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A projecção de poder e os impasses geopolíticos dos EUA na África Subsariana: entre a memória das intervenções e a contingência da era Trump

por: Eugénio Costa Almeida*

Introdução e ponto prévio: o histórico das intervenções dos EUA em África

A participação militar dos Estados Unidos em África não constitui uma novidade com ou da Administração Trump. O que a actual presidência parece estar a alterar é, porém, a relação entre a tradicional política de apoio, treino, informações e assistência às forças africanas e o emprego directo da força norte-americana. A experiência da primeira Administração Donald Trump já revelara essa tendência, sobretudo no Sahel e na Somália. Em 2017, por exemplo, os Estados Unidos mantinham no Níger cerca de 800 militares, destinados sobretudo a treino, assistência, vigilância e recolha de informações; o próprio Comando dos Estados Unidos para a África (US-AFRICOM) sublinhava, então, que as forças norte-americanas não tinham uma missão de combate directo.

Na África Ocidental, a estratégia norte-americana assentava, então, no princípio de combater organizações jihadistas “por, com e através” dos parceiros locais. Nigéria, Níger, Camarões e Chade eram peças fundamentais dessa arquitectura, designadamente contra o Boko Haram e, ou, o Estado Islâmico da África Ocidental, o ISWAP (Estado Islâmico da Província da África Ocidental). O US-AFRICOM, de acordo com a sua concepção, privilegia formação, equipamento, inteligência e reconhecimento, deixando às forças africanas a condução das operações terrestres (US-AFRICOM, 2018)

Mas a arquitectura da política externa e de segurança dos Estados Unidos da América para o continente africano não começou nem se esgota no ciclo recente de operações anti-terroristas. Desde o período pós-Guerra do Vietname, o envolvimento militar norte-americano em África evoluiu de acções indirectas no contexto da Guerra-Fria para intervenções directas de elevada visibilidade e complexidade estratégica.

Exemplos marcantes desta trajectória histórica incluem a intervenção na Somália, no início da década de 1990 (notoriamente consubstanciada na Operação Gothic Serpent[1], em Mogadíscio), que demonstrou os riscos urbanos e operacionais do envolvimento directo em estados falhados e moldou profundamente a doutrina de contenção de Washington. Mais recentemente, a intervenção na Líbia, em 2011, conduzida sob a chancela da OTAN/NATO com apoio determinante dos EUA para a deposição deo líder líbio Muammar Kadafi, desencadeou um efeito de vácuo estatal e proliferação de armas que desestabilizou todo o eco-sistema de segurança do Sahel e do Norte de África. Mas foi o ataque de Tongo Tongo[2] (Níger) em Outubro de 2017, no qual morreram quatro militares norte-americanos, que levou Washington a rever os procedimentos das suas forças no continente (Garamone, 2018).

Foi sobre este histórico de intervenções complexas e frequentemente controversas que se desenhou a abordagem das forças armadas dos EUA em África, em particular nesta actual era Trump. Sob a chancela do pragmatismo estrito e da doutrina «America First», a administração Trump redefiniu os termos do empenhamento militar norte-americano na África Sub-sahariana. Em vez de grandes missões de construção nacional (nation-building) ou missões de estabilização multilateral prolongadas, Washington passou a favorecer intervenções cirúrgicas, focadas primariamente na neutralização de ameaças terroristas directas através do US-AFRICOM.

Este paradigma operacional encontrou uma das suas manifestações mais visíveis na Nigéria, onde acções coordenadas de precisão procuraram desmantelar infra-estruturas extremistas em estados islâmicos do Norte daquela nação. Todavia, a revelação de que o Governo dos EUA pondera estender ou replicar este modelo para o Mali coloca desafios de uma ordem qualitativamente distinta. O Mali sobressai não apenas por constituir uma nação de esmagadora maioria muçulmana, mas sobretudo por sintetizar uma tríplice ordem de complexidades: a governação por uma junta militar originada num Golpe de Estado contra o presidente democraticamente eleito, a presença ostensiva de paramilitares russos da Africa Corps (sucessora do Grupo Wagner sob tutela do Ministério da Defesa da Rússia) e uma insurgência heterogénea que reúne desde autonomistas tuaregues do Azawad até jihadistas vinculados à al-Qaeda.

O presente ensaio analisa a dinâmica das intervenções militares dos EUA em África, contextualizando o seu percurso histórico desde o pós-Vietname e tomando como contraponto a intervenção recente na Nigéria para avaliar a viabilidade, os riscos e as implicações geopolíticas de uma eventual intervenção no Mali sob a era Trump, tendo como base reportagens e análises do The Washington Post (Hudson & Chason, 2026a) e da Deutsche Welle (Fröhlich 2026a e 2026b).

I. A “nova” Doutrina Militar de Trump e a aplicação prática no Norte da Nigéria

A abordagem estratégica da administração Trump para a segurança em África caracteriza-se pela rejeição de compromissos multilaterais extensos e pela priorização de acções de elevado impacto com uma pegada militar reduzida no terreno (light footprint). Em consonância com as directrizes analíticas expostas por publicações de análise estratégica como o Responsible Statecraft (Thurston, 2026), este modelo visa conter a proliferação do extremismo violento sem expor as forças terrestres norte-americanas a conflitos de erosão prolongados.

Na Nigéria, esta doutrina traduziu-se numa cooperação táctica e pontual com as Forças Armadas Nigerianas no combate aos focos do Estado Islâmico na Província da África Ocidental (ISWAP) e do Boko Haram. A intervenção norte-americana incidiu particularmente nos estados do norte nigeriano, onde imperam regiões predominantemente muçulmanas e sob a vigência do direito islâmico (Sharia) em que a vulnerabilidade sócio-económica e a fragilidade estatal permitiram a consolidação de santuários terroristas.

Como reportado pela RTP Notícias (RTP/LUSA, 2026) e por diversos órgãos da imprensa internacional, a eficácia desta fórmula traduziu-se em operações aéreas e de inteligência de alta precisão que culminaram na eliminação de algumas lideranças de topo de redes terroristas locais. A cooperação assentou num pressuposto fundamental: a existência de um governo central democraticamente legitimado em Abuja, capaz de fornecer a moldura jurídica e diplomática indispensável para a actuação das forças N-americanas. Nesse sentido, a acção na Nigéria serviu como validação empírica da premissa de que a capacidade militar dos EUA poderia ser projectada com sucesso em ambientes de maioria islâmica, desde que amparada por parcerias estatais reconhecidas e articuladas diplomaticamente.

II. O dilema maliano: legitimidade política e a fractura geopolítica

A perspectiva de transpor este modelo de intervenção para o Mali foi tornada pública por matérias exclusivas do The Washington Post (Hudson & Chason, 2026a), que revelaram que o Pentágono e a administração Trump ponderam seriamente opções militares contra alvos insurgentes naquele país do Sahel. Contudo, esta intenção confronta-se imediatamente com restrições de ordem política e institucional impreteríveis. Ao contrário do cenário nigeriano, o Mali vive um cenário de profunda ruptura constitucional. O país é governado por uma junta militar liderada pelo General Assimi Goïta, que ascendeu ao poder através de sucessivos Coup d’ États sobre Governos civis democraticamente eleitos.

Conforme analisa detalhadamente a Deutsche Welle (Fröhlich 2026a e 2026b), existe um risco substancial associado a uma intervenção militar dos EUA no Mali. A degradação da estabilidade política no Sahel acompanhou a decisão da junta de expulsar as forças ocidentais da Operação Barkhane[3] e de solicitar a cessação da missão de paz das Nações Unidas (MINUSMA). Como noticiam alguns órgãos de informação, nomeadamente, brasileiros como o CNN Brasil e o portal G1, além de naturalmente, o citado por aqueles, The Washington Post (Fröhlich, 2026b), qualquer acção militar da administração Trump no Mali suscita graves questões relativamente à legitimação indirecta do regime militar de Bamako, que pondera acolher a ideia de Trump (Hudson & Chason, 2026b), tal como a Nigéria o pondera (Ramos, 2025).

O direito internacional e as convenções da União Africana (UA) impõem severas limitações à cooperação de defesa com regimes inconstitucionais. Para os EUA, qualquer acção militar não concertada ou, inversamente, realizada em cumplicidade tácita com uma junta militar corrompe o discurso normativo da promoção da democracia e da ordem constitucional. No entanto, a realpolitik

Ademais, a dimensão geopolítica do Mali é exponencialmente mais gravosa devido ao alinhamento estratégico da junta militar com a Federação Russa. Conforme documentado pela Deutsche Welle (Fröhlich, 2026b), a presença activa de paramilitares da Africa Corps transforma o Mali num micro-teatro da rivalidade entre grandes potências. Uma intervenção militar dos EUA no espaço aéreo ou terrestre maliano comporta o risco iminente de incidentes tácitos ou confrontações indirectas com pessoal russo, elevando a tensão geopolítica global a patamares sem precedente no Sahel.

III. O mosaico da insurgência: a coligação sui-generis» no Azawad e o factor religioso

Para além dos entraves estatais e geopolíticos, a natureza das forças opositoras no Mali apresenta uma complexidade estrutural que contrasta vividamente com o quadro operacional da Nigéria. Enquanto na Nigéria o inimigo se encontra claramente delimitado sob a bandeira do extremismo salafista-jihadista, no Norte do Mali a linha de fractura é profundamente fluida e imprevisível.

O cenário bélico maliano é dominado por uma «coligação sui-generis» de conveniência que agrega dois actores fundamentalmente distintos:

  1. Os movimentos independentistas do Azawad: Grupos predominantemente laicos e étnicos (sobretudo tuaregues), representados historicamente pela Coordenação dos Movimentos do Azawad (CMA)[4] e pelo Quadro Estratégico Permanente (CSP-DPA)[5], cujo objectivo primacial é a auto-determinação ou autonomia da região setentrional do Azawad, sendo que o a FLA (Front de Libération de l’Azawad)[6], tenha recomeçado as suas actividades separatistas no início deste ano (Randrianarimanana, 2026)
  2. Os grupos extremistas islâmicos: Organizações jihadistas sob a tutela do Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), a filial oficial da al-Qaeda no Sahel (al-Qaeda no Magrebe Islâmico – AQIM), que procuram a imposição de um califado e a aplicação rigorosa da lei islâmica por toda a região (Almeida, 2022: 853-854; Almeida, 2026: 463-464).

Esta aliança táctica entre o nacionalismo separatista tuaregue e o extremismo religioso transnacional cria um ambiente operativo extremamente movediço. Como adverte a análise da Fröhlich (2026b), uma acção militar dos EUA destinada a erradicar elementos do JNIM arrisca atingir inadvertidamente facções independentistas que não possuem como agenda o terrorismo internacional, alimentando a narrativa de que Washington actua como força de opressão contra as populações locais do Norte do Mali.

Com efeito, sendo o Mali um país esmagadoramente muçulmano, a condução de operações militares ocidentais em território nacional é susceptível de instrumentalização propagandística pelos grupos radicais. Da mesma forma que na Nigéria a actuação em estados islâmicos exigiu extrema cautela sociológica, no Mali a presença militar estrangeira corre o risco constante de catalisar o sentimento anti-ocidental e unificar populações locais e insurgentes contra o que pode ser visto como uma eventual agressão externa.

Mas há dois factos que ajudam a esta vontade e aceitação de uma actuação dos EUA no Mali e que parece estar a ser pouco tido em conta. Em Outubro de 2025, o piloto missionário norte-americano Kevin Rideout, foi raptado da sua residência missionária da” Serving In Mission”, em Niamey, Níger, por um grupo islamita, pensa-se do JNIM, e que foi recentemente libertado (AFP, 2026) com o apoio das autoridades militares líbias que intermediaram esta libertação. Mas já em 2016 também um outro missionário norte-americano, Jeffery Woodke, foi raptado por islamitas radicais e libertado, em Março de 2023, na tríplice fronteira (confluência fronteiriça entre Burkina Faso, Mali e Níger) (CPAD News, 2023).

Ora no caso de Rideout, os EUA – porque tinham indicação que o mesmo poderia estar em território maliano – solicitaram ao Mali autorização para sobrevoo das áreas onde o missionário poderia estar detido no que foi aceite por este país (Abdi, 2026), tal como fizeram com o Níger, no caso de Woodke, mas sem concordância do Níger. Isto foi uma porta-aberta para a actual situação, já que EUA e Mali estão a negociar um acordo de segurança (Africa Table, 2026)

IV. A União Africana e a APSA: o confronto entre o intervencionismo unilateral e a soberania continental

A probabilidade de uma crescente intervenção militar norte-americana unilateral  pela administração Trump – ainda que sob a capa de acordo com Bamako –traz ao primeiro plano uma das contradições mais profundas da geopolítica africana contemporânea: o choque entre a projecção de poder externa e a arquitectura institucional de segurança do próprio continente.

A União Africana (UA), através da sua Arquitectura Africana de Paz e Segurança (APSA), sustentada pelo Conselho de Paz e Segurança (CPS) e pelo mecanismo da Força de Reserva Africana (ASF), é guiada pelo princípio basilar de “Soluções Africanas para Problemas Africanos” (Almeida, 2022). Esta doutrina visa, precisamente e em princípio, evitar que o continente permaneça um espaço passivo de projecção de forças de potências extra-continentais.

A abordagem de Washington nesta era Trump gera impactos e atritos directos no eco-sistema da UA e da APSA em três frentes fundamentais:

  1. A marginalização do multilateralismo Africano: a preferência da administração Trump pelo “bi-lateralismo pragmático” ou “transacional” conduz a parcerias directas com estados individuais (como na Nigéria) ou a acções unilaterais pontuais, contornando a UA e os blocos económicos regionais, como, no caso, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e, de certa forma, a nova e emergente Aliança dos Estados do Sahel (AES)[7]. Na eventualidade de operar à margem do Conselho de Paz e Segurança da UA (CSP-UA), os EUA podem enfraquecer as autoridades normativas continentais e alimentarão a fragmentação das respostas colectivas de segurança.
  2. A erosão da Arquitectura Africana de Governação (AGA): a APSA funciona de forma integrada com a Arquitectura Africana de Governação (AGA), que estabelece tolerância zero para alterações inconstitucionais de governo (Coup d’États ou Golpes de Estado). A actuação militar pragmática dos EUA no Sahel, caso acabe por cooperar operacionalmente ou negociar tacitamente com a junta militar de Bamako em prol da “luta anti-terrorista”, mina directamente as sanções e a política de isolamento impostas pela UA ao regime de Assimi Goïta, significando a legitimação de governos de facto que ascenderam pela força das armas.
  3. A armadilha da pependência e do vácuo financeiro: historicamente, a operacionalização da APSA tem padecido de uma vulnerabilidade crónica: a sistemática dependência de financiamento externo. Quando a política externa dos EUA reduz o apoio financeiro e logístico a missões multi-laterais organizadas ou validadas pela UA/ONU para favorecer operações americanas cirúrgicas e autónomas, a UA é empurrada para um dilema estratégico. Ora para preencher o vácuo, estados-membros ou juntas regionais recorrem a actores alternativos de segurança (como o da Rússia (Africa Corps) ou aos Estados do Golfo, nomeadamente a Arábia Saudita e os EAU), transformando o espaço da APSA num campo de batalha por procuração (proxy warfare) que desmantela a soberania continental almejada pela Agenda 2063, da UA.

Portanto, a proliferação do modelo de acção militar de Washington não só contorna a soberania estratégica que a APSA procura tentar edificar, como arrisca reduzir a UA a um espectador impotente perante a militarização crescente do Sahel.

V. Conclusão e perspectivas estratégicas

A comparação entre as intervenções militares norte-americanas na Nigéria e a ponderação de acções no Mali demonstra com clareza as delimitações da doutrina de intervenção pontual da actual era Trump quando aplicada a cenários de elevada volatilidade institucional.

Na Nigéria, a convergência de interesses entre Washington e um governo legítimo permitiu obter resultados pontuais significativos contra o ISWAP. No entanto, a transposição dessa estratégia para o Mali afigura-se extremamente problemática, tal como sublinhado por Hudson & Chason (2026a) e por Fröhlich (2026b). O Mali não oferece os pressupostos mínimos para uma cooperação militar sólida sem custos políticos demasiados elevados: a junta militar padece de défice de legitimidade, a presença dos paramilitares russos da Africa Corps introduz o risco de um possível conflito entre super-potências, e a insurgência do Azawad funde causas secessionistas e radicais que desafiam qualquer categorização simplista.

Além disso, a negligência relativamente à UA e aos mecanismos da APSA corrói as bases da governação multi-lateral e da estabilidade de longo prazo no continente. Em última análise, se os Estados Unidos optarem por avançar com ataques militares no Mali à margem do quadro normativo africano, arriscam-se a ficar enredados num conflito multi-dimensional onde os limites entre o combate ao terrorismo e a disputa geopolítica se esbatem. A experiência histórica das intervenções em África, desde a Somália e Líbia até ao presente, sugere que, na ausência de uma estratégia diplomática abrangente e articulada com as instituições continentais, o uso exclusivo da força militar de precisão corre o risco de desestabilizar, ainda mais, a periclitante região do Sahel e dividir a, cada vez mais frágil, governação da UA, como o Relatório do Representante Especial e Chefe do Gabinete das Nações Unidas para a África Ocidental e o Sahel (UNOWAS), Leonardo Santos Simão, deixa adivinhar (UN-SC, 2026).


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*Eugénio Costa Almeida1, 2, 3, 4, 5, a, b

1. Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Lisboa, Portugal.

2. Investigador Colaborador do Centro Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL);

3. Investigador Sénior Associado da Associação CEDESA – Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África / ARN (Angola Research Network);

4.Investigador associado do Centro de Investigação Desenvolvimento e Inovação da Academia Militar (CINAMIL), Academia Militar, Instituto Universitário Militar, Lisboa, Portugal;

5. Doutorado em Ciências Sociais, especialidade de Relações Internacionais, (ISCSP-UTL).

a. ORCID: 0000-0002-1259-5764

b. email: eugenio.luis.almeida@iscte-iul.pt e elcalmeida@gmail.com


[1] Operação Gothic Serpent (Serpente Gótica, ou “Batalha de Mogadíscio”) foi uma operação militar dos Estados Unidos em Mogadíscio (Somália), em 3-4 de Outubro de 1993. O objetivo principal era capturar o líder guerrilheiro somali Mohamed Farrah Aidid, que liderava os ataques às forças “peacekiping” da ONU (UNOSOM II). Participaram nesta falhada operação militar – deu, depois, direito ao um filme “Black Hawk Down” –  três unidades de elite norte-americana: 2 do exército (Companhia B (Bravo), 3º Batalhão, 75º Regimento Ranger “Task-Force Ranger” e o Esquadrão C, 1º Destacamento Operacional de Forças Especiais-Delta “1st SFOD-D ou Delta Force”) e da aviação (a 160º Regimento de Operações Especiais de Aviação “ou Night Stalkers”) (Dos Santos & Perdue, 2022).

[2] Tongo Tongo é uma aldeia localizada no sudoeste do Níger, na região de Tillabéri, muito próxima da fronteira com o Mali (numa zona conhecida como a “região das três fronteiras”, que abrange o Níger, o Mali e o Burkina Faso)

[3] A “A Operação Barkhane, que substituiu a “Operação Serval”, exclusiva para o Mali, foi uma missão militar liderada pela França na região africana do Sahel, realizada entre Agosto de 2014 e Novembro de 2022. O seu principal objectivo passava pelo combate aos grupos armados jihadistas e terroristas, actuando em cooperação com cinco países da região (Mauritânia, Mali, Níger, Chade e Burkina Faso, agrupados no G5 Sahel). Esta operação terminou, formalmente, em Novembro de 2022, com a retirada total das tropas francesas do território maliano, após os sucessivos Golpes d’ État militares no Mali, Níger e Burkina Faso e da hostilização que estes países começaram a ter com a presença francesa na área (Almeida, 2022: 853-855).

[4] Coordenação dos Movimentos do Azawad (Coordination des Mouvements de l’Azawad – CMA), criada no final de 2013, é uma aliança de grupos rebeldes formada pelo Movimento Nacional de Libertação do Azawade (MNLA) – o mais antigo movimento independentista –, pelo Alto Conselho para a Unidade do Azawade (HCUA) e pelo Movimento Árabe do Azawade (MAA)

[5] O Quadro Estratégico para a Defesa do Povo de Azawad (Cadre stratégique permanent pour la défense du peuple de l’Azawad – CSP-DPA) foi criado Maio de 2021 (inicialmente como Cadre stratégique permanent pour la paix, la sécurité et le développement — CSP-PSD), com base os Acordos de Paz de Argel, de 2015, tendo adoptado a actual denominação em Abril de 2024, após a escalada de tensões quando a MINUSMA começou a retirar-se do país e o exército regular maliano (FaMa), apoiado pelo Africa Corps, ocupou bases militares no Norte que os rebeldes consideravam sob o seu controlo.. Formam esta “conglomerado” a CMA, a Plateforme des mouvements du 14 juin 2014 d’Alger (Plateforme) e um movimento encabeçado por figuras independentistas de Azawad (Randrianarimanana, 2026).

[6] A Frente de Libertação do Azawad (Front de libération de l’Azawad – FLA), uma coligação político-militar separatista de base tuaregue e árabe, ciada em Novembro de 2024, em Tinzaouatène, esteve um pouco inactiva tendo relançado a sua ofensiva armada no início de 2026. A FLA resultou do agrupamento de fações mais radicais e independentistas do CSP-DPA.

[7] Formam a Aliança dos Estados do Sahel (AES) o Burkina Faso, o mali e o Níger, havendo países que ponderam integrar esta aliança que resultou da saída daqueles três países da CEDEAO, como Togo (The Drone Front, 2025)

O ano de Angola na União Africana: Diplomacia de pacificação e afirmação; segue Burundi…

Eugénio Costa Almeida*

Introdução

No passado 13 de Fevereiro de 2026, a União Africana (UA) encerrou um dos capítulos mais dinâmicos da sua história recente. A presidência de João Lourenço, Presidente da República de Angola, chegou ao fim, entregando o testemunho ao Burundi, no fim-de-semana de 14º15 de Fevereiro, durante o 39ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da UA, ocorrida em Adis-Abeba, Etiópia.

Este não foi apenas um ano de gestão administrativa; foi um período em que a “Diplomacia do Diálogo” angolana foi testada no palco mais complexo do mundo.

Ainda assim, em certos sectores do Continente, ficaram situações críticas por resolver, nomeadamente, os conflitos político-militares no Sudão e na RDC, as crises político-diplomáticas no Sahel e, mais recentemente, na Somalilândia – que viu a sua secessão, declarada em Maio de 1991, agora reconhecida por Israel –, bem como na Guiné-Bissau.

I. O Impacto no seio internacional: África como sujeito, não objecto

Historicamente, a União Africana foi vista por muitos parceiros externos como uma entidade reativa. Sob a liderança de Angola, essa percepção sofreu uma mutação significativa. O impacto internacional do mandato de João Lourenço pode ser medido em três eixos fundamentais:

  1. A consolidação no G20:Angola herdou a responsabilidade de operacionalizar a voz de África no G20. João Lourenço não se limitou a ocupar a cadeira; ele utilizou o fórum para exigir uma reforma sistémica das instituições de Bretton Woods (FMI e o Grupo Banco Mundial). O impacto foi claro: pela primeira vez, houve um consenso alargado sobre a necessidade de mecanismos de alívio da dívida que não estrangulassem o crescimento dos países em desenvolvimento. A presença angolana garantiu que a “voz de Adis-Abeba” fosse técnica, assertiva e economicamente fundamentada.
  2. A geopolítica das parcerias energéticas: Num mundo sedento por transicção energética, Angola tudo procurou fazer por posicionar a UA como um parceiro estratégico indispensável. Ao liderar diálogos com a União Europeia (UE) e a China, o presidente angolano defendeu que África não deve ser visto, unicamente, como uma mina de “minerais críticos” (lítio, cobalto, tantalite e columbite – vulgo, coltan –, manganês, vanádio, titânio ou bauxite), mas sim como um potencial centro de processamento industrial. Este posicionamento alterou a dinâmica das negociações internacionais, forçando investidores a incluir cláusulas de “know-how”, como transferência de tecnologia e elevar a  industrialização local.
  3. O multilateralismo activo: Em tempos de fragmentação global, Angola manteve uma postura de não-alinhamento pragmático. O impacto internacional foi o de uma África que se recusa a eleger lados em guerras por procuração, focando-se antes na defesa do Direito Internacional e na integridade territorial, princípios que Luanda sempre defendeu e usou da sua influência para a defender arduamente devido à sua própria história de guerra-civil e agressão externa.

II. Visibilidade política e diplomática: a “marca Lourenço”

João Lourenço procurou firmar na UA o que muitos analistas chamam de “Diplomacia Presidencial de Alta Intensidade”, devido à sua intervenção pró-activa, directa e incansável na resolução de conflitos, na promoção da paz e no posicionamento de Angola como actor central na estabilidade do continente. A visibilidade que ele deu à organização não foi apenas estética, mas operacional.

  1. O Processo de Luanda como referência: A crise no Leste da República Democrática do Congo (RDC) foi o grande teste. Lourenço, designado por alguns analistas, nomeadamente o académico Afonso Botaz como “Campeão da Paz e Reconciliação em África”, elevou a mediação regional ao nível de prioridade global. Ele conseguiu colocar o Presidente congolês-democrata Félix Tshisekedi e o Presidente ruandês Paul Kagame à mesma mesa em momentos críticos. Embora a paz seja um processo contínuo e frágil, a UA ganhou visibilidade como o único mediador capaz de navegar nas sensibilidades históricas da Região dos Grandes Lagos.
  2. O protagonismo na Assembleia-Geral da ONU: O discurso do presidente angolano, enquanto presidente em exercício da UA, nas Nações Unidas, foi marcante. Lourenço deu visibilidade à exigência histórica de dois assentos permanentes para África no Conselho de Segurança. Ele não o fez como um pedido de favor, mas como uma correcção de uma injustiça histórica necessária para a legitimidade do sistema multilateral. De notar que, ainda recentemente o Secretário-geral, António Guterres, reafirmou que África deveria ter esses assentos.
  3. Diplomacia de infra-estruturas: Ao promover o Corredor do Lobito como um projecto de interesse continental e global (com apoio dos EUA e da UE), o presidente Lourenço mostrou que a UA pode liderar projectos que integrem o comércio transcontinental. Isto deu à UA uma imagem de modernidade e viabilidade económica, afastando-se do habitual estereótipo de “gestora de crises”.

III. O papel da UA no sistema político global: sucessos e limitações

Terá conseguido a UA afirmar-se como um polo de poder? A resposta conduz-nos a um “sim” habilitado.

Sob a égide de Angola, a UA conseguiu:

  1. Bloquear eventuais tentativas de divisão do continente: Em questões de alta sensibilidade internacional, a UA manteve uma posição coesa, impedindo que potências externas procurasse fragmentar o voto africano em fóruns internacionais; de certa forma e na grane maioria dos casos, conseguiu-o.
  2. Influenciar a agenda climática: Na COP brasileira, a liderança angolana foi crucial para que o “Fundo de Perdas e Danos” começasse a ser capitalizado, argumentando que África é o continente que menos polui, mas o que mais sofre. Ainda assim, reconheçamos que ficou aquém do expectável. Mas “step-by-step” o caminho faz-se caminhando.

Contudo, o sistema político global ainda é dominado pelo poder de veto e pela força económica. A UA, e apesar do brilho diplomático de Angola, ainda luta contra a dependência financeira do seu próprio orçamento (muito dependente de parceiros externos). O papel alcançado foi mais o de um poder moral e estratégico, mas onde a autonomia financeira total continua a ser o maior  “calcanhar de Aquiles” do Continente.

IV. O Legado de Angola: diplomacia activa em tempos de crises

O que a UA herda de Angola foi uma doutrina de acção. Em tempos de golpes de Estado – no Sahel e na Guiné-Bissau – e instabilidade no Corno de África – a crise no Tigré, a questão de secessão somalilândia e a Grande Barragem do Renascimento Etíope (GBRE), que persiste colocar fortes questões geopolíticas, hídricas e de segurança colocadas pelo Sudão e pelo Egipto –, pode-se dizer que o legado de Luanda se baseia em quatro pilares:

  1. O princípio da solução Africana para problemas Africanos: Angola provou que a intervenção externa muitas vezes agrava os conflitos. O legado é uma UA que deve confiar mais nos seus mecanismos regionais (nas Organizações Regionais e nos Sistemas de Intervenção Rápida – as African Stand-by Forces.) coordenados centralmente;
  2. Institucionalização da Paz: A criação de centros de monitorização de conflitos e o reforço do Conselho de Paz e Segurança da UA (CPS-UA) foram marcas da gestão angolana.
  3. Realismo diplomático: Ao contrário de presidências anteriores mais idealistas, Lourenço procurou assentar a sua diplomacia num realismo frio. Ele compreendeu que a diplomacia sem o apoio da segurança e da economia é (totalmente) ineficaz;
  4. Resiliência institucional: Angola ajudou a reformar processos internos da Comissão da UA, tornando-a mais ágil na resposta a emergências sanitárias e desastres climáticos, paradigma aprendido durante as crises de saúde pública do passado.

V. A sucessão pelo Burundi: o que esperar?

A partir de agora, e durante um ano, a presidência rotativa passa para o Burundi, sob a liderança do Presidente Évariste Ndayishimiye. A transicção de um gigante petrolífero e militar como Angola para um país menor e encravado como o Burundi levanta inúmeras e pertinentes questões importantes.

  1. O Desafio da Continuidade

O Burundi assume a UA num momento em que os processos iniciados por Angola (especialmente na RDC) estão em fase crítica. Ndayishimiye terá o desafio de manter a autoridade da UA sem possuir o mesmo “músculo” financeiro e diplomático que Luanda projectou e com um vizinho, o Ruanda, que, não poucas vezes, pelo contrário, mostra pouca apetência para o diálogo intra e extra africano.

2. As Prioridades do Burundi

Espera-se que o mandato do Burundi se foque em:

  1. Juventude, paz e segurança e silenciamento das “armas”: O Presidente Ndayishimiye tem sido um forte defensor da inclusão dos jovens nos processos de decisão. O seu principal objectivo para pela “tolerância zero” sobre mudanças inconstitucionais de governo (golpes de Estado) e no fortalecimento da estabilidade regional;
  2. Desenvolvimento económico e reforço da Agenda 2063: O foco burundês pasará pelo acelerar da industrialização, da transformação agrícola e pelo desenvolvimento de infra-estruturas, visando a independência financeira do continente e a concretização dos objectivos da Agenda 2063;
  3. Agricultura e segurança alimentar: Sendo um país com forte base agrícola, o Burundi não deixará de procurar priorizar a resiliência alimentar, um tema vital após as disrupções nas cadeias de abastecimento globais, nomeadamente, com as tarifas de Donald Trump;
  4. Gestão e segurança de recursos hídricos e saneamento: O tema da água será central para a presidência de Ndayishimiye, especialmente num continente onde o stress hídrico é um catalisador de guerras – não esquecer a crise que a GBRE, desde a sua pojecção até à sua utilização tem criado na região etíope-sudanesa-egípcia –. Neste sentido, o Burundi coloca a garantia de acesso à água segura e sistemas de saneamento como uma prioridade estratégica, essencial para a saúde pública, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável;
  5. Reforço da voz da África na governação global: O presidente burundês propõe-se fortalecer a posição de África no areópago internacional, clamando por um mundo mais justo, equilibrado e inclusivo, onde inclui, inevitavelmente, a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas;
  6. Cooperação e consenso: Ndayishimiye assegurou que a sua presidência baseada assentará no diálogo, na escuta e na cooperação com todos os Estados-membros, visando promover a unidade continental face aos persistentes desafios económicos e climáticos no que o Continente é sistémico, ou seja, à manutenção de falta de desafios estruturais profundos, inter.conectados e persistentes que afectam o funcionamento do continente como um todo, transcendendo fronteiras nacionais e governos individuais, entre si inter-ligados, criando ciclos viciosos de sub-desenvolvimento, instabilidade e pobreza que dificultam o crescimento a longo prazo.

3. O risco de introversão

O grande problema é que a UA perca o “fôlego” global que Angola lhe deu, na medida em que, tudo o parece indicar, as principais linhas de actuação e os grandes objectivos do Burundi aparente poder tender para uma agenda mais interna e regional. Recordo o que já afirmei antes: o Burundo tem um vizinho, Ruanda, que mostra muita apetência para olhar só para si e para os seus interesses… Todavia, se o Burundi souber capitalizar as estruturas de mediação deixadas por Angola, poderá surpreender ao focar-se na “diplomacia de proximidade” e levar por diante dois dos seus propalados objectivos: cooperação e consenso no reforço da voz da África na governação global.

Conclusão: De Luanda para Bujumbura…

O mandato de Angola (2025-2026) poderá ser recordado – veremos as “sequelas” – como o ano em que a União Africana se comportou como uma potência emergente. O presidente João Lourenço deixou a presidência com a imagem de um estadista que procurou saber ler os sinais dos tempos: um mundo multipolar onde África não pode ser apenas um espectador.

Angola deu à UA mais voz, músculo e direcção. O Burundi recebe agora uma organização com as expectativas elevadas. A incerteza global permanece, mas a arquitectura diplomática africana sai deste mandato mais robusta, mais conectada com o G20 e, acima de tudo, mais consciente de que a estabilidade do mundo passa, obrigatoriamente, pela estabilidade e prosperidade do continente africano. Indispensável!

Este é o fim de um ciclo de afirmação e o início de um ciclo que se deseja de consolidação social. O balanço final tende a ser positivo: Angola não serviu apenas a sua própria agenda, mas procurou servir de ponte para que o continente falasse a “uma só voz” num momento em que o mundo mais precisa(va) de ouvir a razão.

Algumas referências

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African Union. (2026a). African Union’s 51st Permanent Representatives’ Committee Session concludes. African Union Commission, January 30, 2026; https://au.int/en/pressreleases/20260130/african-unions-51st-permanent-representatives-committee-session-concludes

African Union. (2025). Decision on the African Union Theme of the Year 2026 “Assuring Sustainable Water Availability and Safe Sanitation Systems to Achieve the Goals of Agenda 2063”. Assembly of the African Union, 16 Fevereiro 2025; https://africanlii.org/pt/akn/aa-au/doc/decision/2025-02-16/912/eng@2025-02-16

Bembe, Miguel Domingos. (2016). A Política Externa Angolana: Doutrina e prática. Revista Mulemba, 6 (11) | 2016, p. 25-55; https://doi.org/10.4000/mulemba.1281

Esteves, César. (2026b). João Lourenço: “África que queremos só será possível se conseguirmos silenciar as armas”. . Jornal de Angola, ed 18081, 15 de Fevereiro. 2026, p. 1, 4 e 5

Esteves, César. (2026a). Presidente João Lourenço termina hoje mandat de um ano na União Africana. Jornal de Angola, ed 18080, 14 de Fevereiro. 2026, p. 1 e 3

ISS-Africa. (2025). Can Angola advance African leadership as AU chair? ISS-Africa PSC Report, 11 March 2025; https://issafrica.org/pscreport/psc-insights/can-angola-advance-african-leadership-as-au-chair

Kalan, Mouctar. (2026). La présidence de l’UA passe au Burundi, symbole d’unité et de continuité. Horoya, Fév 14, 2026; https://horoya.net/2026/02/14/la-presidence-de-lua-passe-au-burundi-symbole-dunite-et-de-continuite/

Le Burundi prend la relève de l’Angola à la présidence tournante de l’Union africaine pour l’année 2026. ENA, 14 fevrier 2026; https://www.ena.et/web/fre/w/fre_8310335

Musumba, Lisa. (2026). Carlos Lopes : Africa Aware: Can the African Union withstand fractures to multilateralism?. Chatham House, 13 February 2026; https://www.chathamhouse.org/2026/02/africa-aware-can-african-union-withstand-fractures-multilateralism

Pintinho, Zeferino. (2025). Angola e os Desafios da Estabilidade em África. Lisboa. Perfil Criativo Edições, 2025.

Vines, Alex (s/d).. Angola: Research explores Angola’s economy, politics, extractive industries and international relations. Chatham House; https://www.chathamhouse.org/regions/africa/angola

Eugénio da Costa Almeida*
* Pós-Doutorado; Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL), Investigador-Sénior Associado do Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA/Angola Research Network) e Investigador-Associado do CINAMIL (Academia Militar de Lisboa)

O mandato de João Lourenço na presidência pro tempore da União Africana: entre a gestão da crise e os limites da transformação continental

Adalberto Malú: Especialista em Relações Internacionais | Analista Geopolítico | Docente Universitário |Investigador Associado – CEDESA

Resumo

O mandato de João Lourenço na presidência pro tempore da União Africana decorreu num dos períodos mais instáveis da história recente do continente. Este artigo propõe uma análise crítica e estratégica desse mandato, argumentando que o seu principal traço distintivo não foi a transformação estrutural da organização, mas a contenção política num contexto de fragmentação regional, crises armadas persistentes e erosão da autoridade normativa africana. Sustenta-se que, embora limitado em resultados estruturais, o mandato angolano reforçou o posicionamento internacional de Angola como actor diplomático credível e expôs, de forma clara, os constrangimentos sistémicos da própria União Africana.

1. Introdução: um mandato num continente em ebulição

Avaliar o mandato de João Lourenço na presidência pro tempore da União Africana exige começar pelo contexto. Não se trata de um detalhe analítico, mas da chave interpretativa central. A liderança angolana coincidiu com um dos ciclos mais críticos da organização desde a sua criação: golpes militares em cadeia no Sahel, guerra aberta e desestruturante no Sudão, persistência do conflito no Leste da República Democrática do Congo, tensões no Corno de África e uma ordem internacional em transição acelerada, marcada pela competição estratégica entre as grandes potências.

Neste cenário, a presidência da UA não era um espaço propício a ambições reformistas profundas. Era, antes, um exercício de gestão do risco sistémico, num continente onde a instabilidade deixou de ser episódica para se tornar estrutural.

2. Um mandato político, não transformador

O mandato de João Lourenço foi, acima de tudo, político. Não no sentido partidário, mas no sentido clássico da política internacional: gestão de equilíbrios, contenção de crises e preservação mínima da ordem institucional existente.

Não foi um mandato fraco. Mas também não foi histórico. Foi um mandato de contenção estratégica, orientado para evitar colapsos maiores, mais do que para reinventar a União Africana. Essa distinção é fundamental para evitar tanto a glorificação acrítica como a desvalorização simplista.

3. Onde Angola ganhou espaço e capital diplomático

Há ganhos claros que devem ser reconhecidos sem clubismo.

Em primeiro lugar, a recentralização da diplomacia preventiva.

A presidência angolana recolocou a mediação no centro da acção política da UA. O envolvimento directo de João Lourenço nos dossiês da RDC–Ruanda e do Leste do Congo reforçou a perceção de Angola como potência diplomática regional, num continente onde muitos actores falam, mas poucos assumem os custos políticos e estratégicos da mediação.

Em segundo lugar, o reforço da imagem internacional de Angola.

A presidência da UA funcionou como uma plataforma de visibilidade estratégica. Angola passou a ser percecionada como um actor político credível, capaz de dialogar com os múltiplos polos de poder, Estados Unidos, União Europeia, China e a Rússia, sem alinhamentos automáticos. Em termos geopolíticos, isto representa a acumulação de capital diplomático, um activo intangível, mas decisivo.

Em terceiro lugar, um discurso africano mais realista.

João Lourenço evitou a retórica pan-africanista vazia e insistiu na responsabilização dos próprios Estados africanos pela instabilidade do continente. Esta abordagem, embora pouco popular, traduz uma leitura mais madura da realidade africana e afasta a UA dos discursos simbólicos sem capacidade de implementação.

4. Os limites do mandato: onde a ambição ficou curta

Uma análise séria exige também identificar os limites.

Primeiro, ausência de resultados estruturais nos principais conflitos.

Mediação não é sinónimo de resolução. O conflito no Leste da RDC mantém-se, o Sudão afundou-se numa guerra ainda mais profunda e o Sahel continua fora de controlo. Embora estas crises não possam ser imputadas diretamente à presidência angolana, o mandato não produziu viragens estratégicas capazes de alterar o curso dos conflitos.

Segundo, a fragilidade estrutural da União Africana permaneceu intacta.

Não houve avanços significativos na reforma institucional da UA: financiamento autónomo, capacidade coerciva, mecanismos eficazes de sanção ou a verdadeira autonomia estratégica. A presidência angolana geriu um sistema disfuncional, mas não conseguiu transformá-lo.

Terceiro, a dimensão económica ficou em segundo plano.

Num mundo organizado em blocos económicos e cadeias de valor regionais, a África precisa de um impulso político mais assertivo à Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA). Esse eixo não foi central no mandato, limitando a capacidade da UA de se afirmar como actor económico global relevante.

5. Leitura estratégica: o que este mandato revela sobre África

O mandato de João Lourenço acaba por ser um espelho da própria condição africana contemporânea. Um continente com intensa uma actividade diplomática, mas com muito pouco poder material, fraca capacidade de enforcement e elevada dependência externa.

Neste sentido, a presidência angolana não falhou. Mas também não alterou a lógica estrutural da União Africana. Foi um mandato de estabilidade possível, não de transformação continental.

6. Conclusão: ganhos para Angola, limites para a União Africana

Em termos claros:

João Lourenço teve um mandato sério, competente e respeitado, que reforçou a credibilidade internacional de Angola e consolidou o país como actor diplomático relevante no continente. Contudo, perdeu-se a oportunidade de deixar uma marca estrutural duradoura na União Africana.

Em linguagem crua:

não falhou, mas não mudou o jogo. Ainda assim, há um dado estratégico que não deve ser subestimado: Angola esteve, durante este mandato, sentada na mesa onde se discutem os grandes dossiers africanos. Para o futuro da política externa angolana, isso não é simbólico. É um activo estratégico que pode, se bem explorado, projectar Angola para além do papel de mediador ocasional e aproximá-la do estatuto de actor estruturante na arquitectura política africana.

A Europa volta a olhar para África: reflexões sobre a cimeira UA-EU

A próxima Cimeira União Africana–União Europeia, marcada para os dias 24 e 25 de novembro de 2025 em Luanda, representa um momento decisivo na redefinição da parceria entre os dois continentes.

O encontro, que reunirá 76 chefes de Estado e de Governo, assinala 25 anos de cooperação institucional e simboliza a maturidade necessária para transformar a relação histórica entre África e Europa numa verdadeira parceria de iguais, que é a única fórmula para reestabelecer o bom relacionamento entre os dois blocos.

A sétima Cimeira UA–UE terá lugar em Angola, coincidindo com o jubileu dos **50 anos da independência angolana, o que confere ao evento um simbolismo adicional. Estarão presentes **49 líderes africanos e 27 europeus, com exceção dos Estados-membros da União Africana sob sanções. Esta será uma das maiores reuniões políticas internacionais já realizadas em solo angolano, consolidando o papel de Luanda como epicentro do diálogo intercontinental. Nesta medida, começa por ser uma vitória internacional para o Presidente da República João Lourenço que tem apostado numa aproximação externa à Europa, para além, e por cima, de Portugal.

O encontro pretende reafirmar a Visão Conjunta UA–UE para 2030, que estabelece metas comuns em áreas como prosperidade económica, desenvolvimento humano, governação democrática, proteção ambiental e defesa do multilateralismo. A agenda inclui temas centrais como paz e segurança regional, integração económica, comércio, reforma das instituições multilaterais, digitalização, migração e mobilidade.

Neste aspeto, a Visão Conjunta ainda é demasiado europeia e pouco africana, atendendo sobretudo à ótica eurocêntrica na forma como encara o mundo, ainda sendo necessário um trabalho mais intenso de miscigenação de culturas e objetivos políticos para se transformar numa verdadeira Visão Conjunta.

Contudo, é positivo que retoricamente a Europa regresse a África não apenas como investidor, mas como parceiro estratégico.

O Global Gateway programa europeu de investimento em infraestruturas, prevê 150 mil milhões de euros destinados a projetos estratégicos em África. Este pacote financeiro é mais do que um gesto de cooperação: é uma tentativa de equilibrar a crescente disputa internacional pela influência no continente, marcada pela presença da China, Rússia, Turquia e países do Golfo. O grande desafio é concretizá-lo e traduzi-lo em dinheiro real, e não em promessas ou engenharias financeiras.

Ao contrário das dinâmicas coloniais do passado, a Europa procura agora afirmar-se como parceiro de confiança, apoiando a integração regional africana e promovendo mecanismos transparentes de acompanhamento. O Parlamento Europeu tem insistido na necessidade de uma parceria de iguais, assente em solidariedade, democracia e direitos humanos.

Esta mudança de paradigma revela uma maturidade política que reconhece a autonomia africana e valoriza a cooperação em pé de igualdade. Sem esta mudança, a Europa definharia em África.

O pós-colonialismo africano foi marcado por tensões, dependências e desconfianças. Contudo, a Europa pode desempenhar um papel positivo ao reconhecer os erros históricos e investir na construção de instituições sólidas com modelos escolhidos por África.

Além disso, a cooperação no domínio da transformação digital e da transição ecológica oferece oportunidades para superar desigualdades estruturais.

A aposta em energias renováveis, mobilidade sustentável e digitalização pode transformar África num ator central da economia verde global. A Europa, com a sua experiência regulatória e tecnológica, pode apoiar este processo sem impor modelos externos, mas adaptando-os às realidades locais.

A maturidade da relação UA–UE exige responsabilidade partilhada. África deve assumir o protagonismo na definição das suas prioridades, enquanto a Europa deve abandonar qualquer vestígio de paternalismo.

A cimeira de Luanda será um teste à capacidade dos dois blocos de negociar em pé de igualdade, respeitando as especificidades regionais e culturais.

Persistem desafios enormes, nomeadamente na gestão da migração e na criação de mecanismos de financiamento sustentável para projetos africanos. Há uma tendência política na Europa de voltar a humilhar os africanos. Isso tem de ser ultrapassado.

O comércio entre África e Europa continua a crescer. Em 2024, o volume de trocas comerciais ultrapassou os 300 mil milhões de euros, com destaque para setores como energia, minerais estratégicos e produtos agrícolas.

A Europa é ainda o maior parceiro comercial de África, representando cerca de 30% das exportações africanas. Este peso económico confirma que a UE continua a ser um ator central na economia africana, mesmo num cenário de diversificação de parcerias.

A Cimeira UA–UE em Luanda pode não ser apenas um encontro diplomático: mas um marco histórico na redefinição das relações entre África e Europa.

Ao reunir 76 líderes e ao mobilizar investimentos de 150 mil milhões de euros, o evento demonstra que a Europa regressa como parceiro real, disposto a assumir responsabilidades no pós-colonialismo e a apoiar o desenvolvimento africano em pé de igualdade. A maturidade desta relação será medida pela capacidade de transformar compromissos em resultados concretos, respeitando a autonomia africana e promovendo uma cooperação transparente e sustentável.

Num mundo marcado por disputas geopolíticas, a parceria UA–UE pode tornar-se um modelo de cooperação intercontinental, baseado em confiança, solidariedade e visão partilhada para 2030. Luanda, em novembro de 2025, será o palco onde se testará essa ambição.

Geração Z em África: Juventude, Mobilização Digital e Transformação Política no Século XXI

Eugénio Costa Almeida*

Investigador Sénior Associado do CEDESA/Angola Research Network

Resumo

A Geração Z, composta por jovens nascidos entre meados da década de 1990 e o início da de 2010, representa hoje a faixa etária mais numerosa do continente africano. Num contexto em que a mediana etária africana ronda os 19 anos, esta geração emerge como força sociopolítica capaz de alterar paradigmas de poder profundamente enraizados. O presente ensaio analisa o impacto da Geração Z na política africana, a forma como está a desafiar estruturas gerontocráticas e a condicionar processos eleitorais, bem como o seu papel crescente em regimes de maioria muçulmana. São abordados casos como Tanzânia e Camarões, onde a juventude digitalmente mobilizada questionou a justiça eleitoral. O texto examina também o uso das redes sociais como instrumento de mobilização e a tensão entre velhas elites políticas e uma geração que exige transparência, inclusão e futuro.

Palavras-chave: Geração Z; África; política; juventude; redes sociais; eleições

Abstract

Generation Z, comprising young people born between the mid-1990s and early 2010s, now represents the largest demographic group in Africa. With a median age of around 19, this generation is emerging as a sociopolitical force capable of reshaping entrenched power structures. This essay examines Generation Z’s impact on African politics, its challenge to gerontocratic regimes, and its influence on electoral processes, particularly in countries with Muslim majorities. Cases such as Tanzania and Cameroon illustrate how a digitally mobilized youth has questioned electoral fairness. The analysis also highlights how social media has become a tool for political engagement and resistance, as well as the tension between aging elites and a generation demanding transparency, inclusion, and opportunity.

Keywords: Generation Z; Africa; politics; youth; social media; elections

1. Introdução

Com mais de 400 milhões de africanos entre os 15 e os 35 anos (African Union, 2024), a juventude representa um dos principais fatores de mudança do continente. A Geração Z, mais educada e conectada que as anteriores, está a transformar o modo de participar na vida pública. A metodologia deste ensaio baseia-se numa análise qualitativa, combinando dados secundários de organismos internacionais, como o World Bank, UNDP, African Union, ou Afrobarometer, e estudos recentes sobre participação juvenil e digitalização política.

Esta abordagem permite observar tendências transversais – do activismo online ao voto de protesto – e compreender como esta geração desafia elites envelhecidas e instituições continentais frágeis, como a União Africana (UA), incapaz de conter uma sucessão de golpes militares e a crescente desconfiança social.

2. A Geração Z africana: perfil e modos de ação

A Geração Z caracteriza-se por uma literacia digital sem precedentes e por uma profunda desconfiança nas estruturas tradicionais de poder (Afrobarometer, 2025 e Sanny, van Wyk-Khosa & Asunka, 2023). A internet móvel – que atinge mais de 66% dos africanos com menos de 30 anos (Galal, 2025) – tornou-se um espaço de formação política e de contestação.

Estes jovens vivem entre a precariedade e a esperança: o desemprego juvenil supera os 30% em vários países, como Nigéria, África do Sul e Tunísia (ILO, 2024). Esta condição gera simultaneamente frustração e criatividade política. Plataformas como Twitter (X), TikTok e Instagram,[1] principalmente, transformaram-se em arenas de mobilização, como se observou nos protestos #EndSARS, na Nigéria (Uwazuruike, 2021), o movimento #ShutItAllDown, na Namíbia (Titus, 2020), ou #WeAreRemovingADictator, no Uganda (Ainomugisha & Mwesigire, 2024)

Para além da militância digital, há uma crescente entrada de jovens em partidos políticos e candidaturas independentes. Em Gana e no Quénia, observam-se tentativas de renovar as elites, no Burkina Faso, as medidas anti-ocidentais de Ibrahim Traoré são aplaudidas e celebradas pela juventude burkinaso e africana que o vêem como o novo “Herói Africano” (Stropasolas, 2025 & Veiga, 2025), enquanto em países autoritários, como Uganda, figuras como Bobi Wine encarnam a resistência da juventude urbana à gerontocracia (BBC News, 2025).

3. A gerontocracia africana e os seus mecanismos de reprodução

A gerontocracia – domínio político exercido por elites envelhecidas – permanece um dos traços mais marcantes da política africana contemporânea. Líderes septuagenários e octogenários, como Paul Biya (Camarões, 91 anos), Teodoro Obiang Nguema (Guiné Equatorial, 82), Yoweri Museveni (Uganda, 80) e Denis Sassou Nguesso (Congo, 81), entre outros,mantêm-se no poder há décadas (Reuters, 2025).

A manutenção destas lideranças é sustentada por redes clientelares, controlo militar e manipulação constitucional. No entanto, a crescente consciência política da juventude mina a legitimidade desses regimes. Pesquisas do Afrobarometer (2023 e 2025) indicam que mais de 70% dos jovens africanos acreditam que “a idade avançada limita a inovação política”.

Assim, a Geração Z não é apenas uma força demográfica; é um desafio cultural e simbólico à ideia de que “a autoridade vem da idade”. A linguagem política muda – #hashtags substituem slogans partidários – e a noção de “respeito pelo líder” cede lugar à exigência de resultados.

4. Eleições, legitimidade e contestação: os casos da Tanzânia e dos Camarões

Nas eleições presidenciais da Tanzânia[2], a juventude foi central na denúncia de irregularidades eleitorais e na mobilização digital. Organizações como Change Tanzania e movimentos universitários usaram as redes para expor censura, manipulação de votos e intimidação (Anyanzwa, 2025 & Global Democracy Coalition, s/d). De forma semelhante, nos Camarões, a juventude urbana, especialmente em Douala e Yaoundé, contestou a vitória de Paul Biya em 2018, acusando o regime de fraude sistemática (Amnesty International, 2019), repetindo nas recentes eleições de 2025. Em ambos os casos, a Geração Z transformou a insatisfação em discurso político, desafiando os limites impostos por regimes de longa duração, mesmo sujeita a confrontos com as autoridades (Murrey, 2025).

Além disso, o uso massivo dos VPN e plataformas cifradas indica a sofisticação tecnológica desta geração, que contorna censuras e cria redes transnacionais de solidariedade. Mesmo em países de maioria muçulmana, como Marrocos ou Tunísia, esta mobilização tem emergido em temas como direitos das mulheres e liberdade de expressão, sem se constituir como oposição religiosa, mas cívica (UNDP, 2024).

5. Mobilização digital e espaço cívico

De acordo dados estatísticos, o número de utilizadores africanos de redes sociais ultrapassou 640 milhões em 2024 (Galal, 2025), sendo 70% jovens. Este espaço virtual ampliou a participação cívica e a capacidade de fiscalização do poder.

Exemplos incluem a campanha #FreeSenegal (Oluwole, 2021), que denunciou repressão política, e o movimento #ZimbabweLivesMatter (Chingono, 2020), que levou à atenção internacional abusos estatais.

A Geração Z utiliza humor, ironia e estética digital para mobilizar através de memes e vídeos que substituem panfletos e discursos longos. Essa estética política, como nota Ndlovu-Gatsheni (Falola, 2023), é ao mesmo tempo lúdica e profundamente subversiva, pois reconfigura o espaço público em tempo real.

6. A União Africana e os limites institucionais

Apesar da retórica de “tolerância zero” a golpes de Estado, a União Africana (UA) tem-se revelado incapaz de travar a sua proliferação. Desde 2019, registaram-se 16 golpes militares ou tentativas, incluindo Mali, Burkina Faso, Níger, Gabão, São Tomé e Príncipe e Sudão (Duzor & Williamson, 2023).

As sanções impostas – suspensão de participação e congelamento de fundos – raramente produzem efeitos concretos. O principal problema reside na ausência de mecanismos coercivos e na dependência de consensos políticos entre Estados-membros, muitos deles liderados por elites igualmente autoritárias.

O atual presidente em exercício da UA, João Lourenço, representa um caso singular: Angola saiu de uma guerra-civil sem ter sofrido um golpe de Estado e tem-se posicionado como mediadora regional. No entanto, a sua capacidade de conter golpes é limitada pela falta de instrumentos jurídicos e pela resistência de regimes militares em transição.

A UA enfrenta ainda um dilema de credibilidade: enquanto condena rupturas constitucionais, permanece silenciosa perante manipulações eleitorais de líderes “eleitos” que governam há 30 ou 40 anos. Esta incoerência reduz a confiança das novas gerações na instituição continental.

7. Conclusão

A Geração Z africana é o espelho de um continente em mutação. Jovens, conectados e desiludidos com elites envelhecidas, estão a redefinir o que significa fazer política em África.

As redes sociais criaram uma arena trans-nacional de mobilização e vigilância cívica. Movimentos juvenis em países como Camarões, Nigéria, Tanzânia, e Tunísia demonstram que esta geração não é apenas demográfica, mas transformadora; ou aglutinadora, como no caso do Burkina Faso.

No entanto, o confronto entre juventude e gerontocracia permanece aberto. Enquanto as instituições continentais, como a União Africana, não adquirirem legitimidade prática e capacidade coerciva, os jovens continuarão a recorrer à mobilização digital como forma de resistência e reinvenção democrática.

Mais do que uma “ameaça”, a Geração Z é a oportunidade para repensar o contrato social africano. O seu impacto já não é potencial, é real, mensurável e irreversível.

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10.Novembro.2025

*por: Eugénio Costa Almeida1, 2, 3, 4, a, b

1. Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Lisboa, Portugal.

2. Investigador Colaborador do Centro Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL);

3.Investigador associado do Centro de Investigação Desenvolvimento e Inovação da Academia Militar, Academia Militar, Instituto Universitário Militar, Rua Gomes Freire, 1169-203, Lisboa, Portugal;

4. Doutorado em Ciências Sociais, especialidade de Relações Internacionais, (ISCSP-UTL).

a. ORCID: 0000-0002-1259-5764

b. email: eugenio.luis.almeida@iscte-iul.pt e elcalmeida@gmail.com


[1] Apesar do Facebook, com cerca de 77,27% de utilizadores, ser a plataforma social mais acedida, seguida do YouTube, com 8,51%; Instagram, 7,92%; Twitter/X, 3,44%; Pinterest, 2,2%;e  LinkedIn, 0,38% (Global Stats: statcounter, 2025).

[2] Tanto nas eleições de 28 de Outubro de 2020 (BBC, 2020), como nas mais recentes, de 29 de Outubro de 2025 (Siposhegyi, 2025), em que Samia Suluhu Hassan se legitimou como presidente do país, após ter sido confirmada ao seu antecessor John Magufuli, cuja morte se mantém especulativa (Muschketat, 2021) as contestações foram sempre violentamente reprimidas pelas autoridades.