de rádio com informações sobre a luta, distribuiram panfletos e angariaram fundos para o movimento de libertação” … “As mulheres da OMA também estiveram activamente envolvidas na linha de frente a lutar lado a lado com os homens, enfrentando os mesmos desafios e a sofrerem as mesmas consequências, as mulheres do esquadrão KAMY foram notáveis a este respeito, incluindo Deolinda Rodrigues que é uma figura de liderança importante para as feministas”… (Ondjango Feminista)

Em Angola, apesar de que o cenrário social, económico e financeiro, não estar ainda a seu favor, as mulheres, têm conseguido conquistar algum espaço de participação, quer através de organizações, associações e movimentos sociais, algumas até de modo individual. Por intermédio de vérios mecanimos (relatórios, estudos de caso, manifestações, workshops, seminários e outros), elas procuram influênciar a elaboração de políticas a seu favor.  As mulheres da sociedade civil têm desempenahdo um papel incomensuravel na luta pela emancipação das mulheres, promovendo deste modo, a igualdade de género. 

Ao longo dos anos, surgiram inúmeras organizações e movimentos que acolhem mulheres dos diferentes seguimentos sociais que trabalham nas diferentes perspectivas sobre as questões de género e ou fazem militância em prol da emancipação da mulher em Angola, a destacar[6];

Associação de Apoio a Mulher Polícia de Angola (AAMPA) – Fundada no dia 15 de dezembro de 1995, é uma associação de apoio à Mulher Polícia de Angola (AAMPA) que actua em parceria com a Rede Mulher Polícia de Angola (RMPA) e a REMPA,

Associação de Mulheres Empresarias de Luanda (ASSOMEL) – Fundada em 1991, é uma associação sem fins lucrativos em que um dos principais objectivos é assegurar a representação das mulheres empresárias, face aos poderes públicos, organizações públicas nacionais ou estrangeiras, ou qualquer outra pessoa singular ou colectiva, em todas as questões relacionadas com a dupla qualidade de Mulher Empresária (Serra: 2007),

Comité das Mulheres Sindicalizadas – Fundado a 28 de abril de 1998,

Federação de Mulheres Empresárias de Angola (FMEA) – Criada em 2001 tem o propósito de fomentar o diálogo entre as diversas entidades de actividades económicas, sendo porta-voz das associaçoes empresariais e empreendedoras femininas das instituições do estado,     

Fórum de Mulheres Jornalistas para Igualdade de Género (FMJIG)- Em outubro de 2009 nasce o fórum como resultado do primeiro encontro internacional de mulheres em Angola sobre a a participação política das mulheres na resolução das questões relacionada à violência de género, o Forúm que hoje é uma organização que reúne jornalistas de entidades públicas e privadas para desenvolver projectos que visem alcançar a igualdade de género bem como a advocacia através dos meios de comunicação social.  

Associação Angolana de Mulheres de Carreira Jurídica – Criada no dia 15 de março de 1995, segundo os seus estatutos tem como maior atribuição a elaboração de estudos sobre matérias que no domínio do direito, sejam relevantes para a efectivação de direitos e oportunidades legalmente consagradas, assim como fomentar a troca de experiências e de conhecimento a nível nacional e internacional.

Rede Mulher – fundada no dia 04 de agosto de 1998, é um fórum de organizações não governamentais, organizações comunitárias de base que defendem interesses de género, de carácter voluntário, apartidário e sem fins lucrativos sobre o ponto de vista administrativo e financeiro.

Rede Mwenho – Fundada no dia 04 de agosto de 2004, por um grupo de mulheres seropositivas, sobre a iniciativa da Rede Mulher Angola e Acção humana não governamental, filantrópica e sem fins lucrativos, um do seus maiores objectivos é trabalhar para melhorar a qualidade de vida das mulheres e crianças seropositivas a nivel nacional.

Ondjango Feminista – Em junho de 2016, oito mulheres fundaram, esta que é a primeira organização feminista em Angola. O colectivo Ondjago Feminista, um movimento autónomo que advoga por uma agenda feminista transformadora a partir da perspectiva de justica social, solidariedade e liberdade.

Unidas Somos Mais Fortes (USMF)– Fundado no dia onze de novembro de 2019, com a finalidade de promoção da igualdade de género e a defesa dos direitos das mulheres e meninas, através da realização de acções e iniciativas que contribuam para a eliminação das desigualdades para o empoderamento das mulheres em todas as esferas da sociedade.

Hoje podemos dizer que existem muitas outras organizações fóruns e movimentos sociais que convergem na luta pela inclusão das mulheres nas diferentes dimensões. Não podemos ignorar os passos dados ainda durante a luta anti-colonial, com a criação das organizações de mulheres (ala feminina) no seio dos movimentos de libertação nacional (Domingo et al.: 2023).

A EVOLUÇÃO DO PAPEL POLÍTICO DA MULHER ANGOLANA EM ANGOLA

A segunda metade do sec. XX registou os verdadeiros picos de descolonização em África (1950, 1960, 1975). Em angola, a revolta dos camponeses da Baixa de cassanje, que ocorreu no dia 4 de janeiro de 1961 é o marco histórico de ínicio da luta pela libertação de Angola. Entre 1960 e 1975, a participação da mulher na luta de libertação nacional foi árdua e sofrida. A mulher sempre esteve presente em diferentes eventos, no entanto, o lugar que a ela sempre foi reservado, me faz questionar a qualidade e quantidade dos lugares de mando e chefia ocupado pelas mulheres nos diferentes processos que compõe a história política de Angola, desde a luta de libertação nacional aos acordos de Luena.  Um questionamento válido diante dos números ínfimos que ela representa nos poderes decisórios e governativos em Angola.

Dentre os três movimentos de libertação Nacional, O MPLA foi o primeiro movimento a criar o braço feminino do seu partido, no dia 2 de março de 1962. Segundo os seus estatutos iniciais, no seu artigo primeiro, a organização denomina-se Organização da Mulher de Angola (OMA)[7], cujo um dos seus objectivos determinou a sua agenda de trabalho ao longo do tempo.

“A integraçãpo da Mulher de Angola em plena igualdade de direitos com outros membros da sociedade, na futura nação angolana”. (Estatutos da OMA – 1962)

O artigo terceiro dos Estatutos em referência, diz que, “A Organização da Mulher Angola (OMA) é uma organização social constituída pelas Africanas nascidas em Angola sem descriminação de raça, crença religiosa, ideais políticos, lugar de domicílio e estado civil” (Estatutos da OMA:1962). Pelo que, a sua definição estatutária e âmbito de actuação, faz com que o seu histórico seja sempre confundido com o histórico das organizações da sociedade civil em Angola.  

A FNLA – Quando nos referimos a actuação marcante das mulheres como combatentes nas lutas de libertação nacional, referimo-nos às mulheres que ingressaram nas fileiras da luta anticolonial nos três movimentos de libertação nacional, no entanto, devemos concordar com Margarida Paredes, quando afirma que há um silêncio mórbido relativamente à história de vida e ao papel que as mulheres desempenharam nas fileiras da UPA/FNLA (Paredes:2022)             

Segundo o site oficial da FNLA, a AMA foi criado a partir de uma consciência nacionalista presente na década de 50. No histórico de guerrilha, é enfatizado o papel da mulher no transporte de informações e mantimentos aos guerrilheiros, Margarida Paredes (2015), faz menções à participação da AMA nas operaçoes do ELNA – Exército Nacional de Libertação de Angola.   

A UNITA, por sua vez, criou o seu braço feminino na década de 70, muito perto da independência do país, sobre orientaçao baixada em conferência em 1970, somente em 1972[8], foi efectivamente criada a Liga da Mulher Angola (LIMA). A politóloga Yasmim Côrrea, sugere que, o apego à tradição gerava no seio da UNITA um desconforto quando o assunto era o género, o que potencialmente influenciou para o tardio reconhecimento da importância de uma organização de mulheres (Côrrea: 2025)

Acredito que por força da formatação cultural, os discursos dos movimentos de libertação nacional em Angola, enfatizam, reiteradamente, e sempre de forma romantizada o papel da mulher, a ela reservado por socialização, nas funções de cuidado.

 A FNLA, dá ênfase ao papel de mãe, irmã e esposa (Côrrea:2025), o MPLA, enfatiza a educadora que trabalhou na área de alfabetização, a secretária correspondente, a camponesa, ativista e cuidadora (Mouzinho & Cutaia:2017), A UNITA, por sua, vez também enfatiza o lugar de cuidado das mulheres para o atendimento das necessidades básicas das tropas na linha de frente dos combates (unita-angola.co.ao/lima).  

Nos sites oficiais dos três movimentos, não se reconhece um discurso que coloque a mulher no pé de igualdade ou lugar de destaque na guerra. As narrativas oficiais contribuem para a sua minimização (Côrreia:2025).   

MULHERES NAS MESAS DE NEGOCIAÇÃO DESDES OS ACORDOS DE ALVOR (1975) AOS ACORDOS DE LUENA (2002)

A conquista da paz em Angola exigiu esforços de vários atores que atuaram num contexto político completamente hostil e marcado por interesses económicos profundos. A estabilidade política militar resultou de vários processos duros, difíceis e demorados desde 1975. Angola, somente conheceu a estabilidade consistente no dia 4 de abril de 2002.

A luta de libertação Nacional teve como protagonista três movimentos históricos como citados acima, todos eles contaram com um braço feminino criado em anos diferentes no processo de luta de libertação, no entanto, não é notória a presença de mulheres nas mesas de negociações mais importantes ao longo da história nacional, começando inclusive, com o encontro que anteveio a todos os outros processos estruturantes.

No dia 3 de janeiro de 1975, Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi estiveram reunidos com o então presidente da República do Quénia, Jomo Kenyatta. No contexto histórico da independência de Angola, este encontro foi um marco importante nas negociações entre as forças independentes e o governo português. No entanto, apesar de que, aquando da realização do referido encontro os três movimentos já tinham criado os respectivos braços, não há registos da participação direta de alguma mulher durante a referida reunião.       

Chegar ao entendimento pleno, para dirigir o país libertado do jugo colonial e para ultrapassar os resquícios do conflito armado, exigiu dos angolanos a realização de quatro fóruns de concertação político-diplomática, marcados por avanços e recuos. Christine Messiant, socióloga e estudiosa de assuntos africanos, analisou os diferentes encontros marcantes e decisivos no histórico de processo de paz em Angola, sugerindo que pode ser dividida em três períodos de grandes combates – 1975-1991, 1992-1994 e 1998-2002. Entre 1975 e 2002 (Messiant:2004), os protagonistas da libertação nacional e da guerra civil sentaram-se à mesa sob os auspícios da comunidade internacional e rubricaram quatro instrumentos jurídicos, entre acordos, protocolos e memorandos, para “precipitar” o calar das armas. No entanto, ao visitarmos o histórico dos encontros citados, não se regista a presença de mulheres nas mesas de negociação. O que torna imperativo o trabalho conjunto entre todos os órgãos de Estado para a materialização da resolução 1325

A MULHER NO GOVERNO DE (NA LEGISLATURA) / 2022-2027

O género na história da política angolana, também é destacado pela liderança de Anália de Vitória Pereira no Partido Liberal Democrático (PLD). Popularmente apelidada por “mamã Coragem”, na qualidade de primeira e única mulher na corrida eleitoral, conseguiu representação parlamentar nas primeiras eleições em Angola, realizadas em setembro de 1992 (site da Assembleia Nacional)

Sobre o lema “Humanizar Angola”, o Partido Humanista de Angola, foi reconhecido no dia 27 de maio de 2022. Um partido fundado por Florbela Malaquias, concorreu as eleições de agosto de 2022 e conseguiu eleger dois deputados.

Florbela Malaquias, é jurista, já militou no partido UNITA, foi combatente nas FALA, foi jornalista na rádio vorgan sediada na Jamba e também foi jornalista na Rádio Nacional de Angola, é autora do livro polémico intitulado “Heroinas da Dignidade”. Um livro bastante polémico, mas que eventualmente, as repercussões a tenham inspirado sufcientemente para criar o Partido Humanista de Angola.

“…Florbela faz narração de alguns acontecimentos que vivenciou, até meados da década de 1980, na Jamba, “capital da revolução no sul de Angola” (p. 65), traçando um breve retrato daquilo que foi o seu cotidiano familiar e atividade de militante do partido, do qual se destaca o fato de ter sido a autora quem “aperfeiçoou o emblema da primeira guerra e escreveu o hino da LIMA” (p. 46). Narrativa que, podemos caracterizar como enigmática, na medida em que respostas a questões como, quando e em que condições saiu da Jamba e chegou a Luanda e como reconstruiu a sua vida ĕ cam a aguardar resposta, quiçá para o próximo volume” … (Liberato 2020: 107-108)

Florbela Malaquias, conseguiu chamar a atenção da sociedade, preenchendo directamente um vazio à muito identificado. Falta mulheres nas lideranças partidárias. A ausência de representaçoes directas de partidos que tenham como prioridade nas suas agendas as questões relacionadas ao género, sobretudo a condição de vítima directa das atrocidades narradas no seu livro, podem ter contribuido para a popularidade rapidamente conquistada.

…“Ao identificar algumas das mulheres que pereceram durante esse período – queimadas, fuziladas, acusadas de bruxaria ou traição – a autora defende que estas foram as principais sacrificadas: “vítimas nos campos da guerra fratricida, vítimas do sadismo do líder libertador do campo em que se encontravam; vítimas do parceiro íntimo, machista e assustado com a guerra” (p. 186), na medida em que padeceram de todo o tipo de violência – física, emocional, psicológica, sexual, patrimonial, moral, institucional – perpetrada por um sistema agressivo, assente nos princípios patriarcais e tradicionais, encabeçado por um líder que a própria classiĕ ca como um “predador social cruel, vazio de sentimento de remorsos e de culpa… como todo o psicopata” (p. 40)”… ( Liberato 2020: 107-108)

A eleição de Florbela Malaquias, também trouxe uma série de questionamentos cuja ausência de respostas pode causar mais dificuldades ao caminho efectivo para o empoderamento das mulheres em Angola. Uma das questões é; como é que mulheres que ascendem e conquistam lugares de destaque, como é o caso de Florbela Malaquias, podem impactar as outras para trilharem caminhos de competências e afirmação, quando os lugares são disputados directamentes com aqueles que culturalmente sempre foram os privilegiados? Por exemplo, na lista do Partido Humanista de Angola, para as eleições de 2022, nos 100 primeiros lugares apenas vemos 25 mulheres. A questão de paridade tem que ser vista já a partir do momento em que são elaboradas as listas dos partidos políticos e Florbela Malaquias tem a obrigação de advogar pelo género.

É preciso fazer surgir lideranças capazes de manter a prática aliada ao discurso, mantermos acções que instam as lideranças angolanas para o cumprimento efectivo das cotas previstas nos vários instrumentos internacionais ratificados pelo Governo angolano, deste modo, poderemos ter mais mulheres participando nas tomadas de decisões.

Outra questão interessante, é o facto dos lugares pilares de governação da presente legislatura serem ocupados por mulheres, no entanto, salvaguardando a questão dos resultados que possam incentivar novas nomeações a favor do género, se mantem a questão de nomeação nominal ou qualitativa. Reparem que, desde 2019, a função de Ministro de Estado para área social vem sendo ocupada por mulheres. Em 2022, Carolina Cerqueira que foi ocupar a Presidência da Assembleia Nacional foi substituída por Dalva Ringote, está por sua vez, em 2024 é substituída por Maria S. Brangança, que vem do Ensino Superior Ciência e Tecnologia. Se as indicações feitas, foram apenas na base do cumprimento de quotas, que resultados substanciais foram registados no sector social durante o pelouro das figuras mencionadas?

O Decreto Presidencial 9/22 de 16 de Setembro, Aprova o Regime de Organização e o Funcionamento dos Órgãos Auxiliares do Presidente da República, o seu artigo 37º diz que, os Ministros de Estado e os Ministros, titulares dos Órgãos da Administração Directa e Central são Auxiliares do Presidente da República, enquanto Titular do Poder Executivo, e dirigem os Departamentos Ministeriais, através da orientação, coordenação e controlo dos órgãos subordinados ou vinculados aos Departamentos Ministeriais e assumem a responsabilidade inerente ao exercício da direção (Decreto Presidencial 09/22), no entanto, desde 2019 ao presente momento, a nível do Orçamento Geral do Estado, registou-se um volume considerável de descontinuidade de inúmeros programas em favor da mulher rural, mesmo tendo mulheres no sector com a obrigação de advogar pelas causas do género, um facto que nos oferece um paradoxo amargo que nos faz questionar o comprometimento real das mulheres guiadas por orientação partidária com as causas do género.

Em meu entender, a realidade angolana nos mostra que a figura feminina num Ministério de Estado para área social, não é necessariamente sinal de comprometimento com a melhoria dos maiores indicadores de pobreza e questões de género.  O comprometimento esperado está na adopção de políticas que permitam a elaboração e aprovação de um Orçamento Geral de Estado que seja sensivel ao género, sendo capaz de transformar questões como; acesso ao registo civil; acesso à justiça; acesso à educação; saúde materna; participação e percepções sobre o Orçamento Geral do Estado; acesso aos recursos produtivos e fontes de renda e relações de produção no sistema agropecuário, para garantia efectiva de igualdade entre homens e mulheres.

REPRESENTATIVIDADE DO GÉNERO NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA AO LONGO DAS CINCO LEGISLATURAS

Em novembro de 2024, aquando da realização do encontro da 10ª cúpula parlamentar do G20, foi analisada a questão da ampliação da representatividade política das mulheres nos lugares de decisão, uma das recomendações, foi que os governos percebessem as lutas para ampliação das mulheres na política e lugares de decisão como uma questão que vai para além das questões de igualdade, mas também de democracia e avanços sociais. Ainda no referido encontro, Fabiana Martin, Presidente do parlamento MERCOSUL, reforçou a ideia de que os Parlamentos com muita presença feminina costumam ter leis que melhoram a qualidade de vida das pessoas e melhoram a sociedade como um todo, focando no exemplo da Argentina que já implementou a paridade no parlamento (TvSENADO:2024).    

De modo geral, apesar dos desafios, os Estados foram receptivos as questões relacionadas ao aumento das mulheres nos parlamentos, entre 1995 e 2015, a proporção média das mulheres nos Parlamentos nacionais quase duplicou, passando de 11,3% para 22,1% (Vetten:2016).

Ainda entre 1995 e 2015, o progresso na África subsaariana foi considerável, com a representação das mulheres a crescer de 9,8% para 22,3% durante o mesmo período. Até 2015, 12 países da região tinham eleito 30% ou mais de mulheres para as suas câmaras únicas ou baixas do parlamento. O Ruanda liderou em 63,8%, não apenas o continente, mas o mundo com a sua proporção de mulheres deputadas. Seguiu-se as Seychelles, com 43,8%, o Senegal com 42,7% de mulheres parlamentares, e a África do Sul com 41,8% (União Interparlamentar:2015).

No entanto, dados mais recentes da União Interparlamentar (2022), mostram que a África Lusófona não está mal em comparação à média mundial que é de 26% “Alguns estão abaixo daquilo que se deseja, que é de pelo menos 30%, por exemplo: São Tomé e Príncipe conta com 14% de mulheres no Parlamento e Guiné-Bissau com apenas 13%, ocupando a posição 149 no ranking da União Interparlamentar.

Pela primeira vez na história, Angola tem uma mulher na Presidência do Parlamento. Um parlamento elogiado pela representatividade do género em comparação com muitos países da região. Angola hoje tem 37,7% parlamentares mulheres. No entanto, ainda há muito a ser feito, até que se consiga alcançar efetivamente, a tão desejada paridade parlamentar, para que os fundamentos da Política Nacional para equidade e igualdade do Género seja de facto uma realidade na vida das mulheres angolanas, para que a aprovação de um Orçamento Sensível ao Género tenha impacto na condição social das famílias angolanas, para compreendermos a jornada desafiante da mulher angolana em termos de representatividade parlamentar, olhemos para o número de mulheres eleitas parlamentares ao longo das diferentes legislaturas;

I Legislatura (1992-2008)

No dia 26 de novembro de 1992 foi realizada a 1.ª Reunião Constitutiva da I Legislatura, durante a qual os Deputados presentes e eleitos prestaram juramento. Uma legislatura que integrou 220 Deputados dos 223 previstos pela Lei Constitucional de 1992, dos quais apenas, 48 MULHERES foram eleitas. 

II Legislatura (2008-2012)

Na II Legislatura, a Assembleia Nacional teve, tal como na anterior, 220 Deputados (130 do Círculo Eleitoral Nacional e 90 dos Círculos Eleitorais Provinciais), 85 MULHERES foram eleitas deputadas.

III Legislatura (2012 -2017)

Na III Legislatura, os 220 Deputados à Assembleia Nacional, dos quais 81 MULHERES foram eleitas.

  • MPLA com 175 (106 Homens e 69 Mulheres);
  • UNITA com 32 Deputados (23 Homens e 9 Mulheres);
  • CASA-CE com 8 Deputados (6 Homens e 2 Mulheres);
  • O PRS 3 Deputados (Homens);
  • A FNLA 2 Deputados (Homens)

IV Legislatura (2017 -2022)

Na IV Legislatura, os 220 Deputados à Assembleia Nacional das quais 68 MULHERES estavam assim distribuídos, em termos de composição política:

  • Grupo Parlamentar do MPLA com 150 (99 Homens e 51 Mulheres);
  • Grupo Parlamentar da UNITA com 51 Deputados (38 Homens e 13 Mulheres);
  • Grupo Parlamentar CASA-CE com 16 Deputados (13 Homens e 3 Mulheres);
  • Representação PRS 2 Deputados (Homens);
  • Representação FNLA 1 Deputado (Homem).

V Legislatura da (2022/2027)

A V Legislatura, elegeu 90 MULHERES distribuição de assentos parlamentares:

  • Grupo Parlamentar/MPLA – 124 Deputados, sendo 52 Homens e 72 Mulheres
  • Grupo Parlamentar/UNITA – 90 Deputados, sendo 76 Homens e 14 Mulheres
  • Representação Parlamentar/ PRS 2 Deputados
  • Representação Parlamentar/ FNLA 2 Deputados
  • Representação Parlamentar/ PHA 2 Deputados, sendo 1 Mulher e 1 Homem.

Lembrar que, outro facto histórico chama a nossa atenção, o MPLA, partido do governo desde 1975, pela primeira vez em cinco legislaturas, na sua bancada parlamentar, o número de mulheres supera o número de homens.

A MULHER NO GOVERNO DE (NA LEGISLATURA) DE 2017-2022

A expectativa era alta, pois no período de campanha, o MPLA defendeu um maior equilíbrio de género nas esferas de decisão e maior atenção às questões que afetam as mulheres.

O programa de governo do MPLA para o período de 2017-2022, assumiu nove políticas estratégicas de desenvolvimento. Dentre elas, duas estão intrinsecamente ligadas às questões de género, o que eventualmente, serviria para a aprovação de vários orçamentos sensíveis ao género.

“PROMOVER O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E DIVERSIFICADO, COM A INCLUSÃO ECONÓMICA E SOCIAL E REDUÇÃO DAS DESIGUALDADES.

 PROMOVER O DESENVOLVIMENTO HUMANO E BEM ESTAR SOCIAL DOS ANGOLANOS, COM INCLUSAO ECONÓMICA E SOCIAL.” (MPLA : 2017)

As acções apresentadas para a materialização dos objetivos em referência, passavam sobretudo, pela renovação e reforço da política de género e de apoio à mulher angolana, cujas acções, estavam alinhadas à política nacional para a igualde e equidade de género (Decreto Presidencial 222/13).   Entretanto, no dia 30 de setembro de 2017, tomou posse o novo governo composto por trinta e um ministros, dos quais, doze departamentos ministeriais foram ocupados por mulheres, nomeadamente; saúde, educação, Ensino superior, indústria, cultura, pescas e mar, Ordenamento do Território e Habitação, Hotelaria e Turismo, Ação Social Família e Promoção da mulher, juventude e desporto, Ambiente. A secretaria para o Conselho de Ministros também foi ocupada por uma mulher. 

No dia 13 de outubro de 2017, 50 Secretários de Estado foram empossados, dos quais, apenas oito eram mulheres. As referidas mulheres estavam nos seguintes ministérios;

  • Ministério das Finanças – Aia Eza N. G. da Silva e Vera E. S. Daves
  • Ministério da Administração do Território e Reforma do Estado- Laurinda J. P. M. Cardoso
  • Ministério da Justiça e Direitos Humanos – Ana Celeste C. Januário 
  • Ministério do Ordenamento do Território e da Habitação – Ângela C.B.L.R.Mingas 
  • Ministério da Cultura – Maria da Piedade de Jesus
  • Ministério da Acção Social Social Família e Promoção da Mulher – Ruth M. Mixinge
  • Ministério da Juventude e dos Desportos – Guilhermina Fundanga M. Alcaim  

No primeiro governo de João Lourenço, até ao final das primeiras movimentações em 2017, nenhuma mulher ocupava o cargo de Governadora provincial. No entanto, após a realização do VI Congresso extraordinário do partido MPLA, no dia oito de setembro de 2018, do qual, João Lourenço foi eleito líder do partido. No dia doze do mesmo mês, aconteceram as primeiras movimentações a nível dos Governadores províncias, onde seis Governadores foram exonerados, alguns dos quais governadores históricos ao longo dos trinta e nove anos de Liderança de José Eduardo dos Santos. Nesta senda, conhecemos a primeira mulher indicada a Governadora provincial no governo de João Lourenço. Joana Lina Ramos Baptista Cândido, foi então indicada Governadora do Huambo e Exalgina Gambôa na Direção do Tribunal de contas.

Em 2019, pela primeira vez em 44 anos de independência, o Ministério das Finanças é liderado por uma mulher, Vera Esperança dos Santos Daves de Sousa, é nomeada Ministra das Finanças.

Em 2020, Gerdina Didalelwa é indicada a Governadora do Cunene, Mara Quiosa, Governadora do Bengo, Joana Lina é nomeada Governadora de Luanda, sendo substituída por Lotti Nolika no Huambo, no Conselho da República, Rosa Cruz e Silva como porta voz, nas finanças Vera Daves

Pela primeira vez na história do país, vimos mulheres a ocuparem funções estratégicas no Governo de Angola. Um dos pontos principais na aposta das mulheres foi, por exemplo, no dia oito de setembro de 2018, no seio do MPLA, uma mulher ter chegado a Vice-Presidência, Luísa Damião, uma mulher que tinha sido Directora da agência de notícias angolana, Angola. A UNITA por sua vez, em 2019, no quadro da realização do seu XIII Congresso, elege Adalberto Costa Júnior, na sequência de renovação de mandatos, que trazia consigo dois vice-presidentes, sendo a primeira Vice-Presidente, Arlete Leona Chimbinda.

Conclusão:

É bem visível o peso do percurso histórico e político no fraco exercício de cidadania, participação pública e política das mulheres em Angola. A adoção de vários instrumentos internacionais que visam o empoderamento da mulher, mais do que ser um sinal de comprometido e ou vontade política para mudança de quadro a favor da mulher, são passos significativos para desenhar e implementar as acções que visem a efetiva luta pelos direitos da mulher, salvaguardados no Protocolo de Maputo.  No entanto, ainda é difícil mensurar o papel da mulher no cenário político quando de forma progressiva os Orçamentos Gerais de Estado aprovados ignoram a real necessidade de efetivação dos programas de igualdade de género proporcionando a ausência de empoderamento real das mulheres angolanas.

Os dados de género apresentados pelas estatísticas oficiais são importantes não apenas porque fornecem informação, mas sobretudo, porque “contam” as histórias das mulheres e dos homens, permitindo ao público em geral, obter informações que lhe permitam fazer análises e leituras objetivas.

Referências Bibliográficas (Norma APA – 7ª Edição)

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[1] Segundo o Programa de Reconversão da economia informal 88,5% das mulheres representam o emprego informal. 

[2] MOSAIKO- Instituto para a Cidadania, tem como Missão a promoção e defesa dos Direitos Humanos em Angola. Fundada pelos Missionários Dominicanos, assume-se como uma organização da sociedade civil, que, desde 1997, prioriza a sua actuação através da parceria com Grupos Locais de Direitos Humanos, respeitando a sua autonomia e trabalhando em colaboração. O presente relatório, sobre a Avaliação Participativa sobre o Acesso à Justiça 2019/20 (APAJ), inscrevese no trabalho de pesquisa social e produção de conhecimento, parte integrante da actividade do Mosaiko, desde a sua fundação

[3] Ma Tuning, é um projecto de cooperativas financiado pela União Europeia, FAO e o PNUD, que tem como objetivo contribuir para redução da fome, pobreza vulnerabilidade à insegurança alimentar e nutricional, das comunidades afetadas pelas alterações climáticas na província do Namibe, através do fortalecimento sustentável da agricultura familiar, conservação e uso sustentável dos solos e pastos.

[4] Braço Feminino do partido Político MPLA

[5] MASFAMU- Ministério da Acção Social, Familia e Promoção da Mulher.

[6] As informações apresentadas sobre as associaçoes destacadas, foram colectadas nas informações disponiveis nos sites e estatutos, nem todas têm os estatutos publicados, pelo que omitimos por um aquestão de uniformidade.

[7] Fundação Tchiweka –

[8] Discurso do presidente do partido no V congresso da Liga da Mulher Angolana /LIMA

Angola 2025: sombras e esperanças económicas

1-O momento definidor de Angola

Angola encontra-se num momento particularmente turbulento. Na política, os sinais de instabilidade e incerteza abundam pela indefinição da sucessão de João Lourenço na liderança do MPLA e do país, e pela força renovada das oposições que se sentem a um passo de tomar o poder.

Na economia, há sinais mistos, apresentando-se a conjuntura pessimista, mas havendo a concretização de projetos infraestruturais de relevo, que procuram contrabalançar a negatividade conjuntural, e na ordem social, a sensação de anarquia e permanente descontentamento é a predominante.

Esta análise reporta-se ao aspeto económico que desde 2015 ensombra Angola, não tendo o governo de João Lourenço, no poder desde 2017, sido capaz de inverter uma trajetória de desconforto económico, apesar das várias iniciativas estruturantes tomadas e algum apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI), bem como da abertura ao mundo que promoveu.

2- O falhanço da política económico-financeira conjuntural

Angola está num tempo decisivo da sua trajetória económica, marcado por uma conjugação entre crescimento económico, tentativas de reformas estruturais e investimentos estratégicos que visavam transformar o país de forma sustentável e inclusiva, mas, também, com números desanimadores em termos de inflação, desemprego e índices de pobreza. A inflação em julho deste ano situava-se ainda nos 19, 48%, o desemprego em 28, 8% e o índice de pobreza monetária nos 40,6%[1].

Em 2024, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 4,4%, impulsionado por uma recuperação vigorosa da produção petrolífera — que voltou a ultrapassar os 1,2 milhões de barris por dia — e pela revitalização do setor não petrolífero, com destaque para a agricultura, construção civil e comércio. Esta dinâmica de diversificação, há muito ambicionada, pareceu ganhar corpo, refletindo-se na acumulação de reservas internacionais que atingiram 15,8 mil milhões de dólares, o valor mais elevado desde 2013, e num saldo positivo da balança corrente de 5,4% do PIB, reforçando a resiliência externa do país[2].

Contudo, o primeiro semestre de 2025 trouxe más notícias e interrompeu esta curta recuperação. A queda de cerca de 18% nas receitas petrolíferas, provocada por uma descida abrupta do preço do barril Brent para níveis abaixo dos 70 dólares, combinada com o aperto nas condições de financiamento externo — agravado pela subida das taxas de juro nos mercados internacionais — pressionaram fortemente as contas públicas, e fizeram reduzir as perspetivas de crescimento para uns meros 2.1%, número que não acompanha sequer o crescimento populacional (3,05%)[3], o que volta a demonstrar a excessiva dependência do petróleo, apesar das tentativas de diversificação.

O défice fiscal projetado para 2025 é de 2,8% do PIB, revertendo a tendência de equilíbrio observada em 2023. A inflação, embora em trajetória descendente, ainda se mantém acima dos 12%, exigindo prudência na condução da política monetária por parte do Banco Nacional de Angola (BNA), que manteve a taxa de juro de referência nos 17%[4].

O Fundo Monetário Internacional (FMI), na sua última missão ao país, reconheceu que a capacidade de reembolso da dívida externa angolana permanece adequada, mas alertou para riscos crescentes, sobretudo num cenário de persistente instabilidade nos preços do petróleo e dificuldades operacionais na produção. A dívida pública total ronda os 66% do PIB, com uma exposição significativa a credores multilaterais e bilaterais, incluindo a China, que detém cerca de 40% da dívida externa.

A fragilidade da economia e das finanças públicas é notória e tudo continua demasiado ligado ao preço do petróleo e ao serviço da dívida.

Apesar dos discursos políticos de reforma económica, o governo não conseguiu diversificar acentuadamente a economia, nem confrontou a questão da dívida chinesa, limitando-se a pagá-la com sacrifício do bem-estar do país.

A receita que o FMI apresenta não muda e não resolve nada. O Fundo continua a apostar na redução da despesa pública e critica o adiamento da reforma dos subsídios aos combustíveis para 2028 — uma medida que representa cerca de 2,5% do PIB em encargos anuais.  Defende que esta reforma, embora politicamente sensível, é crucial para libertar espaço fiscal e deverá ser acompanhada por mecanismos robustos de proteção social, como o reforço do programa Kwenda, que já abrange mais de 1 milhão de famílias em situação de vulnerabilidade.

Por fim, o FMI sublinha a importância de políticas cambiais flexíveis, com o câmbio a funcionar como amortecedor de choques externos. A política monetária deve manter-se cautelosa para sustentar a desinflação, enquanto a supervisão dos riscos sistémicos e o fortalecimento do quadro de estabilidade financeira são essenciais para garantir a solidez do sistema bancário, que apresenta uma taxa de crédito malparado inferior a 10%, abaixo da média regional[5].

Na verdade, estas receitas estão a ser tentadas com a supervisão do FMI desde 2019, e sem sucesso. A despesa pública real não é controlada devido aos mecanismos constitucionais e legais que permitem ao Presidente da República a decisão quase absoluta sobre os gastos públicos, tornando impossível uma efetiva racionalização da despesa do estado sem provocar embates com a figura presidencial. Portanto, a realidade é que a despesa pública continua descontrolada e dependente duma “canetada” do Presidente.

A dívida externa, onde a China representava um peso enorme, não foi renegociada, mas paga. Pode parecer uma opção sensata, mas não o é, atendendo ao custo de oportunidade enorme para um país com índices de pobreza e desemprego enormes. Primeiro, devia-se tratar o do emprego e do povo e só depois da dívida.

A completa flexibilização do câmbio do Kwanza foi desastrosa, levando à extinção da classe média e da quase totalidade do poder de compra dos angolanos, num país dependente de importações. Só os muito ricos sobreviveram com conforto[6].

Ao mesmo tempo, não foram criados mercados internos livres e eficientes, a burocracia e o clientelismo continuam a predominar, os tribunais são vistos como lentos e não necessariamente justos e nota-se uma grande falta de espírito empresarial em Angola.

Estes são os aspectos negativos, aqueles que poderemos chamar de política económica e financeira, e que clamam urgentemente por mudanças.

3-As realizações das políticas estruturantes

Há uma outra face a considerar, e que tem resultados positivos, e, espera-se, iguais consequências favoráveis; podemos chamá-la de políticas estruturantes. São temas essencialmente de médio e longo-prazo, cujos efeitos ainda não se sentem, mas permitem alguma esperança, acerca dos quais se dará de seguida, alguns exemplos avulsos, mas abrangentes.

No plano energético, Angola deu um passo histórico com a inauguração da Refinaria de Cabinda, um investimento multimilionário que marca uma viragem na capacidade de refinação nacional. Com uma produção inicial de 30 mil barris por dia e previsão de duplicação até 2026, esta infraestrutura reduz significativamente a dependência de combustíveis importados, que em 2023 representavam cerca de 80% do consumo interno[7].

Paralelamente, a exploração de novos blocos petrolíferos, como o Ndungu Early Production pela ENI, com uma produção estimada de 20 mil barris por dia, e o projeto Begónia da TotalEnergies, com início previsto para o segundo semestre de 2025, reforçam a confiança no potencial energético do país. As campanhas sísmicas da ExxonMobil na Bacia do Namibe, com investimentos superiores a 200 milhões de dólares, apontam para novas descobertas que poderão alterar o mapa energético nacional nos próximos anos[8].

No setor mineiro, Angola alcançou um feito notável ao concorrer com o Botswana como maior produtor de diamantes da África Austral, com uma produção anual superior a 10 milhões de quilates. As operações nas minas de Lulo e Catoca, bem como as novas concessões em Tchitengo e Luaxe, estão a dinamizar o setor. As negociações em curso com a De Beers, com vista ao Estado angolano tomar uma participação na companhia, visam consolidar a presença angolana no mercado global e garantir maior valorização dos seus recursos naturais, através de parcerias estratégicas e transferência de tecnologia[9].

A nível financeiro, a privatização parcial do Banco de Fomento Angola (BFA), através da maior Oferta Pública Inicial (IPO) da história da Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA), representa um marco na abertura do mercado de capitais. Com uma valorização superior a 300 milhões de dólares, esta operação pode atrair investidores nacionais e estrangeiros, sinalizando confiança no sistema financeiro angolano[10].

No setor da saúde, nos últimos oito anos, Angola deu um pulo enorme em termos de saúde, resultante de enormes e visíveis investimentos. A mortalidade infantil caiu de 44 para 32 por 1.000 nados-vivos, a mortalidade de menores de cinco anos passou de 68 para 52 por 1.000 nados-vivos e a mortalidade materna de 239 para 170 por 100.000 nados-vivos.

A expansão do sistema de saúde foi visível. O Serviço Nacional de Saúde aumentou de 2.612 unidades sanitárias em 2017 para 5.958 em 2024, das quais 15 novos hospitais do nível terciário e centros ortopédicos reabilitados, dando prioridade aos cuidados de saúde primários com mais de 50% das novas unidades. O país aumentou em 46,1% a força de trabalho em saúde desde 2017 e iniciou um amplo projeto de especialização que visa formar até 2028 cerca de 38 mil quadros do setor, entre médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, com prioridade para a medicina geral e familiar, visando acelerar progressos no alcance da Cobertura Universal da Saúde. Igualmente, nos últimos oito anos, foram instalados 538 monitores de hemodiálise em 12 províncias, mais 20.224 camas hospitalares perfazendo hoje um total de 44.222 camas em todo o país, acrescentou-se 1409 camas nas UTI perfazendo hoje um total de 1609 camas em UTI, em todo o território nacional.

As inaugurações de hospitais modernos, por exemplo, em Cabinda, Cazenga e Viana, com capacidade combinada para mais de 1.200 camas e serviços especializados em pediatria, obstetrícia e cirurgia, reforçaram a capacidade do sistema nacional, além de muitos outros.[11]

Não quer dizer que não persista um sistema dual, em que as camadas dirigentes continuam a não confiar nos hospitais angolanos e prefiram ir para o estrangeiro, e que nos mesmos hospitais angolanos persistam as queixas de falta de material, de recursos humanos e de manutenção. No entanto, as infraestruturas aí estão, faltando a capacidade de organização e gestão, uma das falhas mais significativas da cultura da administração pública angolana.

Na educação, Angola apostou na formação superior com a criação de novas universidades e institutos, designadamente a Universidade Rainha Njinga Mbande e o Instituto Politécnico de Cacuaco. A expansão da Universidade Katyavala Bwila e a instalação de centros técnicos e laboratórios visam preparar os jovens para os desafios da inovação e da diversificação económica.[12]

Também na educação as lacunas ainda são grandes e o problema da gestão das organizações e da excessiva centralização das decisões aliadas à incompetência e nepotismo existe. Tal como na saúde, os passos de escala são evidentes, falta a capacidade de gestão e atenção ao detalhe.

Em termos de infraestrutura, o país investe na reabilitação de mais de 2.000 km de estradas, construção de pontes estratégicas como a de Cazombo sobre o rio Zambeze, e expansão das redes de água e energia, com destaque para o projeto de eletrificação rural que já beneficiou mais de 500 mil habitantes. Em Luanda, as obras de requalificação urbana em zonas como Sambizanga e Cazenga têm impacto direto na qualidade de vida das populações, com melhorias no saneamento, iluminação pública e espaços verdes.

O Corredor do Lobito, que liga Angola à República Democrática do Congo e à Zâmbia, pode ser um exemplo de integração regional e promoção do comércio transfronteiriço, com potencial para movimentar mais de 1 milhão de toneladas de carga por ano.

4-A extrema relevância simbólica da privatização da Sonangol

A inclusão da Sonangol no Programa de Privatizações (Propriv), com uma primeira tranche prevista para 2026, poderá trazer maior eficiência e transparência à gestão dos recursos petrolíferos, promovendo uma cultura empresarial mais competitiva.

Temos franca esperança no efeito simbólico desta privatização.

A privatização de 30% da Sonangol representa um marco estratégico para a economia angolana, simbolizando a transição para um modelo mais competitivo, transparente e orientado para o mercado. Ao abrir parte do capital da maior empresa pública do país, Angola sinaliza ao mundo o seu compromisso com a modernização da gestão dos recursos petrolíferos e com a criação de um ambiente económico mais dinâmico. Esta operação, inserida no Programa de Privatizações (PROPRIV), tem o potencial de atrair investidores nacionais e estrangeiros, trazendo não apenas capital, mas também conhecimento técnico, inovação e acesso a redes globais. A entrada de novos acionistas impõe padrões mais exigentes de governança corporativa, promovendo melhores práticas de gestão, maior eficiência operacional e prestação de contas.

Além disso, a Sonangol torna-se um farol do desenvolvimento económico, ao demonstrar que é possível transformar uma empresa estatal num agente competitivo e alinhado com os desafios da transição energética e da diversificação económica. Esta privatização não é apenas uma operação financeira — será um símbolo de confiança no futuro de Angola, na capacidade das suas instituições e na abertura do país ao investimento e à cooperação internacional.

***

Estas são algumas das políticas estruturantes em curso, que a seu tempo, e se forem bem conduzidas, poderão paulatinamente retirar Angola do sufoco económico em que se encontra, que as políticas do FMI e da equipa económico-financeira do executivo não têm conseguido resolver.

5-O futuro depende da estabilização social e da boa governação

A estabilização social é, talvez, o maior desafio transversal. O desemprego juvenil continua elevado, rondando os 32%, o que exige políticas mais eficazes de integração no mercado de trabalho. Os investimentos em infraestruturas, energia, mineração e educação têm potencial para gerar milhares de postos de trabalho, mas é necessário garantir que esses empregos sejam sustentáveis e distribuídos de forma equitativa.

Sem coesão social e boa governação, qualquer avanço económico permanece vulnerável e instável. Para que Angola construa uma economia verdadeiramente diversificada, resiliente e inclusiva, é essencial ir além dos indicadores macroeconómicos e garantir que todos os cidadãos tenham acesso equitativo à educação, à habitação, à água potável e à energia. No centro desta transformação está a necessidade de uma boa governação — uma governação tecnicamente competente, não clientelar, aberta à inovação e ao escrutínio público, e capaz de servir o povo com transparência e responsabilidade. O progresso sustentável não pode nascer de sistemas autoritários, fechados, moldados por interesses partidários ou familiares. Pelo contrário, exige instituições sólidas, lideranças corajosas e uma visão estratégica que coloque o cidadão no centro das decisões. O futuro de Angola dependerá da capacidade de romper com velhos vícios, enfrentar os desafios com realismo e determinação, e cultivar uma cultura política que valorize o mérito, a participação democrática e a justiça social. Só assim será possível consolidar os alicerces de um desenvolvimento duradouro e verdadeiramente transformador.


[1] Estatísticas oficiais- https://www.ine.gov.ao/

[2] FMI, setembro 2025- https://www.imf.org/en/News/Articles/2025/09/05/pr-25288-angola-imf-executive-board-concludes-2025-post-financing-assessment?cid=em-COM-123-50598

[3] Worldometer. (2025). Demografia de Angola 2025. https://www.worldometers.info/pt/demografia/angola-demografia/

[4] Idem FMI, setembro 2025.

[5] Ibidem

[6] Rui Verde, CEDESA, 2025- https://www.cedesa.pt/2025/07/12/fmi-em-angola-uma-historia-de-falhancos/

[7] RFI. (2025, setembro 1). Angola: Inaugurada primeira fase da Refinaria de Cabinda. RFI África Lusófona. https://www.rfi.fr/pt/áfrica-lusófona/20250901-angola-inaugurada-primeira-fase-da-refinaria-de-cabinda

[8] NS Energy. (2023, setembro 27). Ndungu Early Production Development Project, Angola. https://www.nsenergybusiness.com/projects/ndungu-early-production-development-angola

[9] Gira Notícias. (2025, janeiro 1). Produção de diamantes superior ao comercializado. https://www.giranoticias.com/economia/2025/01/21691-producao-de-diamantes-superior-ao-comercializado.html

[10] Banco de Fomento Angola. (2025). Oferta Pública de Venda – BFA. https://www.bfa.ao/pt/relacoes-com-investidores/investimento/oferta-publica-de-venda-bfa

[11] Ministério da Saúde de Angola. (2022, abril 21). Inaugurado Hospital Geral de Cabinda. https://minsa.gov.ao/web/noticias/inaugurado-hospital-geral-de-cabinda

[12] Universidade Rainha Njinga a Mbande. (2025). Sobre a URNM – Ensino, investigação e inovação. https://uninjingambande.ed.ao

A Viragem da Diplomacia Pública Chinesa: Direitos Humanos como Ferramenta Estratégica e as Implicações para África e Angola

Rui Verde

Nota prévia: O CEDESA não pretende aprovar nem desaprovar as opiniões expressas neste texto. Essas opiniões devem ser consideradas como pertencentes ao autor.

A revolução dos paradigmas

Pelos menos desde o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que os Estados Unidos da América representavam um paradigma, o da chamada civilização Ocidental que afirmava a liberdade, a democracia, os direitos fundamentais e a economia livre. Eram uma espécie de “farol” para que os outros países olhavam e se inspiravam. Não quer isto dizer que o comportamento dos EUA fosse perfeito ou imaculado. Erros e tragédias aconteceram, Vietnam, Iraque, apoio a ditadores, hesitações espúrias, mas no final do dia, os EUA eram vistos como uma “força para o bem” e, sobretudo, traduziam um paradigma de sociedade que se ambicionava[1].

A partir de dada altura já no século XXI, esse papel dos EUA começou a ser posto em dúvida. Na realidade, os próprios EUA começaram uma espécie de autocrítica e entraram numa dúvida persistente sobre o seu papel, sobre a real existência do conceito de Ocidente, acerca da sua história, do seu sentido, mesmo do que era ser americano. Enfim, sobre tudo, e, como predisse Schumpeter, o sistema começou-se a desmoronar[2]. Este relativismo ou mesmo niilismo abriu as portas à eleição de Donald Trump que acabou com as ilusões. Trump vê-se como uma espécie de “ditador eleito” com um mandato popular para preencher o vácuo do relativismo e do niilismo intelectual que se tinha apoderado dos EUA, mas sem uma noção estratégica, a não ser fazer o que quer, descurando o papel paradigmático estabilizador internacional dos Estados Unidos. Não o entende, ou não o quer entender. Portanto, abriu a porta para outros ocuparam o espaço internacional deixado livre pelos EUA.

A China, sábia e atenta, está a aproveitar. Em primeiro lugar, tornou-se a defensora do comércio livre e da sociedade internacional organizada segundo regras, papel anteriormente promovido e ocupado pelos Estados Unidos[3].

Agora faz uma entrada na área da defesa dos Direitos Humanos, que deixa muitos surpreendidos.

A publicação do relatório chinês sobre as violações dos direitos humanos nos Estados Unidos em 2024, The Report on Human Rights Violations in the United States in 2024, representa uma mudança significativa na diplomacia pública da China. Tradicionalmente[4], Beijing tem rejeitado a linguagem dos direitos humanos como uma imposição Ocidental e uma forma de ingerência nos seus assuntos internos. No entanto, ao adotar essa mesma linguagem para criticar os Estados Unidos, a China sinaliza uma reconfiguração estratégica da sua atuação internacional, indo desafiar os Estados Unidos no seu habitual campo de eleição.

Esta viragem não implica uma adesão chinesa aos valores liberais, mas sim uma apropriação instrumental dos direitos humanos como ferramenta de influência geopolítica e narrativa.

A mudança ocorre num contexto de retração da liderança moral americana, especialmente com a presidência de Donald Trump, cuja política externa retirou qualquer relevância aos direitos humanos em favor de abordagens transacionais e nacionalistas. A China aproveita este vazio para ocupar um espaço simbólico que antes era hegemonicamente americano, com possíveis repercussões profundas nas suas relações com o continente africano.

A Diplomacia Pública Chinesa: De Defesa à Denúncia

Durante décadas, a China posicionou-se como defensora da soberania nacional e da não interferência, rejeitando críticas ocidentais sobre direitos humanos como tentativas de desestabilização. A sua diplomacia pública era marcada por uma postura defensiva, centrada em justificar o seu modelo político e económico como alternativa legítima ao liberalismo ocidental. No entanto, a publicação do relatório acima referido revela uma nova abordagem. O documento, detalhado e abrangente, denuncia práticas como a manipulação eleitoral, a violência policial, o racismo sistémico, a crise dos sem-abrigo, a degradação das condições de vida dos migrantes e a persistência de desigualdades estruturais nos EUA.

Este tipo de relatório não é novo — a China tem publicado documentos semelhantes desde 1998 — mas o grau de sofisticação, abrangência e timing político do relatório de 2024 sugere uma mudança qualitativa. Ao invés de apenas responder às críticas, Beijing passa a atacar proactivamente, utilizando os direitos humanos como arma retórica. Esta mudança insere-se numa estratégia mais ampla de contra narrativa, em que a China procura deslegitimar a autoridade moral dos Estados Unidos e apresentar-se como alternativa ao desnorte Ocidental.

O Vazio Americano: A Era Trump e o Desalinhamento Moral

A oportunidade para esta viragem surge num momento de enfraquecimento da liderança moral americana. Com a presidência de Donald Trump os direitos humanos deixaram de ser prioridade na política externa dos EUA. O governo Trump cortou financiamento a organismos internacionais, retirou-se de acordos multilaterais e adotou uma abordagem transacional nas relações bilaterais, privilegiando interesses económicos de curto-prazo em detrimento de valores normativos. Esta postura está a influenciar definitivamente a política externa, com uma crescente fadiga diplomática e polarização interna que minam a capacidade dos EUA de se apresentarem como paladinos  modelo liberal e  democrático[5].

O relatório chinês capitaliza precisamente sobre este contexto. Ao destacar as falhas sistémicas dos EUA — como a manipulação dos distritos eleitorais, a exclusão de minorias do processo democrático, a violência policial e a crise dos sem-abrigo — Beijing procura minar a autoridade moral americana e apresentar-se como voz crítica da ordem liberal. Esta estratégia não visa substituir os EUA como defensora dos direitos humanos, mas sim deslegitimar o discurso ocidental e reforçar a ideia de que nenhum país tem o monopólio da virtude.

Direitos Humanos como Ferramenta de Soft Power Chinês

A apropriação da linguagem dos direitos humanos pela China insere-se numa lógica de soft power, em que a construção de narrativas e perceções se torna tão importante quanto o poder económico ou militar. Ao denunciar os abusos nos EUA, Beijing vai influenciar a opinião pública internacional, especialmente nos países do Sul Global, onde o ressentimento contra o paternalismo Ocidental é mais forte. Esta estratégia visa criar um espaço discursivo em que a China possa apresentar-se como parceira respeitadora da soberania, mas também como crítica legítima das falhas do modelo liberal.

Este tipo de diplomacia pública tem precedentes. A China tem investido em meios de comunicação internacionais como a CGTN, em institutos Confúcio, em parcerias académicas e em campanhas de comunicação digital para moldar perceções globais. A introdução dos direitos humanos como tema central dessas campanhas representa uma evolução significativa, que pode ter implicações concretas nas relações bilaterais, especialmente em contextos de tensão ou conflito.

O continente africano é um dos principais palcos da influência chinesa. Desde o início do século XXI, a China tem intensificado a sua presença em África através de investimentos em infraestruturas, comércio, cooperação técnica e diplomacia cultural[6]. Esta relação tem sido marcada por uma abordagem pragmática, em que Beijing evita condicionar a cooperação ao respeito pelos direitos humanos, ao contrário dos países ocidentais. Esta postura tem sido bem recebida por muitos governos africanos, que valorizam a não interferência e a previsibilidade das relações com a China.

No entanto, a nova abordagem chinesa pode alterar este equilíbrio. Ao introduzir a linguagem dos direitos humanos na sua diplomacia pública, mesmo que seletivamente, Beijing pode começar a usar esse discurso como instrumento de pressão ou justificação.

Em relações que correm mal — por exemplo, em casos de incumprimento de contratos, instabilidade política ou críticas públicas — os direitos humanos podem emergir como argumento retórico, poderá ser o caso com Angola. Ainda que não se traduzam em sanções ou condicionamentos formais, estas narrativas podem influenciar perceções públicas, reputações governamentais e dinâmicas diplomáticas.

Além disso, a apropriação da linguagem dos direitos humanos pela China pode gerar ambivalência entre os parceiros africanos. Por um lado, pode reforçar a legitimidade da China como ator global responsável. Por outro, pode criar desconforto entre regimes autoritários ou sem tradição democrática, que até agora viam Beijing como parceiro silencioso. Esta ambivalência pode abrir espaço para novas negociações, reequilíbrios e até concorrência entre modelos de cooperação.

A viragem da China insere-se numa batalha mais ampla pelas narrativas globais. Os direitos humanos, longe de serem apenas valores universais, são também instrumentos de poder simbólico. Ao denunciar os abusos nos EUA, Beijing procura reverter a lógica tradicional em que os países ocidentais criticam o Sul Global. Esta inversão tem efeitos discursivos importantes: relativiza as críticas ocidentais, reforça a ideia de multipolaridade e legitima a China como ator normativo, isto é, criador de regras globais.

O caso de Angola

O recente interesse da China pelos direitos humanos em Angola pode ser interpretado sob três prismas distintos, cada um com implicações políticas e diplomáticas bastante diferentes. A forma como este movimento será recebido e explorado dependerá não apenas das intenções chinesas, mas também da capacidade angolana de gerir a sua imagem internacional num momento de tensão interna.

Num primeiro cenário, este novo posicionamento da China pode ser simplesmente ignorado por Angola e pela comunidade internacional, sendo visto como parte da habitual disputa geopolítica entre Pequim e Washington. Neste caso, os direitos humanos seriam apenas um instrumento retórico usado pela China para se contrapor às críticas ocidentais, sem qualquer impacto real sobre a situação angolana. Angola, por sua vez, poderia optar por não se envolver, tratando o tema como um assunto externo, sem relevância direta para a sua política interna ou para as suas relações bilaterais com a China.

Num segundo movimento possível, o governo angolano pode aproveitar esta nova retórica chinesa para se reaproximar de Pequim, apresentando a China como uma parceira que também valoriza os direitos humanos — ainda que sob uma definição própria e muitas vezes divergente dos padrões ocidentais. Esta estratégia permitiria a Angola suavizar a sua imagem internacional, especialmente num momento em que o país volta a ser alvo de críticas severas devido à repressão violenta de protestos em julho de 2025, que resultaram em várias mortes. Ao alinhar-se com uma China que se mostra mais vocal sobre direitos humanos, o governo angolano poderia tentar neutralizar parte da pressão internacional, sem necessariamente implementar reformas profundas.

Por fim, há uma terceira hipótese, mais ousada e potencialmente transformadora: a China pode decidir adotar uma postura mais ativa na política interna angolana, apoiando uma transição de governo que favoreça lideranças mais comprometidas com os direitos humanos. Este movimento, embora improvável à primeira vista, não pode ser descartado, sobretudo num contexto em que as relações entre Angola e China estão em processo de recalibração. Se Beijing entender que a estabilidade angolana — e, por extensão, os seus interesses estratégicos e económicos no país — dependem de uma maior abertura política e respeito pelos direitos fundamentais, pode vir a exercer influência nesse sentido, mesmo que de forma discreta.

Cada uma dessas possibilidades revela não apenas os contornos da diplomacia contemporânea, mas também os limites e as oportunidades que se abrem para Angola num momento de escrutínio internacional e redefinição de alianças. O modo como o governo angolano responder a este novo interesse chinês poderá determinar o rumo das suas relações externas e, talvez, o futuro da sua própria governabilidade.

Conclusão: Uma Nova Era de Diplomacia Pública

A publicação do relatório sobre os EUA em 2024 marca uma nova era na diplomacia pública chinesa. Ao apropriar-se da linguagem dos direitos humanos, Beijing não se torna liberal, mas sim mais estratégica. Esta mudança insere-se numa lógica de competição narrativa, em que os direitos humanos deixam de ser monopólio Ocidental e passam a ser campo de disputa simbólica. Para África, esta mudança pode ter implicações profundas, alterando perceções, dinâmicas diplomáticas e equilíbrios de poder. A China não abandona o pragmatismo, mas acrescenta uma nova camada discursiva à sua atuação internacional — uma camada que pode redefinir o futuro das relações Sul-Sul e da ordem global.

Em relação a Angola, o novo interesse da China pelos direitos humanos pode ser interpretado como uma oportunidade estratégica com múltiplas leituras: ignorado como parte da rivalidade sino-americana, aproveitado pelo governo angolano para melhorar sua imagem internacional, ou até como um sinal de que Pequim poderá influenciar uma transição política angolana mais alinhada com valores de direitos humanos. Num momento em que Angola enfrenta críticas renovadas pela repressão violenta de julho de 2025 e as suas relações com a China passam por uma fase de recalibração, a forma como este gesto será recebido poderá ter implicações profundas para o futuro político e diplomático do país.


[1] Judt, T. (2005), Postwar: A History of Europe Since 1945. New York: Penguin Press,

[2] Schumpeter, J. A. (1942). Capitalism, socialism and democracy. New York: Harper & Brothers.

[3] Observador. (2024, dezembro 16). Guerra comercial entre China e União Europeia resultará em perdas para ambos, diz ministro dos Negócios Estrangeiros chinês. https://observador.pt/2024/12/16/guerra-comercial-entre-china-e-uniao-europeia-resultara-em-perdas-para-ambos-diz-ministro-dos-negocios-estrangeiros-chines/

[4] State Council Information Office of the People’s Republic of China. (2025, August 17). The report on human rights violations in the United States in 2024. https://en.people.cn/n3/2025/0818/c90000-20353810.html

[5] Ver o nosso anterior relatório: https://www.cedesa.pt/2025/07/22/angola-e-a-administracao-trump-entre-a-trump-organization-e-a-diplomacia-do-desinteresse/

[6] Alden, C. (2007). China in Africa. London: Zed Books.