CEDESA e AEARI reforçam cooperação estratégica para o desenvolvimento de África

No passado dia 3 de março de 2026, em Luanda, o CEDESA e a Associação dos Especialistas Angolanos em Relações Internacionais (AEARI) oficializaram um Acordo de Parceria e Cooperação Científica. Esta aliança estratégica estabelece as bases para uma colaboração profunda em áreas críticas como a geopolítica africana, a integração regional e a diplomacia económica.

O protocolo, prevê a criação de um Observatório Permanente de Geopolítica Africana e a produção conjunta de policy papers e relatórios técnicos. Com esta parceria, o CEDESA reafirma a sua missão de produzir conhecimento aplicado que sirva de suporte à formulação de políticas públicas e ao desenvolvimento sustentável do continente.

Angola e Brasil: o eixo Sul-Atlântico como pilar da inserção internacional de Luanda

Miguel Almeida Dias: Secretário-Geral do CEDESA | Mestre em Economia Política Internacional

1. Introdução: uma parceria estratégica em reconfiguração

A relação entre Angola e o Brasil ultrapassa a mera fraternidade lusófona e a partilha de raízes históricas comuns. Ela está associada, cada vez mais, a uma lógica de parceria estratégica de geometria variável, capaz de responder simultaneamente às ambições de política externa de Luanda e ao renovado activismo internacional de Brasília. O período actual marca um momento de particular intensidade nessa relação, com Angola a afirmar-se como o mais relevante parceiro africano do Brasil e a utilizar essa posição para consolidar a sua projeção no Sul Global.¹

Esta análise concisa procura sistematizar os quatro pilares que estruturam a presente fase da parceria bilateral: a diplomacia de alto nível e a inserção de Angola nas plataformas multilaterais sob influência brasileira; a cooperação em matéria de segurança e a gestão partilhada do espaço atlântico; o financiamento e a cooperação económica liderados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social (BNDES); e, finalmente, a transição energética e o desenvolvimento agroindustrial como vectores de futuro.

2. Diplomacia de alto nível e a aposta multilateral

O convite formulado pela presidência brasileira do G20 para que Angola participasse, na qualidade de convidado, na Cúpula de Líderes realizada no Rio de Janeiro em Novembro de 2024 representa muito mais do que um gesto protocolar. Trata-se de um reconhecimento explícito do papel de Luanda como interlocutor privilegiado de Brasília na África Subsariana, e de uma opção estratégica de Angola em se posicionar junto das economias que efectivamente moldam a governança económica global.² Ao longo dos governos Lula, os dois Estados aprofundaram consecutivamente a sua cooperação, desde a agricultura e a energia até à educação e à segurança alimentar, num processo que encontrou na presidência brasileira do G20 o seu momento de maior visibilidade diplomática.

No ano seguinte, a visita de Estado do Presidente João Lourenço a Brasília, em Maio de 2025, assinalando os cinquenta anos do estabelecimento de relações diplomáticas e os cinquenta anos da independência angolana, revelou a profundidade e a maturidade desta parceria. O Brasil foi o primeiro país a reconhecer a independência de Angola, e as relações bilaterais foram formalmente elevadas ao estatuto de Parceria Estratégica em 2010 — mecanismo que, no continente africano, o Brasil mantém exclusivamente com Angola, a África do Sul e o Egipto.³ Por ocasião dessa visita, foram assinados quatro instrumentos de cooperação: um Memorando de Entendimento entre o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil e o Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher de Angola; um Memorando de Entendimento entre a Petrobras e a Sonangol em Matéria de Pesquisa e Desenvolvimento e Projectos de Interesse no Upstream; um Memorando de Entendimento entre a Polícia Federal brasileira e a Polícia Nacional de Angola para o combate ao crime organizado transnacional; e o Projecto de Fortalecimento das Instituições Angolanas de Pesquisa Agropecuária e Florestal para o Desenvolvimento Sustentável de Regiões Semiáridas, coordenado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).⁴

A agenda ambiental também esteve presente, com a partilha de preocupações relativas à preservação da Amazónia e da bacia do Congo — as duas maiores florestas tropicais do planeta — e à valorização dos respectivos serviços ecossistémicos. A possibilidade de Angola vir a integrar os BRICS foi um assunto que ganhou projeção aquando da cimeira do bloco que decorreu no Rio de Janeiro. Esta organização pode constituir um outro factor de afirmação multilateral de Luanda.⁵ A eventual adesão consolidaria uma trajectória que aponta para uma inserção de Angola nos principais fóruns do Sul Global, reconfigurando a sua posição face às potências ocidentais num contexto em que, como já foi aqui sublinhado, «a redefinição do sistema internacional em curso levará Angola a uma necessidade de reforço da sua unidade interna e possivelmente ao incremento (e revisão) da sua doutrina de segurança nacional».⁶

3. O Atlântico Sul como espaço estratégico partilhado

A dimensão securitária da relação entre os dois Estados encontra a sua expressão institucional mais acabada no quadro da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), fórum multilateral criado em 1986 sob iniciativa brasileira. A IX Reunião Ministerial da ZOPACAS, prevista para 2026 no Brasil, celebrará os quarenta anos da organização num contexto de crescente relevância estratégica do Atlântico Sul e após um longo período de revitalização liderado pelo Brasil desde 2019.⁷

O interesse renovado por este espaço resulta de uma convergência de factores: a intensificação da pirataria e das actividades ilícitas no Golfo da Guiné; a presença crescente de potências externas — China, Rússia, mas também os Estados Unidos — na costa ocidental africana, incluindo a criação do US AFRICOM em 2007 e a reactivação da IV Frota norte-americana em 2008; e a percepção, partilhada por Luanda e Brasília, de que a governança do espaço marítimo sul-atlântico não pode ficar dependente de agendas externas.⁸ Como realça o Ministério da Defesa brasileiro, a ZOPACAS visa promover a cooperação regional e a diminuição da presença militar extrarregional, num contexto em que o Atlântico Sul se consolidou como área estratégica devido às descobertas petrolíferas offshore em ambas as margens oceânicas e à relevância das rotas comerciais.⁹

A participação de Angola neste fórum tem sido historicamente relevante: Luanda acolheu a VI Reunião Ministerial da ZOPACAS em 2007, num momento crucial de revitalização após quase uma década de inactividade (1998–2007). Nessa cimeira angolana, foram aprovados novos objectivos para o fórum, incluindo o combate à fome e à pobreza, a reforma do Conselho de Segurança da ONU e a discussão de um regime comercial global mais justo.¹⁰ Mais recentemente, Angola participou activamente no 2.º Simpósio Marítimo da ZOPACAS, realizado em Outubro de 2023 no Rio de Janeiro, reafirmando o seu compromisso com a segurança marítima regional.¹¹

No plano bilateral, Brasil e Angola assinaram, em 2010, um Acordo de Cooperação no Domínio da Defesa que prevê formação militar, fornecimento de equipamentos e cooperação técnica.¹² Este acordo, aprovado pelo Senado Federal brasileiro em 2022, enquadra-se num conjunto mais vasto de acordos-quadro de cooperação em defesa que o Brasil estabeleceu com Estados-membros da ZOPACAS, incluindo África do Sul (2003), Guiné-Bissau (2006), Namíbia (2009), Guiné Equatorial, Nigéria, São Tomé e Príncipe, Senegal e Uruguai (2010), e Cabo Verde (2016).¹³ A cooperação Brasil-Angola no domínio marítimo tem incluído, igualmente, projectos de colaboração entre a Marinha do Brasil e o governo angolano para o mapeamento e exploração do fundo marinho e o levantamento das plataformas continentais, actividade que se insere numa estratégia mais vasta de valorização dos recursos oceânicos.¹⁴

Presentemente, os acordos de cooperação firmados em Maio de 2025, entre os quais se destaca o memorando de entendimento celebrado entre a Polícia Federal brasileira e a Polícia Nacional de Angola visando o combate ao crime organizado transnacional, evidenciam algum aprofundamento da componente securitária da parceria bilateral.¹⁵

O conceito de «pivot atlântico» que tem emergido nos documentos de reflexão estratégica angolanos aponta para uma compreensão de que a soberania marítima e a capacidade de projeção no Atlântico constituem um activo crescentemente valioso num mundo em que o espaço geográfico volta a ser factor determinante de poder. Para Angola, a cooperação com o Brasil neste domínio — tanto no quadro multilateral da ZOPACAS como nos acordos bilaterais de defesa — representa uma alternativa credível à dependência excessiva das arquitecturas de segurança dominadas pelas potências ocidentais ou pela influência chinesa e russa, permitindo uma inserção estratégica no Atlântico Sul assente em princípios de cooperação sul-sul e respeito pela soberania dos Estados costeiros.

4. O BNDES e a nova arquitectura do financiamento bilateral

Um outro factor importante da reactivação desta parceria reside na possível retoma do financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social (BNDES). Após um período de interrupção associado às consequências da Operação Lava Jato sobre as grandes empreiteiras brasileiras activas em Angola, o regresso do BNDES ao país africano, em Janeiro de 2026, com uma linha orientada para projectos agroindustriais, sinaliza a eventual superação de um ciclo difícil e a disposição de ambos os países em construir um novo modelo de cooperação.¹⁶

Este novo modelo difere do anterior em aspectos significativos. Em vez da concentração em grandes obras de infraestrutura dominadas por empresas como a Odebrecht e a Andrade Gutierrez, o financiamento brasileiro orienta-se agora para a agro-indústria, a segurança alimentar e a diversificação produtiva — áreas que coincidem com as prioridades da Estratégia Angola 2050 e com as vulnerabilidades estruturais da economia angolana.¹⁷ A este nível, importa recordar a excessiva dependência do petróleo como uma das principais fragilidades de Angola. Na verdade, a queda das receitas petrolíferas pressiona fortemente as contas públicas e evidencia «a excessiva dependência do petróleo, apesar das tentativas de diversificação».¹⁸

A cooperação com o Brasil no domínio agroindustrial insere-se, assim, numa agenda mais vasta de diversificação económica que o governo angolano tem como prioridade declarada, mas que enfrenta obstáculos estruturais significativos.

5. Transição energética, agricultura e o horizonte de 2035

A componente de longo prazo da cooperação entre os dois países centra-se na transição energética e no desenvolvimento do potencial agroindustrial. Em Janeiro de 2026, uma missão do Ministério da Agricultura do Brasil, liderada pelo Ministro Carlos Fávaro, visitou Angola com o objectivo de avançar acordos de cooperação agrícola e promover investimentos de produtores brasileiros no país, incluindo a transferência de conhecimento e tecnologia para reforçar a produção agrícola angolana.¹⁹

A proposta brasileira, formalmente apresentada ao governo angolano, prevê investimentos na ordem dos US$ 120 milhões, com concessão de aproximadamente 20 mil hectares em províncias como Cuanza Norte, Uíge e Malanje, com foco em lavouras de grãos e proteína animal.²⁰ Esta cooperação tem antecedentes históricos relevantes: a partir dos anos 2000, Angola beneficiou-se já de programas de transferência de tecnologia agrícola brasileira, incluindo a visita de missões da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) que avaliaram o potencial produtivo das savanas angolanas, regiões edafo-climáticas semelhantes ao cerrado brasileiro cujo desenvolvimento agrícola foi revolucionado pela cooperação nipo-brasileira nas décadas de 1970 e 1980.²¹

A transição energética constitui outro factor central desta parceria. A cooperação Petrobras-Sonangol, consagrada no Memorando de Entendimento assinado em Maio de 2025, abrange não apenas a exploração de hidrocarbonetos mas também o desenvolvimento de projectos de pesquisa e inovação nas áreas de energias renováveis, petróleo e gás, num contexto em que tanto Angola quanto Brasil procuram diversificar as suas matrizes energéticas.²² A Sonangol tem vindo a investir em projectos de energia solar fotovoltaica — como a central da Quilemba, na província da Huíla, com 35 MW de capacidade inicial — enquanto a Petrobras anunciou, no seu Plano Estratégico 2050 e Plano de Negócios 2025-2029, investimentos na ordem de US$ 16,3 mil milhões em transição energética e baixo carbono, abrangendo hidrogénio, biocombustíveis e geração renovável.²³

No plano multilateral, o Brasil lançou, em Outubro de 2025, o Compromisso de Belém 4x, uma iniciativa negociada com a Índia, a Itália e o Japão, com apoio da Agência Internacional de Energia, que estabelece a meta de quadruplicar a produção e o uso de combustíveis sustentáveis até 2035.²⁴ Apesar de não ser signatária inicial, Angola surge como potencial parceiro Sul-Sul na agenda de transição energética que estrutura a cooperação bilateral com o Brasil — num momento em que a economia de baixo carbono continua a ser uma meta estratégica, e não ainda uma realidade consolidada. Para Angola, o alinhamento com a agenda de descarbonização liderada pelo Sul Global — e em particular pelo Brasil, que aspira a uma posição de liderança global em energias renováveis e biocombustíveis — oferece a oportunidade de diversificar parcerias tecnológicas, reduzindo a dependência prolongada dos hidrocarbonetos.

Relativamente à parceria agroindustrial, esta beneficia de um enquadramento mais amplo de cooperação científica e técnica. O Projecto de Fortalecimento das Instituições Angolanas de Pesquisa Agropecuária e Florestal para o Desenvolvimento Sustentável de Regiões Semiáridas, assinado em Maio de 2025 e coordenado pela Embrapa, evidencia a capacitação institucional que distingue esta fase da cooperação bilateral das anteriores. O projecto não se limita à transferência de tecnologia, incluindo também a formação de quadros técnicos angolanos capazes de adaptar soluções agrícolas sustentáveis às realidades locais.²⁵

6. Leituras geopolíticas: Angola no Sul Global

A análise desta parceria não pode deixar de considerar o contexto geopolítico mais amplo em que se insere. O activismo externo de Luanda nos últimos anos — da mediação do conflito entre a RD do Congo e o Ruanda à participação no G20, passando pelo aprofundamento das relações com a União Europeia e com o Corredor do Lobito — revela uma política externa que, sem abandonar o pragmatismo histórico do MPLA, procura diversificar as parcerias e aumentar a autonomia estratégica de Angola.²⁶

Assim, a relação com o Brasil assume uma função específica e insubstituível: permite ao país projectar-se no Sul Global sem a carga ideológica das relações com Moscovo ou Pequim, e sem a assimetria de poder das relações com Washington ou Bruxelas. O Brasil partilha com Angola não apenas a língua e a história, mas também a condição de potência média em ascensão, a vulnerabilidade face à volatilidade dos mercados de commodities, e a aspiração a uma ordem internacional mais multipolar e equitativa.

Como já foi aqui sublinhado, Angola enfrenta um dilema estratégico num mundo em reconfiguração acelerada, em que «o vazio deixado pelos EUA é rapidamente preenchido por potências rivais como a China e a Rússia, que intensificaram os seus investimentos em infraestrutura, segurança e formação militar em África».²⁷ A parceria com o Brasil oferece uma via de inserção internacional que respeita a soberania angolana e a pluralidade das suas opções, sem dependência exclusiva de nenhuma das grandes potências em competição.

7. Conclusão: um eixo Sul-Atlântico com potencial estruturante

Os quatro pilares analisados — diplomacia multilateral, segurança atlântica, financiamento e desenvolvimento económico, transição energética — convergem para uma conclusão: esta parceria tem condições objectivas para se transformar num eixo estruturante da política externa angolana nas próximas décadas.

Para que esse potencial se concretize, serão necessárias condições adicionais. Do lado angolano, a diversificação efectiva da economia, a melhoria do ambiente de negócios e a consolidação do Estado de direito são condições fundamentais para que o financiamento e a cooperação se transformem em desenvolvimento sustentável. Do lado brasileiro, a continuidade das opções de política externa activa para África — que o governo Lula restaurou após o recuo do período Bolsonaro — é condição de credibilidade e de longo prazo.

O eixo Sul-Atlântico entre Angola e o Brasil possui as condições históricas, geopolíticas e económicas para se afirmar como um dos mais relevantes pilares da inserção internacional de Luanda num século XXI crescentemente marcado pela competição entre grandes potências e pela emergência de um Sul Global como actor colectivo de pleno direito.

REFERÊNCIAS

¹ Amilcar Tchinguelessy, «Impulsionando a cooperação Brasil-Angola: A inclusão estratégica de Angola no G20, 2025», https://atchinguelessy.com/blog/angola-no-g20/

² Ibid.

³ Agência Gov, «Brasil e Angola celebram 50 anos de relações com novos acordos bilaterais», 23 de Maio de 2025, https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202505/brasil-e-angola-celebram-50-anos-de-relacoes-com-novos-acordos-bilaterais-durante-visita-do-presidente-joao-lourenco

⁴ Ibid. Ver também: Agência Brasileira de Cooperação, «Agricultura sustentável: Brasil e Angola firmam acordo de cooperação em meio ambiente», 26 de Maio de 2025, https://www.gov.br/abc/pt-br/assuntos/noticias/agricultura-sustentavel-brasil-e-angola-firmam-acordo-de-cooperacao-em-meio-ambiente

⁵ JTM, «Luanda: condições favoráveis para integrar os BRICS» Julho 2025, https://jtm.com.mo/actual/luanda-condicoes-favoraveis-para-integrar-os-brics/

⁶ CEDESA, «Angola e a Nova Ordem Pós-Internacional (de Trump e outros)», 3 de Abril de 2025, https://www.cedesa.pt/2025/04/03/angola-e-a-nova-ordem-pos-internacional-de-trump-e-outros/

⁷ Ministério das Relações Exteriores do Brasil (Itamaraty), «ZOPACAS – IX Reunião Ministerial 2026», https://www.gov.br/mre/pt-br/zopacas

⁸ Instituto da Defesa Nacional (Portugal), «IDN Brief», Outubro de 2023, https://www.idn.gov.pt/pt/publicacoes/idnbrief/Documents/2023/IDN%20brief%20outubro%202023.pdf

⁹ Ministério da Defesa do Brasil, «Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS) 2025», https://www.gov.br/defesa/pt-br/assuntos/relacoes-internacionais/foruns-internacionais-1/zona-de-paz-e-cooperacao-do-atlantico-sul-zopacas

¹⁰ Defesa em Foco, «Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS)», 22 de Janeiro de 2023, https://www.defesaemfoco.com.br/es/conheca-a-zona-de-paz-e-cooperacao-do-atlantico-sul-zopacas/

¹¹ Agência Marinha de Notícias, «Marinha realiza Seminário sobre cooperação e segurança no Atlântico Sul», 25 de Outubro de 2023, https://www.agencia.marinha.mil.br/especial/marinha-realiza-seminario-sobre-cooperacao-e-seguranca-no-atlantico-sul

¹² Senado Federal do Brasil, «Acordo entre Brasil e Angola na área de Defesa passa na CRE», 24 de Março de 2022, https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2022/03/24/acordo-entre-brasil-e-angola-na-area-de-defesa-passa-na-cre

¹³ Ministério da Defesa do Brasil, «Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS)», op. cit.

¹⁴ Moreira, Luís Gustavo Guerreiro, «Prioridades para a cooperação brasileira no Atlântico Sul», Tensões Mundiais, vol. 12, n.º 22, 2016, pp. 347–358, disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/tensoesmundiais/article/download/290/218/818

¹⁵ Agência Gov, «Polícia Federal assina Memorando de Entendimento com a Polícia Nacional da Angola», 24 de Maio de 2025, https://www.gov.br/pf/pt-br/assuntos/noticias/2025/05/policia-federal-assina-memorando-de-entendimento-com-a-policia-nacional-da-angola

¹⁶ PlatinaLine, «BNDES de volta a Angola com financiamento e cooperação», Janeiro de 2026, https://platinaline.com/bndes-de-volta-a-angola-com-financiamento-e-cooperacao/

¹⁷ CEDESA, «Estratégia Angola 2050 – uma análise (I)», 11 de Junho de 2023, https://www.cedesa.pt/2023/06/11/estrategia-angola-2050-uma-analise-i/

¹⁸ CEDESA, «Angola 2025: sombras e esperanças económicas», 10 de Setembro de 2025, https://www.cedesa.pt/2025/09/10/angola-2025-sombras-e-esperancas-economicas/

¹⁹ Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil, «Ministro Fávaro cumpre agenda em Angola para avançar acordo bilateral na produção agrícola», 20 de Janeiro de 2026, https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/noticias/ministro-favaro-cumpre-agenda-em-angola-para-avancar-acordo-bilateral-na-producao-agricola

²⁰ Terra Brasil Notícias, «Megaprojeto vai levar agricultores brasileiros a Angola com concessão de 20 mil hectares para cultivo e prevê investimento de R$ 621,6 milhões», Janeiro de 2026, https://terrabrasilnoticias.com/2026/01/megaprojeto-vai-levar-agricultores-brasileiros-a-angola-com-concessao-de-20-mil-hectares-para-cultivo-e-preve-investimento-de-r-6216-milhoes/

²¹ Amilcar Tchinguelessy, «Impulsionando a cooperação Brasil-Angola: A inclusão estratégica de Angola no G20», op. cit. Ver também: Embrapa, «Embrapa e JICA atuarão juntas em projetos para África», https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/18042368/embrapa-e-jica-atuarao-juntas-em-projetos-para-africa

²² Safras & Mercado, «Presidente Lula assina acordos de cooperação com Angola; Petrobras assina com Sonangol», 23 de Maio de 2025, https://safras.com.br/presidente-lula-assina-acordos-de-cooperacao-com-angola-petrobras-assina-com-sonangol/

²³ Sonangol, «Quilemba Solar vai fornecer energia à Rede Nacional de Electricidade», 8 de Janeiro de 2025, https://www.sonangol.co.ao/quilemba-solar-vai-fornecer-energia-a-rede-nacional-de-electricidade/ ; Agência Petrobras, «Petrobras lança Plano de Negócios 2025-2029 com investimentos de US$ 111 bilhões», 21 de Dezembro de 2024, https://agencia.petrobras.com.br/pt/w/negocio/petrobras-lanca-plano-de-negocios-2025-2029-com-investimentos-de-us-111-bilhoes

²⁴ Diplomacia Business, «Brasil lança o ‘Compromisso de Belém 4x’ para quadruplicar combustíveis sustentáveis até 2035», 15 de Outubro de 2025, https://www.diplomaciabusiness.com/brasil-lanca-o-compromisso-de-belem-4x-para-quadruplicar-combustiveis-sustentaveis-ate-2035/

²⁵ Agência Brasileira de Cooperação, «Agricultura sustentável: Brasil e Angola firmam acordo de cooperação em meio ambiente», 26 de Maio de 2025, https://www.gov.br/abc/pt-br/assuntos/noticias/agricultura-sustentavel-brasil-e-angola-firmam-acordo-de-cooperacao-em-meio-ambiente

²⁶ CEDESA, «Angola e a Nova Ordem Pós-Internacional (de Trump e outros)», op. cit.

²⁷ CEDESA / RTP Notícias, «Política externa de Trump é “transacional e oportunista” e Angola deve ser realista», Julho de 2025, https://www.rtp.pt/noticias/economia/politica-externa-de-trump-e-transacional-e-oportunista-e-angola-deve-ser-realista_n1670889

O Fecho do Estreito de Ormuz e as Implicações Estratégicas para Angola: Um Ensaio de Geopolítica e Inteligência Estratégica

Adalberto Malú: Especialista em Relações Internacionais | Analista Geopolítico | Docente Universitário |Investigador Associado – CEDESA

Introdução

O recente ataque ao petroleiro Sonangol Namibe, ancorado em águas iraquianas, surge como um marco crítico na escalada da tensões no Golfo Pérsico. Este episódio, que envolve engenhos controlados remotamente e reivindicações simultâneas de ataques por parte da Guarda Revolucionária do Irão, evidencia a crescente vulnerabilidade do Estreito de Ormuz, rota pela qual transita aproximadamente 20% do petróleo mundial.

O estreito não é apenas um canal de transporte de hidrocarbonetos; representa um ponto nodal de geopolítica, energia e segurança internacional. Este ensaio procura analisar, de forma crítica, os efeitos de um fecho parcial ou total do estreito, não apenas no plano global, mas especialmente sobre Angola, uma economia emergente altamente dependente do petróleo. Pretende-se, igualmente, apresentar recomendações estratégicas para mitigar os riscos e explorar as oportunidades derivadas deste cenário.

1. O Estreito de Ormuz: Um Corredor Estratégico

A importância do Estreito de Ormuz transcende a dimensão geográfica. Diariamente, cerca de 20 milhões de barris de petróleo e 20% do comércio global de LNG passam por este corredor, sendo crítico para a estabilidade energética mundial.

Qualquer perturbação nesta rota provoca efeitos imediatos nos mercados globais, repercutindo-se em preços, segurança energética, geopolítica e fluxos de investimento. O estreito constitui, portanto, uma vulnerabilidade sistémica, cuja gestão envolve não apenas os Estados da região, mas também actores globais como os EUA, a China, a União Europeia e o Japão.

2. Impactos Globais e Cenários Possíveis

a) Choques no mercado energético

O fecho do estreito leva, inevitavelmente, a aumentos abruptos no preço do petróleo. Cenários históricos sugerem que interrupções prolongadas podem elevar o preço do crude para patamares entre US$ 100 e 120 por barril, impactando economias dependentes das importações energéticas.

A volatilidade resultante influencia também a produção industrial, transporte global e logística, criando um efeito dominó que atinge países em todos os continentes.

b) Reconfiguração geopolítica

As grandes potências são forçadas a reavaliar alianças, operações militares e mecanismos de segurança marítima. Um bloqueio prolongado pode acelerar a militarização das rotas, incentivando parcerias estratégicas e redefinir a ordem regional de poder.

3. Angola: Análise Crítica das Consequências

Embora Angola não dependa do estreito para o escoamento do petróleo, os efeitos indirectos sobre a sua economia e política externa são significativos.

a) Perspectiva económica

O aumento global dos preços do petróleo pode gerar receitas adicionais de divisas, porém a volatilidade compromete a previsibilidade de investimentos, planejamento fiscal e os contratos de longo prazo. O câmbio e a dívida externa são igualmente afectados pela incerteza nos mercados globais.

b) Segurança energética e logística

Angola deve avaliar as rotas alternativas e reforçar os protocolos de segurança portuária e marítima. A resiliência da infraestrutura crítica é determinante para manter a confiabilidade das exportações e a confiança dos parceiros internacionais.

c) Diplomacia económica estratégica

O cenário actual é uma oportunidade para Angola consolidar alianças estratégicas, diversificar os mercados consumidores e fortalecer sua actuação em fóruns multilaterais, garantindo uma posição de influência nas negociações de preços e contratos de energia.

4. Reflexão Crítica e Recomendações

O fecho do Estreito de Ormuz evidencia a necessidade de Angola combinar a análise estratégica, a diplomacia económica e a gestão de risco. Recomenda-se:

               1. Fortalecer os sistemas de inteligência estratégica, monitorando os riscos geopolíticos, energéticos e financeiros.

               2. Intensificar a diplomacia económica, ampliando as parcerias comerciais e negociar contratos flexíveis.

               3. Diversificação estrutural da economia, reduzir a dependência do petróleo e aumentar a resiliência frente aos choques externos.

               4. Coordenação institucional com os actores privados e internacionais, assegurando respostas rápidas a crises globais e regionais.

Conclusão

O ataque ao Sonangol Namibe e a escalada das tensões no Estreito de Ormuz não são incidentes isolados, mas indicadores de instabilidade sistémica global. Angola, enquanto actor emergente e exportador relevante de petróleo, tem perante si desafios e oportunidades estratégicas: proteger os seus interesses económicos, fortalecer a diplomacia e consolidar a sua projecção internacional.

A capacidade de compreender e responder a estes choques determinará não apenas o desempenho económico, mas também a posição política e estratégica do país no contexto global contemporâneo.

Referências e Fontes

UGM: Why the Strait of Hormuz is So Important

CNBC: What a Supply Disruption Could Mean for Oil Markets

Euronews: Importância Estratégica do Estreito de Ormuz

The Guardian: China Calls for Protection Vessels amid Soaring Shipping Costs

O ano de Angola na União Africana: Diplomacia de pacificação e afirmação; segue Burundi…

Eugénio Costa Almeida*

Introdução

No passado 13 de Fevereiro de 2026, a União Africana (UA) encerrou um dos capítulos mais dinâmicos da sua história recente. A presidência de João Lourenço, Presidente da República de Angola, chegou ao fim, entregando o testemunho ao Burundi, no fim-de-semana de 14º15 de Fevereiro, durante o 39ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da UA, ocorrida em Adis-Abeba, Etiópia.

Este não foi apenas um ano de gestão administrativa; foi um período em que a “Diplomacia do Diálogo” angolana foi testada no palco mais complexo do mundo.

Ainda assim, em certos sectores do Continente, ficaram situações críticas por resolver, nomeadamente, os conflitos político-militares no Sudão e na RDC, as crises político-diplomáticas no Sahel e, mais recentemente, na Somalilândia – que viu a sua secessão, declarada em Maio de 1991, agora reconhecida por Israel –, bem como na Guiné-Bissau.

I. O Impacto no seio internacional: África como sujeito, não objecto

Historicamente, a União Africana foi vista por muitos parceiros externos como uma entidade reativa. Sob a liderança de Angola, essa percepção sofreu uma mutação significativa. O impacto internacional do mandato de João Lourenço pode ser medido em três eixos fundamentais:

  1. A consolidação no G20:Angola herdou a responsabilidade de operacionalizar a voz de África no G20. João Lourenço não se limitou a ocupar a cadeira; ele utilizou o fórum para exigir uma reforma sistémica das instituições de Bretton Woods (FMI e o Grupo Banco Mundial). O impacto foi claro: pela primeira vez, houve um consenso alargado sobre a necessidade de mecanismos de alívio da dívida que não estrangulassem o crescimento dos países em desenvolvimento. A presença angolana garantiu que a “voz de Adis-Abeba” fosse técnica, assertiva e economicamente fundamentada.
  2. A geopolítica das parcerias energéticas: Num mundo sedento por transicção energética, Angola tudo procurou fazer por posicionar a UA como um parceiro estratégico indispensável. Ao liderar diálogos com a União Europeia (UE) e a China, o presidente angolano defendeu que África não deve ser visto, unicamente, como uma mina de “minerais críticos” (lítio, cobalto, tantalite e columbite – vulgo, coltan –, manganês, vanádio, titânio ou bauxite), mas sim como um potencial centro de processamento industrial. Este posicionamento alterou a dinâmica das negociações internacionais, forçando investidores a incluir cláusulas de “know-how”, como transferência de tecnologia e elevar a  industrialização local.
  3. O multilateralismo activo: Em tempos de fragmentação global, Angola manteve uma postura de não-alinhamento pragmático. O impacto internacional foi o de uma África que se recusa a eleger lados em guerras por procuração, focando-se antes na defesa do Direito Internacional e na integridade territorial, princípios que Luanda sempre defendeu e usou da sua influência para a defender arduamente devido à sua própria história de guerra-civil e agressão externa.

II. Visibilidade política e diplomática: a “marca Lourenço”

João Lourenço procurou firmar na UA o que muitos analistas chamam de “Diplomacia Presidencial de Alta Intensidade”, devido à sua intervenção pró-activa, directa e incansável na resolução de conflitos, na promoção da paz e no posicionamento de Angola como actor central na estabilidade do continente. A visibilidade que ele deu à organização não foi apenas estética, mas operacional.

  1. O Processo de Luanda como referência: A crise no Leste da República Democrática do Congo (RDC) foi o grande teste. Lourenço, designado por alguns analistas, nomeadamente o académico Afonso Botaz como “Campeão da Paz e Reconciliação em África”, elevou a mediação regional ao nível de prioridade global. Ele conseguiu colocar o Presidente congolês-democrata Félix Tshisekedi e o Presidente ruandês Paul Kagame à mesma mesa em momentos críticos. Embora a paz seja um processo contínuo e frágil, a UA ganhou visibilidade como o único mediador capaz de navegar nas sensibilidades históricas da Região dos Grandes Lagos.
  2. O protagonismo na Assembleia-Geral da ONU: O discurso do presidente angolano, enquanto presidente em exercício da UA, nas Nações Unidas, foi marcante. Lourenço deu visibilidade à exigência histórica de dois assentos permanentes para África no Conselho de Segurança. Ele não o fez como um pedido de favor, mas como uma correcção de uma injustiça histórica necessária para a legitimidade do sistema multilateral. De notar que, ainda recentemente o Secretário-geral, António Guterres, reafirmou que África deveria ter esses assentos.
  3. Diplomacia de infra-estruturas: Ao promover o Corredor do Lobito como um projecto de interesse continental e global (com apoio dos EUA e da UE), o presidente Lourenço mostrou que a UA pode liderar projectos que integrem o comércio transcontinental. Isto deu à UA uma imagem de modernidade e viabilidade económica, afastando-se do habitual estereótipo de “gestora de crises”.

III. O papel da UA no sistema político global: sucessos e limitações

Terá conseguido a UA afirmar-se como um polo de poder? A resposta conduz-nos a um “sim” habilitado.

Sob a égide de Angola, a UA conseguiu:

  1. Bloquear eventuais tentativas de divisão do continente: Em questões de alta sensibilidade internacional, a UA manteve uma posição coesa, impedindo que potências externas procurasse fragmentar o voto africano em fóruns internacionais; de certa forma e na grane maioria dos casos, conseguiu-o.
  2. Influenciar a agenda climática: Na COP brasileira, a liderança angolana foi crucial para que o “Fundo de Perdas e Danos” começasse a ser capitalizado, argumentando que África é o continente que menos polui, mas o que mais sofre. Ainda assim, reconheçamos que ficou aquém do expectável. Mas “step-by-step” o caminho faz-se caminhando.

Contudo, o sistema político global ainda é dominado pelo poder de veto e pela força económica. A UA, e apesar do brilho diplomático de Angola, ainda luta contra a dependência financeira do seu próprio orçamento (muito dependente de parceiros externos). O papel alcançado foi mais o de um poder moral e estratégico, mas onde a autonomia financeira total continua a ser o maior  “calcanhar de Aquiles” do Continente.

IV. O Legado de Angola: diplomacia activa em tempos de crises

O que a UA herda de Angola foi uma doutrina de acção. Em tempos de golpes de Estado – no Sahel e na Guiné-Bissau – e instabilidade no Corno de África – a crise no Tigré, a questão de secessão somalilândia e a Grande Barragem do Renascimento Etíope (GBRE), que persiste colocar fortes questões geopolíticas, hídricas e de segurança colocadas pelo Sudão e pelo Egipto –, pode-se dizer que o legado de Luanda se baseia em quatro pilares:

  1. O princípio da solução Africana para problemas Africanos: Angola provou que a intervenção externa muitas vezes agrava os conflitos. O legado é uma UA que deve confiar mais nos seus mecanismos regionais (nas Organizações Regionais e nos Sistemas de Intervenção Rápida – as African Stand-by Forces.) coordenados centralmente;
  2. Institucionalização da Paz: A criação de centros de monitorização de conflitos e o reforço do Conselho de Paz e Segurança da UA (CPS-UA) foram marcas da gestão angolana.
  3. Realismo diplomático: Ao contrário de presidências anteriores mais idealistas, Lourenço procurou assentar a sua diplomacia num realismo frio. Ele compreendeu que a diplomacia sem o apoio da segurança e da economia é (totalmente) ineficaz;
  4. Resiliência institucional: Angola ajudou a reformar processos internos da Comissão da UA, tornando-a mais ágil na resposta a emergências sanitárias e desastres climáticos, paradigma aprendido durante as crises de saúde pública do passado.

V. A sucessão pelo Burundi: o que esperar?

A partir de agora, e durante um ano, a presidência rotativa passa para o Burundi, sob a liderança do Presidente Évariste Ndayishimiye. A transicção de um gigante petrolífero e militar como Angola para um país menor e encravado como o Burundi levanta inúmeras e pertinentes questões importantes.

  1. O Desafio da Continuidade

O Burundi assume a UA num momento em que os processos iniciados por Angola (especialmente na RDC) estão em fase crítica. Ndayishimiye terá o desafio de manter a autoridade da UA sem possuir o mesmo “músculo” financeiro e diplomático que Luanda projectou e com um vizinho, o Ruanda, que, não poucas vezes, pelo contrário, mostra pouca apetência para o diálogo intra e extra africano.

2. As Prioridades do Burundi

Espera-se que o mandato do Burundi se foque em:

  1. Juventude, paz e segurança e silenciamento das “armas”: O Presidente Ndayishimiye tem sido um forte defensor da inclusão dos jovens nos processos de decisão. O seu principal objectivo para pela “tolerância zero” sobre mudanças inconstitucionais de governo (golpes de Estado) e no fortalecimento da estabilidade regional;
  2. Desenvolvimento económico e reforço da Agenda 2063: O foco burundês pasará pelo acelerar da industrialização, da transformação agrícola e pelo desenvolvimento de infra-estruturas, visando a independência financeira do continente e a concretização dos objectivos da Agenda 2063;
  3. Agricultura e segurança alimentar: Sendo um país com forte base agrícola, o Burundi não deixará de procurar priorizar a resiliência alimentar, um tema vital após as disrupções nas cadeias de abastecimento globais, nomeadamente, com as tarifas de Donald Trump;
  4. Gestão e segurança de recursos hídricos e saneamento: O tema da água será central para a presidência de Ndayishimiye, especialmente num continente onde o stress hídrico é um catalisador de guerras – não esquecer a crise que a GBRE, desde a sua pojecção até à sua utilização tem criado na região etíope-sudanesa-egípcia –. Neste sentido, o Burundi coloca a garantia de acesso à água segura e sistemas de saneamento como uma prioridade estratégica, essencial para a saúde pública, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável;
  5. Reforço da voz da África na governação global: O presidente burundês propõe-se fortalecer a posição de África no areópago internacional, clamando por um mundo mais justo, equilibrado e inclusivo, onde inclui, inevitavelmente, a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas;
  6. Cooperação e consenso: Ndayishimiye assegurou que a sua presidência baseada assentará no diálogo, na escuta e na cooperação com todos os Estados-membros, visando promover a unidade continental face aos persistentes desafios económicos e climáticos no que o Continente é sistémico, ou seja, à manutenção de falta de desafios estruturais profundos, inter.conectados e persistentes que afectam o funcionamento do continente como um todo, transcendendo fronteiras nacionais e governos individuais, entre si inter-ligados, criando ciclos viciosos de sub-desenvolvimento, instabilidade e pobreza que dificultam o crescimento a longo prazo.

3. O risco de introversão

O grande problema é que a UA perca o “fôlego” global que Angola lhe deu, na medida em que, tudo o parece indicar, as principais linhas de actuação e os grandes objectivos do Burundi aparente poder tender para uma agenda mais interna e regional. Recordo o que já afirmei antes: o Burundo tem um vizinho, Ruanda, que mostra muita apetência para olhar só para si e para os seus interesses… Todavia, se o Burundi souber capitalizar as estruturas de mediação deixadas por Angola, poderá surpreender ao focar-se na “diplomacia de proximidade” e levar por diante dois dos seus propalados objectivos: cooperação e consenso no reforço da voz da África na governação global.

Conclusão: De Luanda para Bujumbura…

O mandato de Angola (2025-2026) poderá ser recordado – veremos as “sequelas” – como o ano em que a União Africana se comportou como uma potência emergente. O presidente João Lourenço deixou a presidência com a imagem de um estadista que procurou saber ler os sinais dos tempos: um mundo multipolar onde África não pode ser apenas um espectador.

Angola deu à UA mais voz, músculo e direcção. O Burundi recebe agora uma organização com as expectativas elevadas. A incerteza global permanece, mas a arquitectura diplomática africana sai deste mandato mais robusta, mais conectada com o G20 e, acima de tudo, mais consciente de que a estabilidade do mundo passa, obrigatoriamente, pela estabilidade e prosperidade do continente africano. Indispensável!

Este é o fim de um ciclo de afirmação e o início de um ciclo que se deseja de consolidação social. O balanço final tende a ser positivo: Angola não serviu apenas a sua própria agenda, mas procurou servir de ponte para que o continente falasse a “uma só voz” num momento em que o mundo mais precisa(va) de ouvir a razão.

Algumas referências

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African Union. (2026a). African Union’s 51st Permanent Representatives’ Committee Session concludes. African Union Commission, January 30, 2026; https://au.int/en/pressreleases/20260130/african-unions-51st-permanent-representatives-committee-session-concludes

African Union. (2025). Decision on the African Union Theme of the Year 2026 “Assuring Sustainable Water Availability and Safe Sanitation Systems to Achieve the Goals of Agenda 2063”. Assembly of the African Union, 16 Fevereiro 2025; https://africanlii.org/pt/akn/aa-au/doc/decision/2025-02-16/912/eng@2025-02-16

Bembe, Miguel Domingos. (2016). A Política Externa Angolana: Doutrina e prática. Revista Mulemba, 6 (11) | 2016, p. 25-55; https://doi.org/10.4000/mulemba.1281

Esteves, César. (2026b). João Lourenço: “África que queremos só será possível se conseguirmos silenciar as armas”. . Jornal de Angola, ed 18081, 15 de Fevereiro. 2026, p. 1, 4 e 5

Esteves, César. (2026a). Presidente João Lourenço termina hoje mandat de um ano na União Africana. Jornal de Angola, ed 18080, 14 de Fevereiro. 2026, p. 1 e 3

ISS-Africa. (2025). Can Angola advance African leadership as AU chair? ISS-Africa PSC Report, 11 March 2025; https://issafrica.org/pscreport/psc-insights/can-angola-advance-african-leadership-as-au-chair

Kalan, Mouctar. (2026). La présidence de l’UA passe au Burundi, symbole d’unité et de continuité. Horoya, Fév 14, 2026; https://horoya.net/2026/02/14/la-presidence-de-lua-passe-au-burundi-symbole-dunite-et-de-continuite/

Le Burundi prend la relève de l’Angola à la présidence tournante de l’Union africaine pour l’année 2026. ENA, 14 fevrier 2026; https://www.ena.et/web/fre/w/fre_8310335

Musumba, Lisa. (2026). Carlos Lopes : Africa Aware: Can the African Union withstand fractures to multilateralism?. Chatham House, 13 February 2026; https://www.chathamhouse.org/2026/02/africa-aware-can-african-union-withstand-fractures-multilateralism

Pintinho, Zeferino. (2025). Angola e os Desafios da Estabilidade em África. Lisboa. Perfil Criativo Edições, 2025.

Vines, Alex (s/d).. Angola: Research explores Angola’s economy, politics, extractive industries and international relations. Chatham House; https://www.chathamhouse.org/regions/africa/angola

Eugénio da Costa Almeida*
* Pós-Doutorado; Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL), Investigador-Sénior Associado do Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA/Angola Research Network) e Investigador-Associado do CINAMIL (Academia Militar de Lisboa)

Angola-Rússia sob João Lourenço: pragmatismo estratégico e os limites da cooperação bilateral

Miguel Almeida Dias: Secretário-Geral do CEDESA | Mestre em Economia Política Internacional

Introdução

As relações Angola-Rússia constituem um caso paradigmático de continuidade histórica e reconfiguração estratégica no sistema internacional contemporâneo. Enraizadas em décadas de solidariedade ideológica e apoio soviético durante a guerra de independência e o conflito civil angolano, estas relações atravessaram transformações profundas após o colapso da União Soviética, transitando de um alinhamento baseado em afinidades político-ideológicas para uma parceria fundamentada em interesses económicos e de segurança pragmáticos. Desde a ascensão do Presidente João Lourenço ao poder em setembro de 2017, a política externa angolana tem evidenciado um reajustamento significativo, caracterizado por campanhas anticorrupção, esforços de diversificação económica e uma estratégia de multialinhamento internacional.[1]

Esta análise procura avaliar criticamente a evolução das relações Angola-Rússia durante o mandato de Lourenço (2017-presente), com enfoque particular na cooperação económica nas indústrias extrativas, na colaboração técnico-militar e nas implicações geopolíticas decorrentes da invasão russa da Ucrânia em 2022. Argumenta-se que, não obstante a retórica diplomática favorável ao aprofundamento dos laços bilaterais, a cooperação económica permanece estruturalmente limitada por constrangimentos financeiros russos, sanções internacionais e pela estratégia angolana de diversificação de parcerias, que privilegia múltiplos polos de poder num sistema internacional crescentemente multipolar e fragmentado.[2]

A relevância desta relação bilateral transcende a mera análise das interações diplomáticas convencionais. Angola, enquanto segundo maior produtor de petróleo em África e importante exportador de diamantes, ocupa uma posição estratégica nos mercados globais de matérias-primas. A Rússia, ao procurar reafirmar a sua influência em África após décadas de retração pós-soviética, identifica Angola como parceiro relevante, com laços históricos que remontam ao apoio ao partido que dirige os destinos do país desde a sua independência; o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Contudo, esta relação enfrenta constrangimentos estruturais significativos: a limitada capacidade financeira russa sob sanções ocidentais, a concorrência de investidores chineses e ocidentais, e a necessidade imperiosa de diversificação económica angolana. Compreender esta dinâmica bilateral revela-se essencial para antecipar a evolução da geopolítica na África Austral e avaliar a resiliência de alianças forjadas durante a Guerra Fria no contexto do século XXI.

Fundamentos históricos: da solidariedade soviética ao pragmatismo pós-Guerra Fria

As raízes das relações Angola-Rússia remontam a 1975, quando a União Soviética estabeleceu relações diplomáticas com a recém-independente República Popular de Angola e prestou apoio militar, político e ideológico decisivo ao MPLA durante a luta de libertação e a subsequente guerra civil (1975-2002). A assistência soviética foi abrangente, incluindo equipamento militar, formação de quadros, destacamento de conselheiros militares e ajuda económica, consolidando uma relação estratégica baseada na afinidade ideológica marxista-leninista e na competição geopolítica com forças apoiadas pelas potências ocidentais e pela África do Sul do apartheid.[3]

Esta parceria da Guerra Fria não foi meramente transacional, mas refletiu um alinhamento profundo de visões políticas, com o MPLA a adotar formalmente princípios marxistas-leninistas e a URSS a encarar Angola como ponto chave importante na sua projeção de influência na África Austral.[4]

O colapso da União Soviética em 1991 provocou uma contração acentuada da cooperação bilateral. As relações económicas enfraqueceram significativamente, embora a colaboração político-militar tenha persistido, sobretudo nos esforços multilaterais para resolver o prolongado conflito civil angolano. As décadas de 1990 e o início dos anos 2000 marcaram um período de menor intensidade relacional, enquanto a Federação Russa enfrentava a sua própria transformação política e económica interna, e Angola transitava gradualmente da guerra para a paz sob a liderança de José Eduardo dos Santos. Ainda assim, a relação bilateral não se dissolveu completamente, entrando numa fase de latência mantida por canais diplomáticos e ligações remanescentes no setor da defesa e segurança.

Nas décadas de 2000 e 2010 registou-se uma recuperação gradual, impulsionada pelo renovado interesse russo em África como componente da sua estratégia de reafirmação global e de acesso a recursos naturais e mercados emergentes. Esta nova fase substituiu progressivamente a solidariedade ideológica por interesses económicos e de segurança mais pragmáticos. O Presidente Eduardo dos Santos manteve proximidade política com a Rússia, mas a parceria económica permaneceu assimétrica e limitada por fragilidades institucionais e lacunas estratégicas. Visitas de alto nível e encontros à margem de cimeiras multilaterais deram novo impulso político, embora os avanços económicos concretos tenham permanecido modestos e aquém das expectativas mútuas.[5]

A era Lourenço: continuidade estratégica e reajustamento pragmático (2017-Presente)

A presidência de João Lourenço introduziu simultaneamente elementos de continuidade e mudança nas relações Angola-Rússia. Mantendo formalmente a amizade histórica e os laços derivados do apoio soviético ao MPLA, Lourenço adotou uma política externa mais diversificada e pragmática, procurando equilibrar estrategicamente relações com múltiplas potências globais e regionais. A visita de Estado de Lourenço à Rússia em abril de 2019 ilustrou esta abordagem dual, com destaque para acordos de cooperação na mineração e processamento de diamantes, bem como para compromissos de colaboração económica e técnica mais ampla. Angola procurou beneficiar da experiência tecnológica russa nas indústrias extrativas, particularmente no setor diamantífero, onde a empresa estatal russa Alrosa detinha participação significativa, por exemplo, na mina de Catoca, a maior operação diamantífera angolana.

Contudo, a dimensão económica bilateral não registou a expansão significativa que alguns analistas antecipavam. A Rússia preserva cooperação militar e intercâmbios educativos, mas não se verificaram grandes investimentos ou projetos estruturantes nos setores petrolífero e de gás natural. Este quadro reflete constrangimentos estruturais múltiplos: a menor capacidade financeira russa comparativamente a concorrentes chineses e ocidentais, o impacto progressivamente restritivo das sanções internacionais impostas à Rússia desde 2014 (Crimeia) e intensificadas após 2022 (Ucrânia), e a estratégia deliberada angolana de diversificar investidores e parceiros económicos para evitar dependência excessiva de qualquer ator singular.[6]

A cooperação técnico-militar constituiu historicamente o pilar mais sólido da relação bilateral, mas encontra-se em processo de reconfiguração acelerada desde 2022. O legado é inegável: em 2013, Angola celebrou um contrato de cerca de mil milhões de dólares com a Rosoboronexport para fornecimento de 12 caças Su-30K, helicópteros Mi-17, tanques, munições e peças sobresselentes, incluindo ainda a construção de uma fábrica de munições em território angolano. Contudo, em dezembro de 2022, o próprio Presidente Lourenço declarou publicamente à Voice of America que pretendia convidar os Estados Unidos a participar no programa de reequipamento das FAA, afirmando: “entendemos que chegou o momento de rearmar as FAA com equipamento NATO, e consideramos os EUA o caminho ideal para alcançar esta transição”. Esta declaração — de um presidente cujas forças armadas operam maioritariamente com equipamento de origem soviética — representa uma ruptura estratégica de enorme significado. Em 2024, o Ministro da Defesa angolano deslocou-se ao Pentágono, onde o Secretário de Defesa Lloyd Austin descreveu Angola como “parceiro estratégico” dos EUA, tendo-se iniciado conversações sobre aquisição de veículos logísticos Oshkosh, viaturas táticas General Motors Defence e outro equipamento de fabrico americano. Os dados do SIPRI Arms Transfers Database confirmam esta tendência: entre 2017 e 2024, a única transferência formal de armamento russo registada para Angola foi a entrega dos 12 Su-30K em 2019, não havendo qualquer registo adicional nos anos subsequentes. A cooperação remanescente limita-se essencialmente à manutenção do parque de equipamento soviético existente, à formação de quadros em instituições russas e a intercâmbios educativos de menor dimensão — uma relação que é, cada vez mais, de cliente dependente de suporte técnico herdado do passado, e não de parceria estratégica activa.[7][8][9][10][11]

Parcerias económicas: recursos minerais, energia e limitações estruturais

A arquitetura económica das relações entre os dois Estados concentra-se predominantemente nas indústrias extrativas, com destaque particular para o setor diamantífero. Durante a visita de Estado de 2019, os dois governos enfatizaram a cooperação na prospeção, extração, processamento e valorização de diamantes. A experiência tecnológica russa, particularmente através da Alrosa, foi apresentada como potencial contributo para a estratégia angolana de aumentar o valor acrescentado nacional e reduzir a dependência de exportações de diamantes brutos. Contudo, as sanções internacionais impostas à Alrosa após a invasão da Ucrânia criaram dificuldades operacionais significativas, afetando a credibilidade de Angola nos mercados internacionais de diamantes e conduzindo à decisão governamental de forçar a saída da empresa russa, substituída por investidores do Omã em 2024-2025.[12][13]

No setor estratégico do petróleo e gás natural, a cooperação bilateral permanece notavelmente limitada. Apesar de ambos os Estados serem produtores relevantes de hidrocarbonetos a nível global, não se registaram avanços económicos significativos neste domínio. O setor petrolífero angolano continua dominado por empresas multinacionais ocidentais (TotalEnergies, BP, Chevron, ExxonMobil) e, crescentemente, por empresas estatais chinesas. As empresas russas, incluindo a Rosneft, enfrentam limitações financeiras, tecnológicas e logísticas substanciais, agravadas progressivamente por sucessivas rondas de sanções ocidentais, o que dificulta severamente a sua capacidade competitiva em Angola.

Os fluxos comerciais e de investimento direto estrangeiro (IDE) entre Angola e Rússia são modestos quando comparados com as relações económicas angolanas com a China, a União Europeia e os Estados Unidos. Apesar do discurso político oficial favorável ao reforço dos laços económicos bilaterais, os volumes efetivos de comércio bilateral e de investimento russo em Angola mantêm-se reduzidos. Esta realidade reflete padrões mais amplos das relações económicas Rússia-África, onde o dinamismo diplomático e a projeção de soft power nem sempre se traduzem em resultados económicos tangíveis e estruturantes.[14]

Entre os principais constrangimentos à expansão económica bilateral destacam-se: (i) a menor disponibilidade de financiamento de desenvolvimento por parte da Rússia comparativamente à China e às instituições financeiras internacionais; (ii) o impacto cumulativo e progressivamente restritivo das sanções ocidentais sobre entidades e setores económicos russos; (iii) os desafios económicos internos de Angola, incluindo níveis elevados de dívida pública, necessidade urgente de diversificação económica e constrangimentos institucionais; e (iv) a concorrência intensa de parceiros económicos que oferecem pacotes integrados de investimento, transferência tecnológica, financiamento concessionado e acesso preferencial a mercados de consumo.

Implicações geopolíticas: multialinhamento estratégico na era Pós-2022

A invasão russa da Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022 marcou um ponto de inflexão crítico nas relações Angola-Rússia e, mais amplamente, na diplomacia africana contemporânea. O conflito obrigou os Estados africanos, incluindo Angola, a gerir pressões concorrentes entre a Federação Russa, as potências ocidentais e os seus próprios interesses nacionais. O padrão de votação angolano na Assembleia Geral das Nações Unidas revela uma posição mais complexa do que a de simples não-alinhamento: Angola absteve-se na resolução de março de 2022 que condenava a invasão (ES-11/1), partilhando essa posição com outros 16 países africanos; contudo, em outubro de 2022, votou expressamente a favor da resolução ES-11/4 que declarava ilegais as anexações russas das regiões ucranianas de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporíjia, justificando o voto com o princípio da integridade territorial consagrado na Carta das Nações Unidas e no Acto Constitutivo da União Africana. Esta diferenciação de posições — abstenção na condenação da invasão, mas voto favorável contra as anexações — traduz um posicionamento calibrado que procura distinguir a questão da soberania territorial, de natureza jurídica mais clara, da questão política mais ampla da atribuição de responsabilidades pelo conflito.[15]

Este padrão de votação diferenciada reflecte um cálculo pragmático multidimensional. Angola procura preservar relações funcionais com múltiplos parceiros estratégicos e evitar custos políticos, diplomáticos e económicos associados à escolha inequívoca de um dos lados num confronto geopolítico que não ameaça directamente os seus interesses de segurança nacional. A memória histórica do apoio soviético durante a guerra civil influencia esta postura de equidistância, mas não impede Angola de defender princípios jurídicos fundamentais — como a integridade territorial — quando a pressão diplomática multilateral o exige. Simultaneamente, o país afirma crescentemente a sua autonomia estratégica e rejeita alinhamentos automáticos em questões externas ao continente africano, procurando posicionar-se como potência média emergente com capacidade de mediação e influência regional.

A Rússia tem intensificado significativamente a sua diplomacia em África, apresentando-se como parceiro sem legado colonial histórico e oferecendo cooperação em segurança sem condicionalidades políticas explícitas relacionadas com governação democrática ou direitos humanos. Contudo, a capacidade económica russa de sustentar esta ofensiva diplomática permanece severamente limitada por sucessivas rondas de sanções ocidentais e por restrições financeiras internas. Angola segue uma estratégia deliberada de multialinhamento que lhe permite manter simultaneamente laços históricos de defesa e segurança com a Rússia, parcerias económicas estruturantes com a China, e acesso privilegiado a mercados ocidentais e instituições financeiras internacionais. Esta gestão estratégica de múltiplas parcerias exige equilíbrio diplomático constante e capacidade sofisticada de navegação em contextos geopolíticos crescentemente polarizados.[16]

Não esquecer, todavia, do designado “cinturão russo”, situado na região do Sahel. João Lourenço procura firmar Angola como potência regional, com proximidade ao Ocidente e relações funcionais com a China e a Rússia, defendendo simultaneamente soluções africanas para problemas africanos. Assim, a consolidação de um “cinturão russo” em África constitui um obstáculo estratégico a essa ambição. Uma presença russa reforçada na articulação entre o Norte e o Sul do continente tende a reduzir a margem de projeção regional de Angola e a reintroduzir dinâmicas de rivalidade entre grandes potências, reminiscentes da Guerra Fria. Deste modo, tal configuração geopolítica colide com os interesses regionais de Angola e com a sua aposta na estabilidade e na resolução autónoma de conflitos em África.[17]

Cenários futuros: trajetórias plausíveis para a próxima década

A evolução futura das relações Angola-Rússia dependerá criticamente de múltiplos fatores estruturais e conjunturais: a posição internacional da Rússia após o eventual término do conflito na Ucrânia, a evolução política interna angolana (incluindo as eleições de 2027), a dinâmica dos mercados globais de matérias-primas, e as estratégias competitivas de potências concorrentes, particularmente China e Estados Unidos. Três cenários principais emergem como plausíveis.

Primeiro: um cenário de aprofundamento pragmático limitado. Neste cenário, Angola e Rússia expandem seletivamente a cooperação em nichos específicos como mineração não-diamantífera, defesa e projetos pontuais de infraestruturas. Este cenário pressupõe o desenvolvimento de mecanismos financeiros alternativos para contornar sanções ocidentais e a identificação de setores onde a tecnologia russa oferece vantagens comparativas claras. A probabilidade deste cenário é moderada, condicionada pela capacidade russa de mobilizar recursos financeiros suficientes.

Segundo: um cenário de continuidade com limitações estruturais. Este cenário mantém essencialmente o padrão atual de relações, com diplomacia ativa e cooperação moderada concentrada em setores específicos (formação militar, intercâmbios educativos limitados), sem avanços económicos estruturais significativos nos setores estratégicos de petróleo e gás. Este cenário parece o mais provável no médio prazo (5-7 anos), dada a persistência de constrangimentos financeiros russos e a prioridade angolana de diversificação de parcerias económicas.

Terceiro: um cenário de divergência estratégica condicionada. Neste cenário, pressões internacionais intensificadas ou incentivos económicos substanciais provenientes de potências ocidentais conduzem Angola a reduzir significativamente o peso relativo da Rússia nas suas parcerias estratégicas. Este cenário dependeria criticamente da intensidade da polarização geopolítica global, de eventuais mudanças políticas internas em Angola após 2027, e da capacidade ocidental de oferecer alternativas económicas credíveis e atrativas.

Conclusão

As relações Angola-Rússia sob a presidência de João Lourenço ilustram a complexidade das parcerias estratégicas no sistema internacional atual. A relação combina elementos de continuidade histórica, derivados da solidariedade soviética durante a luta de libertação e guerra civil, com pragmatismo contemporâneo centrado nas indústrias extrativas e na cooperação de defesa e segurança. Apesar do dinamismo diplomático e da retórica política favorável, a dimensão económica bilateral permanece estruturalmente limitada por múltiplos constrangimentos: capacidade financeira russa reduzida, sanções internacionais progressivamente restritivas, política do “cinturão russo” que esbarra com os interesses angolanos no continente e forte concorrência de parceiros económicos alternativos com maior capacidade de mobilização de recursos.

O conflito na Ucrânia tem vindo a testar a estratégia angolana de multialinhamento estratégico. O governo de Lourenço tem optado por preservar margem de manobra diplomática e manter canais de comunicação abertos com diferentes polos de poder global, evidenciando sofisticação estratégica mas também vulnerabilidades potenciais caso a polarização internacional se intensifique substancialmente. Esta estratégia de não-alinhamento pragmático serve os interesses nacionais angolanos no contexto atual, mas pode enfrentar desafios crescentes se as pressões para escolhas dicotómicas se intensificarem.

No horizonte previsível de médio prazo, as relações Angola-Rússia deverão evoluir de forma assimétrica: a cooperação técnico-militar, que foi o pilar histórico mais sólido desta parceria, encontra-se em contracção deliberada e acelerada, com Luanda a orientar-se progressivamente para Washington e para o equipamento de padrão NATO. A coordenação diplomática em foruns multilaterais e a manutenção do parque de equipamento soviético herdado constituirão os últimos elos funcionais desta relação bilateral. Transformações estruturais mais profundas dependerão da evolução do conflito ucraniano, da posição internacional da Rússia no pós-guerra, e das prioridades estratégicas internas de Angola — em particular do resultado das eleições de 2027 e da capacidade do próximo ciclo político de aprofundar ou reverter a reorientação ocidental que Lourenço iniciou.


[1] Middle power dreaming: The geopolitics of Angola’s emergence. (2025). European Council on Foreign Relations. Disponível em: https://ecfr.eu/publication/middle-power-dreaming-the-geopolitics-of-angolas-emergence/

[2] Alves, A. C., & Arkhangelskaya, A. A. (2013). Russia and Angola: The Rebirth of a Strategic Partnership? South African Institute of International Affairs (SAIIA).

[3] Pearce, J. (2017). A guerra civil em Angola, 1975–2002. Tinta-da-China.

[4] Arkhangelskaya, A., & Shubin, V. (2013). Is Russia Back? Realities of Russian Engagement in Africa. London School of Economics IDEAS Reports.

[5] Arkhangelskaya, A., & Shubin, V. (2013). Is Russia Back? Realities of Russian Engagement in Africa. London School of Economics IDEAS Reports.

[6] Verde, R. (2021). Angola at the Crossroads. From kleptocracy to Development. I.B. Tauris.

[7] Sputnik International (16 de outubro de 2013). Angola Inks $1Bln Arms Deals With Russia. Disponível em: https://sputnikglobe.com/20131016/Angola-Inks-1Bln-Arms-Deals-With-Russia–Paper-184180992.html

[8] Why Angola is looking to dump Russia as its arms supplier and opt for the US. (2022, 21 de dezembro). News24. Disponível em: https://www.news24.com/news24/africa/news/why-angola-is-looking-to-dump-russia-as-its-arms-supplier-and-opt-for-the-us-20221221

[9] Angola looking to acquire military hardware from the United States. (2024, 7 de junho). DefenceWeb. Disponível em: https://defenceweb.co.za/land/land-land/angolan-looking-to-acquire-military-hardware-from-the-united-states/

[10] SIPRI Arms Transfers Database — Angola/Russia: registo Su-30K (entrega 2019). Stockholm International Peace Research Institute. Disponível em: https://armstransfers.sipri.org

[11] As novas ameaças e o reforço das Forças Armadas Angolanas. (2022). CEDESA. Disponível em: https://www.cedesa.pt/2022/02/14/as-novas-ameacas-e-o-reforco-das-forcas-armadas-angolanas/  

[12] Angola replaces Alrosa with Oman in diamond-mining operations. (2024). Rapaport. Disponível em: https://rapaport.com/news/angola-replaces-alrosa-with-oman-in-diamond-mining-operations/

[13] Oman firm replaces sanctioned Alrosa in Angolan diamond miner. (2024). Mining.com. Disponível em: https://www.mining.com/web/oman-firm-replaces-sanctioned-alrosa-in-angolan-diamond-miner/

[14] Ramsey, A. (2023). Are Morocco and Angola Benefiting from the Ukraine Conflict? Bowdoin College. Disponível em: https://www.bowdoin.edu/news/2023/08/are-morocco-and-angola-benefiting-from-the-ukraine-conflict.html

[15] United Nations General Assembly Resolution ES-11/4 (12 de outubro de 2022). Disponível em: https://press.un.org/en/2022/ga12458.doc.htm

[16] Ramsey, A. (2023). Are Morocco and Angola Benefiting from the Ukraine Conflict? Bowdoin College. Disponível em: https://www.bowdoin.edu/news/2023/08/are-morocco-and-angola-benefiting-from-the-ukraine-conflict.html

[17] O cinturão russo no Sahel e Angola. (2023). CEDESA. Disponível em: https://www.cedesa.pt/2023/08/07/o-cinturao-russo-no-sahel-e-angola-2/

O mandato de João Lourenço na presidência pro tempore da União Africana: entre a gestão da crise e os limites da transformação continental

Adalberto Malú: Especialista em Relações Internacionais | Analista Geopolítico | Docente Universitário |Investigador Associado – CEDESA

Resumo

O mandato de João Lourenço na presidência pro tempore da União Africana decorreu num dos períodos mais instáveis da história recente do continente. Este artigo propõe uma análise crítica e estratégica desse mandato, argumentando que o seu principal traço distintivo não foi a transformação estrutural da organização, mas a contenção política num contexto de fragmentação regional, crises armadas persistentes e erosão da autoridade normativa africana. Sustenta-se que, embora limitado em resultados estruturais, o mandato angolano reforçou o posicionamento internacional de Angola como actor diplomático credível e expôs, de forma clara, os constrangimentos sistémicos da própria União Africana.

1. Introdução: um mandato num continente em ebulição

Avaliar o mandato de João Lourenço na presidência pro tempore da União Africana exige começar pelo contexto. Não se trata de um detalhe analítico, mas da chave interpretativa central. A liderança angolana coincidiu com um dos ciclos mais críticos da organização desde a sua criação: golpes militares em cadeia no Sahel, guerra aberta e desestruturante no Sudão, persistência do conflito no Leste da República Democrática do Congo, tensões no Corno de África e uma ordem internacional em transição acelerada, marcada pela competição estratégica entre as grandes potências.

Neste cenário, a presidência da UA não era um espaço propício a ambições reformistas profundas. Era, antes, um exercício de gestão do risco sistémico, num continente onde a instabilidade deixou de ser episódica para se tornar estrutural.

2. Um mandato político, não transformador

O mandato de João Lourenço foi, acima de tudo, político. Não no sentido partidário, mas no sentido clássico da política internacional: gestão de equilíbrios, contenção de crises e preservação mínima da ordem institucional existente.

Não foi um mandato fraco. Mas também não foi histórico. Foi um mandato de contenção estratégica, orientado para evitar colapsos maiores, mais do que para reinventar a União Africana. Essa distinção é fundamental para evitar tanto a glorificação acrítica como a desvalorização simplista.

3. Onde Angola ganhou espaço e capital diplomático

Há ganhos claros que devem ser reconhecidos sem clubismo.

Em primeiro lugar, a recentralização da diplomacia preventiva.

A presidência angolana recolocou a mediação no centro da acção política da UA. O envolvimento directo de João Lourenço nos dossiês da RDC–Ruanda e do Leste do Congo reforçou a perceção de Angola como potência diplomática regional, num continente onde muitos actores falam, mas poucos assumem os custos políticos e estratégicos da mediação.

Em segundo lugar, o reforço da imagem internacional de Angola.

A presidência da UA funcionou como uma plataforma de visibilidade estratégica. Angola passou a ser percecionada como um actor político credível, capaz de dialogar com os múltiplos polos de poder, Estados Unidos, União Europeia, China e a Rússia, sem alinhamentos automáticos. Em termos geopolíticos, isto representa a acumulação de capital diplomático, um activo intangível, mas decisivo.

Em terceiro lugar, um discurso africano mais realista.

João Lourenço evitou a retórica pan-africanista vazia e insistiu na responsabilização dos próprios Estados africanos pela instabilidade do continente. Esta abordagem, embora pouco popular, traduz uma leitura mais madura da realidade africana e afasta a UA dos discursos simbólicos sem capacidade de implementação.

4. Os limites do mandato: onde a ambição ficou curta

Uma análise séria exige também identificar os limites.

Primeiro, ausência de resultados estruturais nos principais conflitos.

Mediação não é sinónimo de resolução. O conflito no Leste da RDC mantém-se, o Sudão afundou-se numa guerra ainda mais profunda e o Sahel continua fora de controlo. Embora estas crises não possam ser imputadas diretamente à presidência angolana, o mandato não produziu viragens estratégicas capazes de alterar o curso dos conflitos.

Segundo, a fragilidade estrutural da União Africana permaneceu intacta.

Não houve avanços significativos na reforma institucional da UA: financiamento autónomo, capacidade coerciva, mecanismos eficazes de sanção ou a verdadeira autonomia estratégica. A presidência angolana geriu um sistema disfuncional, mas não conseguiu transformá-lo.

Terceiro, a dimensão económica ficou em segundo plano.

Num mundo organizado em blocos económicos e cadeias de valor regionais, a África precisa de um impulso político mais assertivo à Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA). Esse eixo não foi central no mandato, limitando a capacidade da UA de se afirmar como actor económico global relevante.

5. Leitura estratégica: o que este mandato revela sobre África

O mandato de João Lourenço acaba por ser um espelho da própria condição africana contemporânea. Um continente com intensa uma actividade diplomática, mas com muito pouco poder material, fraca capacidade de enforcement e elevada dependência externa.

Neste sentido, a presidência angolana não falhou. Mas também não alterou a lógica estrutural da União Africana. Foi um mandato de estabilidade possível, não de transformação continental.

6. Conclusão: ganhos para Angola, limites para a União Africana

Em termos claros:

João Lourenço teve um mandato sério, competente e respeitado, que reforçou a credibilidade internacional de Angola e consolidou o país como actor diplomático relevante no continente. Contudo, perdeu-se a oportunidade de deixar uma marca estrutural duradoura na União Africana.

Em linguagem crua:

não falhou, mas não mudou o jogo. Ainda assim, há um dado estratégico que não deve ser subestimado: Angola esteve, durante este mandato, sentada na mesa onde se discutem os grandes dossiers africanos. Para o futuro da política externa angolana, isso não é simbólico. É um activo estratégico que pode, se bem explorado, projectar Angola para além do papel de mediador ocasional e aproximá-la do estatuto de actor estruturante na arquitectura política africana.

Retorno ao século XIX? A Nova Política Americana para África da Administração Trump

Rui VerdeDiretor Investigação CEDESA

Durante o primeiro ano do seu mandato, Donald Trump não demonstrou qualquer interesse particular por África.

O continente parecia permanecer na periferia das prioridades estratégicas de Washington, reduzido a notas de rodapé em discursos sobre terrorismo, migração ou uma putativa proteção do cristianismo na Nigéria.

Contudo, algo mudou recentemente. A súbita reorientação da política externa norte‑americana em direção ao continente africano não surge do nada: é impulsionada por J.D. Vance e Marco Rubio, que vêem mais além da retórica confusa de Trump e compreenderam que África se tornou um dos tabuleiros centrais da competição sistémica com a China.

A estratégia é subtil — ou pretende sê-lo — evitando hostilizar Beijing de forma explícita, mas o subtexto é evidente: os EUA querem recuperar terreno num continente onde a China consolidou uma presença económica, diplomática e industrial sem precedentes.

O que emerge agora é uma política americana para África que combina a possibilidade do poder militar, a capacidade financeira e a diplomacia agressiva, com o objetivo de garantir acesso privilegiado a terras raras, minerais críticos e recursos estratégicos indispensáveis às cadeias de valor do século XXI.

A retórica é moderna, mas a lógica lembra o retorno ao imperialismo das canhoneiras do século XIX: projeção de força, criação de dependências e captura de ativos estratégicos sob o pretexto de “estabilidade” e “parcerias”. O Estado imperial vai à frente, ou ao lado, para abrir caminho para as suas empresas privadas.

A cimeira inaugural de minerais críticos organizada por Washington esta semana — reunindo representantes de 54 países, muitos deles africanos — foi apresentada como um encontro diplomático.

Contudo, nos bastidores, a mensagem dirigida aos investidores foi inequívoca: os EUA e os seus aliados estão dispostos a gastar bastante dinheiro para redesenhar as cadeias globais de abastecimento mineral provenientes de África.

O secretário de Estado, Marco Rubio, evitou mencionar a China, preferindo alertar para cadeias de valor “excessivamente concentradas” e para a vulnerabilidade criada por décadas de deslocalização industrial. A mensagem implícita foi clara: assegurar estes recursos exigirá novas estratégias e capital político e financeiro.

A estratégia americana já está em marcha. Na véspera da cimeira, a Glencore — gigante suíça das commodities — acordou vender 40% dos seus ativos de cobre e cobalto na República Democrática do Congo (RDC) a um consórcio apoiado pelo governo dos EUA, por 3,6 mil milhões de dólares.

O valor surpreendeu analistas e operadores do setor. Como observou Calisto Radithipa, cofundador da Kemcore, “reflete como o capital ocidental está agora disposto a pagar para garantir controlo não chinês de ativos-chave”.

Rubio pretende tornar estes prémios sustentáveis, propondo uma Zona de Comércio Preferencial com preços mínimos que estabilizem mercados afetados por excesso de oferta e manipulação de preços. O objetivo é simples: dar confiança aos investidores de que projetos fora da esfera chinesa podem gerar retornos previsíveis.

A isto soma-se a proposta de um stock estratégico de 12 mil milhões de dólares para minerais críticos — um instrumento que a União Europeia e o Japão também estudam, numa tentativa de amortecer choques e contrariar práticas de mercado dominadas por Beijing

Para produtores africanos como Angola, RDC, Gabão, Nigéria e Zâmbia, esta mudança abre uma janela rara de alavancagem. O acordo da Glencore demonstra que os governos ocidentais estão dispostos a colocar dinheiro em cima da mesa.

Mas transformar este momento numa vantagem duradoura exige planeamento estratégico, e não oportunismo de curto prazo, para os governos africanos.

É sobretudo importante que os dirigentes africanos não desperdicem os eventuais ganhos em luxos e apropriação corrupta privada, e ao mesmo tempo, mantenham a sua autonomia estratégica face às grandes potências.

A presença do presidente da RDC em Washington esta semana ilustra bem esta dinâmica. Félix Tshisekedi procurou reforçar a posição do seu país num contexto de crescente interesse ocidental pelos minerais críticos.

Num evento da Câmara de Comércio dos EUA, apresentou a RDC como “parceiro estratégico” na tentativa americana de assegurar cadeias de abastecimento essenciais para veículos elétricos, tecnologias de defesa e inteligência artificial. Como outros países africanos, a RDC — maior produtora mundial de cobalto — quer ultrapassar o modelo de exportação de matérias-primas e avançar para o processamento e a manufatura.

O desafio é monumental: a cadeia de valor congolesa é dominada por empresas chinesas, desde a extração até à refinação, que ocorre maioritariamente na China.

Tshisekedi tenta inverter esta dependência, ligando a nova parceria com os EUA à segurança interna. Argumenta que a mineração ilícita e as cadeias informais alimentam a violência no leste da RDC. Formalizar essas cadeias e reforçar a rastreabilidade seria, segundo ele, essencial para estabilizar o país e proteger investimentos de longo prazo.

Há duas grandes dúvidas:

Tshisekedi é um líder fraco, que não domina o seu território, e está empenhado numa espécie de guerra civil, que tem estado a perder. Quer a intervenção da força dos Estados Unidos para contrapor ao Ruanda.

Além disso, a China tem estado silenciosa, a observar, mas é impossível que não reaja, quando perceber que há movimento efetivo no terreno, e não apenas a habitual retórica oca de Donald Trump. É que neste caso nem é ele o motor americano, mas dois dos seus ajudantes, que antes de o serem eram realistas e críticos das asneiras de Trump (Vance e Rubio).

Em termos da perspetiva africana, há que aferir se estamos perante uma nova oportunidade para África ou apenas perante uma atualização tecnológica do velho extrativismo imperial?

A disposição dos EUA para pagar prémios elevados por ativos estratégicos pode fortalecer a posição negocial dos países africanos, mas também pode cristalizar novas dependências, agora sob a bandeira da “segurança das cadeias de abastecimento”.

A história ensina que momentos como este são raros e perigosos. África encontra-se, mais uma vez, no centro de uma disputa global entre grandes potências.

A diferença é que, desta vez, o continente tem maior margem de manobra, maior consciência estratégica e maior capacidade de exigir contrapartidas.

A questão decisiva será saber se os governos africanos conseguem transformar esta conjuntura num projeto de desenvolvimento endógeno — ou se permitirão que o século XXI repita, com novos atores e novas tecnologias, as velhas lógicas das canhoneiras e as habituais práticas de corrupção e enriquecimento privado dos dirigentes.

E falta ver o que fará a China. Deng Xiao Ping ensinou que a estratégia mundial chinesa era “esconder a força e aguardar o momento certo” ((韬光养晦).

Referências:

Adekoge, Y. (2026), Reshaping supply chains, Semafor, https://www.semafor.com/newsletter/02/06/2026/critical-minerals-in-the-spotlight?utm_source=newslettershare&utm_medium=africa&utm_campaign=FirstWord#

Borges De Lima, I., & Leal Filho, W. (Eds.). (2015). Rare earths industry: Technological, economic, and environmental implications (1st ed.). Elsevier

Naidoo, P. (2024)Supply chain latest: US–China, Africa, and critical minerals.Bloomberg, https://www.bloomberg.com/news/newsletters/2024-08-19/supply-chain-latest-us-china-africa-and-critical-minerals

Kavanagh, M. (2025),Bloomberg.US vows over $1 billion for Congo critical minerals supply chain. (2025, December 5). https://www.bloomberg.com/news/articles/2025-12-05/us-vows-over-1-billion-for-congo-critical-minerals-supply-chain

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Campbell, B.K. (2013). Introduction. In: Campbell, B.K. (eds) Modes of Governance and Revenue Flows in African Mining. International Political Economy Series. Palgrave Macmillan, London. https://doi.org/10.1057/9781137332318_1

A CEDEAO entre o pragmatismo e a abdicação normativa: o caso Doumbouya e o esgotamento do modelo regional de governança democrática

Adalberto Malú – Especialista em Relações Internacionais | Analista Geopolítico | Docente Universitário | Investigador Associado – CEDESA

Resumo

A recente decisão da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) de reconhecer a conclusão da transição política na Guiné-Conacri e levantar as sanções impostas após o golpe de Estado liderado por Mamadi Doumbouya constitui um momento revelador da crise normativa que atravessa a organização. Longe de ser ingénua, a postura da CEDEAO reflecte uma escolha estratégica pragmática, marcada pelo cansaço institucional, pela erosão da autoridade moral e pelo medo do contágio geopolítico no espaço saheliano. Este artigo argumenta que o caso guineense não representa uma excepção conjuntural, mas sim a confirmação do esgotamento do modelo normativo da CEDEAO, assente na promoção do constitucionalismo democrático sem capacidade efectiva de enforcement. Ao normalizar golpes “bem-sucedidos” embrulhados em processos eleitorais de baixa intensidade democrática, a organização arrisca transformar-se de guardiã da ordem constitucional em mera gestora de crises autoritárias.

Palavras-chave: CEDEAO; golpes de Estado; Guiné; transições políticas; constitucionalismo africano; segurança regional.

1. Introdução

A CEDEAO construiu, ao longo das últimas duas décadas, uma identidade política fortemente associada à defesa da ordem constitucional, da alternância democrática e da rejeição explícita de mudanças inconstitucionais de poder. Esse posicionamento conferiu-lhe uma reputação singular entre as organizações regionais africanas, frequentemente apresentada como modelo de normatividade democrática no continente.

No entanto, a decisão de felicitar Mamadi Doumbouya pela alegada conclusão da transição política na Guiné e de levantar as sanções impostas após o golpe de 2021 levanta uma questão incontornável: estará a CEDEAO a abdicar do seu próprio modelo normativo em nome da sobrevivência institucional e da estabilidade mínima?

Este artigo defende que a resposta é afirmativa.

2. A “eleição” como ritual de legitimação

A eleição que conduziu à consolidação do poder de Doumbouya não pode ser compreendida à luz dos critérios clássicos da democracia liberal. O processo foi integralmente moldado pela junta militar: regras eleitorais definidas unilateralmente, calendário controlado pelo poder de facto e instituições arbitrais sem autonomia real.

Trata-se menos de uma eleição competitiva e mais de um ritual de legitimação política, destinado a conferir uma aparência de normalidade constitucional a uma ordem política nascida de um golpe de Estado. Classificar este processo como “transição concluída” exige um exercício de elasticidade semântica que revela mais sobre a fadiga política da CEDEAO do que sobre a qualidade democrática do processo.

3. Porque a CEDEAO cedeu: três factores estruturais

A postura da CEDEAO não resulta de ingenuidade nem de desconhecimento. Resulta de uma leitura estratégica dura da realidade regional.

Primeiro, o esgotamento do instrumento das sanções. No Mali, no Burkina Faso e na própria Guiné, as sanções prolongadas falharam no seu objectivo central: não derrubaram juntas militares nem restauraram rapidamente a ordem constitucional. Pelo contrário, penalizaram populações, alimentaram narrativas soberanistas e enfraqueceram a legitimidade social da própria CEDEAO. Sanções sem capacidade real de enforcement transformaram-se em ruído político.

Segundo, o medo do contágio geopolítico. Com o Sahel em profunda instabilidade, o recuo da influência francesa, o avanço russo e o surgimento de alianças militares alternativas, insistir numa linha dura teria empurrado Conacri para fora da órbita regional. A CDEAO fez uma escolha clara: manter a Guiné “dentro da sala”, mesmo a custo de coerência normativa, para evitar a sua captura por actores extra-regionais.

Terceiro, a erosão da autoridade moral da própria organização. A tolerância sistemática para com líderes civis que manipulam constituições para prolongar mandatos fragilizou o discurso normativo da CEDEAO. Quando o duplo critério se torna regra, exigir pureza democrática a regimes militares perde força política. O caso Doumbouya apenas tornou visível uma fragilidade já existente.

4. A normalização do golpe eficaz

O resultado desta combinação de factores é politicamente grave. Ao levantar sanções e reconhecer um processo eleitoral controlado pelo poder militar, a CEDEAO envia uma mensagem implícita perigosa: golpes de Estado podem ser tolerados, desde que sejam rapidamente estabilizados e revestidos de procedimentos eleitorais mínimos.

Este precedente não se limita à Guiné. Ele cria um incentivo perverso para outros actores militares na África Ocidental, que passam a perceber que o custo regional de uma tomada de poder inconstitucional pode ser gerível, desde que acompanhada por promessas de transição controlada.

5. Da normatividade à gestão do autoritarismo

A longo prazo, esta postura tem implicações profundas. Enfraquece a ideia de constitucionalismo como valor regional partilhado, incentiva a replicação de modelos autoritários “normalizados” e transforma a CEDEAO de promotora da democracia em gestora de crises autoritárias.

Em termos estratégicos, a organização trocou princípios por sobrevivência institucional. No curto prazo, pode ganhar previsibilidade e evitar rupturas regionais. No médio e longo prazo, arrisca perder aquilo que constituía o seu principal activo: a credibilidade normativa.

6. Conclusão

A decisão da CEDEAO no caso guineense não deve ser lida como um erro isolado, mas como o sintoma de uma crise mais profunda do seu modelo de governação regional. A organização enfrenta hoje um dilema estrutural: insistir numa normatividade democrática que já não consegue impor, ou adaptar-se pragmaticamente a uma região em mutação acelerada.

No xadrez regional, a escolha foi defensiva. No plano normativo, foi autodestrutiva.

A CEDEAO pode ganhar tempo e estabilidade mínima, mas fá-lo à custa da sua autoridade estratégica. E uma organização regional sem autoridade normativa corre o risco de sobreviver institucionalmente, mas morrer politicamente.


Referências

Malú, A. (2026). Comentário sobre o posicionamento da CEDEAO face à transição política na Guiné. Intervenção no Jornal da Rádio Kianda, Luanda.

Adebajo, Adekeye. The Curse of Berlin: Africa After the Cold War. Columbia University Press, 2010.

Bach, Daniel C., & Gazibo, Mamoudou. The African Peace and Security Architecture: A Critical Examination. Routledge, 2016.

Young, Crawford. “The Postcolonial State in Africa: Thirty Years of Debate.” African Affairs, vol. 99, no. 395, 2000, pp. 217–243.

04 de Fevereiro de 1961 e a Luta de Libertação Nacional: Memória, Valores e Desafios de Angola Cinco Décadas Após a Independência

Eugénio Costa Almeida*

Introdução

O dia 04 de Fevereiro de 1961 não representa apenas uma efeméride no calendário cívico de Angola; constituiu o “batismo de fogo” da consciência nacionalista e o ponto de ruptura irreversível com o sistema colonial português. O ataque coordenado à Cadeia de São Paulo/PIDE, à Casa de Reclusão Militar e à 7ª, em Luanda, protagonizado por um grupo de patriotas armados predominantemente com catanas, estilhaçou a ilusão da “paz luso-tropical” propagada pelo regime de Salazar.

Este ensaio propõe-se a analisar o 04 de Fevereiro de 1961 como um dos 4 (ou 5) pilares fundamentais da Luta Armada de Libertação Nacional – os outros os outros 3, são o 4 de Janeiro (Kassanje) e 15 de Março de 1961 (UPA/FNLA) e o 13 de Março de 1966 (UNITA); e poder-se-á incluir, como pilar final, o 15 de Janeiro de 1975, data da assinatura do Acordo de Alvor –, examinando a convergência de protagonistas masculinos e femininos na resistência, a preservação da memória coletiva e os complexos desafios éticos, sociais e políticos que Angola enfrenta hoje, ao aproximar-se da marca histórica de cinquenta anos de independência.

Para compreendermos a magnitude do que hoje celebramos, é necessário observar factos que a historiografia mais recente tem sublinhado. O 4 de Fevereiro de 1961 não foi apenas uma “revolta de catanas e canhangulos”, como a propaganda colonial tentou descrever para diminuir a sua importância intelectual. Investigações contemporâneas, como as de Jean-Michel Mabeko-Tali (2023) ou de Carlos Mariano Manuel (2021) demonstram que o levantamento foi precedido por uma sofisticada rede de inteligência clandestina que ligava os bairros periféricos de Luanda a movimentos anticoloniais em Paris, Conacri e Tunes.

Um facto crucial, muitas vezes subestimado, é a coincidência estratégica com a situação no, então, Congo-Léopoldville (Kinshasa) e a presença de observadores internacionais e jornalistas estrangeiros em Luanda, que aguardavam a chegada do navio “Santa Maria”, sequestrado pelo então comandante português Henrique Galvão, líder do então designado Directório Ibérico, na “Operação Dulcineia” e que se especulava teria como destino, Luanda (Castro, 2016; Le Monde 1961a a 1961c).

Os nacionalistas angolanos, com uma visão geopolítica aguçada, aproveitaram este “palco global” – que trouxe a Angola, muita imprensa internacional – para garantir que o grito de Luanda não fosse silenciado pela censura do regime.

Foi, portanto, uma lição precoce de diplomacia e aproveitamento mediático em prol da libertação. Como realça Mabeko-Tali (2023), o 4 de Fevereiro não foi apenas o “início da luta armada” em termos militares, mas um “marco da afirmação da identidade urbana de Luanda” na resistência. E que Mariano Manuel (2021) reforça, citando os autores de uma Comissão de História do 4 de Fevereiro, criada em 1987 e que teve Paiva Domingos da Silva como um dos líderes, com a ideia de que “a narração histórica do que foram os acontecimentos do 4 de Fevereiro de 1961, não significa (…) escrever a história do povo Angolano, porque tudo o que ocorreu (…) constitui, tão somente, elementos fundamentais da história secular da resistência do nosso povo”.

A análise procurou ancorar-se numa historiografia plural, visando cruzar vozes dos protagonistas angolanos com a perspectiva crítica da academia internacional.

I. A Forja da Resistência: Protagonistas, Unidade e a Afirmação Feminina

A revolta de Luanda não foi um evento espontâneo ou desprovido de estratégia; foi o culminar de décadas de resistência silenciosa e organização clandestina nos bairros periféricos, os musseques. Segundo Patrício Batsîkama (2013), a preparação do levantamento envolveu uma rede complexa de comunicações que atravessava barreiras sociais, religiosas e etno-linguísticas, refirmado por Mabeko-Tali e Mariano Manuel ao citarem que o mesmo foi precedido por uma sofisticada rede de inteligência clandestina que ligava os bairros periféricos de Luanda a movimentos anticoloniais em Paris, Conacri e Tunes.

Entre os nomes que a história consagrou, Agostinho Mendes de Carvalho (Uanhenga Xitu), Agostinho João Manuel, ou Paiva Domingos da Silva, Imperial Santana, Virgílio Sotto-Mayor e Neves Bendinha (Castro, 2016; Lusa, 2005) surgem como figuras centrais. Paiva da Silva, em particular, personifica o nacionalismo operário e urbano, capaz de mobilizar as massas desfavorecidas contra o aparelho repressivo colonial. Se estes foram figuras importantes, não se pode deixar de relevar o papel do Cónego Manuel das Neves é igualmente fundamental – terá sido este a dar ordem de ataque ao comandante Bendinha (Teixeira, 2026) –, simbolizando a participação de sectores da Igreja que, influenciados pelas correntes progressistas, viram na luta armada a única via para a restituição da dignidade humana. De destacar, igualmente, as figuras do Bispo Moisés Alves de Pinho, o Padre Joaquim Pinto de Andrade, bem como dos padres Padre Alexandre do Amaral e Lino Guimarães, próximos do Cónego Neves, integrados chamada “Rede de Luanda que juntava seminaristas e clérigos menores da zona de Luanda e Malanje participando como estafetas de informação entre os grupos que planeavam o ataque às prisões ou o Frei Nascimento (editor do jornal Apostolado) e o Padre. Manuel Franklin da Costa (secretário do Arcebispo de Luanda) (Zau, 2018 e Neves, 2007).

Mas, também, devemos relevar o papel das Igrejas Anglo-Americanas da Reforma (Metodistas e Adventistas) (Neves, 2008), bem como o (pouco, ou nada) discreto papel da Igreja Tocoísta [ou “Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo”] (Ramon Sarró, 2015).

Contudo, uma análise rigorosa do 04 de Fevereiro seria incompleta sem resgatar o papel, muitas vezes silenciado pela narrativa oficial, das mulheres angolanas. A participação feminina não foi meramente acessória ou logística, já que a participação das mulheres foi estratégica e intelectual, enfrentando tanto a repressão colonial quanto o cepticismo dentro dos próprios movimentos nacionais. Mulheres como Deolinda Rodrigues (Langidila), Engrácia dos Santos (a onhecida como “Engrácia do 4 de Fevereiro”), Irene Cohen, Margarida Afonso ou Teresa Afonso demonstraram que a libertação era um imperativo transversal. Bitone (2015) reforça que as mulheres angolanas afirmaram a sua agência política contra a dupla opressão: a colonial e a de género. A sua actuação não se limitou ao apoio indireto, tendo estado, algumas destas mulheres, bem como muitas anónimas, directamente envolvidas na preparação e sustentação das acções que marcaram o início da luta armada

Reconhecer o seu contributo é reconhecer que a soberania de que hoje gozamos foi comprada com a moeda mais cara que existe: a vida humana em nome de um ideal colectivo.

A convergência destes protagonistas revela que o 04 de Fevereiro foi um esforço de unidade nacional ante litteram. O uso da catana, o mais citado e glorificado em monumentos, como arma de guerra foi um gesto de profunda semântica política: era o povo a converter os instrumentos da sua exploração em ferramentas da sua libertação.

II. Valores da Luta: Entre a Utopia Nacionalista e a Realidade das Armas

Os valores que galvanizaram os heróis de Fevereiro estavam assentes na premissa da igualdade absoluta, na justiça social e na auto-determinação. O projecto nacionalista angolano era, na sua génese, profundamente humanista. Basil Davidson (1972), sublinha que a resistência angolana logrou transformar a dor do trabalho forçado numa ideologia de libertação que transcendia as fronteiras da colónia, inspirando movimentos em todo o continente.

A memória do 04 de Fevereiro tem de ser vista como um território em disputa constante. Christine Messiant (2008) argumenta em L’Angola postcolonial que a “sociologia da transição” em Angola foi marcada por uma centralização de poder que, embora tenha garantido a vitória militar, deixou sequelas profundas na participação da sociedade civil no período pós-colonial. O desafio de Angola tem sido, portanto, reconciliar o heroísmo militar do passado com a necessidade de um pluralismo democrático no presente.

Os valores que nortearam a luta – a auto-determinação, a unidade nacional e a justiça social – permanecem como os nossos mandamentos republicanos. A unidade nacional, em particular, foi a nossa arma mais eficaz. O colonialismo sobreviveu através da fragmentação: “dividir para reinar”. O 4 de Fevereiro foi a resposta antagónica: “unir para libertar”.

Hoje, este valor deve ser reafirmado contra as novas formas de fracção. Como eferi numa recente Conferência, a coesão nacional não é uma fotografia estática de 1975; é um processo dinâmico que deve envolver as nossas instituições, as comunidades locais e a nossa vibrante diáspora.

A diáspora angolana é, hoje, um reservatório de competências e um baluarte da nossa identidade no exterior, sendo essencial para a preservação da memória colectiva e para o fortalecimento do nosso “soft-power” no concerto das nações.

III. Angola Cinco Décadas Depois: Memória, Legado e Novos Horizontes

Ao olharmos para Angola no século XXI, o legado de 1961 enfrenta o rigoroso tribunal do tempo e das expectativas sociais. O país logrou conquistas extraordinárias, como a preservação da integridade territorial num contexto de guerra civil devastadora e a conquista da paz definitiva em 2002. Todavia, os desafios de hoje são de uma natureza diferente.

1. A Memória como Instrumento de Cidadania: A celebração do 04 de Fevereiro não pode ser reduzida a uma liturgia estatal de legitimação das elites no poder. Maria da Conceição Neto (2010) defende que é imperativo democratizar a história, incluindo as vozes e narrativas que foram marginalizadas ao longo das décadas por conveniência política. A memória deve servir para inspirar uma cidadania activa e crítica, e não apenas uma reverência passiva. Como nota Didier Péclard (2015), a construção da nação angolana é um processo contínuo de “incertezas” que exige um diálogo honesto entre o passado heroico e um presente que clama por transparência.

2. A Emancipação Económica e Social: A libertação iniciada com catanas em 1961, permanece incompleta enquanto subsistirem disparidades sociais abismais. Piero Gleijeses (2004), ao analisar o contexto internacional da luta, recorda que o objectivo último dos nacionalistas era o desenvolvimento integral do povo angolano. A dependência excessiva dos recursos minerais e uma persistência de uma certa pobreza extrema são vistas por muitos intelectuais como novas formas de servidão que impedem a realização plena da soberania. O desafio contemporâneo reside na transição da soberania política para uma soberania económica real, onde o bem-estar do cidadão comum seja o centro da governação.

3. O Papel da Mulher na Angola Contemporânea: O sacrifício de mulheres que se podem referir como “Heroínas de Fevereiro” – ainda que se tenham prolongado no tempo –  frutificou numa presença feminina significativa na política e na sociedade civil. Contudo, a luta contra a violência baseada no género, a desigualdade salarial e a falta de acesso a oportunidades para as mulheres rurais continua a ser uma frente de batalha essencial para que Angola honre verdadeiramente as suas fundadoras.

Conclusão: O Legado como Compromisso Ético

Em conclusão, o 4 de Fevereiro de 1961 não é um fóssil histórico, mas um organismo vivo na consciência colectiva de Angola. O 4 de Fevereiro não é de bronze ou mármore, mas sim de uma sociedade onde a dignidade humana seja inviolável.

Cinquenta anos após a proclamação da independência, a relevância desta data reside menos na exaltação do conflito e mais na reafirmação do contrato social que os nacionalistas propuseram: a construção de uma pátria livre, justa e solidária.

A transição de um nacionalismo de resistência para um nacionalismo de construção exige uma honestidade intelectual profunda sobre os erros cometidos e os sonhos ainda por realizar.

A expansão desta reflexão leva-nos a considerar que o sacrifício de 1961 estabeleceu um padrão ético de entrega à causa comum que deve ser o norteador da classe política actual. Como sugeriu Edmundo Rocha (2003), o estudo do nacionalismo angolano deve servir para compreender que a luta pela libertação é um processo dialético que não terminou em 11 de Novembro de 1975. A verdadeira soberania não é apenas a ausência de um governador estrangeiro; é a presença de justiça, saúde, educação e liberdade de expressão para todos os angolanos, independentemente da sua origem ou filiação política.

O maior tributo que a Angola contemporânea pode prestar aos heróis citados e a todos os heróis anónimos que marcharam sobre as prisões de Luanda é a construção de um Estado de Direito democrático e inclusivo.

A coragem física demonstrada no 4 de Fevereiro deve agora ser transmutada em coragem moral para combater a corrupção, a exclusão social e a má-gestão da coisa pública.

Somente, quando o espírito de sacrifício e unidade de 1961 se traduzir em dignidade quotidiana para o cidadão angolano, poderemos dizer que a promessa daquela manhã de Fevereiro foi plenamente cumprida.

Angola enfrenta o desafio histórico de transformar a “memória das armas” numa “cultura de cidadania”, garantindo que as próximas cinco décadas sejam marcadas pela prosperidade partilhada e pela consolidação definitiva de uma nação onde todos os filhos se sintam verdadeiramente em casa.

Quando tivermos uma Angola onde as crianças nas Lundas, nos Moxicos ou em Cabinda, o camponês do Uíge, do Cuanza Norte, ou da Huíla e Cunene, o operário de Icolo e Bengo, de Malange ou de Cuando e Cubango, o pescador do Zaire, do Cuanza Sul, de Benguela ou do Namibe, e o académico em Luanda, no Lobito, no Huambo ou no Bié, se sintam igualmente herdeiros da liberdade conquistada em 1961, então estaremos no bom caminho.

Angola é – tem de ser – o resultado da audácia de uns poucos que se tornou a realidade de milhões. Temos o dever de entregar às gerações vindouras uma Angola mais justa do que aquela que recebemos. Porque, como sublinha Nuno Vidal (2008), a construção da Nação Angolana assenta na reapropriação de acontecimentos que afirmam a capacidade de resistência e de auto-determinação do povo angolano

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Eugénio da Costa Almeida*
* Pós-Doutorado; Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL), Investigador-Sénior Associado do Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA/Angola Research Network) e Investigador-Associado do CINAMIL (Academia Militar de Lisboa)

Briefing CEDESA: A nova estratégia africana da administração Trump

A administração Trump tem vindo a redefinir profundamente a sua estratégia para África, afastando‑se de abordagens maximalistas e optando por um pragmatismo seletivo que procura afastar a China apenas de setores considerados vitais para a resiliência económica norte‑americana.

Em vez de tentar competir com Pequim em grandes obras de infraestrutura — terreno onde a China consolidou uma vantagem quase incontornável — Washington concentra‑se agora em áreas de alto valor estratégico, sobretudo minerais críticos e cadeias de abastecimento essenciais para tecnologias avançadas.

Esta mudança de orientação foi explicitada por Nick Checker, responsável pelo Bureau de Assuntos Africanos, ao sublinhar que os Estados Unidos não pretendem disputar cada centímetro do continente, mas sim proteger segmentos sensíveis da sua economia, onde a dependência externa representa um risco sistémico.

A nova abordagem assenta numa combinação de diplomacia comercial, maior exigência aos países parceiros e métodos inovadores de assistência, procurando substituir discursos moralizantes por incentivos concretos ao crescimento económico e à estabilidade. Checker insiste que muitos governos africanos acolhem favoravelmente esta postura mais pragmática, que privilegia segurança, investimento e criação de valor local. Um e‑mail interno do Departamento de Estado descreveu África como “periférica” para os interesses dos EUA, mas não irrelevante, defendendo um envolvimento seletivo e orientado para resultados tangíveis.

 Esta franqueza estratégica reflete a perceção de que os recursos diplomáticos e financeiros norte‑americanos devem ser aplicados onde produzem maior retorno geopolítico.

Neste contexto, Washington tem dado atenção especial a países como Quénia, Angola e República Democrática do Congo, considerados polos regionais capazes de ancorar parcerias mais amplas.

Paralelamente, organiza agora uma cimeira dedicada aos minerais críticos com vários países africanos — entre eles a República Democrática do Congo, a Guiné, o Quénia e a Zâmbia — com o objetivo de reforçar alianças estratégicas e atrair investimento norte‑americano para o processamento e a refinação no próprio continente.

Esta iniciativa responde à crescente preocupação das empresas americanas com a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento dominadas pela China, sobretudo no que diz respeito ao cobalto, ao lítio e ao grafite. Para apoiar esta viragem, a administração está a requalificar pessoal diplomático, dotando‑o de competências em diplomacia comercial e negociação económica, numa tentativa de alinhar a ação externa com as necessidades das empresas norte‑americanas.

É neste quadro que se insere o renovado interesse dos Estados Unidos na República Democrática do Congo, país que detém algumas das maiores reservas mundiais de cobre, cobalto e coltan, minerais indispensáveis para baterias, semicondutores e veículos elétricos. Empresas como a Freeport‑McMoRan, que durante anos operou na mina de Tenke Fungurume antes de vender a sua participação à China Molybdenum, continuam a influenciar o debate político em Washington, defendendo a necessidade de contrabalançar a presença chinesa no setor mineiro congolês.

Gigantes tecnológicos como a Tesla, a Apple e a General Motors surgem frequentemente em relatórios do Congresso como beneficiários indiretos de uma cadeia de abastecimento mais estável e menos dependente de refinadores chineses, o que explica a intensificação da diplomacia económica norte‑americana em Kinshasa.

Embora os EUA evitem compromissos operacionais diretos, têm explorado com o governo congolês modelos de cooperação que combinam segurança, fiscalização e investimento em infraestruturas.

É precisamente neste espaço intermédio — onde interesses estratégicos se cruzam com a ausência de uma presença estatal robusta — que reaparece a figura controversa de Erik Prince. Conhecido pela fundação da Blackwater e por operações de segurança privada em múltiplos teatros de conflito, Prince tem procurado reposicionar‑se como fornecedor de soluções logísticas e de fiscalização para o setor mineiro congolês. Através da Frontier Resource Group e de outras estruturas empresariais sucessoras, negociou com Kinshasa um acordo destinado a reforçar a cobrança fiscal, combater o contrabando e organizar corredores logísticos, sobretudo na região de Katanga. Embora o mandato formal seja civil, a reputação de Prince e o seu histórico de tentativas de mobilizar ex‑militares estrangeiros — incluindo antigos legionários franceses — suscitam receios de uma privatização de funções soberanas num contexto já marcado por instabilidade e competição geopolítica. A ofensiva do M23 e a deterioração da segurança no Kivu do Norte obrigaram a deslocar o foco das operações inicialmente previstas para Goma, concentrando‑se em zonas mais estáveis do sul, mas sem abandonar a ambição de influenciar fluxos minerais estratégicos.

A convergência entre o interesse norte‑americano por minerais críticos e a presença de Prince não implica coordenação formal, mas revela uma dinâmica estrutural: enquanto Washington procura garantir cadeias de abastecimento seguras para empresas como a Ford, a IBM ou a Qualcomm, atores privados oferecem‑se para preencher lacunas de segurança e fiscalização que o Estado congolês não consegue suprir.

O resultado é um cenário em que interesses comerciais, pressões geopolíticas e iniciativas privadas de segurança se entrelaçam, moldando o futuro da exploração mineral na RDC e expondo o país a novas formas de dependência e contestação internacional.