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Metodologias Omissas e Duplos Padrões: Uma Análise Crítica dos Relatórios Internacionais sobre Angola

Nota Prévia

Os relatórios das organizações internacionais são um elemento fundamental para o progresso da democracia e estado de direito em Angola. Contudo, há que assegurar a sua crítica metodológica de modo a evitar enviesamentos ideológicos e etnocêntricos que prejudicam esse objetivo. É o que se pretende com exte texto crítico das metodologias dos relatórios internacionais.

O Sul Global tem de ser tratado metodologicamente da mesma forma que o Norte.

1-A necessidade de análise crítica das metodologias dos relatórios

Recentemente, surgiram dois relatórios internacionais que abordam Angola. Um da Amnistia Internacional[1] sobre o estado dos direitos humanos no mundo, e outro dos Repórteres sem Fronteiras acerca da liberdade de imprensa[2].

Em ambos, Angola surge mal classificada e apresentando problemas.

Contudo, é necessário encarar estes relatórios do ponto de vista das metodologias utilizadas e dos padrões subjacentes, pois parecem denotar algum viés eurocêntrico ou pelo menos a desconsideração dos contextos e evoluções significativas em algumas sociedades.

A verdade é que a análise crítica dos relatórios internacionais sobre Angola, particularmente os produzidos pela Amnistia Internacional (AI) e pela Repórteres Sem Fronteiras (RSF), revela um conjunto de fragilidades metodológicas, enviesamentos estruturais e assimetrias de tratamento que comprometem a objetividade e a comparabilidade das conclusões apresentadas.

A questão não se centra na negação dos problemas reais enfrentados por Angola, mas na forma como estes são descritos, quantificados e enquadrados, frequentemente de modo desconexo das práticas metodológicas aplicadas a países ocidentais.

Esta discrepância gera um duplo padrão analítico que reforça estereótipos racializados, obscurece avanços institucionais e impede a construção de diagnósticos equilibrados e úteis para o fortalecimento das instituições democráticas angolanas.

Na verdade, estes relatórios acabam por ter o efeito contrário.

2-O problema da opacidade concreta da metodologia

Um dos problemas mais recorrentes é a opacidade quantitativa presente nos índices e relatórios.

No caso da RSF, o Índice de Liberdade de Imprensa é construído com base em cinco indicadores — político, económico, legislativo, social e de segurança — mas a organização não explicita os pesos atribuídos a cada variável, nem os métodos concretos de recolha de dados.

Na metodologia refere-se que existe “uma análise qualitativa da situação em cada país, medida através das respostas de especialistas em liberdade de imprensa (jornalistas, pesquisadores, acadêmicos, defensores de direitos humanos, etc.).”[3]

No entanto, desconhece-se quem foram os peritos angolanos que responderam às questões. Basta haver um viés na escolha, por exemplo, procurando jornalistas ligados à oposição que falem inglês ou académicos críticos para a análise qualitativa se tornar uma mera opinião política e não objetiva.

A ausência de transparência impede a replicação independente dos resultados e compromete a validade científica do índice.

Em contextos académicos, a impossibilidade de replicação constitui uma falha grave, pois impede a verificação externa e abre espaço para arbitrariedades interpretativas.

A crítica torna-se mais evidente quando se observa que, para países ocidentais, a RSF frequentemente justifica variações nos rankings com recurso a estudos académicos, auditorias externas ou dados oficiais, enquanto para Angola a explicação se limita a descrições vagas e generalistas. Há uma procura de ciência quando se trata de países ocidentais, e bem. Já quando se chega a África existe a produção de opiniões e impressões.

3-Das perceções subjetivas às métricas

Outro elemento problemático é a conversão de perceções subjetivas em métricas estatísticas.

Tanto a AI como a RSF recorrem a testemunhos, perceções de especialistas e relatos de imprensa para construir indicadores que, posteriormente, são apresentados como dados objetivos. Alegações de censura, por exemplo, são frequentemente baseadas em episódios isolados ou em perceções de atores específicos, sem séries temporais, sem comparação com países de rendimento semelhante e sem validação independente.

A transformação de perceções em métricas é metodologicamente aceitável quando acompanhada de triangulação rigorosa e contextualização histórica, mas torna-se problemática quando é utilizada como base exclusiva para diagnósticos estruturais.

No caso angolano, esta prática é recorrente, mas raramente acompanhada de mecanismos de verificação.

Ao se passar do Norte para o Sul Global modificam-se os pressupostos científicos, deixa-se a analítica cuidadosa, e navega-se na opinião não comprovada.

4-Generalização de casos isolados e o racismo epistémico

A generalização de casos isolados constitui outra fragilidade central.

 A AI é frequentemente criticada por transformar incidentes individuais — como detenções pontuais ou confrontos entre manifestantes e forças de segurança — em diagnósticos estruturais sobre o funcionamento do Estado.

A ausência de representatividade estatística e de enquadramento histórico impede compreender se os incidentes representam agravamento, estabilidade ou melhoria.

Em contraste, quando episódios semelhantes ocorrem em França, Reino Unido ou Estados Unidos, as organizações tendem a contextualizar os eventos, distinguindo entre protestos pacíficos, tumultos, vandalismo ou criminalidade oportunista.

Esta distinção desaparece nos relatórios sobre Angola, onde fenómenos distintos são fundidos numa narrativa de “violência política difusa” ou “colapso generalizado”, reforçando estereótipos racializados sobre desordem africana.

Estes relatórios demonstram um certo racismo epistémico[4].

5-Fragilidade de seleção das fontes

A fragilidade na seleção e triangulação de fontes é igualmente evidente.

O relatório da AI sobre Angola baseia-se fortemente em notícias de imprensa, testemunhos de ativistas e declarações de organizações locais, mas raramente explicita critérios de validação independente, nem exerce qualquer tipo de contraditório com as autoridades.

Em contextos politicamente polarizados, a ausência de triangulação rigorosa — cruzamento entre fontes independentes, dados oficiais, estudos académicos e observação direta — compromete a fiabilidade das conclusões.

Em países ocidentais, a AI tende a recorrer a investigações oficiais, relatórios de auditoria e dados quantitativos, demonstrando maior rigor metodológico.

A discrepância sugere um padrão assimétrico: maior exigência para países ocidentais, maior permissividade para países africanos.

A assimetria de tratamento entre Angola e países ocidentais manifesta-se também na forma como incidentes são enquadrados.

Em França, por exemplo, existem registos documentados de dezenas de jornalistas feridos pela polícia durante protestos de grande escala, incluindo os “Gilets Jaunes”[5]. Apesar da gravidade destes episódios, raramente resultam em quedas drásticas nos rankings de liberdade de imprensa, nem são apresentados como sintomas de disfunção sistémica. Pelo contrário, a RSF tende a justificar variações com detalhe técnico, citando fontes oficiais e estudos académicos.

Em Angola, incidentes isolados são frequentemente extrapolados para diagnósticos estruturais, sem a mesma nuance analítica.

A AI, por sua vez, reconhece a complexidade operacional das forças de segurança francesas, distinguindo entre protestos legítimos e atos de vandalismo.

No caso angolano, essa distinção desaparece, e o Estado é descrito como um agente repressivo homogéneo, sem consideração pelas dinâmicas sociais, limitações materiais ou constrangimentos institucionais.

6-Omissão de contextos

Outro ponto crítico refere-se à omissão das determinantes económicas que moldam o ecossistema mediático angolano.

A RSF tende a assumir que qualquer restrição à atividade jornalística é de natureza política, ignorando fatores como custos de produção elevados, concentração de mercado, fragilidade do setor publicitário ou ausência de modelos de negócio sustentáveis.

Em países ocidentais, a organização reconhece que a concentração mediática e a crise dos modelos de negócio são fatores estruturais que afetam a pluralidade e a independência editorial.

Nos Estados Unidos, por exemplo, conglomerados privados controlam a esmagadora maioria da informação, mas a RSF raramente classifica essa concentração como ameaça estrutural comparável às restrições identificadas em países em desenvolvimento. Estudos académicos demonstram que a concentração mediática norte-americana tem impactos significativos na pluralidade, mas estes elementos são frequentemente omitidos nos diagnósticos da RSF[6].

Esta diferença de tratamento revela um enviesamento metodológico que favorece países ocidentais e penaliza países africanos.

A omissão de condicionantes estruturais é particularmente evidente no caso angolano.

A RSF e a AI raramente discutem desigualdades socioeconómicas, limitações orçamentais ou fragilidades administrativas como fatores que moldam a atuação das instituições.

 Em países ocidentais, estes elementos são considerados essenciais para compreender a eficácia das forças de segurança, dos tribunais ou dos meios de comunicação.

A ausência desta contextualização no caso angolano cria uma expectativa irrealista de que o Estado deve cumprir padrões ideais sem considerar os constrangimentos materiais reais. Esta abordagem reforça a narrativa de incapacidade estrutural frequentemente atribuída aos Estados africanos.

7-Desconsideração de autocorreções

Os relatórios internacionais ignoram mecanismos internos de autocorreção existentes em Angola.

Entre estes mecanismos incluem-se decisões judiciais que limitaram leis restritivas, absolvições de jornalistas investigativos e intervenções institucionais que demonstram capacidade de autocorreção[7].

A omissão destes elementos reforça a narrativa de que Angola carece de mecanismos internos de controlo, enquanto mecanismos semelhantes são valorizados em países ocidentais.

Esta omissão contribui para uma visão racializada da capacidade institucional africana, onde avanços são invisibilizados e falhas são amplificadas.

A diferença na análise de protestos pela AI constitui outro exemplo de assimetria.

Em países ocidentais, a organização distingue cuidadosamente entre protestos pacíficos, confrontos isolados, vandalismo e criminalidade oportunista.

Esta distinção permite compreender a complexidade das dinâmicas sociais e evita generalizações abusivas.

No caso angolano, a AI tende a fundir fenómenos distintos numa narrativa única de repressão estatal, ignorando a diversidade de atores, motivações e contextos. Esta abordagem não só compromete a precisão analítica, como reforça estereótipos racializados sobre violência e desordem em África.

A crítica metodológica estende-se também à forma como a RSF justifica variações nos rankings de países ocidentais. A organização recorre frequentemente a explicações técnicas detalhadas, citando estudos académicos, relatórios oficiais e auditorias externas. Esta prática demonstra rigor metodológico e transparência.

No caso angolano, as justificações são vagas, baseadas em perceções ou episódios isolados, sem explicitação de critérios ou fontes. A discrepância sugere que a RSF aplica critérios diferenciados consoante o país analisado, o que compromete a comparabilidade dos resultados.

A análise crítica sublinha ainda que os relatórios internacionais reforçam estereótipos racializados ao descreverem Angola como um espaço de violência política difusa, incapacidade institucional e ausência de mecanismos de autocorreção.

 Estes estereótipos são reforçados pela ausência de contextualização histórica, económica e institucional, bem como pela generalização de incidentes isolados.

Esta abordagem contribui para uma narrativa paternalista que trata países africanos como intrinsecamente frágeis e incapazes de progresso institucional, enquanto países ocidentais são descritos como complexos, dinâmicos e dotados de mecanismos de autocorreção.

CONCLUSÕES

Em síntese, a análise crítica dos relatórios da AI e da RSF sobre Angola revela algumas  fragilidades metodológicas significativas, enviesamentos estruturais e assimetrias de tratamento que comprometem a objetividade e a utilidade dos diagnósticos.

 A opacidade quantitativa, a conversão de perceções em métricas, a generalização de casos isolados, a fragilidade na triangulação de fontes, a omissão de determinantes económicas e a invisibilização de mecanismos internos de autocorreção constituem problemas centrais.

A comparação com países ocidentais evidencia um duplo padrão analítico que reforça estereótipos racializados e impede a construção de análises equilibradas.

Não se nega os desafios enfrentados por Angola, mas é fundamental haver rigor metodológico, transparência e contextualização, elementos essenciais para qualquer avaliação produtiva da liberdade de imprensa e dos direitos humanos em África.


[1] Amnesty International. (2026). O estado dos direitos humanos no mundo: Relatório 2025 (POL10/0320/2026). Amnesty International Ltd. https://www.amnesty.org

[2] Reporters Without Borders. (2026). World Press Freedom Index 2026. RSF. https://rsf.org

[3] https://rsf.org/pt-br/metodologia-detalhada-do-ranking-mundial-da-liberdade-de-imprensa-2026

[4] Baldé, M. A. B. (2023). Para além dos estereótipos: um enfoque endógeno e crítico do conhecimento sobre a África. África, (44). https://doi.org/10.11606/issn.2526-303X.i44pe214846

[5] Reporters Sans Frontières. (2019). Six mois de manifestations “gilets jaunes” et de violences policières : au moins 54 journalistes blessés et 120 incidents répertoriés. https://rsf.org/

[6] Benson, R., & Powers, M. (2011). Public media and political independence: Lessons for the future of journalism from around the world. Free Press.

McChesney, R. W. (2015). Rich media, poor democracy: Communication politics in dubious times (2nd ed.). The New Press.

[7] Público. (2018, julho 6). Jornalistas angolanos absolvidos em processo movido por ex-procurador. https://www.publico.pt/2018/07/06/mundo/noticia/jornalistas-angolanos-absolvidos-em-processo-movido-por-exprocurador-1837132

Radiografia e prospetiva da economia angolana em 2026

Rui Verde

1-As tensões atuais da economia de Angola

A economia angolana em 2026 apresenta‑se como um campo de forças tensas, onde variáveis macroeconómicas, dinâmicas políticas, estruturas históricas e constrangimentos epistemológicos se entrelaçam para produzir um quadro simultaneamente estável no curto-prazo, embora com severas limitações e profundamente frágil no médio-prazo.

A trajetória projetada pelo FMI, no seu relatório de maio de 2026 aponta para um crescimento real do PIB de 2,3% em 2026[i]. Tal significa uma tendência de crescimento do PIB descendente face aos 3,1% de 2025 e reforça a perceção de que Angola permanece presa num regime de crescimento insuficiente para convergir com a média da África Subsariana, estimada em 4,3%, o que se torna mais preocupante atendendo ao crescimento demográfico acelerado do país. 

Os dados oficiais do RGPH 2024 confirmam que Angola passou de cerca de 25,7 milhões de habitantes em 2014 para aproximadamente 37,8 milhões em 2024, um aumento muito expressivo em apenas uma década, reforçado por taxas anuais próximas de 3%. Projeções internacionais, como as da ONU e do Worldometer, apontam para a continuidade desta tendência, com o país a aproximar‑se dos 40 milhões em 2026 e a manter uma taxa de fertilidade em torno de cinco filhos por mulher. Esta dinâmica demográfica tem efeitos estruturais: uma pressão crescente sobre infraestruturas urbanas, sobretudo em Luanda; uma expansão acelerada da população em idade escolar; e a necessidade de políticas públicas capazes de transformar o chamado “bónus demográfico” em desenvolvimento económico real. [ii] Caso contrário, os índices de miséria só aumentarão.

Esta trajetória frágil é estrutural e reflete a incapacidade do modelo económico vigente de gerar um círculo virtuoso de produtividade, investimento e confiança.

2-O modelo falhado da economia

A economia angolana continua marcada por um dualismo profundo: um sector petrolífero em declínio estrutural, mas ainda dominante, e um sector não petrolífero que, apesar de avanços pontuais, não consegue assumir o papel de motor de crescimento, sobretudo, por falta de um sector privado capitalizado e não dependente de rendas do Estado.

Esta clivagem é o ponto de partida para compreender a “tensão estrutural” que caracteriza 2026, um ano em que a proximidade das eleições de 2027 amplifica incertezas, retrai investimento e condiciona decisões de política económica.

O sector petrolífero permanece como a âncora fiscal e cambial do país, mas essa âncora está corroída.

Os preços internacionais do Brent potenciados pela guerra do Irão oferecem uma almofada temporária, mas com a produção estabilizada num patamar frágil de 1,05 milhões de barris por dia, ou inferior, há uma incapacidade de gerar o impulso necessário para consolidar reservas ou financiar uma diversificação robusta.

A saída progressiva de operadores internacionais — Chevron, BP, TotalEnergies —significa a perda de capacidades técnicas, de redes de confiança e de mecanismos de transferência de conhecimento que sustentavam a complexidade operacional do offshore angolano. A deslocação destes capitais para a Namíbia e outras geografias emergentes sinaliza que Angola deixou de ser um destino prioritário para investimentos de longo prazo no sector energético, o que agrava a perceção de risco e reforça a dependência de um sector em erosão[iii].

A estrutura das exportações confirma esta vulnerabilidade: 22,4% do PIB provêm de petróleo e gás, enquanto as exportações não petrolíferas representam apenas 1,6%. Sem o sector primário, a solvabilidade externa do país seria praticamente inexistente.

A diversificação económica, frequentemente apresentada como prioridade estratégica, revela em 2026 a sua natureza paradoxal: é simultaneamente indispensável e insuficiente.

Os sectores emergentes — agricultura, telecomunicações, transportes — que em anos anteriores registaram crescimentos superiores a 4%, desaceleram para 2,4%, uma queda de 50% no ritmo de expansão.

Esta desaceleração é um sintoma de que a transformação estrutural continua bloqueada por fatores persistentes: baixa produtividade agrícola, insuficiência logística, complexidade regulatória, custos elevados de financiamento e um ambiente de negócios que, apesar de reformas, permanece marcado por opacidade e imprevisibilidade[iv].

3-Problemas monetários e fragilidades do sistema bancário: inflação e GAFI

A política monetária do Banco Nacional de Angola, restritiva por necessidade, protege a estabilidade nominal, mas sacrifica o dinamismo real, criando um dilema clássico das economias dependentes de commodities: a estabilidade da moeda é alcançada à custa da vitalidade produtiva.

A inflação, embora em trajetória descendente — de 20,2% em 2025 para 13,1% no final de 2026 — permanece elevada o suficiente para corroer o poder de compra e alimentar tensões sociais. A desinflação é alcançada através de um aperto monetário que reduz a liquidez e limita o crédito, afetando sobretudo os sectores que poderiam impulsionar a diversificação.

As reservas internacionais, equivalentes a 7,7 meses de importações, oferecem uma margem de segurança, mas essa margem depende quase exclusivamente da manutenção dos preços do petróleo.

A flexibilidade cambial recomendada pelo FMI continua a ser um instrumento essencial para absorver choques externos, mas a volatilidade cambial tem efeitos regressivos sobre o consumo das famílias e sobre a confiança dos agentes económicos. No entanto, espera-se que a recente estabilização do câmbio do Kwanza, permita criar alguma certeza nos mercados, que ficarão mais dependentes de aspetos políticos.

No plano fiscal, Angola mantém em 2026 um compromisso firme com a consolidação, orientado pela Lei de Sustentabilidade Fiscal.

As receitas petrolíferas descem para 7,6% do PIB, enquanto o Estado procura compensar esta queda através do aumento das receitas não petrolíferas, com a meta de atingir 6,8% do PIB. A dívida pública situa‑se em 51,6% do PIB, um nível gerível, mas vulnerável ao risco cambial e à deterioração das condições externas de financiamento.

O “nexo soberano‑bancário” constitui uma ameaça sistémica: os bancos comerciais angolanos detêm uma parte significativa da dívida pública, o que significa que qualquer choque sobre a solvência do Estado se transmitirá diretamente ao sistema financeiro.

O FMI insiste na necessidade de reforçar a supervisão baseada no risco, de controlar derrapagens orçamentais e de prosseguir a reforma dos subsídios aos combustíveis, mas estas recomendações enfrentam resistências políticas e sociais num ano pré‑eleitoral.

A manutenção de Angola na lista cinzenta do GAFI[v] atua como um bloqueio estrutural ao funcionamento normal do sistema financeiro, porque coloca o país sob suspeita permanente de insuficiências no combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento ao terrorismo.

Essa classificação desencadeia mecanismos automáticos de vigilância reforçada por parte dos bancos internacionais, que passam a tratar qualquer operação proveniente de Angola como de risco elevado. O resultado é a retração dos correspondentes bancários, o aumento dos custos de conformidade e a redução da capacidade dos bancos angolanos para operar em dólares e euros, afetando diretamente a estabilidade do sistema e a fluidez das transações externas.

A escassez de correspondentes traduz‑se numa menor disponibilidade de divisas, em atrasos nas transferências e numa pressão adicional sobre o Banco Nacional de Angola para garantir liquidez, criando um ambiente financeiro mais caro, mais lento e menos previsível.

Para investidores estrangeiros, esta combinação de risco regulatório, incerteza operacional e fragilidade no acesso a moeda forte funciona como um desincentivo imediato, elevando o custo de financiamento e diminuindo a confiança no mercado. Assim, enquanto Angola permanecer na lista cinzenta, qualquer estratégia de atração de investimento ou de diversificação económica fica condicionada por um sistema bancário que opera sob vigilância excecional e por um mercado cambial estruturalmente tenso, onde a previsibilidade é limitada e o risco percebido supera frequentemente o potencial de retorno.

4-O erro dos modelos do FMI e do governo

É neste ponto que a análise económica convencional levada a cabo pelo FMI e pelo governo nos seus relatórios revela os seus limites, sendo necessário explicar a grande diferença entre os números macroeconómicos e a sensação e descontentamento económico da população.

 A crítica de Dutt, Alves et al[vi], no âmbito do movimento de “decolonizing economics”, é particularmente relevante para compreender a economia angolana em 2026.

Estes autores argumentam que os modelos macroeconómicos dominantes — centrados em pressupostos de racionalidade universal, mercados eficientes e trajetórias lineares de desenvolvimento — são inadequados para captar as especificidades históricas, institucionais e políticas das economias pós‑coloniais.

No caso de Angola, esta inadequação manifesta‑se na forma como o FMI e outras instituições internacionais projetam o crescimento baseadas em pressupostos que ignoram a natureza extrativa do Estado, a centralidade fundamental das redes político‑económicas e a persistência de estruturas coloniais de acumulação, tendo havido apenas substituição de atores e não de estruturas e práticas.

A economia angolana não é apenas uma economia dependente de petróleo; é uma economia moldada por décadas de guerra, por um sistema político fortemente centralizado e por uma elite político-económica, em que dirigentes partidários e empresários se confundem num ecossistema de total absorção e cumplicidade, cuja reprodução depende da manutenção de mecanismos de controlo sobre o sector financeiro e sobre o acesso a rendas estatais. O sector privado é essencialmente político e dependente do Estado. Trata-se, no final, de um círculo fechado de controlo político-económico.

Os modelos do FMI, ao privilegiarem variáveis macroeconómicas agregadas, não captam a dimensão política da economia, nem a forma como a incerteza institucional afeta o investimento, a produtividade e a confiança.

A crítica de Bronwen Everill, no âmbito da Africonomics[vii], aprofunda esta reflexão ao demonstrar que as economias africanas não podem ser analisadas apenas através de métricas convencionais de crescimento, dívida e inflação. Everill sublinha que as economias africanas são moldadas por redes históricas de comércio, por sistemas de reciprocidade, por estruturas de dependência global e por dinâmicas de poder que escapam às categorias analíticas tradicionais.

5-As razões do não avanço da economia angolana e risco político de 2027

No caso de Angola, a Africonomics ajuda a compreender porque razão a diversificação económica não avança: não se trata apenas de falta de investimento ou de políticas inadequadas, mas de uma estrutura económica que continua organizada em torno da extração e exportação de recursos primários, reproduzindo padrões coloniais de inserção na economia global e manietada superiormente por interesses políticos hegemónicos.

A dependência de importações para bens essenciais, a fragilidade das cadeias de valor internas e a ausência de uma classe empresarial autónoma reforçam este padrão.

A economia angolana, vista através da lente de Everill, não é apenas uma economia em transição; é uma economia cuja arquitetura estrutural impede a emergência de sectores produtivos capazes de competir globalmente.

A incorporação destas perspetivas permite reinterpretar as tensões políticas e sociais que marcam 2026.

O risco político é a variável determinante para o investimento estrangeiro, e a proximidade das eleições de 2027 amplifica a aversão ao risco.

 O Investimento Direto Estrangeiro caiu de 20,8 mil milhões de dólares em 2021 para cerca de 12,1 mil milhões em 2025, refletindo a contestação pós‑eleitoral de 2022 e os episódios de violência de 2025. Os investidores não respondem apenas a indicadores macroeconómicos; respondem à perceção de legitimidade, previsibilidade e estabilidade institucional.

A polarização entre MPLA e UNITA, vista por analistas internacionais como um obstáculo à estabilidade de longo prazo, reforça a incerteza. A permanência de Angola na lista cinzenta do GAFI agrava os custos de conformidade e limita o acesso ao sistema financeiro internacional, criando um círculo vicioso de isolamento e desconfiança.

A economia angolana em 2026 é, portanto, um sistema de fragilidade resiliente: mantém o equilíbrio macroeconómico básico, mas esse equilíbrio assenta em alicerces frágeis.

A resiliência deriva da capacidade do Estado de gerir a política monetária, de controlar o défice e de manter reservas adequadas; a fragilidade deriva da dependência estrutural do petróleo, da incapacidade real do sector não petrolífero de ser motor de crescimento, da queda do investimento estrangeiro e das tensões políticas que antecedem 2027.

A fragilidade não é apenas económica; é epistemológica. Dizer que a fragilidade não é apenas económica, mas epistemológica, significa reconhecer que o problema não reside apenas nos indicadores, nos mercados ou nas limitações materiais da economia, mas sobretudo na forma como o país produz, organiza e interpreta o próprio conhecimento sobre si mesmo e nas suas instituições. Nesse sentido, a vulnerabilidade económica é apenas a superfície visível de um problema mais profundo: a incapacidade estrutural de gerar conhecimento sólido, crítico e operacional, capaz de orientar políticas públicas consistentes e de antecipar riscos. Sem essa base epistemológica, qualquer estratégia económica assenta em perceções instáveis, diagnósticos incompletos e decisões que não respondem à complexidade real do país.

Os instrumentos analíticos utilizados para avaliar a economia angolana não captam a totalidade das suas dinâmicas, e as recomendações de política económica, embora tecnicamente sólidas, não respondem às especificidades históricas e institucionais do país.

O ciclo eleitoral de 2027 será decisivo: apenas um processo transparente e consensual poderá restaurar a confiança dos mercados e permitir que o país transforme a sua riqueza natural em desenvolvimento sustentável.

Mas, para além da conjuntura, será necessário repensar o próprio enquadramento analítico da economia política angolana, incorporando considerações que permitam compreender a complexidade do seu trajeto e formular políticas que respondam às suas realidades específicas.

Sem esta mudança epistemológica, Angola continuará presa num ciclo de crescimento insuficiente, vulnerabilidade estrutural e instabilidade política.


[i] IMF Executive Board Concludes 2026 Article IV Consultation with Angola, https://www.imf.org/en/news/articles/2026/05/01/pr26135imf-executive-board-concludes-2026-article-iv-consultation-with-angola

[ii]CENSO2024https://censo2024.ine.gov.ao/Relatorio_Sintese_Censo2024.pdf

[iii] ECOS E FACTOS, 2026, https://www.ecosefactos.com/chevron-totalenergies-e-a-bp-deixam-blocos-petroliferos-em-angola-preferem-blocos-da-vizinha-namibia-o-fim-da-hegemonia-de-luanda/

[iv] IMF- https://www.imf.org/en/news/articles/2025/12/17/pr-25428-angola-imf-staff-completes-2025-article-iv-consultation-mission

[v] GAFI — Grupo de Acção Financeira Internacional (FATF, na sigla inglesa) — é o organismo intergovernamental responsável por definir os padrões globais de combate ao branqueamento de capitais, ao financiamento do terrorismo e à proliferação de armas de destruição massiva. Criado em 1989 no âmbito do G7, o GAFI funciona como a autoridade normativa central neste domínio: estabelece recomendações, avalia países, identifica deficiências e aplica mecanismos de pressão internacional através das suas listas de risco. A lista cinzenta reúne países com falhas estratégicas nos seus sistemas de prevenção, mas que assumiram compromissos formais de reforma.

[vi] DEVIKA DUTT, CAROLINA ALVES, SURBHI KESAR, INGRID HARVOLD KVANGRAVEN, Decolonizing Economics. An Introduction.Polity Press, 2025.

[vii] BRONWEN EVERILL, A History of Westen Ignorance. Africonomics.William Collins.2024.

ANGOLA 5.0 — SISTEMA JP

Um Modelo Híbrido de Desenvolvimento Sustentável para Angola:

Democracia Africana, Economia de Mercado com Controlo Estatal e o Sistema Kgotla

Joel De Jesus Mendes Pascoal – Projecto Esperança & Gael: Horizon  |  Abril 2026 Estudante de Economia e Management, Università degli Studi di Sassari (Itália)
Estudante visitante do CEDESA/Investigador Independente |  j.pascoal@studenti.uniss.it

NOTA INTRODUTÓRIA

O que é o Sistema JP e por que se chama assim

O Sistema JP — acrónimo de Sistema de Justiça Participativa — é uma proposta de modelo híbrido de desenvolvimento para Angola, concebida pelo autor no âmbito do projecto de investigação independente Esperança & Gael: Horizon. A designação “JP” reflecte dois princípios fundadores indissociáveis: Justiça, enquanto imperativo de equidade social, acesso universal a serviços básicos e redistribuição activa da riqueza gerada pelos recursos naturais; e Participativa, enquanto método de governança assente na participação directa das comunidades nas decisões que as afectam, inspirado no sistema tradicional Kgotla do Botswana.

O nome surge também como referência implícita às iniciais do autor — Joel Pascoal — sinalizando que esta não é uma proposta abstracta ou importada, mas um compromisso pessoal e civilizacional de um angolano com o futuro do seu país. O Sistema JP não é uma cópia de nenhum modelo ocidental: é uma síntese original entre a experiência africana de governança comunitária, as políticas de desenvolvimento com controlo estatal estratégico da China, e as melhores práticas educativas da Finlândia, Coreia do Sul e Emirados Árabes Unidos — adaptada à história, à cultura e à realidade política de Angola.

Resumo

Este artigo propõe o Sistema JP — um modelo híbrido de desenvolvimento para Angola, fundamentado em três pilares complementares: (1) a adopção de uma economia de mercado com controlo estatal estratégico, inspirada nas políticas de desenvolvimento da China; (2) a integração do sistema de governança comunitária Kgotla, originário do Botswana; e (3) a construção de uma democracia africanizada, adaptada à realidade política, cultural e social de Angola. A pergunta central que estrutura este artigo é: pode Angola combinar um forte controlo político de longo prazo com um desenvolvimento sustentável, distanciando-se das definições ocidentais de democracia ou capitalismo? A resposta proposta é afirmativa — e as suas implicações são profundas para o futuro de África.

1. Introdução

Angola encontra-se hoje num cruzamento histórico. Com um PIB per capita de USD 2.665,9 (Banco Mundial, 2024), um coeficiente de Gini de 0,59 — um dos mais elevados do mundo — e uma dependência de ~90% do sector petrolífero nas exportações, o modelo de crescimento angolano necessita urgentemente de uma reconfiguração estrutural. A questão não é apenas económica: é também política, cultural e civilizacional.

As definições ocidentais de democracia e capitalismo de mercado livre, frequentemente apresentadas como receitas universais, revelaram-se insuficientes quando transplantadas para contextos africanos sem adaptação. Países como o Botswana demonstraram que é possível construir modelos de governança e desenvolvimento genuinamente africanos, com resultados superiores aos de nações que adoptaram mimicamente as estruturas ocidentais.

Este artigo parte de duas perguntas anotadas no caderno de investigação do projecto Esperança & Gael: Horizon:

“Poderia Angola combinar o forte controlo político com o desenvolvimento a longo prazo, distanciando-se das definições ocidentais de democracia ou capitalismo?”

“Como poderia ser criado um sistema Kgotla para Angola — não igual, mas que influenciasse a diversificação económica, a transparência das instituições, a separação do poder político nas decisões judiciais e a implementação de um sistema educacional baseado em modelos como a Finlândia, os EAU e os demais sistemas educacionais?”

A resposta a estas perguntas constitui o Sistema JP — uma proposta original, enraizada na teoria do desenvolvimento económico e nas melhores práticas africanas e asiáticas.

2. A Realidade que os Angolanos Vivem: Censo 2024 e as Grandes Reclamações

Qualquer proposta de desenvolvimento que não parta da realidade concreta da população é um exercício intelectual sem utilidade. O Sistema JP ancora-se nos dados do Recenseamento Geral da População e Habitação 2024 (INE Angola) — o segundo censo desde a independência, realizado entre Setembro e Dezembro de 2024 — e nas reclamações estruturais que os angolanos têm vindo a expressar de forma crescente na última década. Estes dados não são estatísticas abstractas: são o retrato do que falhou e do que o Sistema JP se propõe corrigir.

2.1 O Que o Censo 2024 Revela

Os resultados definitivos do Censo 2024, publicados em Novembro de 2025 pelo INE Angola, confirmam uma população de 36.604.681 habitantes — um crescimento de 10,8 milhões de pessoas face ao Censo 2014, a uma taxa de crescimento médio anual de 3,5%. Esta demografia jovem e acelerada é simultaneamente a maior oportunidade e o maior desafio de Angola. Os dados sectoriais são reveladores:

  • Acesso a água canalizada: apenas 37% das famílias têm acesso a água canalizada dentro de casa, no quintal ou na vizinhança. Isto significa que 63% da população — mais de 23 milhões de angolanos — não tem acesso garantido a água potável em condições adequadas. (Fonte: INE, Censo 2024)
  • Acesso à electricidade da rede pública: segundo o Banco Mundial, apenas ~48,5% da população tinha acesso à electricidade em 2022. Com uma taxa de crescimento populacional de 3,5% ao ano, e sem investimento proporcional na rede eléctrica, este número regride em termos absolutos todos os anos. Mais de 18 milhões de angolanos vivem sem electricidade. (Fonte: Banco Mundial / INE Censo 2024)
  • Habitação: o Censo 2024 regista 9,1 milhões de agregados familiares com uma média de 3,9 pessoas. A maioria das habitações nas zonas periurbanas e rurais não tem saneamento básico adequado. A pressão habitacional em Luanda — que concentra a maior fatia da população — é uma das mais críticas de África.
  • Educação e analfabetismo: o Censo 2024 inclui dados sobre a população com 15 ou mais anos que sabe ler e escrever, e sobre crianças entre os 5-18 anos fora do sistema de ensino — indicadores que confirmam que o défice educacional permanece estrutural, apesar de décadas de investimento declarado.
  • Registo civil: uma parte significativa da população, especialmente nas zonas rurais, não possui registo de nascimento — o que a exclui de programas sociais, serviços de saúde, educação formal e direitos eleitorais.

Estes dados do Censo 2024 estabelecem a linha de base a partir da qual o Sistema JP propõe melhorias mensuráveis. Cada proposta do Sistema JP — transportes, educação, governança comunitária, empresas — tem um impacto directo e quantificável sobre estes indicadores.

2.2 O IVA: Uma Reforma Fiscal Mal Implementada

O Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) entrou em vigor em Angola a 1 de Outubro de 2019, substituindo o antigo Imposto de Consumo. Era, em teoria, uma reforma necessária e modernizante: um imposto mais neutro, mais justo e alinhado com as práticas da SADC. Na prática, a sua implementação revelou falhas estruturais graves que penalizaram desproporcionalmente as pequenas empresas e os consumidores de menor rendimento.

Os problemas foram múltiplos e documentados: a máquina fiscal angolana não estava preparada para administrar um imposto desta complexidade; a maioria das empresas angolanas não tinha contabilidade organizada; a população não tinha o hábito de exigir factura; e os mecanismos de reembolso do crédito de IVA para os exportadores nunca funcionaram de forma eficiente. Estudos académicos confirmam que o IVA, tal como implementado, reduziu o rendimento disponível das famílias e contribuiu para o aumento da pobreza — exactamente o oposto do pretendido.

O Sistema JP propõe uma revisão do modelo de IVA angolano com três ajustamentos estruturais:

  • Limiar de isenção elevado para micro e pequenas empresas com volume de negócios abaixo de um montante a definir — retirando da obrigação fiscal formal empresas que não têm capacidade administrativa para cumprir;
  • Taxa reduzida de IVA (ou isenção total) para bens e serviços da cesta básica, educação, saúde e transportes públicos — protegendo o poder de compra das famílias de menor rendimento;
  • Sistema de reembolso automático e digital do crédito de IVA para empresas exportadoras e para o sector produtivo — eliminando o principal obstáculo à competitividade das empresas formais angolanas.

2.3 A Gasolina e o Custo de Vida: Uma Ferida Aberta

Nenhum tema gerou mais tensão social em Angola nos últimos três anos do que a retirada dos subsídios aos combustíveis. Em Junho de 2023, o Governo aumentou o preço da gasolina de 160 para 300 kwanzas por litro — um aumento de 87% num único momento. Em Abril de 2024, novo aumento do gasóleo de 300 para 400 kwanzas por litro. Desde o início do processo de remoção de subsídios, em 2023, o preço do gasóleo aumentou quase 200%, passando de 135 para 400 kwanzas por litro.

O impacto foi imediato e em cascata: a retirada dos subsídios provocou a subida generalizada dos preços de bens e serviços, tornou muito mais cara a vida do angolano médio, e desencadeou protestos de taxistas em Julho de 2025 com a paralisação de três dias em Luanda. Organizações da sociedade civil — OMUNGA, Friends of Angola, FORDU e ALDA — alertaram publicamente para o impacto desproporcional sobre os grupos mais vulneráveis, sobretudo os que dependem da economia informal e dos transportes públicos.

A lógica macroeconómica da retirada de subsídios é correcta: os subsídios aos combustíveis representavam ~3,7% do PIB em 2023, um valor insustentável. O problema não é a reforma em si — é a ausência de medidas compensatórias eficazes. O Sistema JP propõe que qualquer poupança fiscal gerada pela retirada de subsídios seja integralmente reafectada a três áreas: transporte público gratuito ou subsidiado para as famílias de baixo rendimento, subsídio directo à cesta básica, e expansão da rede eléctrica para reduzir a dependência de geradores privados a combustível.

2.4 Propinas e Educação: Pagar Mais para Receber Menos

A situação do ensino superior angolano é uma das mais eloquentes ilustrações da falência do modelo actual. Nos últimos três anos lectivos consecutivos, as universidades privadas aumentaram as propinas de acordo com a taxa de inflação homóloga de Maio — um mecanismo criado pelo Governo que, na prática, autoriza aumentos automáticos e anuais:

  • Ano lectivo 2023-2024: aumento máximo de 10,62%
  • Ano lectivo 2024-2025: aumento máximo de 30,16% — um choque sem precedentes para as famílias
  • Ano lectivo 2025-2026: aumento máximo de 20,74% — o terceiro aumento consecutivo

O resultado acumulado é devastador: em três anos, as propinas universitárias praticamente duplicaram em termos reais. A Universidade Metodista, por exemplo, passou de 30.000 para 79.446 kwanzas mensais em determinados cursos. Um estudante angolano médio, filho de uma família de classe média baixa, simplesmente não consegue acompanhar esta trajectória.

O que torna esta situação ainda mais revoltante — e esta é a voz dos próprios estudantes angolanos, documentada pela imprensa nacional — é que os aumentos de propinas não foram acompanhados por qualquer melhoria visível na qualidade do ensino, nas infraestruturas, nos salários dos professores ou nos recursos pedagógicos. Paga-se mais para receber o mesmo — ou menos.

O Sistema JP propõe, como resposta directa a esta situação:

  • Congelamento dos aumentos de propinas nas universidades públicas por um período mínimo de 3 anos, com financiamento estatal compensatório;
  • Criação de um Fundo Nacional de Bolsas de Mérito, financiado pelo Fundo Soberano, que cubra integralmente as propinas dos estudantes com mérito académico comprovado e rendimento familiar abaixo de um limiar definido;
  • Auditoria independente anual às universidades públicas, com publicação dos resultados, garantindo que o financiamento estatal se traduz em melhoria efectiva da qualidade do ensino;
  • Indexação dos aumentos de propinas à melhoria mensurável de indicadores de qualidade — número de docentes qualificados, infraestruturas, taxa de empregabilidade dos diplomados — e não à inflação geral.

2.5 O Impacto Estimado do Sistema JP sobre a Qualidade de Vida

Com base nos dados do Censo 2024, nas tendências documentadas e nas experiências comparadas de países que implementaram reformas semelhantes, o Sistema JP estima os seguintes impactos sobre a qualidade de vida da população angolana num horizonte de 10 anos:

  • Acesso à electricidade: de ~48,5% para 75-80% da população, através do investimento em energias renováveis e expansão da rede — reduzindo a dependência de geradores a combustível e o custo energético das famílias em ~40%;
  • Acesso a água potável: de 37% para 60-65% dos agregados familiares com acesso a água canalizada, através do programa de infraestrutura hídrica municipal integrado nos conselhos do Sistema JP;
  • Custo dos transportes urbanos em Luanda: redução estimada de 35-50% do gasto mensal das famílias em transporte, através do Sistema MUTAL com tarifas sociais diferenciadas;
  • Acesso ao ensino superior: aumento de 20-30% no número de estudantes de famílias de baixo rendimento no ensino superior, através do Fundo Nacional de Bolsas de Mérito;
  • Formalização da economia: aumento de 8-12 pontos percentuais na taxa de formalização empresarial (actualmente ~21%), através da simplificação fiscal e dos incentivos às PME — gerando mais receita fiscal sem aumentar a pressão tributária sobre os mais pobres;
  • Redução do coeficiente de Gini: de 0,59 para uma trajectória de 0,45-0,50 no horizonte de 10 anos, através da combinação de redistribuição activa, investimento em capital humano e diversificação económica — colocando Angola na trajectória do Botswana, que reduziu o seu Gini de forma consistente após a implementação de políticas semelhantes.

Estes números não são promessas políticas. São projecções baseadas em evidência empírica de países que percorreram trajectórias semelhantes, aplicadas à dimensão e ao contexto específico de Angola. A sua realização depende de uma condição essencial: vontade política sustentada e instituições capazes de implementar e monitorizar as reformas.

3. A Economia de Mercado: O Que É e Por Que Não Basta

A economia de mercado é um sistema económico descentralizado, predominante no capitalismo, onde as decisões de produção, investimento e consumo são guiadas pela lei da oferta e da procura. Nela, a iniciativa privada domina e os preços dos bens e serviços flutuam conforme a demanda, com mínima intervenção do Estado.

Este modelo gerou riqueza sem precedentes nas economias ocidentais. No entanto, a sua aplicação acrítica em contextos como Angola — onde as instituições são frágeis, a desigualdade é estrutural e a história colonial moldou assimetrias profundas — produz resultados insatisfatórios.

A pergunta relevante não é se Angola deve adoptar a economia de mercado, mas sim: que forma de economia de mercado? Pura e desregulada, como nos modelos Anglo-Saxónicos? Ou coordenada e com forte presença estatal, como na China, Singapura ou mesmo na Noruega?

3.1 A Potência Capitalista com Controlo Estatal

A experiência da China oferece uma das respostas mais pertinentes para o dilema angolano. A China é simultaneamente uma das maiores economias de mercado do mundo e um Estado com controlo político centralizado sobre os sectores estratégicos. Este modelo — frequentemente designado de “capitalismo de Estado” ou “economia socialista de mercado” — demonstrou uma capacidade extraordinária de:

  • Reduzir a pobreza extrema de 88% para menos de 1% da população em quatro décadas;
  • Investir massivamente em infraestrutura e capital humano sem perder o controlo macroeconómico;
  • Diversificar a economia de forma planificada, passando de exportações agrícolas para indústria e, hoje, para tecnologia de ponta;
  • Manter a estabilidade política durante um período de transformação económica acelerada.

Para Angola, a lição não é copiar o modelo chinês na íntegra, mas adaptar os seus princípios fundamentais ao contexto angolano: forte controlo estatal sobre os recursos naturais e os sectores estratégicos, com abertura progressiva e regulada ao investimento privado nacional e internacional.

3.2 Uma Forma Avançada de Planeamento Socialista?

Existe uma distinção crucial entre “planeamento socialista” e “controlo estatal estratégico”. O primeiro implica a eliminação da iniciativa privada e a estatização geral da economia. O segundo — que é o que este artigo propõe — implica que o Estado mantém o controlo sobre os sectores estruturantes (energia, mineração, infraestrutura, educação, saúde), enquanto estimula o empreendedorismo privado nos sectores de diversificação.

Angola já possui os instrumentos legais e institucionais para este modelo. O que falta é a disciplina de implementação e a vontade política de substituir o rentismo petrolífero por uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo.

4. Democracia em África: Um Projecto Falhado ou Não Africanizado?

Uma das questões mais provocatórias levantadas nas notas de investigação é: será a democracia um projecto falhado quando replicado na realidade africana? A pergunta merece uma resposta honesta e desconfortável: sim, em muitos casos — não porque a democracia seja um mau sistema, mas porque foi transplantada sem adaptação.

A democracia ocidental assenta em pressupostos históricos, culturais e institucionais específicos: separação de poderes com séculos de sedimentação, uma classe média consolidada, sistemas de partidos enraizados, e literacia política generalizada. Nenhum destes pressupostos existe, na sua plenitude, na maioria dos Estados africanos pós-coloniais.

4.1 As Eleições Não São a Democracia

Seria a democracia, em África, uma forma para obtenção de ajuda financeira externa? Seriam as “eleições” a única característica democrática em África? Estas perguntas são perturbadoras precisamente porque tocam numa verdade que muitos académicos evitam nomear: em muitos países africanos, as eleições tornaram-se um ritual de legitimação externa, mais do que um mecanismo genuíno de escolha popular.

A questão da literacia eleitoral é igualmente relevante. Para maior credibilidade e escolhas justas, seria viável a proibição de analfabetos nas escolhas eleitorais? Esta é uma questão controversa, mas que merece ser debatida sem tabu. Países como o Brasil já aboliram o voto obrigatório para analfabetos. A prioridade deveria ser, em alternativa, a erradicação do analfabetismo — tornando a questão irrelevante a médio prazo.

4.2 Africanizar a Democracia, não Democratizar África

A distinção proposta nas notas de investigação é de uma lucidez rara: “africanizar a democracia” em vez de “democratizar África”. Não se trata de rejeitar os valores democráticos — participação, accountability, liberdade de expressão, Estado de direito — mas de os enraizar em instituições e tradições africanas preexistentes.

Países como Cabo Verde, Botswana, Senegal, Namíbia e África do Sul demonstraram que é possível construir democracias funcionais em África, desde que assentes em instituições próprias e não em transplantes institucionais de cópia.

O sistema angolano beneficiaria de uma revisão profunda do seu modelo democrático, incorporando mecanismos de participação comunitária directa, conselhos consultivos de anciãos e líderes tradicionais, e sistemas de resolução de conflitos baseados no consenso — todos presentes nas tradições políticas angolanas.

5. O Sistema Kgotla: Modelo de Governança para Angola

O sistema Kgotla é, no Botswana, uma instituição tradicional de democracia directa e assembleia comunitária, com raízes pré-coloniais. Nele, cidadãos discutem assuntos públicos, resolvem disputas e tomam decisões por consenso sob a liderança de um Kgosi (Chefe). O Kgotla garante a liberdade de expressão, a estabilidade e a participação directa da população na governança local, funcionando também como um tribunal tradicional.

O Botswana é frequentemente citado como uma das histórias de sucesso de desenvolvimento em África — e o sistema Kgotla é parte central desta explicação. Não por ser um sistema perfeito, mas por ser um sistema enraizado, legítimo e eficaz na resolução de conflitos locais, na fiscalização do poder e na garantia de coesão social.

5.1 Como Inovar o Sistema Kgotla para Angola?

Angola não é o Botswana. As suas tradições políticas e culturais são diferentes — mais diversas, mais fragmentadas, marcadas por décadas de guerra civil e por uma maior heterogeneidade étnica e regional. Portanto, a proposta não é importar o Kgotla tal como existe no Botswana, mas criar um sistema análogo — designado neste artigo de Sistema JP — adaptado à realidade angolana.

O Sistema JP proposto integra as seguintes dimensões:

5.1.1 Diversificação Económica Comunitária

Os conselhos comunitários do Sistema JP teriam competência para identificar e propor projectos de diversificação económica local, articulando recursos naturais, capacidades humanas e investimento público. Cada conselho teria um plano de desenvolvimento quinquenal alinhado com o plano nacional, mas com autonomia para adaptar as prioridades às realidades locais.

5.1.2 Transparência Institucional

Uma das maiores falhas da governança angolana é a opacidade na gestão dos recursos públicos. O Sistema JP propõe que cada conselho comunitário publique semestralmente um relatório de gestão acessível à população local, com mecanismos de fiscalização cidadã directa. A transparência não seria imposta de cima para baixo, mas emergente da pressão comunitária organizada.

5.1.3 Separação do Poder Político nas Decisões Judiciais

Uma das questões mais sensíveis nas notas de investigação é a interferência do poder político nas decisões judiciais. O Sistema JP propõe conselhos de arbitragem comunitária, compostos por líderes tradicionais e representantes eleitos, com jurisdição sobre disputas de pequena e média escala. Estes conselhos reduziriam a pressão sobre o sistema judicial formal e criariam um buffer entre o poder político e a resolução de conflitos quotidianos.

5.1.4 Educação Baseada em Modelos de Excelência

A dimensão educacional do Sistema JP inspira-se nos modelos finlandês (equidade e qualidade docente), dos Emirados Árabes Unidos (tecnologia e currículo orientado para o futuro) e sul-coreano (disciplina e articulação escola-mercado de trabalho). O objectivo não é replicar nenhum destes modelos, mas identificar os princípios universais que os tornam eficazes e traduzi-los para o contexto angolano.

Em concreto, o Sistema JP propõe:

  • Uma escola técnica e vocacional em cada município, com currículo adaptado às necessidades locais;
  • Formação de professores como prioridade nacional, com remuneração e condições de trabalho comparáveis aos melhores sectores da economia;
  • Integração de literacia digital desde o primeiro ciclo;
  • Bolsas de excelência para estudantes angolanos em universidades internacionais de referência, com compromisso de retorno e contribuição ao país.

6. Capitalismo e Socialismo: Angola no Sistema Económico da China e da Luba

As notas de investigação identificam um diagrama conceptual relevante: Portugal, EUA e China são associados ao capitalismo; Luba ao socialismo. Esta categorização, embora simplificada, captura uma tensão real no pensamento político angolano: entre o modelo de acumulação capitalista ocidental e as tradições de redistribuição colectiva das culturas bantu.

O capitalismo baseia-se na propriedade privada, no livre mercado e na busca pelo lucro, ancorada na liberdade individual. O socialismo prioriza o controlo estatal ou colectivo dos meios de produção para gerar igualdade económica. O capitalismo gera maior riqueza e inovação; enquanto o socialismo busca reduzir desigualdades sociais.

O Sistema JP não escolhe entre estes dois polos. Propõe, em vez disso, uma síntese pragmática:

  • Propriedade privada nos sectores de diversificação económica (agricultura, turismo, tecnologia, manufactura leve);
  • Controlo público nos sectores estruturantes (energia, mineração, infraestrutura, saúde, educação);
  • Redistribuição activa através de um Fundo Soberano alimentado pelas receitas petrolíferas;
  • Incentivos fiscais para empresas que invistam em regiões e sectores prioritários;
  • Cooperativas comunitárias nas zonas rurais, inspiradas nas tradições de solidariedade bantu.

Este modelo híbrido não é uma novidade teórica. É, de facto, o modelo que a maioria das economias de sucesso adoptou — incluindo a Noruega, Singapura, Coreia do Sul e, à sua maneira, a própria China.

7. O Sistema JP: Síntese e Proposta

O Sistema JP — acrónimo de “Sistema de Justiça Participativa” — é a designação proposta para o modelo híbrido de desenvolvimento angolano que integra os três pilares descritos neste artigo. A sua arquitectura pode ser resumida da seguinte forma:

7.1 Pilar Político: Democracia Africanizada

  • Eleições competitivas com supervisão internacional, mas com mecanismos de participação comunitária directa inspirados no Kgotla;
  • Conselhos de anciãos e líderes tradicionais integrados no sistema de governança formal;
  • Descentralização efectiva do poder para o nível municipal;
  • Independência judicial garantida por mecanismos institucionais, não apenas constitucionais.

7.2 Pilar Económico: Mercado com Controlo Estratégico

  • Fundo Soberano de Angola — capitalizado pelas receitas petrolíferas, investido em educação, infraestrutura e diversificação;
  • Política industrial activa nos sectores de agricultura, tecnologia, turismo e manufatura;
  • Abertura ao investimento estrangeiro com regras claras de transferência de tecnologia e emprego local;
  • Sistema tributário progressivo e simplificado, com incentivos à formalização da economia.

7.3 Pilar Social: Kgotla Angolano

  • Conselhos comunitários em todos os municípios, com poderes consultivos e de fiscalização;
  • Sistema de arbitragem comunitária para resolução de conflitos locais;
  • Relatórios de transparência semestral publicados por cada conselho;
  • Integração dos sistemas de educação e saúde no mandato dos conselhos.

7.4 Pilar Educacional: Sistema de Excelência Adaptado

  • Reforma curricular baseada nos modelos finlandês, sul-coreano e dos EAU;
  • Prioridade à formação técnica e vocacional alinhada com as necessidades do mercado;
  • Literacia digital universal, do primeiro ciclo ao ensino superior;
  • Programa nacional de formação de professores com remuneração competitiva.

8. O Papel das Empresas na Implementação do Sistema JP

Um modelo de desenvolvimento não se concretiza apenas por via estatal. A teoria da empresa — tal como desenvolvida na literatura de Economia Aziendale — ensina que as organizações privadas são agentes económicos fundamentais na criação de valor, no emprego e na inovação. No Sistema JP, as empresas não são adversários do Estado nem meros instrumentos de lucro: são parceiros estratégicos na construção de um tecido económico diversificado e resiliente.

8.1 A Empresa como Agente de Desenvolvimento

A Economia Aziendale — disciplina que estuda a gestão das organizações na sua totalidade, incluindo as dimensões económica, social e institucional — oferece um quadro conceptual valioso para pensar o papel das empresas em Angola. Segundo esta perspectiva, a empresa não existe apenas para gerar lucro: existe para criar valor para todos os seus stakeholders — trabalhadores, clientes, comunidades locais e o próprio Estado.

No contexto angolano, este princípio tem implicações directas. As empresas que operem em Angola — nacionais ou estrangeiras — devem ser enquadradas por um sistema de incentivos e obrigações que alinhe os seus objectivos privados com as prioridades do desenvolvimento nacional. O Sistema JP propõe:

  • Contratos de responsabilidade social obrigatórios para grandes empresas que operem nos sectores extractivos, com metas mensuráveis de emprego local, formação profissional e investimento comunitário;
  • Regimes fiscais diferenciados: empresas que reinvistam lucros em Angola, que contratem mão-de-obra local qualificada ou que operem em regiões prioritárias beneficiam de reduções fiscais progressivas;
  • Parcerias público-privadas estruturadas para infraestrutura, saúde e educação — com mecanismos de transparência e auditoria independente;
  • Criação de um Fundo de Capitalização de PME angolanas, alimentado por uma percentagem das receitas das grandes empresas concessionárias, para fomentar o empreendedorismo nacional;
  • Transferência obrigatória de conhecimento e tecnologia nas parcerias com empresas estrangeiras, garantindo que Angola desenvolva capacidade técnica própria e não permaneça dependente de expertise externa.

8.2 Governança Empresarial e Transparência

A boa governança empresarial é inseparável da boa governança pública. O Sistema JP propõe a adopção progressiva dos princípios de Corporate Governance definidos pela OCDE — adaptados ao contexto angolano — como condição de acesso a contratos públicos e financiamento estatal. Isto inclui a publicação obrigatória de relatórios anuais de sustentabilidade, a separação clara entre gestão e propriedade nas empresas públicas, e a criação de conselhos de administração com membros independentes nas empresas estratégicas do Estado.

9. Mobilidade Urbana: O Modelo ATP Adaptado para Angola

Uma das dimensões mais visíveis e imediatas da qualidade de vida urbana é a mobilidade. Luanda é hoje uma das cidades com maior congestionamento de tráfego de África — um problema que tem custos económicos directos estimados em centenas de milhões de dólares por ano em produtividade perdida, combustível desperdiçado e poluição atmosférica. O Sistema JP propõe uma reforma estrutural da mobilidade urbana angolana, inspirada em modelos europeus comprovados e adaptada à escala e às necessidades de Angola.

9.1 O Modelo de Referência: ATP de Sassari

A cidade de Sassari, na Sardenha italiana, com cerca de 120.000 habitantes, opera um sistema de transportes públicos urbanos — o ATP (Azienda Trasporti Pubblici) — que serve como caso de estudo relevante para Angola. Não pela sua escala — que é muito inferior à de Luanda — mas pelos seus princípios de organização: rede de autocarros com paragens fixas e obrigatórias, horários publicados e cumpridos, tarifas diferenciadas por perfil socioeconómico, e integração com outros meios de transporte.

O que torna o modelo ATP particularmente relevante é o seu sistema de tarifas sociais: estudantes, idosos, desempregados e pessoas com baixos rendimentos acedem ao transporte público com descontos significativos mediante apresentação de documentação comprovativa. Este mecanismo garante que a mobilidade — um direito fundamental — não seja um privilégio exclusivo de quem pode pagar o preço integral.

9.2 Proposta para Angola: Sistema MUTAL — Mobilidade Urbana Total de Angola

O Sistema JP propõe a criação do MUTAL — Mobilidade Urbana Total de Angola — um sistema integrado de transportes públicos urbanos, começando por Luanda e expandindo progressivamente para as restantes capitais provinciais. Os seus princípios estruturantes são:

  • Substituição progressiva dos táxis azuis e brancos informais por uma frota organizada de autocarros com paragens fixas, mapas de rede publicados e aplicação móvel de acompanhamento em tempo real;
  • Tarifas diferenciadas: preço integral para a população em geral; desconto de 50% para estudantes mediante apresentação de cartão de estudante válido; desconto de 75% para idosos acima dos 65 anos e para pessoas com deficiência; gratuidade para famílias com comprovativo de rendimento abaixo da linha de pobreza;
  • Paragens organizadas e obrigatórias em pontos estratégicos — mercados, hospitais, universidades, zonas industriais e bairros periféricos — eliminando as paragens informais que contribuem para o caos do trânsito luandense;
  • Frota inicial de autocarros articulados de baixa emissão, com transição progressiva para veículos eléctricos à medida que a rede eléctrica nacional se consolida;
  • Criação de corredores exclusivos para autocarros nas principais artérias de Luanda, reduzindo o tempo de percurso e tornando o transporte público competitivo face ao automóvel privado;
  • Gestão mista público-privada, com concessões reguladas pelo Estado e auditoria de desempenho trimestral com resultados publicados.

9.3 Impacto Esperado

A implementação do MUTAL teria impactos mensuráveis em múltiplas dimensões: redução do congestionamento em Luanda, estimada em 30-40% nas artérias principais; diminuição das emissões de CO₂ urbanas; redução do custo de mobilidade para as famílias de menor rendimento; e criação de emprego directo na operação e manutenção da frota. Mais importante: enviaria um sinal claro de que o Estado angolano é capaz de planear, implementar e gerir serviços públicos de qualidade — reconstruindo a confiança dos cidadãos nas instituições.

10. Universidades Públicas, Excelência e Integração Europeia: Angola no Erasmus

O sistema universitário público angolano enfrenta desafios estruturais profundos: financiamento insuficiente, infraestruturas degradadas, corpo docente subqualificado e remunerado aquém das suas responsabilidades, e uma cultura institucional que privilegia a conformidade sobre a excelência. O Sistema JP propõe uma reforma abrangente das universidades públicas angolanas, assente em três eixos: acessibilidade, transparência e internacionalização.

10.1 Acessibilidade e Bolsas de Mérito

O acesso ao ensino superior em Angola é ainda fortemente condicionado pelo rendimento familiar e pela localização geográfica. O Sistema JP propõe um sistema nacional de bolsas de mérito — financiado pelo Fundo Soberano e por uma contribuição percentual das empresas concessionárias — que garanta que nenhum estudante angolano com capacidade académica comprovada seja impedido de aceder à universidade por razões económicas.

Estas bolsas seriam atribuídas com base em critérios transparentes e verificáveis — resultados académicos, situação socioeconómica familiar, proveniência de regiões subrepresentadas no ensino superior — e geridas por uma agência independente com publicação anual dos critérios e resultados. O objectivo é duplo: garantir equidade no acesso e criar incentivos à excelência académica desde o ensino secundário.

Paralelamente, Angola deveria criar bolsas específicas para a atracção de estudantes internacionais — de outros países africanos, do Brasil e da diáspora lusófona — oferecendo condições competitivas de alojamento, apoio académico e integração cultural. Uma universidade que atraia estudantes de fora das suas fronteiras é uma universidade que projecta soft power e constrói redes de influência duradouras.

10.2 Transparência Institucional nas Universidades

A reforma da governança universitária é inseparável da reforma do sistema educacional como um todo. O Sistema JP propõe a implementação de mecanismos de transparência institucional nas universidades públicas angolanas: publicação anual de relatórios de gestão financeira, rankings internos de desempenho académico por departamento, avaliação docente pelos estudantes com resultados públicos, e conselhos gerais com representação estudantil, docente e da sociedade civil.

A transparência não é um fim em si mesmo — é o mecanismo que cria pressão para a melhoria contínua e que reconstrói a confiança da sociedade nas instituições académicas públicas.

10.3 Angola no Programa Erasmus: Uma Proposta Concreta

O Programa Erasmus+ da União Europeia é o maior programa de mobilidade académica do mundo, financiando anualmente dezenas de milhares de estudantes, docentes e investigadores em intercâmbios entre instituições parceiras. Actualmente, Angola não está integrada neste programa de forma sistemática — uma lacuna que o Sistema JP propõe corrigir.

A integração de Angola no Erasmus+ — como país parceiro, ao abrigo da dimensão internacional do programa — permitiria:

  • Receber estudantes europeus em universidades angolanas para semestres de intercâmbio, experiências de investigação e estágios profissionais — posicionando Angola como destino académico de referência em África;
  • Enviar estudantes e docentes angolanos para universidades europeias com financiamento europeu, sem custos adicionais para o Estado angolano;
  • Aceder a financiamento europeu para projectos de modernização curricular, formação de docentes e desenvolvimento de infraestruturas académicas;
  • Criar redes de investigação conjunta entre universidades angolanas e europeias, com publicação de resultados em revistas internacionais indexadas;
  • Tornar Angola o primeiro país da África Austral com integração sistemática no Erasmus+, ganhando uma vantagem competitiva significativa na atracção de talento e investimento académico internacional.

A negociação desta integração deveria ser uma prioridade diplomática do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério do Ensino Superior de Angola, em articulação com a Delegação da União Europeia em Luanda. O momento é propício: a UE tem manifestado interesse crescente em aprofundar as suas parcerias com África, e Angola — com a sua estabilidade relativa, dimensão económica e posição geopolítica — é um parceiro natural para este aprofundamento.

 11. Conclusão

Angola pode, sim, combinar um forte controlo político de longo prazo com o desenvolvimento sustentável — distanciando-se das definições ocidentais de democracia ou capitalismo. Não como uma potência capitalista pura, nem como uma forma de planeamento socialista ortodoxo, mas como uma síntese original: uma economia de mercado com controlo estatal estratégico, uma democracia enraizada nas tradições africanas de participação e consenso, e um sistema educacional de excelência adaptado às necessidades e ao potencial de Angola.

As novas secções deste artigo — o papel das empresas, a reforma da mobilidade urbana através do modelo MUTAL inspirado no ATP de Sassari, e a integração de Angola no programa Erasmus+ — demonstram que o Sistema JP não é uma visão abstracta. É um conjunto de propostas concretas, testadas noutros contextos e adaptáveis à realidade angolana, que cobrem desde a macro-política económica até à organização dos transportes públicos de Luanda.

O Sistema JP não é uma utopia. É uma síntese informada pelas melhores práticas do Botswana, da China, da Finlândia, da Coreia do Sul, da Noruega e da Europa — traduzida para a realidade histórica, cultural e política de Angola. A questão não é se Angola pode fazer isso. A questão é se tem a coragem política e a visão estratégica para o tentar.

O projecto Esperança & Gael: Horizon responde afirmativamente. E este artigo é um passo nessa direcção.


Referências Bibliográficas

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Zappa, G. (1950). Il reddito di impresa. Milano: Giuffrè. [Fundamentos da Economia Aziendale]

Sobre o Autor

Joel De Jesus Mendes Pascoal é estudante de Economia e Management na Università degli Studi di Sassari (Itália) e investigador independente nas áreas de desenvolvimento económico africano, políticas públicas e governança. É o autor do projecto Esperança & Gael: Horizon, uma proposta de política económica estrutural para Angola fundamentada na teoria de Kuznets e nas melhores práticas de desenvolvimento comparado. O seu trabalho centra-se na construção de modelos de desenvolvimento genuinamente africanos, com particular enfoque em Angola.

Contacto: j.pascoal@studenti.uniss.it

© 2026 Joel De Jesus Mendes Pascoal. Todos os direitos reservados.

CEDESA e AEARI reforçam cooperação estratégica para o desenvolvimento de África

No passado dia 3 de março de 2026, em Luanda, o CEDESA e a Associação dos Especialistas Angolanos em Relações Internacionais (AEARI) oficializaram um Acordo de Parceria e Cooperação Científica. Esta aliança estratégica estabelece as bases para uma colaboração profunda em áreas críticas como a geopolítica africana, a integração regional e a diplomacia económica.

O protocolo, prevê a criação de um Observatório Permanente de Geopolítica Africana e a produção conjunta de policy papers e relatórios técnicos. Com esta parceria, o CEDESA reafirma a sua missão de produzir conhecimento aplicado que sirva de suporte à formulação de políticas públicas e ao desenvolvimento sustentável do continente.

Angola e Brasil: o eixo Sul-Atlântico como pilar da inserção internacional de Luanda

Miguel Almeida Dias: Secretário-Geral do CEDESA | Mestre em Economia Política Internacional

1. Introdução: uma parceria estratégica em reconfiguração

A relação entre Angola e o Brasil ultrapassa a mera fraternidade lusófona e a partilha de raízes históricas comuns. Ela está associada, cada vez mais, a uma lógica de parceria estratégica de geometria variável, capaz de responder simultaneamente às ambições de política externa de Luanda e ao renovado activismo internacional de Brasília. O período actual marca um momento de particular intensidade nessa relação, com Angola a afirmar-se como o mais relevante parceiro africano do Brasil e a utilizar essa posição para consolidar a sua projeção no Sul Global.¹

Esta análise concisa procura sistematizar os quatro pilares que estruturam a presente fase da parceria bilateral: a diplomacia de alto nível e a inserção de Angola nas plataformas multilaterais sob influência brasileira; a cooperação em matéria de segurança e a gestão partilhada do espaço atlântico; o financiamento e a cooperação económica liderados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social (BNDES); e, finalmente, a transição energética e o desenvolvimento agroindustrial como vectores de futuro.

2. Diplomacia de alto nível e a aposta multilateral

O convite formulado pela presidência brasileira do G20 para que Angola participasse, na qualidade de convidado, na Cúpula de Líderes realizada no Rio de Janeiro em Novembro de 2024 representa muito mais do que um gesto protocolar. Trata-se de um reconhecimento explícito do papel de Luanda como interlocutor privilegiado de Brasília na África Subsariana, e de uma opção estratégica de Angola em se posicionar junto das economias que efectivamente moldam a governança económica global.² Ao longo dos governos Lula, os dois Estados aprofundaram consecutivamente a sua cooperação, desde a agricultura e a energia até à educação e à segurança alimentar, num processo que encontrou na presidência brasileira do G20 o seu momento de maior visibilidade diplomática.

No ano seguinte, a visita de Estado do Presidente João Lourenço a Brasília, em Maio de 2025, assinalando os cinquenta anos do estabelecimento de relações diplomáticas e os cinquenta anos da independência angolana, revelou a profundidade e a maturidade desta parceria. O Brasil foi o primeiro país a reconhecer a independência de Angola, e as relações bilaterais foram formalmente elevadas ao estatuto de Parceria Estratégica em 2010 — mecanismo que, no continente africano, o Brasil mantém exclusivamente com Angola, a África do Sul e o Egipto.³ Por ocasião dessa visita, foram assinados quatro instrumentos de cooperação: um Memorando de Entendimento entre o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil e o Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher de Angola; um Memorando de Entendimento entre a Petrobras e a Sonangol em Matéria de Pesquisa e Desenvolvimento e Projectos de Interesse no Upstream; um Memorando de Entendimento entre a Polícia Federal brasileira e a Polícia Nacional de Angola para o combate ao crime organizado transnacional; e o Projecto de Fortalecimento das Instituições Angolanas de Pesquisa Agropecuária e Florestal para o Desenvolvimento Sustentável de Regiões Semiáridas, coordenado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).⁴

A agenda ambiental também esteve presente, com a partilha de preocupações relativas à preservação da Amazónia e da bacia do Congo — as duas maiores florestas tropicais do planeta — e à valorização dos respectivos serviços ecossistémicos. A possibilidade de Angola vir a integrar os BRICS foi um assunto que ganhou projeção aquando da cimeira do bloco que decorreu no Rio de Janeiro. Esta organização pode constituir um outro factor de afirmação multilateral de Luanda.⁵ A eventual adesão consolidaria uma trajectória que aponta para uma inserção de Angola nos principais fóruns do Sul Global, reconfigurando a sua posição face às potências ocidentais num contexto em que, como já foi aqui sublinhado, «a redefinição do sistema internacional em curso levará Angola a uma necessidade de reforço da sua unidade interna e possivelmente ao incremento (e revisão) da sua doutrina de segurança nacional».⁶

3. O Atlântico Sul como espaço estratégico partilhado

A dimensão securitária da relação entre os dois Estados encontra a sua expressão institucional mais acabada no quadro da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), fórum multilateral criado em 1986 sob iniciativa brasileira. A IX Reunião Ministerial da ZOPACAS, prevista para 2026 no Brasil, celebrará os quarenta anos da organização num contexto de crescente relevância estratégica do Atlântico Sul e após um longo período de revitalização liderado pelo Brasil desde 2019.⁷

O interesse renovado por este espaço resulta de uma convergência de factores: a intensificação da pirataria e das actividades ilícitas no Golfo da Guiné; a presença crescente de potências externas — China, Rússia, mas também os Estados Unidos — na costa ocidental africana, incluindo a criação do US AFRICOM em 2007 e a reactivação da IV Frota norte-americana em 2008; e a percepção, partilhada por Luanda e Brasília, de que a governança do espaço marítimo sul-atlântico não pode ficar dependente de agendas externas.⁸ Como realça o Ministério da Defesa brasileiro, a ZOPACAS visa promover a cooperação regional e a diminuição da presença militar extrarregional, num contexto em que o Atlântico Sul se consolidou como área estratégica devido às descobertas petrolíferas offshore em ambas as margens oceânicas e à relevância das rotas comerciais.⁹

A participação de Angola neste fórum tem sido historicamente relevante: Luanda acolheu a VI Reunião Ministerial da ZOPACAS em 2007, num momento crucial de revitalização após quase uma década de inactividade (1998–2007). Nessa cimeira angolana, foram aprovados novos objectivos para o fórum, incluindo o combate à fome e à pobreza, a reforma do Conselho de Segurança da ONU e a discussão de um regime comercial global mais justo.¹⁰ Mais recentemente, Angola participou activamente no 2.º Simpósio Marítimo da ZOPACAS, realizado em Outubro de 2023 no Rio de Janeiro, reafirmando o seu compromisso com a segurança marítima regional.¹¹

No plano bilateral, Brasil e Angola assinaram, em 2010, um Acordo de Cooperação no Domínio da Defesa que prevê formação militar, fornecimento de equipamentos e cooperação técnica.¹² Este acordo, aprovado pelo Senado Federal brasileiro em 2022, enquadra-se num conjunto mais vasto de acordos-quadro de cooperação em defesa que o Brasil estabeleceu com Estados-membros da ZOPACAS, incluindo África do Sul (2003), Guiné-Bissau (2006), Namíbia (2009), Guiné Equatorial, Nigéria, São Tomé e Príncipe, Senegal e Uruguai (2010), e Cabo Verde (2016).¹³ A cooperação Brasil-Angola no domínio marítimo tem incluído, igualmente, projectos de colaboração entre a Marinha do Brasil e o governo angolano para o mapeamento e exploração do fundo marinho e o levantamento das plataformas continentais, actividade que se insere numa estratégia mais vasta de valorização dos recursos oceânicos.¹⁴

Presentemente, os acordos de cooperação firmados em Maio de 2025, entre os quais se destaca o memorando de entendimento celebrado entre a Polícia Federal brasileira e a Polícia Nacional de Angola visando o combate ao crime organizado transnacional, evidenciam algum aprofundamento da componente securitária da parceria bilateral.¹⁵

O conceito de «pivot atlântico» que tem emergido nos documentos de reflexão estratégica angolanos aponta para uma compreensão de que a soberania marítima e a capacidade de projeção no Atlântico constituem um activo crescentemente valioso num mundo em que o espaço geográfico volta a ser factor determinante de poder. Para Angola, a cooperação com o Brasil neste domínio — tanto no quadro multilateral da ZOPACAS como nos acordos bilaterais de defesa — representa uma alternativa credível à dependência excessiva das arquitecturas de segurança dominadas pelas potências ocidentais ou pela influência chinesa e russa, permitindo uma inserção estratégica no Atlântico Sul assente em princípios de cooperação sul-sul e respeito pela soberania dos Estados costeiros.

4. O BNDES e a nova arquitectura do financiamento bilateral

Um outro factor importante da reactivação desta parceria reside na possível retoma do financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social (BNDES). Após um período de interrupção associado às consequências da Operação Lava Jato sobre as grandes empreiteiras brasileiras activas em Angola, o regresso do BNDES ao país africano, em Janeiro de 2026, com uma linha orientada para projectos agroindustriais, sinaliza a eventual superação de um ciclo difícil e a disposição de ambos os países em construir um novo modelo de cooperação.¹⁶

Este novo modelo difere do anterior em aspectos significativos. Em vez da concentração em grandes obras de infraestrutura dominadas por empresas como a Odebrecht e a Andrade Gutierrez, o financiamento brasileiro orienta-se agora para a agro-indústria, a segurança alimentar e a diversificação produtiva — áreas que coincidem com as prioridades da Estratégia Angola 2050 e com as vulnerabilidades estruturais da economia angolana.¹⁷ A este nível, importa recordar a excessiva dependência do petróleo como uma das principais fragilidades de Angola. Na verdade, a queda das receitas petrolíferas pressiona fortemente as contas públicas e evidencia «a excessiva dependência do petróleo, apesar das tentativas de diversificação».¹⁸

A cooperação com o Brasil no domínio agroindustrial insere-se, assim, numa agenda mais vasta de diversificação económica que o governo angolano tem como prioridade declarada, mas que enfrenta obstáculos estruturais significativos.

5. Transição energética, agricultura e o horizonte de 2035

A componente de longo prazo da cooperação entre os dois países centra-se na transição energética e no desenvolvimento do potencial agroindustrial. Em Janeiro de 2026, uma missão do Ministério da Agricultura do Brasil, liderada pelo Ministro Carlos Fávaro, visitou Angola com o objectivo de avançar acordos de cooperação agrícola e promover investimentos de produtores brasileiros no país, incluindo a transferência de conhecimento e tecnologia para reforçar a produção agrícola angolana.¹⁹

A proposta brasileira, formalmente apresentada ao governo angolano, prevê investimentos na ordem dos US$ 120 milhões, com concessão de aproximadamente 20 mil hectares em províncias como Cuanza Norte, Uíge e Malanje, com foco em lavouras de grãos e proteína animal.²⁰ Esta cooperação tem antecedentes históricos relevantes: a partir dos anos 2000, Angola beneficiou-se já de programas de transferência de tecnologia agrícola brasileira, incluindo a visita de missões da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) que avaliaram o potencial produtivo das savanas angolanas, regiões edafo-climáticas semelhantes ao cerrado brasileiro cujo desenvolvimento agrícola foi revolucionado pela cooperação nipo-brasileira nas décadas de 1970 e 1980.²¹

A transição energética constitui outro factor central desta parceria. A cooperação Petrobras-Sonangol, consagrada no Memorando de Entendimento assinado em Maio de 2025, abrange não apenas a exploração de hidrocarbonetos mas também o desenvolvimento de projectos de pesquisa e inovação nas áreas de energias renováveis, petróleo e gás, num contexto em que tanto Angola quanto Brasil procuram diversificar as suas matrizes energéticas.²² A Sonangol tem vindo a investir em projectos de energia solar fotovoltaica — como a central da Quilemba, na província da Huíla, com 35 MW de capacidade inicial — enquanto a Petrobras anunciou, no seu Plano Estratégico 2050 e Plano de Negócios 2025-2029, investimentos na ordem de US$ 16,3 mil milhões em transição energética e baixo carbono, abrangendo hidrogénio, biocombustíveis e geração renovável.²³

No plano multilateral, o Brasil lançou, em Outubro de 2025, o Compromisso de Belém 4x, uma iniciativa negociada com a Índia, a Itália e o Japão, com apoio da Agência Internacional de Energia, que estabelece a meta de quadruplicar a produção e o uso de combustíveis sustentáveis até 2035.²⁴ Apesar de não ser signatária inicial, Angola surge como potencial parceiro Sul-Sul na agenda de transição energética que estrutura a cooperação bilateral com o Brasil — num momento em que a economia de baixo carbono continua a ser uma meta estratégica, e não ainda uma realidade consolidada. Para Angola, o alinhamento com a agenda de descarbonização liderada pelo Sul Global — e em particular pelo Brasil, que aspira a uma posição de liderança global em energias renováveis e biocombustíveis — oferece a oportunidade de diversificar parcerias tecnológicas, reduzindo a dependência prolongada dos hidrocarbonetos.

Relativamente à parceria agroindustrial, esta beneficia de um enquadramento mais amplo de cooperação científica e técnica. O Projecto de Fortalecimento das Instituições Angolanas de Pesquisa Agropecuária e Florestal para o Desenvolvimento Sustentável de Regiões Semiáridas, assinado em Maio de 2025 e coordenado pela Embrapa, evidencia a capacitação institucional que distingue esta fase da cooperação bilateral das anteriores. O projecto não se limita à transferência de tecnologia, incluindo também a formação de quadros técnicos angolanos capazes de adaptar soluções agrícolas sustentáveis às realidades locais.²⁵

6. Leituras geopolíticas: Angola no Sul Global

A análise desta parceria não pode deixar de considerar o contexto geopolítico mais amplo em que se insere. O activismo externo de Luanda nos últimos anos — da mediação do conflito entre a RD do Congo e o Ruanda à participação no G20, passando pelo aprofundamento das relações com a União Europeia e com o Corredor do Lobito — revela uma política externa que, sem abandonar o pragmatismo histórico do MPLA, procura diversificar as parcerias e aumentar a autonomia estratégica de Angola.²⁶

Assim, a relação com o Brasil assume uma função específica e insubstituível: permite ao país projectar-se no Sul Global sem a carga ideológica das relações com Moscovo ou Pequim, e sem a assimetria de poder das relações com Washington ou Bruxelas. O Brasil partilha com Angola não apenas a língua e a história, mas também a condição de potência média em ascensão, a vulnerabilidade face à volatilidade dos mercados de commodities, e a aspiração a uma ordem internacional mais multipolar e equitativa.

Como já foi aqui sublinhado, Angola enfrenta um dilema estratégico num mundo em reconfiguração acelerada, em que «o vazio deixado pelos EUA é rapidamente preenchido por potências rivais como a China e a Rússia, que intensificaram os seus investimentos em infraestrutura, segurança e formação militar em África».²⁷ A parceria com o Brasil oferece uma via de inserção internacional que respeita a soberania angolana e a pluralidade das suas opções, sem dependência exclusiva de nenhuma das grandes potências em competição.

7. Conclusão: um eixo Sul-Atlântico com potencial estruturante

Os quatro pilares analisados — diplomacia multilateral, segurança atlântica, financiamento e desenvolvimento económico, transição energética — convergem para uma conclusão: esta parceria tem condições objectivas para se transformar num eixo estruturante da política externa angolana nas próximas décadas.

Para que esse potencial se concretize, serão necessárias condições adicionais. Do lado angolano, a diversificação efectiva da economia, a melhoria do ambiente de negócios e a consolidação do Estado de direito são condições fundamentais para que o financiamento e a cooperação se transformem em desenvolvimento sustentável. Do lado brasileiro, a continuidade das opções de política externa activa para África — que o governo Lula restaurou após o recuo do período Bolsonaro — é condição de credibilidade e de longo prazo.

O eixo Sul-Atlântico entre Angola e o Brasil possui as condições históricas, geopolíticas e económicas para se afirmar como um dos mais relevantes pilares da inserção internacional de Luanda num século XXI crescentemente marcado pela competição entre grandes potências e pela emergência de um Sul Global como actor colectivo de pleno direito.

REFERÊNCIAS

¹ Amilcar Tchinguelessy, «Impulsionando a cooperação Brasil-Angola: A inclusão estratégica de Angola no G20, 2025», https://atchinguelessy.com/blog/angola-no-g20/

² Ibid.

³ Agência Gov, «Brasil e Angola celebram 50 anos de relações com novos acordos bilaterais», 23 de Maio de 2025, https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202505/brasil-e-angola-celebram-50-anos-de-relacoes-com-novos-acordos-bilaterais-durante-visita-do-presidente-joao-lourenco

⁴ Ibid. Ver também: Agência Brasileira de Cooperação, «Agricultura sustentável: Brasil e Angola firmam acordo de cooperação em meio ambiente», 26 de Maio de 2025, https://www.gov.br/abc/pt-br/assuntos/noticias/agricultura-sustentavel-brasil-e-angola-firmam-acordo-de-cooperacao-em-meio-ambiente

⁵ JTM, «Luanda: condições favoráveis para integrar os BRICS» Julho 2025, https://jtm.com.mo/actual/luanda-condicoes-favoraveis-para-integrar-os-brics/

⁶ CEDESA, «Angola e a Nova Ordem Pós-Internacional (de Trump e outros)», 3 de Abril de 2025, https://www.cedesa.pt/2025/04/03/angola-e-a-nova-ordem-pos-internacional-de-trump-e-outros/

⁷ Ministério das Relações Exteriores do Brasil (Itamaraty), «ZOPACAS – IX Reunião Ministerial 2026», https://www.gov.br/mre/pt-br/zopacas

⁸ Instituto da Defesa Nacional (Portugal), «IDN Brief», Outubro de 2023, https://www.idn.gov.pt/pt/publicacoes/idnbrief/Documents/2023/IDN%20brief%20outubro%202023.pdf

⁹ Ministério da Defesa do Brasil, «Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS) 2025», https://www.gov.br/defesa/pt-br/assuntos/relacoes-internacionais/foruns-internacionais-1/zona-de-paz-e-cooperacao-do-atlantico-sul-zopacas

¹⁰ Defesa em Foco, «Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS)», 22 de Janeiro de 2023, https://www.defesaemfoco.com.br/es/conheca-a-zona-de-paz-e-cooperacao-do-atlantico-sul-zopacas/

¹¹ Agência Marinha de Notícias, «Marinha realiza Seminário sobre cooperação e segurança no Atlântico Sul», 25 de Outubro de 2023, https://www.agencia.marinha.mil.br/especial/marinha-realiza-seminario-sobre-cooperacao-e-seguranca-no-atlantico-sul

¹² Senado Federal do Brasil, «Acordo entre Brasil e Angola na área de Defesa passa na CRE», 24 de Março de 2022, https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2022/03/24/acordo-entre-brasil-e-angola-na-area-de-defesa-passa-na-cre

¹³ Ministério da Defesa do Brasil, «Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS)», op. cit.

¹⁴ Moreira, Luís Gustavo Guerreiro, «Prioridades para a cooperação brasileira no Atlântico Sul», Tensões Mundiais, vol. 12, n.º 22, 2016, pp. 347–358, disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/tensoesmundiais/article/download/290/218/818

¹⁵ Agência Gov, «Polícia Federal assina Memorando de Entendimento com a Polícia Nacional da Angola», 24 de Maio de 2025, https://www.gov.br/pf/pt-br/assuntos/noticias/2025/05/policia-federal-assina-memorando-de-entendimento-com-a-policia-nacional-da-angola

¹⁶ PlatinaLine, «BNDES de volta a Angola com financiamento e cooperação», Janeiro de 2026, https://platinaline.com/bndes-de-volta-a-angola-com-financiamento-e-cooperacao/

¹⁷ CEDESA, «Estratégia Angola 2050 – uma análise (I)», 11 de Junho de 2023, https://www.cedesa.pt/2023/06/11/estrategia-angola-2050-uma-analise-i/

¹⁸ CEDESA, «Angola 2025: sombras e esperanças económicas», 10 de Setembro de 2025, https://www.cedesa.pt/2025/09/10/angola-2025-sombras-e-esperancas-economicas/

¹⁹ Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil, «Ministro Fávaro cumpre agenda em Angola para avançar acordo bilateral na produção agrícola», 20 de Janeiro de 2026, https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/noticias/ministro-favaro-cumpre-agenda-em-angola-para-avancar-acordo-bilateral-na-producao-agricola

²⁰ Terra Brasil Notícias, «Megaprojeto vai levar agricultores brasileiros a Angola com concessão de 20 mil hectares para cultivo e prevê investimento de R$ 621,6 milhões», Janeiro de 2026, https://terrabrasilnoticias.com/2026/01/megaprojeto-vai-levar-agricultores-brasileiros-a-angola-com-concessao-de-20-mil-hectares-para-cultivo-e-preve-investimento-de-r-6216-milhoes/

²¹ Amilcar Tchinguelessy, «Impulsionando a cooperação Brasil-Angola: A inclusão estratégica de Angola no G20», op. cit. Ver também: Embrapa, «Embrapa e JICA atuarão juntas em projetos para África», https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/18042368/embrapa-e-jica-atuarao-juntas-em-projetos-para-africa

²² Safras & Mercado, «Presidente Lula assina acordos de cooperação com Angola; Petrobras assina com Sonangol», 23 de Maio de 2025, https://safras.com.br/presidente-lula-assina-acordos-de-cooperacao-com-angola-petrobras-assina-com-sonangol/

²³ Sonangol, «Quilemba Solar vai fornecer energia à Rede Nacional de Electricidade», 8 de Janeiro de 2025, https://www.sonangol.co.ao/quilemba-solar-vai-fornecer-energia-a-rede-nacional-de-electricidade/ ; Agência Petrobras, «Petrobras lança Plano de Negócios 2025-2029 com investimentos de US$ 111 bilhões», 21 de Dezembro de 2024, https://agencia.petrobras.com.br/pt/w/negocio/petrobras-lanca-plano-de-negocios-2025-2029-com-investimentos-de-us-111-bilhoes

²⁴ Diplomacia Business, «Brasil lança o ‘Compromisso de Belém 4x’ para quadruplicar combustíveis sustentáveis até 2035», 15 de Outubro de 2025, https://www.diplomaciabusiness.com/brasil-lanca-o-compromisso-de-belem-4x-para-quadruplicar-combustiveis-sustentaveis-ate-2035/

²⁵ Agência Brasileira de Cooperação, «Agricultura sustentável: Brasil e Angola firmam acordo de cooperação em meio ambiente», 26 de Maio de 2025, https://www.gov.br/abc/pt-br/assuntos/noticias/agricultura-sustentavel-brasil-e-angola-firmam-acordo-de-cooperacao-em-meio-ambiente

²⁶ CEDESA, «Angola e a Nova Ordem Pós-Internacional (de Trump e outros)», op. cit.

²⁷ CEDESA / RTP Notícias, «Política externa de Trump é “transacional e oportunista” e Angola deve ser realista», Julho de 2025, https://www.rtp.pt/noticias/economia/politica-externa-de-trump-e-transacional-e-oportunista-e-angola-deve-ser-realista_n1670889

O Fecho do Estreito de Ormuz e as Implicações Estratégicas para Angola: Um Ensaio de Geopolítica e Inteligência Estratégica

Adalberto Malú: Especialista em Relações Internacionais | Analista Geopolítico | Docente Universitário |Investigador Associado – CEDESA

Introdução

O recente ataque ao petroleiro Sonangol Namibe, ancorado em águas iraquianas, surge como um marco crítico na escalada da tensões no Golfo Pérsico. Este episódio, que envolve engenhos controlados remotamente e reivindicações simultâneas de ataques por parte da Guarda Revolucionária do Irão, evidencia a crescente vulnerabilidade do Estreito de Ormuz, rota pela qual transita aproximadamente 20% do petróleo mundial.

O estreito não é apenas um canal de transporte de hidrocarbonetos; representa um ponto nodal de geopolítica, energia e segurança internacional. Este ensaio procura analisar, de forma crítica, os efeitos de um fecho parcial ou total do estreito, não apenas no plano global, mas especialmente sobre Angola, uma economia emergente altamente dependente do petróleo. Pretende-se, igualmente, apresentar recomendações estratégicas para mitigar os riscos e explorar as oportunidades derivadas deste cenário.

1. O Estreito de Ormuz: Um Corredor Estratégico

A importância do Estreito de Ormuz transcende a dimensão geográfica. Diariamente, cerca de 20 milhões de barris de petróleo e 20% do comércio global de LNG passam por este corredor, sendo crítico para a estabilidade energética mundial.

Qualquer perturbação nesta rota provoca efeitos imediatos nos mercados globais, repercutindo-se em preços, segurança energética, geopolítica e fluxos de investimento. O estreito constitui, portanto, uma vulnerabilidade sistémica, cuja gestão envolve não apenas os Estados da região, mas também actores globais como os EUA, a China, a União Europeia e o Japão.

2. Impactos Globais e Cenários Possíveis

a) Choques no mercado energético

O fecho do estreito leva, inevitavelmente, a aumentos abruptos no preço do petróleo. Cenários históricos sugerem que interrupções prolongadas podem elevar o preço do crude para patamares entre US$ 100 e 120 por barril, impactando economias dependentes das importações energéticas.

A volatilidade resultante influencia também a produção industrial, transporte global e logística, criando um efeito dominó que atinge países em todos os continentes.

b) Reconfiguração geopolítica

As grandes potências são forçadas a reavaliar alianças, operações militares e mecanismos de segurança marítima. Um bloqueio prolongado pode acelerar a militarização das rotas, incentivando parcerias estratégicas e redefinir a ordem regional de poder.

3. Angola: Análise Crítica das Consequências

Embora Angola não dependa do estreito para o escoamento do petróleo, os efeitos indirectos sobre a sua economia e política externa são significativos.

a) Perspectiva económica

O aumento global dos preços do petróleo pode gerar receitas adicionais de divisas, porém a volatilidade compromete a previsibilidade de investimentos, planejamento fiscal e os contratos de longo prazo. O câmbio e a dívida externa são igualmente afectados pela incerteza nos mercados globais.

b) Segurança energética e logística

Angola deve avaliar as rotas alternativas e reforçar os protocolos de segurança portuária e marítima. A resiliência da infraestrutura crítica é determinante para manter a confiabilidade das exportações e a confiança dos parceiros internacionais.

c) Diplomacia económica estratégica

O cenário actual é uma oportunidade para Angola consolidar alianças estratégicas, diversificar os mercados consumidores e fortalecer sua actuação em fóruns multilaterais, garantindo uma posição de influência nas negociações de preços e contratos de energia.

4. Reflexão Crítica e Recomendações

O fecho do Estreito de Ormuz evidencia a necessidade de Angola combinar a análise estratégica, a diplomacia económica e a gestão de risco. Recomenda-se:

               1. Fortalecer os sistemas de inteligência estratégica, monitorando os riscos geopolíticos, energéticos e financeiros.

               2. Intensificar a diplomacia económica, ampliando as parcerias comerciais e negociar contratos flexíveis.

               3. Diversificação estrutural da economia, reduzir a dependência do petróleo e aumentar a resiliência frente aos choques externos.

               4. Coordenação institucional com os actores privados e internacionais, assegurando respostas rápidas a crises globais e regionais.

Conclusão

O ataque ao Sonangol Namibe e a escalada das tensões no Estreito de Ormuz não são incidentes isolados, mas indicadores de instabilidade sistémica global. Angola, enquanto actor emergente e exportador relevante de petróleo, tem perante si desafios e oportunidades estratégicas: proteger os seus interesses económicos, fortalecer a diplomacia e consolidar a sua projecção internacional.

A capacidade de compreender e responder a estes choques determinará não apenas o desempenho económico, mas também a posição política e estratégica do país no contexto global contemporâneo.

Referências e Fontes

UGM: Why the Strait of Hormuz is So Important

CNBC: What a Supply Disruption Could Mean for Oil Markets

Euronews: Importância Estratégica do Estreito de Ormuz

The Guardian: China Calls for Protection Vessels amid Soaring Shipping Costs

O ano de Angola na União Africana: Diplomacia de pacificação e afirmação; segue Burundi…

Eugénio Costa Almeida*

Introdução

No passado 13 de Fevereiro de 2026, a União Africana (UA) encerrou um dos capítulos mais dinâmicos da sua história recente. A presidência de João Lourenço, Presidente da República de Angola, chegou ao fim, entregando o testemunho ao Burundi, no fim-de-semana de 14º15 de Fevereiro, durante o 39ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da UA, ocorrida em Adis-Abeba, Etiópia.

Este não foi apenas um ano de gestão administrativa; foi um período em que a “Diplomacia do Diálogo” angolana foi testada no palco mais complexo do mundo.

Ainda assim, em certos sectores do Continente, ficaram situações críticas por resolver, nomeadamente, os conflitos político-militares no Sudão e na RDC, as crises político-diplomáticas no Sahel e, mais recentemente, na Somalilândia – que viu a sua secessão, declarada em Maio de 1991, agora reconhecida por Israel –, bem como na Guiné-Bissau.

I. O Impacto no seio internacional: África como sujeito, não objecto

Historicamente, a União Africana foi vista por muitos parceiros externos como uma entidade reativa. Sob a liderança de Angola, essa percepção sofreu uma mutação significativa. O impacto internacional do mandato de João Lourenço pode ser medido em três eixos fundamentais:

  1. A consolidação no G20:Angola herdou a responsabilidade de operacionalizar a voz de África no G20. João Lourenço não se limitou a ocupar a cadeira; ele utilizou o fórum para exigir uma reforma sistémica das instituições de Bretton Woods (FMI e o Grupo Banco Mundial). O impacto foi claro: pela primeira vez, houve um consenso alargado sobre a necessidade de mecanismos de alívio da dívida que não estrangulassem o crescimento dos países em desenvolvimento. A presença angolana garantiu que a “voz de Adis-Abeba” fosse técnica, assertiva e economicamente fundamentada.
  2. A geopolítica das parcerias energéticas: Num mundo sedento por transicção energética, Angola tudo procurou fazer por posicionar a UA como um parceiro estratégico indispensável. Ao liderar diálogos com a União Europeia (UE) e a China, o presidente angolano defendeu que África não deve ser visto, unicamente, como uma mina de “minerais críticos” (lítio, cobalto, tantalite e columbite – vulgo, coltan –, manganês, vanádio, titânio ou bauxite), mas sim como um potencial centro de processamento industrial. Este posicionamento alterou a dinâmica das negociações internacionais, forçando investidores a incluir cláusulas de “know-how”, como transferência de tecnologia e elevar a  industrialização local.
  3. O multilateralismo activo: Em tempos de fragmentação global, Angola manteve uma postura de não-alinhamento pragmático. O impacto internacional foi o de uma África que se recusa a eleger lados em guerras por procuração, focando-se antes na defesa do Direito Internacional e na integridade territorial, princípios que Luanda sempre defendeu e usou da sua influência para a defender arduamente devido à sua própria história de guerra-civil e agressão externa.

II. Visibilidade política e diplomática: a “marca Lourenço”

João Lourenço procurou firmar na UA o que muitos analistas chamam de “Diplomacia Presidencial de Alta Intensidade”, devido à sua intervenção pró-activa, directa e incansável na resolução de conflitos, na promoção da paz e no posicionamento de Angola como actor central na estabilidade do continente. A visibilidade que ele deu à organização não foi apenas estética, mas operacional.

  1. O Processo de Luanda como referência: A crise no Leste da República Democrática do Congo (RDC) foi o grande teste. Lourenço, designado por alguns analistas, nomeadamente o académico Afonso Botaz como “Campeão da Paz e Reconciliação em África”, elevou a mediação regional ao nível de prioridade global. Ele conseguiu colocar o Presidente congolês-democrata Félix Tshisekedi e o Presidente ruandês Paul Kagame à mesma mesa em momentos críticos. Embora a paz seja um processo contínuo e frágil, a UA ganhou visibilidade como o único mediador capaz de navegar nas sensibilidades históricas da Região dos Grandes Lagos.
  2. O protagonismo na Assembleia-Geral da ONU: O discurso do presidente angolano, enquanto presidente em exercício da UA, nas Nações Unidas, foi marcante. Lourenço deu visibilidade à exigência histórica de dois assentos permanentes para África no Conselho de Segurança. Ele não o fez como um pedido de favor, mas como uma correcção de uma injustiça histórica necessária para a legitimidade do sistema multilateral. De notar que, ainda recentemente o Secretário-geral, António Guterres, reafirmou que África deveria ter esses assentos.
  3. Diplomacia de infra-estruturas: Ao promover o Corredor do Lobito como um projecto de interesse continental e global (com apoio dos EUA e da UE), o presidente Lourenço mostrou que a UA pode liderar projectos que integrem o comércio transcontinental. Isto deu à UA uma imagem de modernidade e viabilidade económica, afastando-se do habitual estereótipo de “gestora de crises”.

III. O papel da UA no sistema político global: sucessos e limitações

Terá conseguido a UA afirmar-se como um polo de poder? A resposta conduz-nos a um “sim” habilitado.

Sob a égide de Angola, a UA conseguiu:

  1. Bloquear eventuais tentativas de divisão do continente: Em questões de alta sensibilidade internacional, a UA manteve uma posição coesa, impedindo que potências externas procurasse fragmentar o voto africano em fóruns internacionais; de certa forma e na grane maioria dos casos, conseguiu-o.
  2. Influenciar a agenda climática: Na COP brasileira, a liderança angolana foi crucial para que o “Fundo de Perdas e Danos” começasse a ser capitalizado, argumentando que África é o continente que menos polui, mas o que mais sofre. Ainda assim, reconheçamos que ficou aquém do expectável. Mas “step-by-step” o caminho faz-se caminhando.

Contudo, o sistema político global ainda é dominado pelo poder de veto e pela força económica. A UA, e apesar do brilho diplomático de Angola, ainda luta contra a dependência financeira do seu próprio orçamento (muito dependente de parceiros externos). O papel alcançado foi mais o de um poder moral e estratégico, mas onde a autonomia financeira total continua a ser o maior  “calcanhar de Aquiles” do Continente.

IV. O Legado de Angola: diplomacia activa em tempos de crises

O que a UA herda de Angola foi uma doutrina de acção. Em tempos de golpes de Estado – no Sahel e na Guiné-Bissau – e instabilidade no Corno de África – a crise no Tigré, a questão de secessão somalilândia e a Grande Barragem do Renascimento Etíope (GBRE), que persiste colocar fortes questões geopolíticas, hídricas e de segurança colocadas pelo Sudão e pelo Egipto –, pode-se dizer que o legado de Luanda se baseia em quatro pilares:

  1. O princípio da solução Africana para problemas Africanos: Angola provou que a intervenção externa muitas vezes agrava os conflitos. O legado é uma UA que deve confiar mais nos seus mecanismos regionais (nas Organizações Regionais e nos Sistemas de Intervenção Rápida – as African Stand-by Forces.) coordenados centralmente;
  2. Institucionalização da Paz: A criação de centros de monitorização de conflitos e o reforço do Conselho de Paz e Segurança da UA (CPS-UA) foram marcas da gestão angolana.
  3. Realismo diplomático: Ao contrário de presidências anteriores mais idealistas, Lourenço procurou assentar a sua diplomacia num realismo frio. Ele compreendeu que a diplomacia sem o apoio da segurança e da economia é (totalmente) ineficaz;
  4. Resiliência institucional: Angola ajudou a reformar processos internos da Comissão da UA, tornando-a mais ágil na resposta a emergências sanitárias e desastres climáticos, paradigma aprendido durante as crises de saúde pública do passado.

V. A sucessão pelo Burundi: o que esperar?

A partir de agora, e durante um ano, a presidência rotativa passa para o Burundi, sob a liderança do Presidente Évariste Ndayishimiye. A transicção de um gigante petrolífero e militar como Angola para um país menor e encravado como o Burundi levanta inúmeras e pertinentes questões importantes.

  1. O Desafio da Continuidade

O Burundi assume a UA num momento em que os processos iniciados por Angola (especialmente na RDC) estão em fase crítica. Ndayishimiye terá o desafio de manter a autoridade da UA sem possuir o mesmo “músculo” financeiro e diplomático que Luanda projectou e com um vizinho, o Ruanda, que, não poucas vezes, pelo contrário, mostra pouca apetência para o diálogo intra e extra africano.

2. As Prioridades do Burundi

Espera-se que o mandato do Burundi se foque em:

  1. Juventude, paz e segurança e silenciamento das “armas”: O Presidente Ndayishimiye tem sido um forte defensor da inclusão dos jovens nos processos de decisão. O seu principal objectivo para pela “tolerância zero” sobre mudanças inconstitucionais de governo (golpes de Estado) e no fortalecimento da estabilidade regional;
  2. Desenvolvimento económico e reforço da Agenda 2063: O foco burundês pasará pelo acelerar da industrialização, da transformação agrícola e pelo desenvolvimento de infra-estruturas, visando a independência financeira do continente e a concretização dos objectivos da Agenda 2063;
  3. Agricultura e segurança alimentar: Sendo um país com forte base agrícola, o Burundi não deixará de procurar priorizar a resiliência alimentar, um tema vital após as disrupções nas cadeias de abastecimento globais, nomeadamente, com as tarifas de Donald Trump;
  4. Gestão e segurança de recursos hídricos e saneamento: O tema da água será central para a presidência de Ndayishimiye, especialmente num continente onde o stress hídrico é um catalisador de guerras – não esquecer a crise que a GBRE, desde a sua pojecção até à sua utilização tem criado na região etíope-sudanesa-egípcia –. Neste sentido, o Burundi coloca a garantia de acesso à água segura e sistemas de saneamento como uma prioridade estratégica, essencial para a saúde pública, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável;
  5. Reforço da voz da África na governação global: O presidente burundês propõe-se fortalecer a posição de África no areópago internacional, clamando por um mundo mais justo, equilibrado e inclusivo, onde inclui, inevitavelmente, a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas;
  6. Cooperação e consenso: Ndayishimiye assegurou que a sua presidência baseada assentará no diálogo, na escuta e na cooperação com todos os Estados-membros, visando promover a unidade continental face aos persistentes desafios económicos e climáticos no que o Continente é sistémico, ou seja, à manutenção de falta de desafios estruturais profundos, inter.conectados e persistentes que afectam o funcionamento do continente como um todo, transcendendo fronteiras nacionais e governos individuais, entre si inter-ligados, criando ciclos viciosos de sub-desenvolvimento, instabilidade e pobreza que dificultam o crescimento a longo prazo.

3. O risco de introversão

O grande problema é que a UA perca o “fôlego” global que Angola lhe deu, na medida em que, tudo o parece indicar, as principais linhas de actuação e os grandes objectivos do Burundi aparente poder tender para uma agenda mais interna e regional. Recordo o que já afirmei antes: o Burundo tem um vizinho, Ruanda, que mostra muita apetência para olhar só para si e para os seus interesses… Todavia, se o Burundi souber capitalizar as estruturas de mediação deixadas por Angola, poderá surpreender ao focar-se na “diplomacia de proximidade” e levar por diante dois dos seus propalados objectivos: cooperação e consenso no reforço da voz da África na governação global.

Conclusão: De Luanda para Bujumbura…

O mandato de Angola (2025-2026) poderá ser recordado – veremos as “sequelas” – como o ano em que a União Africana se comportou como uma potência emergente. O presidente João Lourenço deixou a presidência com a imagem de um estadista que procurou saber ler os sinais dos tempos: um mundo multipolar onde África não pode ser apenas um espectador.

Angola deu à UA mais voz, músculo e direcção. O Burundi recebe agora uma organização com as expectativas elevadas. A incerteza global permanece, mas a arquitectura diplomática africana sai deste mandato mais robusta, mais conectada com o G20 e, acima de tudo, mais consciente de que a estabilidade do mundo passa, obrigatoriamente, pela estabilidade e prosperidade do continente africano. Indispensável!

Este é o fim de um ciclo de afirmação e o início de um ciclo que se deseja de consolidação social. O balanço final tende a ser positivo: Angola não serviu apenas a sua própria agenda, mas procurou servir de ponte para que o continente falasse a “uma só voz” num momento em que o mundo mais precisa(va) de ouvir a razão.

Algumas referências

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African Union. (2026a). African Union’s 51st Permanent Representatives’ Committee Session concludes. African Union Commission, January 30, 2026; https://au.int/en/pressreleases/20260130/african-unions-51st-permanent-representatives-committee-session-concludes

African Union. (2025). Decision on the African Union Theme of the Year 2026 “Assuring Sustainable Water Availability and Safe Sanitation Systems to Achieve the Goals of Agenda 2063”. Assembly of the African Union, 16 Fevereiro 2025; https://africanlii.org/pt/akn/aa-au/doc/decision/2025-02-16/912/eng@2025-02-16

Bembe, Miguel Domingos. (2016). A Política Externa Angolana: Doutrina e prática. Revista Mulemba, 6 (11) | 2016, p. 25-55; https://doi.org/10.4000/mulemba.1281

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Esteves, César. (2026a). Presidente João Lourenço termina hoje mandat de um ano na União Africana. Jornal de Angola, ed 18080, 14 de Fevereiro. 2026, p. 1 e 3

ISS-Africa. (2025). Can Angola advance African leadership as AU chair? ISS-Africa PSC Report, 11 March 2025; https://issafrica.org/pscreport/psc-insights/can-angola-advance-african-leadership-as-au-chair

Kalan, Mouctar. (2026). La présidence de l’UA passe au Burundi, symbole d’unité et de continuité. Horoya, Fév 14, 2026; https://horoya.net/2026/02/14/la-presidence-de-lua-passe-au-burundi-symbole-dunite-et-de-continuite/

Le Burundi prend la relève de l’Angola à la présidence tournante de l’Union africaine pour l’année 2026. ENA, 14 fevrier 2026; https://www.ena.et/web/fre/w/fre_8310335

Musumba, Lisa. (2026). Carlos Lopes : Africa Aware: Can the African Union withstand fractures to multilateralism?. Chatham House, 13 February 2026; https://www.chathamhouse.org/2026/02/africa-aware-can-african-union-withstand-fractures-multilateralism

Pintinho, Zeferino. (2025). Angola e os Desafios da Estabilidade em África. Lisboa. Perfil Criativo Edições, 2025.

Vines, Alex (s/d).. Angola: Research explores Angola’s economy, politics, extractive industries and international relations. Chatham House; https://www.chathamhouse.org/regions/africa/angola

Eugénio da Costa Almeida*
* Pós-Doutorado; Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL), Investigador-Sénior Associado do Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA/Angola Research Network) e Investigador-Associado do CINAMIL (Academia Militar de Lisboa)

Angola-Rússia sob João Lourenço: pragmatismo estratégico e os limites da cooperação bilateral

Miguel Almeida Dias: Secretário-Geral do CEDESA | Mestre em Economia Política Internacional

Introdução

As relações Angola-Rússia constituem um caso paradigmático de continuidade histórica e reconfiguração estratégica no sistema internacional contemporâneo. Enraizadas em décadas de solidariedade ideológica e apoio soviético durante a guerra de independência e o conflito civil angolano, estas relações atravessaram transformações profundas após o colapso da União Soviética, transitando de um alinhamento baseado em afinidades político-ideológicas para uma parceria fundamentada em interesses económicos e de segurança pragmáticos. Desde a ascensão do Presidente João Lourenço ao poder em setembro de 2017, a política externa angolana tem evidenciado um reajustamento significativo, caracterizado por campanhas anticorrupção, esforços de diversificação económica e uma estratégia de multialinhamento internacional.[1]

Esta análise procura avaliar criticamente a evolução das relações Angola-Rússia durante o mandato de Lourenço (2017-presente), com enfoque particular na cooperação económica nas indústrias extrativas, na colaboração técnico-militar e nas implicações geopolíticas decorrentes da invasão russa da Ucrânia em 2022. Argumenta-se que, não obstante a retórica diplomática favorável ao aprofundamento dos laços bilaterais, a cooperação económica permanece estruturalmente limitada por constrangimentos financeiros russos, sanções internacionais e pela estratégia angolana de diversificação de parcerias, que privilegia múltiplos polos de poder num sistema internacional crescentemente multipolar e fragmentado.[2]

A relevância desta relação bilateral transcende a mera análise das interações diplomáticas convencionais. Angola, enquanto segundo maior produtor de petróleo em África e importante exportador de diamantes, ocupa uma posição estratégica nos mercados globais de matérias-primas. A Rússia, ao procurar reafirmar a sua influência em África após décadas de retração pós-soviética, identifica Angola como parceiro relevante, com laços históricos que remontam ao apoio ao partido que dirige os destinos do país desde a sua independência; o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Contudo, esta relação enfrenta constrangimentos estruturais significativos: a limitada capacidade financeira russa sob sanções ocidentais, a concorrência de investidores chineses e ocidentais, e a necessidade imperiosa de diversificação económica angolana. Compreender esta dinâmica bilateral revela-se essencial para antecipar a evolução da geopolítica na África Austral e avaliar a resiliência de alianças forjadas durante a Guerra Fria no contexto do século XXI.

Fundamentos históricos: da solidariedade soviética ao pragmatismo pós-Guerra Fria

As raízes das relações Angola-Rússia remontam a 1975, quando a União Soviética estabeleceu relações diplomáticas com a recém-independente República Popular de Angola e prestou apoio militar, político e ideológico decisivo ao MPLA durante a luta de libertação e a subsequente guerra civil (1975-2002). A assistência soviética foi abrangente, incluindo equipamento militar, formação de quadros, destacamento de conselheiros militares e ajuda económica, consolidando uma relação estratégica baseada na afinidade ideológica marxista-leninista e na competição geopolítica com forças apoiadas pelas potências ocidentais e pela África do Sul do apartheid.[3]

Esta parceria da Guerra Fria não foi meramente transacional, mas refletiu um alinhamento profundo de visões políticas, com o MPLA a adotar formalmente princípios marxistas-leninistas e a URSS a encarar Angola como ponto chave importante na sua projeção de influência na África Austral.[4]

O colapso da União Soviética em 1991 provocou uma contração acentuada da cooperação bilateral. As relações económicas enfraqueceram significativamente, embora a colaboração político-militar tenha persistido, sobretudo nos esforços multilaterais para resolver o prolongado conflito civil angolano. As décadas de 1990 e o início dos anos 2000 marcaram um período de menor intensidade relacional, enquanto a Federação Russa enfrentava a sua própria transformação política e económica interna, e Angola transitava gradualmente da guerra para a paz sob a liderança de José Eduardo dos Santos. Ainda assim, a relação bilateral não se dissolveu completamente, entrando numa fase de latência mantida por canais diplomáticos e ligações remanescentes no setor da defesa e segurança.

Nas décadas de 2000 e 2010 registou-se uma recuperação gradual, impulsionada pelo renovado interesse russo em África como componente da sua estratégia de reafirmação global e de acesso a recursos naturais e mercados emergentes. Esta nova fase substituiu progressivamente a solidariedade ideológica por interesses económicos e de segurança mais pragmáticos. O Presidente Eduardo dos Santos manteve proximidade política com a Rússia, mas a parceria económica permaneceu assimétrica e limitada por fragilidades institucionais e lacunas estratégicas. Visitas de alto nível e encontros à margem de cimeiras multilaterais deram novo impulso político, embora os avanços económicos concretos tenham permanecido modestos e aquém das expectativas mútuas.[5]

A era Lourenço: continuidade estratégica e reajustamento pragmático (2017-Presente)

A presidência de João Lourenço introduziu simultaneamente elementos de continuidade e mudança nas relações Angola-Rússia. Mantendo formalmente a amizade histórica e os laços derivados do apoio soviético ao MPLA, Lourenço adotou uma política externa mais diversificada e pragmática, procurando equilibrar estrategicamente relações com múltiplas potências globais e regionais. A visita de Estado de Lourenço à Rússia em abril de 2019 ilustrou esta abordagem dual, com destaque para acordos de cooperação na mineração e processamento de diamantes, bem como para compromissos de colaboração económica e técnica mais ampla. Angola procurou beneficiar da experiência tecnológica russa nas indústrias extrativas, particularmente no setor diamantífero, onde a empresa estatal russa Alrosa detinha participação significativa, por exemplo, na mina de Catoca, a maior operação diamantífera angolana.

Contudo, a dimensão económica bilateral não registou a expansão significativa que alguns analistas antecipavam. A Rússia preserva cooperação militar e intercâmbios educativos, mas não se verificaram grandes investimentos ou projetos estruturantes nos setores petrolífero e de gás natural. Este quadro reflete constrangimentos estruturais múltiplos: a menor capacidade financeira russa comparativamente a concorrentes chineses e ocidentais, o impacto progressivamente restritivo das sanções internacionais impostas à Rússia desde 2014 (Crimeia) e intensificadas após 2022 (Ucrânia), e a estratégia deliberada angolana de diversificar investidores e parceiros económicos para evitar dependência excessiva de qualquer ator singular.[6]

A cooperação técnico-militar constituiu historicamente o pilar mais sólido da relação bilateral, mas encontra-se em processo de reconfiguração acelerada desde 2022. O legado é inegável: em 2013, Angola celebrou um contrato de cerca de mil milhões de dólares com a Rosoboronexport para fornecimento de 12 caças Su-30K, helicópteros Mi-17, tanques, munições e peças sobresselentes, incluindo ainda a construção de uma fábrica de munições em território angolano. Contudo, em dezembro de 2022, o próprio Presidente Lourenço declarou publicamente à Voice of America que pretendia convidar os Estados Unidos a participar no programa de reequipamento das FAA, afirmando: “entendemos que chegou o momento de rearmar as FAA com equipamento NATO, e consideramos os EUA o caminho ideal para alcançar esta transição”. Esta declaração — de um presidente cujas forças armadas operam maioritariamente com equipamento de origem soviética — representa uma ruptura estratégica de enorme significado. Em 2024, o Ministro da Defesa angolano deslocou-se ao Pentágono, onde o Secretário de Defesa Lloyd Austin descreveu Angola como “parceiro estratégico” dos EUA, tendo-se iniciado conversações sobre aquisição de veículos logísticos Oshkosh, viaturas táticas General Motors Defence e outro equipamento de fabrico americano. Os dados do SIPRI Arms Transfers Database confirmam esta tendência: entre 2017 e 2024, a única transferência formal de armamento russo registada para Angola foi a entrega dos 12 Su-30K em 2019, não havendo qualquer registo adicional nos anos subsequentes. A cooperação remanescente limita-se essencialmente à manutenção do parque de equipamento soviético existente, à formação de quadros em instituições russas e a intercâmbios educativos de menor dimensão — uma relação que é, cada vez mais, de cliente dependente de suporte técnico herdado do passado, e não de parceria estratégica activa.[7][8][9][10][11]

Parcerias económicas: recursos minerais, energia e limitações estruturais

A arquitetura económica das relações entre os dois Estados concentra-se predominantemente nas indústrias extrativas, com destaque particular para o setor diamantífero. Durante a visita de Estado de 2019, os dois governos enfatizaram a cooperação na prospeção, extração, processamento e valorização de diamantes. A experiência tecnológica russa, particularmente através da Alrosa, foi apresentada como potencial contributo para a estratégia angolana de aumentar o valor acrescentado nacional e reduzir a dependência de exportações de diamantes brutos. Contudo, as sanções internacionais impostas à Alrosa após a invasão da Ucrânia criaram dificuldades operacionais significativas, afetando a credibilidade de Angola nos mercados internacionais de diamantes e conduzindo à decisão governamental de forçar a saída da empresa russa, substituída por investidores do Omã em 2024-2025.[12][13]

No setor estratégico do petróleo e gás natural, a cooperação bilateral permanece notavelmente limitada. Apesar de ambos os Estados serem produtores relevantes de hidrocarbonetos a nível global, não se registaram avanços económicos significativos neste domínio. O setor petrolífero angolano continua dominado por empresas multinacionais ocidentais (TotalEnergies, BP, Chevron, ExxonMobil) e, crescentemente, por empresas estatais chinesas. As empresas russas, incluindo a Rosneft, enfrentam limitações financeiras, tecnológicas e logísticas substanciais, agravadas progressivamente por sucessivas rondas de sanções ocidentais, o que dificulta severamente a sua capacidade competitiva em Angola.

Os fluxos comerciais e de investimento direto estrangeiro (IDE) entre Angola e Rússia são modestos quando comparados com as relações económicas angolanas com a China, a União Europeia e os Estados Unidos. Apesar do discurso político oficial favorável ao reforço dos laços económicos bilaterais, os volumes efetivos de comércio bilateral e de investimento russo em Angola mantêm-se reduzidos. Esta realidade reflete padrões mais amplos das relações económicas Rússia-África, onde o dinamismo diplomático e a projeção de soft power nem sempre se traduzem em resultados económicos tangíveis e estruturantes.[14]

Entre os principais constrangimentos à expansão económica bilateral destacam-se: (i) a menor disponibilidade de financiamento de desenvolvimento por parte da Rússia comparativamente à China e às instituições financeiras internacionais; (ii) o impacto cumulativo e progressivamente restritivo das sanções ocidentais sobre entidades e setores económicos russos; (iii) os desafios económicos internos de Angola, incluindo níveis elevados de dívida pública, necessidade urgente de diversificação económica e constrangimentos institucionais; e (iv) a concorrência intensa de parceiros económicos que oferecem pacotes integrados de investimento, transferência tecnológica, financiamento concessionado e acesso preferencial a mercados de consumo.

Implicações geopolíticas: multialinhamento estratégico na era Pós-2022

A invasão russa da Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022 marcou um ponto de inflexão crítico nas relações Angola-Rússia e, mais amplamente, na diplomacia africana contemporânea. O conflito obrigou os Estados africanos, incluindo Angola, a gerir pressões concorrentes entre a Federação Russa, as potências ocidentais e os seus próprios interesses nacionais. O padrão de votação angolano na Assembleia Geral das Nações Unidas revela uma posição mais complexa do que a de simples não-alinhamento: Angola absteve-se na resolução de março de 2022 que condenava a invasão (ES-11/1), partilhando essa posição com outros 16 países africanos; contudo, em outubro de 2022, votou expressamente a favor da resolução ES-11/4 que declarava ilegais as anexações russas das regiões ucranianas de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporíjia, justificando o voto com o princípio da integridade territorial consagrado na Carta das Nações Unidas e no Acto Constitutivo da União Africana. Esta diferenciação de posições — abstenção na condenação da invasão, mas voto favorável contra as anexações — traduz um posicionamento calibrado que procura distinguir a questão da soberania territorial, de natureza jurídica mais clara, da questão política mais ampla da atribuição de responsabilidades pelo conflito.[15]

Este padrão de votação diferenciada reflecte um cálculo pragmático multidimensional. Angola procura preservar relações funcionais com múltiplos parceiros estratégicos e evitar custos políticos, diplomáticos e económicos associados à escolha inequívoca de um dos lados num confronto geopolítico que não ameaça directamente os seus interesses de segurança nacional. A memória histórica do apoio soviético durante a guerra civil influencia esta postura de equidistância, mas não impede Angola de defender princípios jurídicos fundamentais — como a integridade territorial — quando a pressão diplomática multilateral o exige. Simultaneamente, o país afirma crescentemente a sua autonomia estratégica e rejeita alinhamentos automáticos em questões externas ao continente africano, procurando posicionar-se como potência média emergente com capacidade de mediação e influência regional.

A Rússia tem intensificado significativamente a sua diplomacia em África, apresentando-se como parceiro sem legado colonial histórico e oferecendo cooperação em segurança sem condicionalidades políticas explícitas relacionadas com governação democrática ou direitos humanos. Contudo, a capacidade económica russa de sustentar esta ofensiva diplomática permanece severamente limitada por sucessivas rondas de sanções ocidentais e por restrições financeiras internas. Angola segue uma estratégia deliberada de multialinhamento que lhe permite manter simultaneamente laços históricos de defesa e segurança com a Rússia, parcerias económicas estruturantes com a China, e acesso privilegiado a mercados ocidentais e instituições financeiras internacionais. Esta gestão estratégica de múltiplas parcerias exige equilíbrio diplomático constante e capacidade sofisticada de navegação em contextos geopolíticos crescentemente polarizados.[16]

Não esquecer, todavia, do designado “cinturão russo”, situado na região do Sahel. João Lourenço procura firmar Angola como potência regional, com proximidade ao Ocidente e relações funcionais com a China e a Rússia, defendendo simultaneamente soluções africanas para problemas africanos. Assim, a consolidação de um “cinturão russo” em África constitui um obstáculo estratégico a essa ambição. Uma presença russa reforçada na articulação entre o Norte e o Sul do continente tende a reduzir a margem de projeção regional de Angola e a reintroduzir dinâmicas de rivalidade entre grandes potências, reminiscentes da Guerra Fria. Deste modo, tal configuração geopolítica colide com os interesses regionais de Angola e com a sua aposta na estabilidade e na resolução autónoma de conflitos em África.[17]

Cenários futuros: trajetórias plausíveis para a próxima década

A evolução futura das relações Angola-Rússia dependerá criticamente de múltiplos fatores estruturais e conjunturais: a posição internacional da Rússia após o eventual término do conflito na Ucrânia, a evolução política interna angolana (incluindo as eleições de 2027), a dinâmica dos mercados globais de matérias-primas, e as estratégias competitivas de potências concorrentes, particularmente China e Estados Unidos. Três cenários principais emergem como plausíveis.

Primeiro: um cenário de aprofundamento pragmático limitado. Neste cenário, Angola e Rússia expandem seletivamente a cooperação em nichos específicos como mineração não-diamantífera, defesa e projetos pontuais de infraestruturas. Este cenário pressupõe o desenvolvimento de mecanismos financeiros alternativos para contornar sanções ocidentais e a identificação de setores onde a tecnologia russa oferece vantagens comparativas claras. A probabilidade deste cenário é moderada, condicionada pela capacidade russa de mobilizar recursos financeiros suficientes.

Segundo: um cenário de continuidade com limitações estruturais. Este cenário mantém essencialmente o padrão atual de relações, com diplomacia ativa e cooperação moderada concentrada em setores específicos (formação militar, intercâmbios educativos limitados), sem avanços económicos estruturais significativos nos setores estratégicos de petróleo e gás. Este cenário parece o mais provável no médio prazo (5-7 anos), dada a persistência de constrangimentos financeiros russos e a prioridade angolana de diversificação de parcerias económicas.

Terceiro: um cenário de divergência estratégica condicionada. Neste cenário, pressões internacionais intensificadas ou incentivos económicos substanciais provenientes de potências ocidentais conduzem Angola a reduzir significativamente o peso relativo da Rússia nas suas parcerias estratégicas. Este cenário dependeria criticamente da intensidade da polarização geopolítica global, de eventuais mudanças políticas internas em Angola após 2027, e da capacidade ocidental de oferecer alternativas económicas credíveis e atrativas.

Conclusão

As relações Angola-Rússia sob a presidência de João Lourenço ilustram a complexidade das parcerias estratégicas no sistema internacional atual. A relação combina elementos de continuidade histórica, derivados da solidariedade soviética durante a luta de libertação e guerra civil, com pragmatismo contemporâneo centrado nas indústrias extrativas e na cooperação de defesa e segurança. Apesar do dinamismo diplomático e da retórica política favorável, a dimensão económica bilateral permanece estruturalmente limitada por múltiplos constrangimentos: capacidade financeira russa reduzida, sanções internacionais progressivamente restritivas, política do “cinturão russo” que esbarra com os interesses angolanos no continente e forte concorrência de parceiros económicos alternativos com maior capacidade de mobilização de recursos.

O conflito na Ucrânia tem vindo a testar a estratégia angolana de multialinhamento estratégico. O governo de Lourenço tem optado por preservar margem de manobra diplomática e manter canais de comunicação abertos com diferentes polos de poder global, evidenciando sofisticação estratégica mas também vulnerabilidades potenciais caso a polarização internacional se intensifique substancialmente. Esta estratégia de não-alinhamento pragmático serve os interesses nacionais angolanos no contexto atual, mas pode enfrentar desafios crescentes se as pressões para escolhas dicotómicas se intensificarem.

No horizonte previsível de médio prazo, as relações Angola-Rússia deverão evoluir de forma assimétrica: a cooperação técnico-militar, que foi o pilar histórico mais sólido desta parceria, encontra-se em contracção deliberada e acelerada, com Luanda a orientar-se progressivamente para Washington e para o equipamento de padrão NATO. A coordenação diplomática em foruns multilaterais e a manutenção do parque de equipamento soviético herdado constituirão os últimos elos funcionais desta relação bilateral. Transformações estruturais mais profundas dependerão da evolução do conflito ucraniano, da posição internacional da Rússia no pós-guerra, e das prioridades estratégicas internas de Angola — em particular do resultado das eleições de 2027 e da capacidade do próximo ciclo político de aprofundar ou reverter a reorientação ocidental que Lourenço iniciou.


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O mandato de João Lourenço na presidência pro tempore da União Africana: entre a gestão da crise e os limites da transformação continental

Adalberto Malú: Especialista em Relações Internacionais | Analista Geopolítico | Docente Universitário |Investigador Associado – CEDESA

Resumo

O mandato de João Lourenço na presidência pro tempore da União Africana decorreu num dos períodos mais instáveis da história recente do continente. Este artigo propõe uma análise crítica e estratégica desse mandato, argumentando que o seu principal traço distintivo não foi a transformação estrutural da organização, mas a contenção política num contexto de fragmentação regional, crises armadas persistentes e erosão da autoridade normativa africana. Sustenta-se que, embora limitado em resultados estruturais, o mandato angolano reforçou o posicionamento internacional de Angola como actor diplomático credível e expôs, de forma clara, os constrangimentos sistémicos da própria União Africana.

1. Introdução: um mandato num continente em ebulição

Avaliar o mandato de João Lourenço na presidência pro tempore da União Africana exige começar pelo contexto. Não se trata de um detalhe analítico, mas da chave interpretativa central. A liderança angolana coincidiu com um dos ciclos mais críticos da organização desde a sua criação: golpes militares em cadeia no Sahel, guerra aberta e desestruturante no Sudão, persistência do conflito no Leste da República Democrática do Congo, tensões no Corno de África e uma ordem internacional em transição acelerada, marcada pela competição estratégica entre as grandes potências.

Neste cenário, a presidência da UA não era um espaço propício a ambições reformistas profundas. Era, antes, um exercício de gestão do risco sistémico, num continente onde a instabilidade deixou de ser episódica para se tornar estrutural.

2. Um mandato político, não transformador

O mandato de João Lourenço foi, acima de tudo, político. Não no sentido partidário, mas no sentido clássico da política internacional: gestão de equilíbrios, contenção de crises e preservação mínima da ordem institucional existente.

Não foi um mandato fraco. Mas também não foi histórico. Foi um mandato de contenção estratégica, orientado para evitar colapsos maiores, mais do que para reinventar a União Africana. Essa distinção é fundamental para evitar tanto a glorificação acrítica como a desvalorização simplista.

3. Onde Angola ganhou espaço e capital diplomático

Há ganhos claros que devem ser reconhecidos sem clubismo.

Em primeiro lugar, a recentralização da diplomacia preventiva.

A presidência angolana recolocou a mediação no centro da acção política da UA. O envolvimento directo de João Lourenço nos dossiês da RDC–Ruanda e do Leste do Congo reforçou a perceção de Angola como potência diplomática regional, num continente onde muitos actores falam, mas poucos assumem os custos políticos e estratégicos da mediação.

Em segundo lugar, o reforço da imagem internacional de Angola.

A presidência da UA funcionou como uma plataforma de visibilidade estratégica. Angola passou a ser percecionada como um actor político credível, capaz de dialogar com os múltiplos polos de poder, Estados Unidos, União Europeia, China e a Rússia, sem alinhamentos automáticos. Em termos geopolíticos, isto representa a acumulação de capital diplomático, um activo intangível, mas decisivo.

Em terceiro lugar, um discurso africano mais realista.

João Lourenço evitou a retórica pan-africanista vazia e insistiu na responsabilização dos próprios Estados africanos pela instabilidade do continente. Esta abordagem, embora pouco popular, traduz uma leitura mais madura da realidade africana e afasta a UA dos discursos simbólicos sem capacidade de implementação.

4. Os limites do mandato: onde a ambição ficou curta

Uma análise séria exige também identificar os limites.

Primeiro, ausência de resultados estruturais nos principais conflitos.

Mediação não é sinónimo de resolução. O conflito no Leste da RDC mantém-se, o Sudão afundou-se numa guerra ainda mais profunda e o Sahel continua fora de controlo. Embora estas crises não possam ser imputadas diretamente à presidência angolana, o mandato não produziu viragens estratégicas capazes de alterar o curso dos conflitos.

Segundo, a fragilidade estrutural da União Africana permaneceu intacta.

Não houve avanços significativos na reforma institucional da UA: financiamento autónomo, capacidade coerciva, mecanismos eficazes de sanção ou a verdadeira autonomia estratégica. A presidência angolana geriu um sistema disfuncional, mas não conseguiu transformá-lo.

Terceiro, a dimensão económica ficou em segundo plano.

Num mundo organizado em blocos económicos e cadeias de valor regionais, a África precisa de um impulso político mais assertivo à Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA). Esse eixo não foi central no mandato, limitando a capacidade da UA de se afirmar como actor económico global relevante.

5. Leitura estratégica: o que este mandato revela sobre África

O mandato de João Lourenço acaba por ser um espelho da própria condição africana contemporânea. Um continente com intensa uma actividade diplomática, mas com muito pouco poder material, fraca capacidade de enforcement e elevada dependência externa.

Neste sentido, a presidência angolana não falhou. Mas também não alterou a lógica estrutural da União Africana. Foi um mandato de estabilidade possível, não de transformação continental.

6. Conclusão: ganhos para Angola, limites para a União Africana

Em termos claros:

João Lourenço teve um mandato sério, competente e respeitado, que reforçou a credibilidade internacional de Angola e consolidou o país como actor diplomático relevante no continente. Contudo, perdeu-se a oportunidade de deixar uma marca estrutural duradoura na União Africana.

Em linguagem crua:

não falhou, mas não mudou o jogo. Ainda assim, há um dado estratégico que não deve ser subestimado: Angola esteve, durante este mandato, sentada na mesa onde se discutem os grandes dossiers africanos. Para o futuro da política externa angolana, isso não é simbólico. É um activo estratégico que pode, se bem explorado, projectar Angola para além do papel de mediador ocasional e aproximá-la do estatuto de actor estruturante na arquitectura política africana.

04 de Fevereiro de 1961 e a Luta de Libertação Nacional: Memória, Valores e Desafios de Angola Cinco Décadas Após a Independência

Eugénio Costa Almeida*

Introdução

O dia 04 de Fevereiro de 1961 não representa apenas uma efeméride no calendário cívico de Angola; constituiu o “batismo de fogo” da consciência nacionalista e o ponto de ruptura irreversível com o sistema colonial português. O ataque coordenado à Cadeia de São Paulo/PIDE, à Casa de Reclusão Militar e à 7ª, em Luanda, protagonizado por um grupo de patriotas armados predominantemente com catanas, estilhaçou a ilusão da “paz luso-tropical” propagada pelo regime de Salazar.

Este ensaio propõe-se a analisar o 04 de Fevereiro de 1961 como um dos 4 (ou 5) pilares fundamentais da Luta Armada de Libertação Nacional – os outros os outros 3, são o 4 de Janeiro (Kassanje) e 15 de Março de 1961 (UPA/FNLA) e o 13 de Março de 1966 (UNITA); e poder-se-á incluir, como pilar final, o 15 de Janeiro de 1975, data da assinatura do Acordo de Alvor –, examinando a convergência de protagonistas masculinos e femininos na resistência, a preservação da memória coletiva e os complexos desafios éticos, sociais e políticos que Angola enfrenta hoje, ao aproximar-se da marca histórica de cinquenta anos de independência.

Para compreendermos a magnitude do que hoje celebramos, é necessário observar factos que a historiografia mais recente tem sublinhado. O 4 de Fevereiro de 1961 não foi apenas uma “revolta de catanas e canhangulos”, como a propaganda colonial tentou descrever para diminuir a sua importância intelectual. Investigações contemporâneas, como as de Jean-Michel Mabeko-Tali (2023) ou de Carlos Mariano Manuel (2021) demonstram que o levantamento foi precedido por uma sofisticada rede de inteligência clandestina que ligava os bairros periféricos de Luanda a movimentos anticoloniais em Paris, Conacri e Tunes.

Um facto crucial, muitas vezes subestimado, é a coincidência estratégica com a situação no, então, Congo-Léopoldville (Kinshasa) e a presença de observadores internacionais e jornalistas estrangeiros em Luanda, que aguardavam a chegada do navio “Santa Maria”, sequestrado pelo então comandante português Henrique Galvão, líder do então designado Directório Ibérico, na “Operação Dulcineia” e que se especulava teria como destino, Luanda (Castro, 2016; Le Monde 1961a a 1961c).

Os nacionalistas angolanos, com uma visão geopolítica aguçada, aproveitaram este “palco global” – que trouxe a Angola, muita imprensa internacional – para garantir que o grito de Luanda não fosse silenciado pela censura do regime.

Foi, portanto, uma lição precoce de diplomacia e aproveitamento mediático em prol da libertação. Como realça Mabeko-Tali (2023), o 4 de Fevereiro não foi apenas o “início da luta armada” em termos militares, mas um “marco da afirmação da identidade urbana de Luanda” na resistência. E que Mariano Manuel (2021) reforça, citando os autores de uma Comissão de História do 4 de Fevereiro, criada em 1987 e que teve Paiva Domingos da Silva como um dos líderes, com a ideia de que “a narração histórica do que foram os acontecimentos do 4 de Fevereiro de 1961, não significa (…) escrever a história do povo Angolano, porque tudo o que ocorreu (…) constitui, tão somente, elementos fundamentais da história secular da resistência do nosso povo”.

A análise procurou ancorar-se numa historiografia plural, visando cruzar vozes dos protagonistas angolanos com a perspectiva crítica da academia internacional.

I. A Forja da Resistência: Protagonistas, Unidade e a Afirmação Feminina

A revolta de Luanda não foi um evento espontâneo ou desprovido de estratégia; foi o culminar de décadas de resistência silenciosa e organização clandestina nos bairros periféricos, os musseques. Segundo Patrício Batsîkama (2013), a preparação do levantamento envolveu uma rede complexa de comunicações que atravessava barreiras sociais, religiosas e etno-linguísticas, refirmado por Mabeko-Tali e Mariano Manuel ao citarem que o mesmo foi precedido por uma sofisticada rede de inteligência clandestina que ligava os bairros periféricos de Luanda a movimentos anticoloniais em Paris, Conacri e Tunes.

Entre os nomes que a história consagrou, Agostinho Mendes de Carvalho (Uanhenga Xitu), Agostinho João Manuel, ou Paiva Domingos da Silva, Imperial Santana, Virgílio Sotto-Mayor e Neves Bendinha (Castro, 2016; Lusa, 2005) surgem como figuras centrais. Paiva da Silva, em particular, personifica o nacionalismo operário e urbano, capaz de mobilizar as massas desfavorecidas contra o aparelho repressivo colonial. Se estes foram figuras importantes, não se pode deixar de relevar o papel do Cónego Manuel das Neves é igualmente fundamental – terá sido este a dar ordem de ataque ao comandante Bendinha (Teixeira, 2026) –, simbolizando a participação de sectores da Igreja que, influenciados pelas correntes progressistas, viram na luta armada a única via para a restituição da dignidade humana. De destacar, igualmente, as figuras do Bispo Moisés Alves de Pinho, o Padre Joaquim Pinto de Andrade, bem como dos padres Padre Alexandre do Amaral e Lino Guimarães, próximos do Cónego Neves, integrados chamada “Rede de Luanda que juntava seminaristas e clérigos menores da zona de Luanda e Malanje participando como estafetas de informação entre os grupos que planeavam o ataque às prisões ou o Frei Nascimento (editor do jornal Apostolado) e o Padre. Manuel Franklin da Costa (secretário do Arcebispo de Luanda) (Zau, 2018 e Neves, 2007).

Mas, também, devemos relevar o papel das Igrejas Anglo-Americanas da Reforma (Metodistas e Adventistas) (Neves, 2008), bem como o (pouco, ou nada) discreto papel da Igreja Tocoísta [ou “Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo”] (Ramon Sarró, 2015).

Contudo, uma análise rigorosa do 04 de Fevereiro seria incompleta sem resgatar o papel, muitas vezes silenciado pela narrativa oficial, das mulheres angolanas. A participação feminina não foi meramente acessória ou logística, já que a participação das mulheres foi estratégica e intelectual, enfrentando tanto a repressão colonial quanto o cepticismo dentro dos próprios movimentos nacionais. Mulheres como Deolinda Rodrigues (Langidila), Engrácia dos Santos (a onhecida como “Engrácia do 4 de Fevereiro”), Irene Cohen, Margarida Afonso ou Teresa Afonso demonstraram que a libertação era um imperativo transversal. Bitone (2015) reforça que as mulheres angolanas afirmaram a sua agência política contra a dupla opressão: a colonial e a de género. A sua actuação não se limitou ao apoio indireto, tendo estado, algumas destas mulheres, bem como muitas anónimas, directamente envolvidas na preparação e sustentação das acções que marcaram o início da luta armada

Reconhecer o seu contributo é reconhecer que a soberania de que hoje gozamos foi comprada com a moeda mais cara que existe: a vida humana em nome de um ideal colectivo.

A convergência destes protagonistas revela que o 04 de Fevereiro foi um esforço de unidade nacional ante litteram. O uso da catana, o mais citado e glorificado em monumentos, como arma de guerra foi um gesto de profunda semântica política: era o povo a converter os instrumentos da sua exploração em ferramentas da sua libertação.

II. Valores da Luta: Entre a Utopia Nacionalista e a Realidade das Armas

Os valores que galvanizaram os heróis de Fevereiro estavam assentes na premissa da igualdade absoluta, na justiça social e na auto-determinação. O projecto nacionalista angolano era, na sua génese, profundamente humanista. Basil Davidson (1972), sublinha que a resistência angolana logrou transformar a dor do trabalho forçado numa ideologia de libertação que transcendia as fronteiras da colónia, inspirando movimentos em todo o continente.

A memória do 04 de Fevereiro tem de ser vista como um território em disputa constante. Christine Messiant (2008) argumenta em L’Angola postcolonial que a “sociologia da transição” em Angola foi marcada por uma centralização de poder que, embora tenha garantido a vitória militar, deixou sequelas profundas na participação da sociedade civil no período pós-colonial. O desafio de Angola tem sido, portanto, reconciliar o heroísmo militar do passado com a necessidade de um pluralismo democrático no presente.

Os valores que nortearam a luta – a auto-determinação, a unidade nacional e a justiça social – permanecem como os nossos mandamentos republicanos. A unidade nacional, em particular, foi a nossa arma mais eficaz. O colonialismo sobreviveu através da fragmentação: “dividir para reinar”. O 4 de Fevereiro foi a resposta antagónica: “unir para libertar”.

Hoje, este valor deve ser reafirmado contra as novas formas de fracção. Como eferi numa recente Conferência, a coesão nacional não é uma fotografia estática de 1975; é um processo dinâmico que deve envolver as nossas instituições, as comunidades locais e a nossa vibrante diáspora.

A diáspora angolana é, hoje, um reservatório de competências e um baluarte da nossa identidade no exterior, sendo essencial para a preservação da memória colectiva e para o fortalecimento do nosso “soft-power” no concerto das nações.

III. Angola Cinco Décadas Depois: Memória, Legado e Novos Horizontes

Ao olharmos para Angola no século XXI, o legado de 1961 enfrenta o rigoroso tribunal do tempo e das expectativas sociais. O país logrou conquistas extraordinárias, como a preservação da integridade territorial num contexto de guerra civil devastadora e a conquista da paz definitiva em 2002. Todavia, os desafios de hoje são de uma natureza diferente.

1. A Memória como Instrumento de Cidadania: A celebração do 04 de Fevereiro não pode ser reduzida a uma liturgia estatal de legitimação das elites no poder. Maria da Conceição Neto (2010) defende que é imperativo democratizar a história, incluindo as vozes e narrativas que foram marginalizadas ao longo das décadas por conveniência política. A memória deve servir para inspirar uma cidadania activa e crítica, e não apenas uma reverência passiva. Como nota Didier Péclard (2015), a construção da nação angolana é um processo contínuo de “incertezas” que exige um diálogo honesto entre o passado heroico e um presente que clama por transparência.

2. A Emancipação Económica e Social: A libertação iniciada com catanas em 1961, permanece incompleta enquanto subsistirem disparidades sociais abismais. Piero Gleijeses (2004), ao analisar o contexto internacional da luta, recorda que o objectivo último dos nacionalistas era o desenvolvimento integral do povo angolano. A dependência excessiva dos recursos minerais e uma persistência de uma certa pobreza extrema são vistas por muitos intelectuais como novas formas de servidão que impedem a realização plena da soberania. O desafio contemporâneo reside na transição da soberania política para uma soberania económica real, onde o bem-estar do cidadão comum seja o centro da governação.

3. O Papel da Mulher na Angola Contemporânea: O sacrifício de mulheres que se podem referir como “Heroínas de Fevereiro” – ainda que se tenham prolongado no tempo –  frutificou numa presença feminina significativa na política e na sociedade civil. Contudo, a luta contra a violência baseada no género, a desigualdade salarial e a falta de acesso a oportunidades para as mulheres rurais continua a ser uma frente de batalha essencial para que Angola honre verdadeiramente as suas fundadoras.

Conclusão: O Legado como Compromisso Ético

Em conclusão, o 4 de Fevereiro de 1961 não é um fóssil histórico, mas um organismo vivo na consciência colectiva de Angola. O 4 de Fevereiro não é de bronze ou mármore, mas sim de uma sociedade onde a dignidade humana seja inviolável.

Cinquenta anos após a proclamação da independência, a relevância desta data reside menos na exaltação do conflito e mais na reafirmação do contrato social que os nacionalistas propuseram: a construção de uma pátria livre, justa e solidária.

A transição de um nacionalismo de resistência para um nacionalismo de construção exige uma honestidade intelectual profunda sobre os erros cometidos e os sonhos ainda por realizar.

A expansão desta reflexão leva-nos a considerar que o sacrifício de 1961 estabeleceu um padrão ético de entrega à causa comum que deve ser o norteador da classe política actual. Como sugeriu Edmundo Rocha (2003), o estudo do nacionalismo angolano deve servir para compreender que a luta pela libertação é um processo dialético que não terminou em 11 de Novembro de 1975. A verdadeira soberania não é apenas a ausência de um governador estrangeiro; é a presença de justiça, saúde, educação e liberdade de expressão para todos os angolanos, independentemente da sua origem ou filiação política.

O maior tributo que a Angola contemporânea pode prestar aos heróis citados e a todos os heróis anónimos que marcharam sobre as prisões de Luanda é a construção de um Estado de Direito democrático e inclusivo.

A coragem física demonstrada no 4 de Fevereiro deve agora ser transmutada em coragem moral para combater a corrupção, a exclusão social e a má-gestão da coisa pública.

Somente, quando o espírito de sacrifício e unidade de 1961 se traduzir em dignidade quotidiana para o cidadão angolano, poderemos dizer que a promessa daquela manhã de Fevereiro foi plenamente cumprida.

Angola enfrenta o desafio histórico de transformar a “memória das armas” numa “cultura de cidadania”, garantindo que as próximas cinco décadas sejam marcadas pela prosperidade partilhada e pela consolidação definitiva de uma nação onde todos os filhos se sintam verdadeiramente em casa.

Quando tivermos uma Angola onde as crianças nas Lundas, nos Moxicos ou em Cabinda, o camponês do Uíge, do Cuanza Norte, ou da Huíla e Cunene, o operário de Icolo e Bengo, de Malange ou de Cuando e Cubango, o pescador do Zaire, do Cuanza Sul, de Benguela ou do Namibe, e o académico em Luanda, no Lobito, no Huambo ou no Bié, se sintam igualmente herdeiros da liberdade conquistada em 1961, então estaremos no bom caminho.

Angola é – tem de ser – o resultado da audácia de uns poucos que se tornou a realidade de milhões. Temos o dever de entregar às gerações vindouras uma Angola mais justa do que aquela que recebemos. Porque, como sublinha Nuno Vidal (2008), a construção da Nação Angolana assenta na reapropriação de acontecimentos que afirmam a capacidade de resistência e de auto-determinação do povo angolano

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Eugénio da Costa Almeida*
* Pós-Doutorado; Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL), Investigador-Sénior Associado do Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA/Angola Research Network) e Investigador-Associado do CINAMIL (Academia Militar de Lisboa)