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QUANDO AS PORTAS AO INVESTIMENTO SE ABREM, MAS OS CANAIS PARA A ENTRADA DE TALENTOS SÃO ENCERRADOS

João Shang – Investigador Senior do CEDESA

O que é necessário para um país alcançar a industrialização? São necessários recursos naturais abundantes, energia suficiente, infraestruturas adequadas, investidores dispostos a realizar investimentos de longo prazo e, sobretudo, profissionais qualificados que dominem as tecnologias industriais modernas e sejam capazes de transformar recursos em produtos. Angola dispõe de abundantes recursos de petróleo, gás natural e minerais, reunindo boas condições para desenvolver a indústria transformadora e a indústria pesada. Nos últimos anos, o Governo angolano tem promovido activamente a captação de investimento internacional, procurando atrair capitais estrangeiros, construir fábricas, criar emprego, impulsionar a diversificação económica e reduzir gradualmente a dependência excessiva da economia petrolífera.

No entanto, nas experiências concretas de alguns investidores estrangeiros, verifica-se uma situação desconcertante: por um lado, os órgãos responsáveis pelo comércio e pela indústria divulgam activamente oportunidades de investimento e convidam empresas estrangeiras a estabelecerem-se em Angola; por outro, quando essas empresas tratam dos vistos, das autorizações de trabalho e dos títulos de residência dos seus técnicos estrangeiros, podem deparar-se com numerosos obstáculos. Algumas empresas, mesmo depois de terem investido avultadas quantias na construção das suas fábricas, continuam sem conseguir fazer entrar no país, atempadamente, os técnicos essenciais. Esta situação pode comprometer a instalação dos equipamentos, os ensaios de produção e o arranque dos projectos, podendo ainda expor as empresas a acções de fiscalização migratória e a multas elevadas.

Não se trata apenas de uma questão de vistos. Trata-se de um problema estrutural que envolve a coordenação entre departamentos governamentais, a execução das políticas de investimento, a formação de quadros industriais e a estratégia nacional de desenvolvimento. Se um país pretende atrair capitais de todo o mundo, mas não consegue proporcionar vias de entrada claras, estáveis e legais aos profissionais indispensáveis ao desenvolvimento industrial, a captação de investimento corre o risco de permanecer no plano das declarações, sem se transformar em resultados concretos para a indústria.

I. A captação de investimento e a gestão de vistos não podem funcionar de forma isolada

A captação de investimento não é uma tarefa exclusiva de um único departamento. É um processo sistémico que exige a participação conjunta de vários órgãos do Estado. Ao decidir se investe num país, o investidor não avalia apenas a dimensão do mercado, os recursos disponíveis, os incentivos fiscais e o custo dos terrenos. Avalia também a estabilidade do enquadramento jurídico, a transparência dos procedimentos administrativos, a possibilidade de operar normalmente e a capacidade de o Governo cumprir efectivamente os compromissos assumidos.

Sobretudo nos projectos de indústria pesada, o percurso entre a decisão de investimento e o início da produção pode levar vários anos. A construção das instalações, a montagem dos equipamentos, os ensaios eléctricos, a optimização dos processos, o controlo da qualidade e a gestão da segurança dependem, em todas as etapas, de profissionais especializados. Tomemos como exemplo uma fábrica de silício metálico: a conclusão dos edifícios e a instalação dos equipamentos não significam que a linha de produção esteja imediatamente pronta a funcionar. A colocação em funcionamento dos fornos industriais, a operação do sistema de eléctrodos, a formulação da carga, o controlo dos processos produtivos e a manutenção dos equipamentos exigem a participação de engenheiros com conhecimentos especializados e experiência prática.

Se esses profissionais não puderem entrar no país a tempo, os equipamentos poderão ficar parados, as obras poderão sofrer atrasos e a empresa terá de suportar custos adicionais de construção, encargos financeiros e riscos de incumprimento contratual. Por isso, os vistos e as autorizações de trabalho não são meras formalidades administrativas sem relação com o investimento: são parte integrante da construção e da operação dos projectos industriais.

Os órgãos responsáveis pelo comércio e pela indústria promovem o investimento; os serviços de migração gerem a entrada e a permanência de estrangeiros; os órgãos responsáveis pelo trabalho regulam as relações laborais; os departamentos competentes pela mineração tratam das matérias-primas locais; e o sector da energia assegura o fornecimento eléctrico. Todas estas competências são necessárias, mas os respectivos objectivos políticos têm de estar coordenados. Se os organismos de promoção do investimento incentivarem as empresas a construir fábricas, mas os departamentos competentes não criarem mecanismos de autorização de pessoal, matérias-primas e energia adequados às necessidades dos projectos, as políticas poderão acabar por se neutralizar mutuamente.

Cabe ao Governo garantir que os investidores conheçam claramente os requisitos para a obtenção das autorizações necessárias e possam desenvolver as suas actividades segundo procedimentos definidos e uniformes. A captação de investimento não deve limitar-se a convidar os investidores a entrar no país; deve também assegurar que possam exercer as suas actividades de forma legal e sem entraves desnecessários.

II. As políticas não podem ficar apenas no papel

Além de uma rentabilidade razoável, aquilo de que o investimento mais necessita é de previsibilidade. Uma empresa aceita investir dezenas de milhões ou mesmo centenas de milhões de dólares na construção de uma fábrica porque acredita que o ambiente futuro de negócios terá um determinado grau de estabilidade. Os investidores não exigem que o Governo garanta a inexistência de riscos, mas precisam, pelo menos, de saber claramente que procedimentos devem cumprir, em que condições podem obter as autorizações, quanto tempo demora a aprovação e a que canais podem recorrer quando surgem problemas.

Se, na fase de preparação do projecto, uma empresa receber sinais positivos de promoção do investimento, mas, durante a execução, descobrir que as autorizações de pessoal, a gestão da residência e outras exigências administrativas não se articulam adequadamente, a sua confiança no ambiente de investimento ficará abalada.

Nos grandes projectos industriais, esta incerteza pode desencadear uma série de consequências. Os fornecedores de equipamentos poderão exigir garantias de pagamento adicionais; os bancos poderão tornar mais rigorosa a avaliação dos riscos; os parceiros poderão adiar as suas decisões de investimento; e a empresa poderá canalizar os investimentos seguintes para países cujas políticas sejam mais claras. A confiança dos investidores demora anos a construir, mas pode perder-se com uma única discrepância grave entre a política anunciada e a sua aplicação.

É necessário compreender que estabilidade das políticas não significa que estas nunca possam mudar. Significa que as regras devem ser claras, os procedimentos transparentes, a aplicação coerente e as alterações ordenadas. Se um incentivo ao investimento existir apenas nos documentos de promoção, mas não se traduzir em serviços administrativos de que as empresas possam efectivamente beneficiar, essa política não estará a cumprir a sua função. O valor das políticas públicas não reside na beleza da sua redacção, mas na sua capacidade de resolver problemas concretos.

III. O desenvolvimento da indústria pesada depende de quadros técnicos

Para Angola alcançar a diversificação económica, não basta concentrar-se no montante do investimento e no número de fábricas. É igualmente necessário prestar atenção às capacidades técnicas, às cadeias industriais e ao desenvolvimento dos quadros nacionais. Uma empresa comercial pode exercer a sua actividade através da aquisição, venda e organização da logística. Uma fábrica moderna, porém, necessita da colaboração de engenheiros, especialistas em equipamentos, técnicos eléctricos, técnicos de processos, responsáveis pelo controlo da qualidade e profissionais de segurança.

Sobretudo nos sectores do aço, dos metais não ferrosos, do silício metálico, da indústria química, da energia e da transformação de recursos minerais, os sistemas de produção são complexos e os investimentos em equipamentos são elevados. Um problema numa etapa crítica pode provocar perdas económicas significativas. Estas competências não podem surgir de um dia para o outro.

Angola precisa, naturalmente, de formar os seus próprios engenheiros e trabalhadores técnicos, mas a formação de quadros exige tempo. Desde a educação profissional até à aquisição de conhecimentos teóricos e, posteriormente, à capacidade de resolver autonomamente problemas industriais complexos, é necessário um longo período de aprendizagem e experiência no terreno. Entretanto, os projectos industriais já iniciados não podem esperar indefinidamente. Assim, enquanto o país ainda não dispuser de um número suficiente de profissionais nacionais especializados, a contratação de técnicos estrangeiros indispensáveis constitui uma solução realista para colmatar lacunas tecnológicas e permitir a concretização dos projectos.

Os especialistas estrangeiros podem participar na instalação dos equipamentos, nos ensaios de produção, na optimização dos processos, no controlo da qualidade e na gestão da segurança, ajudando também os trabalhadores locais a dominar as tecnologias modernas de produção. Através de formação no local de trabalho, prática profissional e transferência de tecnologia, as empresas podem desenvolver gradualmente equipas técnicas nacionais e reduzir a dependência prolongada de especialistas externos.

No caso de um projecto de silício metálico, por exemplo, a contratação de engenheiros com experiência consolidada não deve servir apenas para manter temporariamente a linha de produção em funcionamento. Desde o início da construção, devem ser definidos objectivos claros de transferência de tecnologia, envolvendo os trabalhadores locais na colocação em funcionamento dos equipamentos, no controlo dos processos, na manutenção e na gestão da qualidade. Quando os especialistas estrangeiros partirem, os trabalhadores nacionais deverão estar aptos a assumir, de forma autónoma, uma parte cada vez maior das tarefas técnicas. É esse o verdadeiro valor da contratação de talentos estrangeiros.

A industrialização exige não apenas a circulação de capitais, mas também a circulação de conhecimentos, tecnologias e experiências. Importar equipamentos sem proporcionar vias legais de entrada aos profissionais que sabem operá-los impede que o investimento alcance todo o seu potencial.

IV. Proteger o emprego nacional não significa excluir os profissionais estrangeiros

Qualquer país deve proteger as oportunidades de emprego dos seus próprios cidadãos. Angola também precisa de dar prioridade ao desenvolvimento do emprego local, salvaguardar os direitos dos trabalhadores e impedir a entrada desordenada de mão-de-obra estrangeira. Para as funções comuns que possam ser desempenhadas por trabalhadores locais, as empresas devem dar prioridade aos cidadãos angolanos e não podem excluir sistematicamente os trabalhadores nacionais por mera conveniência de recrutamento ou por diferenças de hábitos de gestão.

No entanto, proteger o emprego nacional e restringir a entrada de todos os profissionais estrangeiros são conceitos políticos diferentes. As funções comuns não são iguais às funções altamente especializadas; da mesma forma, os profissionais que podem ser recrutados localmente não devem receber exactamente o mesmo tratamento que os especialistas para os quais ainda não existem candidatos nacionais devidamente qualificados.

Se uma fábrica necessitar de instalar equipamentos especiais cuja calibração e colocação em funcionamento só possam ser realizadas por engenheiros autorizados pelo fabricante; ou se um sistema de produção complexo sofrer uma avaria que exija o diagnóstico de especialistas com muitos anos de experiência, o Governo deverá criar mecanismos de autorização específicos para esses profissionais. A questão que o Governo deve resolver não é simplesmente decidir se permite ou não a entrada de estrangeiros. É necessário definir quais as funções que devem ser prioritariamente ocupadas por nacionais, quais as competências que estão efectivamente em falta, que qualificações devem possuir os especialistas estrangeiros e que obrigações de formação de trabalhadores locais devem ser assumidas pelas empresas.

Um engenheiro estrangeiro pode ocupar directamente uma função técnica, mas também pode contribuir para a construção de uma fábrica, gerar numerosos postos de trabalho locais, formar técnicos angolanos e impulsionar os sectores complementares dos transportes, da manutenção, da logística e de outros serviços. Por isso, o valor dos profissionais técnicos estrangeiros não deve ser avaliado apenas pelo número de postos de trabalho que ocupam, mas também pelo contributo que dão à concretização dos investimentos, à eficiência produtiva, à transferência de tecnologia e à construção das cadeias industriais.

Uma protecção eficaz do emprego não consiste em isolar os trabalhadores nacionais das tecnologias internacionais, mas em criar mecanismos adequados que lhes permitam beneficiar mais da cooperação tecnológica internacional.

V. Criar vias de acesso para profissionais técnicos ao serviço do desenvolvimento industrial

Angola não precisa de abandonar a gestão migratória. Precisa, sim, de a tornar mais adequada à estratégia nacional de desenvolvimento industrial. Para os grandes projectos industriais, o Governo pode criar mecanismos de autorização de profissionais técnicos ajustados às necessidades dos projectos, articulando a aprovação de pessoal com a construção, a instalação de equipamentos e os ensaios de produção.

Em primeiro lugar, deve ser criado um mecanismo de articulação entre os projectos de investimento e as necessidades de pessoal técnico. Nos grandes projectos industriais devidamente aprovados, as empresas poderão apresentar, ainda na fase de aprovação do projecto, a lista das funções técnicas essenciais, os nomes dos profissionais, as respectivas qualificações, o período de trabalho previsto e o plano de formação de quadros nacionais. O Governo poderá avaliar antecipadamente as necessidades dos projectos, enquanto as empresas organizarão a entrada dos profissionais de acordo com procedimentos claros.

Em segundo lugar, devem ser estabelecidos critérios de aprovação uniformes e transparentes. Os departamentos responsáveis pelo comércio e pela indústria, pela promoção do investimento, pelo trabalho e pela migração deverão criar um mecanismo de coordenação para o reconhecimento das qualificações dos profissionais técnicos, as categorias de vistos, as autorizações de trabalho e os procedimentos de residência. Deverão ser definidos os trâmites, os documentos exigidos e os prazos de decisão, reduzindo os custos administrativos decorrentes da apresentação repetida de documentos e da necessidade de prestar sucessivamente os mesmos esclarecimentos a diferentes departamentos.

Em terceiro lugar, deve ser criado um mecanismo eficaz de coordenação interdepartamental e de resolução de litígios. Os pedidos que estejam devidamente instruídos e cumpram os requisitos devem ser tratados atempadamente, de acordo com as regras publicadas. Quando um pedido não cumprir os requisitos, os motivos devem ser claramente indicados e devem ser disponibilizados os mecanismos legalmente previstos para a correcção, reapreciação ou reclamação. Para os problemas comuns que surjam em grandes projectos, poderá ser criada uma plataforma de coordenação interdepartamental, evitando que falhas de articulação administrativa prejudiquem a execução de todo o projecto.

Por último, a contratação de profissionais estrangeiros deve estar associada à formação de quadros nacionais. As empresas podem elaborar planos de formação de acordo com as necessidades concretas dos projectos, definindo o número de trabalhadores locais a formar, as competências profissionais a desenvolver e os resultados esperados. O Governo poderá acompanhar periodicamente o cumprimento dos compromissos de transferência de tecnologia e de emprego nacional. Desta forma, a abertura à contratação de talentos deixa de ser uma simples circulação de pessoas e passa a constituir um mecanismo de longo prazo para desenvolver as capacidades industriais nacionais.

A protecção rigorosa das funções comuns, a abertura ordenada às competências técnicas escassas e a criação de garantias institucionais claras para os grandes projectos industriais são objectivos perfeitamente compatíveis.

VI. A aplicação rigorosa da lei não é incompatível com a protecção do ambiente de investimento

A gestão legal da entrada, permanência e actividade profissional de cidadãos estrangeiros pelos serviços de migração constitui uma expressão importante da soberania do Estado. As empresas estrangeiras não podem considerar que, por já terem investido na construção de fábricas, ficam dispensadas do cumprimento das obrigações legais aplicáveis.

No entanto, aplicar rigorosamente a lei não significa falta de transparência, nem permite ignorar a razoabilidade dos procedimentos administrativos. Perante situações de permanência para além do prazo do visto, ausência de autorização ou exercício de actividade profissional sem a qualificação exigida, as autoridades competentes devem adoptar as medidas correspondentes com base nos factos concretos e na legislação aplicável. Nos casos que possam envolver multas elevadas ou detenção de pessoas, é ainda mais importante assegurar que os factos estejam devidamente apurados, que os procedimentos sejam legais e que os interessados possam exercer os seus direitos de audiência, defesa e recurso, nos termos da lei.

Ao mesmo tempo, as empresas devem assumir as suas próprias responsabilidades de conformidade legal. Antes da entrada de trabalhadores estrangeiros, devem confirmar a categoria de visto, as autorizações de trabalho e os requisitos de residência. Não podem utilizar vistos de negócios ou de turismo para exercer actividades profissionais não autorizadas.

Só quando o Governo e as empresas cumprirem as respectivas obrigações legais será possível reduzir conflitos desnecessários. No caso de grandes projectos em construção, o Governo deverá também disponibilizar canais claros de consulta e coordenação, permitindo às empresas conhecer atempadamente os requisitos administrativos e corrigir eventuais situações de incumprimento, evitando perdas desnecessárias causadas por falta de informação ou por falhas de articulação entre departamentos.

Um bom ambiente de negócios não significa que as empresas estejam acima da lei. Significa que sabem claramente o que a lei determina, como devem cumpri-la e que garantias institucionais podem esperar quando exercem a sua actividade legalmente.

VII. Passar da actuação isolada dos departamentos para uma coordenação integrada

Em última análise, a questão dos vistos reflecte um problema de coordenação do sistema de governação. Os departamentos responsáveis pelo comércio e pela indústria promovem o desenvolvimento industrial; as instituições de promoção do investimento atraem capitais; os serviços responsáveis pelo trabalho protegem a ordem laboral; os serviços de migração gerem a entrada e a residência de estrangeiros; e os departamentos da educação são responsáveis pela formação de quadros. Estas competências são diferentes, mas todas devem servir o desenvolvimento económico nacional e o interesse público. Se cada departamento se concentrar apenas nos seus próprios objectivos de gestão, sem considerar os efeitos das políticas dos restantes, será fácil criar uma fragmentação institucional.

Os organismos de promoção do investimento pretendem que as empresas iniciem rapidamente a produção, mas os técnicos essenciais não conseguem chegar a tempo; o Governo pretende aumentar o emprego local, mas não aproveita plenamente as oportunidades de formação dos trabalhadores nacionais por especialistas estrangeiros; o país pretende desenvolver a indústria transformadora moderna, mas não dispõe de mecanismos de autorização de profissionais adequados aos grandes projectos industriais. Estes problemas podem não resultar da intenção deliberada de qualquer departamento, mas, em conjunto, podem tornar instável o ambiente de investimento.

Por isso, Angola deve reforçar a coordenação entre departamentos e integrar a promoção do investimento, a gestão de vistos, as autorizações de trabalho e a formação de quadros nacionais num quadro político comum.

Para os grandes projectos de investimento, poderá ser criado um mecanismo de coordenação com a participação conjunta dos departamentos relevantes, destinado a tratar periodicamente os problemas comuns relacionados com autorizações de pessoal, aprovações administrativas e execução dos projectos. As políticas de investimento já anunciadas devem ser avaliadas quanto aos seus resultados práticos, verificando se as empresas conseguem beneficiar legalmente dos tratamentos previstos e se os critérios de aplicação são coerentes entre os diferentes departamentos.

A execução das políticas não pode depender apenas de coordenações pontuais, nem as empresas devem ser obrigadas a recorrer a relações pessoais para resolver problemas administrativos. Um sistema verdadeiramente maduro deve permitir que os investidores que cumpram os requisitos actuem de acordo com regras públicas, que o poder administrativo seja exercido dentro de um quadro jurídico claro e que os compromissos do Governo se traduzam em procedimentos efectivamente aplicáveis.

A competitividade de um país não se mede apenas pelos recursos que pode oferecer, mas também pela sua capacidade de criar um sistema que permita a entrada de capitais com confiança, atraia profissionais qualificados e assegure condições para que as empresas se desenvolvam a longo prazo.

Não permitamos que os vistos se transformem numa barreira invisível no caminho da industrialização

Angola encontra-se numa fase importante de promoção da diversificação económica, do desenvolvimento da indústria transformadora e da expansão da economia não petrolífera. O país precisa não apenas de mais intenções de investimento, mas de fábricas que se concretizem; não apenas de montantes de investimento mais elevados, mas de sistemas de produção capazes de funcionar de forma contínua; não apenas de promessas de criação de emprego, mas de oportunidades de desenvolvimento industrial que permitam aos trabalhadores nacionais adquirir competências modernas.

Para alcançar estes objectivos, a captação de investimento não pode estar desligada da gestão de vistos; o desenvolvimento industrial não pode entrar em contradição com a política de talentos; e a protecção do emprego nacional não pode transformar-se numa rejeição do intercâmbio técnico indispensável. Os investidores estrangeiros devem exercer as suas actividades em conformidade com a lei, os profissionais técnicos estrangeiros devem entrar no país e trabalhar legalmente, e os departamentos governamentais devem cumprir as suas funções nos termos da lei.

No entanto, o objectivo final de toda a gestão administrativa deve ser proteger os interesses nacionais, garantir a ordem social e criar melhores condições para o desenvolvimento económico. Angola deve adoptar políticas mais abertas, racionais e coordenadas, criando vias legais, transparentes e previsíveis para a entrada dos profissionais altamente qualificados de que o desenvolvimento industrial necessita, exigindo simultaneamente às empresas que assumam responsabilidades em matéria de recrutamento local, formação de quadros e transferência de tecnologia.

A verdadeira abertura não significa abdicar da gestão, mas saber como gerir; a verdadeira protecção não consiste em rejeitar o intercâmbio, mas em reforçar as capacidades nacionais através dele.

Um país não pode alcançar a industrialização apenas através de restrições administrativas, nem pode esperar que os investidores aguardem indefinidamente num ambiente de incerteza política. O capital precisa de confiança, a indústria precisa de tecnologia, a tecnologia precisa de profissionais e a circulação de profissionais precisa de um sistema claro, estável e executável.

Quando as portas à captação de investimento já estão abertas, não se deve permitir que obstáculos institucionais desnecessários bloqueiem o caminho dos profissionais técnicos. Angola precisa, não de afastar o mundo, mas de atrair os capitais, as tecnologias e os talentos internacionais para construir, em conjunto, o futuro industrial do país. Porque o verdadeiro desenvolvimento de uma nação não se mede pelo número de estrangeiros que rejeita, mas pela sua capacidade de transformar os recursos internacionais em emprego duradouro, conhecimento técnico, riqueza e dignidade para o seu povo.

Apenas a industrialização pode salvar Angola

João Shang

Investigador Associado ao CEDESA (área China-África)

Angola é, sem dúvida, um dos países mais ricos em recursos naturais do continente africano. Petróleo, gás natural, diamantes, minerais metálicos, vastas extensões de terras aráveis e um enorme potencial hidroelétrico colocam o país numa posição privilegiada do ponto de vista dos fatores naturais de produção. Poucos países africanos dispõem de uma combinação tão abrangente de recursos estratégicos.

No entanto, a experiência das últimas décadas demonstra que a abundância de recursos, por si só, não garante desenvolvimento sustentável, prosperidade duradoura nem estabilidade social. Apesar de períodos de forte crescimento económico, Angola continua a enfrentar desafios estruturais profundos: dependência excessiva do petróleo, fraca diversificação produtiva, elevado desemprego juvenil, forte dependência das importações e vulnerabilidade às oscilações externas.

Esses desafios não são circunstanciais nem transitórios. Eles revelam um problema de fundo: o modelo de crescimento baseado predominantemente na exportação de matérias-primas atingiu os seus limites. Neste contexto, torna-se cada vez mais evidente que apenas a industrialização pode alterar, de forma estrutural e duradoura, o destino económico e social de Angola.

A economia dos recursos: vantagens iniciais e limites estruturais

Durante muitos anos, o setor petrolífero desempenhou um papel decisivo na reconstrução nacional e no financiamento do Estado angolano. As receitas do petróleo permitiram investir em infraestruturas, estabilizar as finanças públicas em determinados períodos e inserir Angola nos fluxos da economia global.

Contudo, essa mesma dependência criou fragilidades profundas. A exportação de matérias-primas caracteriza-se por um baixo nível de transformação local, reduzido valor acrescentado e fraca capacidade de geração de emprego. Além disso, os preços dos recursos naturais são definidos nos mercados internacionais, fora do controlo nacional.

Sempre que o preço do petróleo sobe, a economia beneficia temporariamente.

Quando cai, surgem pressões cambiais, défices fiscais, inflação e dificuldades sociais. Esta dinâmica cíclica demonstra que a riqueza baseada exclusivamente em recursos é instável e imprevisível.

Mais ainda, uma economia excessivamente dependente de recursos tende a negligenciar o desenvolvimento de outros setores produtivos, enfraquecendo a base industrial e tecnológica do país. O resultado é uma economia vulnerável, pouco diversificada e dependente do exterior.

Industrialização: de extração para criação de valor

A industrialização representa uma mudança qualitativa no modelo económico. Em vez de exportar recursos em estado bruto, a indústria permite transformá-los, agregar valor e criar cadeias produtivas completas dentro do território nacional.

Um barril de petróleo exportado gera uma receita única. Mas quando esse petróleo é transformado localmente em combustíveis, produtos petroquímicos, plásticos, fertilizantes ou materiais industriais, ele passa a gerar valor de forma contínua, criando empregos, competências técnicas e receitas fiscais recorrentes.

O mesmo princípio aplica-se aos minerais, à agricultura e a outros recursos naturais. A diferença entre um país rico em recursos e um país desenvolvido reside precisamente na sua capacidade de industrializar esses recursos.

O emprego como eixo central do desenvolvimento

Angola possui uma população jovem e em rápido crescimento. Este fator demográfico pode ser uma vantagem estratégica, mas apenas se o país for capaz de criar empregos suficientes e de qualidade.

O setor petrolífero, apesar da sua importância económica, emprega relativamente poucas pessoas. A agricultura, embora essencial, ainda enfrenta desafios estruturais relacionados com produtividade, infraestruturas e acesso a mercados. O setor dos serviços, quando não apoiado por uma base industrial sólida, tende a concentrar-se em atividades informais e de baixo valor.

Neste contexto, a industrialização surge como a única via capaz de criar emprego em larga escala, especialmente empregos intermédios, que são fundamentais para a formação de uma classe média sólida. Técnicos industriais, operadores, mecânicos, engenheiros, gestores de produção e profissionais de logística são pilares de uma economia moderna.

Sem indústria, o país corre o risco de desperdiçar o seu capital humano, agravando tensões sociais e limitando as oportunidades para as novas gerações.

A indústria como base da estabilidade social

A experiência internacional demonstra que sociedades mais estáveis e equilibradas são aquelas que conseguem formar uma classe média numerosa. Essa classe média não surge da distribuição de rendas de recursos, mas sim do trabalho produtivo, da indústria e da economia real.

A industrialização cria rendimentos estáveis, previsíveis e baseados no mérito e na qualificação. Ao fazê-lo, fortalece a coesão social, reduz desigualdades extremas e cria expectativas de progresso individual e coletivo.

Sem uma base industrial, a economia tende a polarizar-se entre uma pequena elite ligada aos recursos e uma grande maioria com rendimentos instáveis, o que fragiliza o tecido social e político.

Capacidade do Estado e soberania económica

Um Estado moderno necessita de receitas fiscais estáveis para cumprir as suas funções fundamentais: educação, saúde, infraestruturas, segurança e governação eficiente. As receitas provenientes dos recursos naturais são elevadas, mas altamente voláteis. Já a indústria gera uma base fiscal mais diversificada e previsível.

Além disso, a indústria fortalece a soberania económica. Países sem base industrial dependem fortemente de importações de bens essenciais, equipamentos e tecnologia. Em períodos de crise global, essa dependência pode tornar-se crítica.

A pandemia, as tensões geopolíticas e as ruturas nas cadeias globais de abastecimento mostraram claramente os riscos da dependência excessiva do exterior. A industrialização é, portanto, também uma questão de segurança nacional.

Agricultura e serviços: pilares complementares, não substitutos

Não se trata de opor indústria à agricultura ou aos serviços. Pelo contrário, um modelo de desenvolvimento equilibrado exige a integração dos três setores. A agricultura fornece matérias-primas e segurança alimentar. A indústria transforma, agrega valor e cria emprego. Os serviços avançados surgem como consequência natural de uma economia produtiva forte.

A história económica mostra que nenhum país alcançou o desenvolvimento sustentável ignorando a industrialização. Saltar diretamente de uma economia primária para uma economia de serviços sofisticados é uma ilusão que raramente se concretiza.

Uma industrialização adaptada à realidade angolana

Industrializar não significa repetir modelos ultrapassados ou ambientalmente insustentáveis. Angola tem a oportunidade de seguir uma via de industrialização moderna, gradual e estratégica, baseada nas suas vantagens comparativas e nas exigências do século XXI.

Entre as prioridades destacam-se:

  • transformação local de recursos naturais;
  • desenvolvimento da agroindústria;
  • indústrias de substituição de importações;
  • materiais de construção e bens essenciais;
  • criação de zonas económicas especiais e parques industriais;
  • atração de investimento estrangeiro com transferência de tecnologia;
  • formação técnica e profissional alinhada com as necessidades industriais;
  • integração regional através da SADC e da Zona de Comércio Livre Continental Africana.

O sucesso da industrialização exige políticas públicas coerentes, estabilidade institucional, investimento em capital humano e uma parceria estratégica entre o Estado e o setor privado.

Conclusão: o futuro constrói-se com indústria

Os recursos naturais podem definir o ponto de partida de uma nação, mas não determinam o seu futuro. O verdadeiro desenvolvimento nasce da capacidade de transformar, produzir, empregar e inovar.

Sem indústria, a riqueza esgota-se e a economia permanece vulnerável. Com indústria, os recursos tornam-se a base de um crescimento inclusivo, soberano e sustentável. Para Angola, a industrialização não é uma opção ideológica nem uma escolha entre várias alternativas equivalentes. É uma necessidade histórica e estratégica.

O país dispõe dos recursos, da juventude e do potencial necessários. O desafio agora é transformar essas vantagens em capacidade produtiva real. O destino de Angola não será decidido pelo que extrai do subsolo, mas pelo que consegue produzir com inteligência, trabalho e visão de longo prazo.

A indústria é o caminho. E o tempo para o percorrer é agora.

Um projeto de industrialização para Angola

I-Introdução. O renascimento do interesse na industrialização

A industrialização de Angola tornou-se um dos objetivos do atual governo debaixo da liderança do Presidente da República João Lourenço. De facto, quer na Cimeira Internacional sobre Desenvolvimento Sustentável “O Futuro de África” realizada em Abu Dhabi em 2019, quer na terceira edição da Global Summit on Manufacturing and Industrialization, promovida pela Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (ONUDI) em 2020, Lourenço enfatizou sempre que a industrialização era uma necessidade premente com vista a criar riqueza e bem-estar para os cidadãos e emprego como principal fonte para todas as oportunidades.

Na verdade, não dispondo Angola de quadros e competências com suficiente massa crítica ao nível dos serviços, e tendo-se verificado recentemente as fragilidades estratégicas das economias demasiado assentes em serviços, é normal que qualquer arranque económico do país assente também na indústria.

A industrialização de Angola deve ser pensada com base em três pressupostos.

O primeiro é que se baseará numa agricultura forte. Não se trata de substituir a agricultura pela indústria, mas de simultaneamente desenvolver a agropecuária como fundamento de um renovado arranque industrial.

O segundo pressuposto é que aquilo que se denomina industrialização atualmente será diferente do que se considerava no início do século XX em que tal movimento estava ligado às dita indústrias pesadas: aço, cimento, etc. Além do mais, industrialização não é manufatura apenas, mas um conjunto de processos transformativos.

Finalmente, os vetores de industrialização em Angola terão de estar ligados aos aspetos específicos que tragam valor acrescentado para a economia ou em que esta tenha vantagens competitivas. Não se tratando por isso de realizar meras cópias de modelos industriais, mas de perceber onde Angola tem benefícios em se industrializar.

II- A indústria na economia angolana

Como escrevem Nuno Valério e Maria Paula Fontoura “em 1975, [quando] Angola se tornou um Estado independente, (…) a economia apresentava-se próspera, quer devido à existência de exportações consideráveis de produtos agrícolas (café, algodão, açúcar, sisal e outros provenientes de plantações; milho proveniente de explorações tradicionais) e minerais (diamantes, ferro e petróleo) e mesmo de serviços (particularmente através de trânsito para o Shaba, antigo Catanga, pelo caminho de ferro de Benguela), quer devido ao início de um processo de industrialização. “[1]

O arranque industrial angolano começou nos anos 1960, ainda debaixo do domínio colonial. Na realidade, a partir dessa época, enquadrada nas medidas gerais de liberalização e pró-europeias que Portugal tomou, na criação de uma zona de comércio livre lusitana e na expansão do mercado interno por via das tropas e famílias deslocadas com a guerra ultramarina “entre 1960 e 1970, o valor bruto da produção da indústria transformadora cresceu à taxa média anual de 17,8 % e o PIB 10% em termos nominais.[2]”

Na verdade, nas vésperas da independência (1973) a indústria angolana (excluindo a construção civil) representava 41% do PIB. As indústrias importantes eram a indústria de alimentação, com 36% do valor bruto da produção do sector transformador; seguia-se a indústria têxtil, com 32%, bebidas, com 11%, química, produtos minerais não metálicos e tabaco, com 5%, derivados de petróleo e produtos metálicos, com 4%, pasta de papel, papel e derivados, com 3%[3].

Fig. n.º 1- Principais indústrias de Angola em 1973 (% valor bruto produção sector transformador)

Alimentação36%
Têxtil32%
Bebidas11%
Química, produtos minerais não metálicos e tabaco 5%
Derivados do petróleo e produtos metálicos 4%
Pasta de papel, papel e derivados  3%

Fonte: Nuno Valério e Maria Paula Fontoura,op.cit.

Note-se, contudo, que por esta época, o “mal” da economia angolana já estava presente, i.e., a excessiva dependência das matérias-primas para exportação. Na realidade, a indústria transformadora apenas contribuía para cerca de 20% das exportações angolanas, sendo que os principais produtos exportados em 1973 eram: petróleo (30%), café (27%), diamantes (10%).

Fig. n.º 2- Principais exportações de Angola em 1973 (%)

Petróleo30%
Café27%
Diamantes10%

Fonte: idem Fig. n.º 1

Este arranque liberalizador da indústria angolana foi objeto de algumas críticas, e nos anos 1970, o governo de Lisboa começou a impor uma perspetiva protecionista ao desenvolvimento industrial angolano. Tal não afetou o crescimento saudável da indústria. De facto, como anotam Nuno Valério e Maria Paula Fontoura: “o VBP da indústria transformadora cresceu à taxa média anual de 21% entre 1970 e 1973.”[4]

É sabido que a situação de prosperidade foi interrompida pela guerra civil e apenas após 2002 se assistiu a um forte relançamento da economia. Contudo, esse re-arranque foi baseado na exploração bruta do petróleo e não em qualquer processo de industrialização sustentado. Mesmo naquilo que se refere ao petróleo não houve a preocupação de o integrar num processo de industrialização e fazer com que Angola fosse um país que apostasse na transformação da sua matéria prima em vez de a exportar bruta. Isso significava investir na refinação, na petroquímica, na produção de fertilizantes o que não aconteceu.[5]

Chegados à segunda década do século XXI, a situação da economia torna-se preocupante quando a exploração do petróleo já não satisfaz devido à baixa do seu preço. Neste quadro, começa-se a falar de diversificação da economia e a olhar para a indústria, mas o cenário não é animador em termos da força da indústria no âmbito do Produto Interno Bruto (PIB) angolano, pelo que é fundamental gizar e fomentar ativamente um projeto de lançamento da atividade industrial.

Os dados mais recentes referentes ao peso da indústria transformadora (exceto refinação de petróleo bruto) datados do segundo trimestre de 2020 apontam para uma contribuição de 4,8% para o PIB. Essa contribuição era de 3,69% em 2002, e 4% em 2017 e 2018. Nessa mesma data a variação homóloga da indústria transformadora tinha sido negativa em 4%. O Valor Acrescentado Bruto também era despiciendo[6].

Fig.n.º 3-Peso da indústria transformadora em Angola (II trimestre de 2020)

Contribuição para o PIB (%)4,8
Variação homóloga (%)-4

            Fonte: Banco Nacional de Angola. Contas Nacionais (bna.ao)

III. Projeto de relançamento da indústria em Angola

Qualquer projeto de relançamento da indústria tem de começar por ter o contexto adequado. Esse contexto é de uma economia livre com um clima social propício ao investimento. O clima social assenta em seis pressupostos necessários:

  1. Inexistência de corrupção massiva. A corrupção distorce as regras da competição económica e inviabiliza o livre acesso aos mercados, condições fundamentais para o desenvolvimento industrial;
  2. Os empresários devem ter liberdade para obter os seus fatores de produção e se instalar a produzir;
  3. Sistema de Justiça funcional. O sistema de Justiça não deve ser visto como corrupto, lento e incompetente, mas como aplicando as regras, punindo quem não cumpre contratos e havendo formas legais e normais de cobrança de dívidas;
  4. Impostos razoáveis. Os impostos devem ser tendencialmente moderados e não sufocar a atividade produtiva;
  5. Desburocratização. A administração pública deve ser pró-negócios e não criar entraves burocráticos administrativos à instalação e laboração de empresas.
  6. Estado pró-negócios. O Estado deve ter um papel fomentador e pró-ativo na industrialização, apontando e enquadrando caminhos, construindo infraestruturas, qualificando a mão de obra e estabelecendo parcerias.

Fig .n.º 4- Contexto para o relançamento industrial

Visto o contexto necessário, o importante é apontar os eixos pelos quais se deviam canalizar os esforços de recrudescimento industrial.

Vislumbramos quatro eixos de industrialização de Angola. Estes eixos são escolhidos tendo em conta a histórica económica de Angola, as suas riquezas e potencialidades, as experiências de industrialização globais e as possíveis tendências dos mercados nas próximas décadas.

Assim, propomos um desenvolvimento industrial de acordo com os seguintes pontos que podem ser interconectados ou complementares:

1-Agropecuária;

2-Indústrias de necessidades básicas;

3-Indústrias de desenvolvimento de riquezas naturais;

4-Futuro: energias renováveis e digitalização.

Fig. n. º5. Eixos do Projeto de relançamento industrial

1-Agropecuária

A indústria agropecuária representa o desenvolvimento natural das potencialidades angolanas já em exploração e que já foi objeto de nosso relatório anterior.[7]

Basta suscitar um pequeno exemplo para se aferir das potencialidades. Recentemente, foi comunicado que Angola é o principal produtor de bananas de África há seis anos consecutivos. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), Angola é o maior produtor africano de banana e sétimo no mundo com uma oferta de 4,4 milhões de toneladas.[8]

Facilmente se entenderá que será fácil e possível criar uma fileira industrial baseada na banana: sumos de frutos (indústria de bebidas), exploração medicinal da banana/potássio (indústria química/farmacêutica), etc, são algumas das possibilidades na indústria de refrigeração ou farmacêutica relativamente à banana.

O mesmo tipo de raciocínio se poderá aplicar a produtos e recursos naturais que Angola tenha ou explore em abundância. Ao transformar internamente os seus recursos e produtos naturais o país acrescenta-lhes valor deixando de estar dependente da mera evolução do preço mundial das matérias primas.

2-Indústrias de necessidades básicas

Entende-se como necessidades básicas a alimentação, o vestuário e a habitação. Este eixo industrial representa uma indústria em que não se exige uma sofisticação específica e se torna possível fazer uma substituição de importações sem especiais perdas de competitividade, além de poder ser possível criar mercados exportadores em países congéneres. A isto acresce que Angola já teve uma indústria poderosa na área da alimentação, bebidas e têxteis. Com um mercado de 30 milhões de pessoas que facilmente poderá ser alargado a muitos milhões mais com os desenvolvimentos da Comunidade da África Austral (SADC) e da Zona de Comércio Livre do Continente Africano, Angola tem suficiente procura potencial para produtos de primeira necessidade: roupa, calçado, casas(obviamente), produtos alimentares básicos desde iogurtes a cervejas. Não há razão nenhuma para não criar indústria própria com marcas próprias, imitando em muitos casos o que se fez em países com sucesso nestas áreas como o Bangladesh e o Vietnam.

3-Indústrias de desenvolvimento de riquezas naturais

Outro eixo industrial, que no fundo replica de forma mais abrangente aquilo que se mencionou no primeiro eixo, foca-se nas riquezas nacionais, agora não agropecuárias, mas as restantes. Tem toda a lógica e racionalidade económica utilizar e transformar o que existe em Angola acrescentando-lhe valor em lugar de exportar em bruto deixando que as mais-valias sejam apropriadas por outros. Aqui temos o exemplo mais óbvio que é o do petróleo. O que tem sentido é desenvolver a indústria a jusante do petróleo: refinação, petroquímica, plásticos, fertilizantes, etc. Como referiu o perito das Nações Unidas Carlos Lopes “A questão é clara: não é virar as costas a uma riqueza, como o petróleo, mas integrá-lo na transformação e fazer com que Angola seja um país que aposta na transformação da sua matéria prima em vez de a exportar bruta. Isso significa investir, além na refinação, na petroquímica, na produção de fertilizantes, etc”[9]

4-Futuro: energias renováveis e digitais

O eixo final liga-se às energias renováveis e à transição digital. É hoje um dado assente que existe uma procura da substituição do petróleo por energias limpas e renováveis. No Reino Unido, anunciou-se o objetivo de em 10 anos se terminar com a circulação de automóveis a gasolina ou gasóleo. A eletricidade gerada por energias renováveis parece ser o futuro. Grandes empresas petrolíferas como a BP ou Aramco transformam-se ou abraçam estas áreas. Ora Angola dispõe de excelentes condições naturais para essa aposta em energias renováveis. Desde logo energia solar. Um nicho industrial à volta da energia solar e da produção de eletricidade seria uma aposta a considerar de forma muito séria.

Do ponto de vista da transição digital, Angola poderá efetuar um salto qualitativo importante utilizando as técnicas digitais para o desenvolvimento de aplicações para a massificação da educação básica e secundária, para a saúde básica e na área financeira. Aqui temos uma indústria de aplicações digitais para ensino, saúde e banca que poderia ser desenvolvida em Angola por angolanos conjugando imediatamente uma sinergia entre a aposta na saúde e educação a par da industrialização digital.

IV-Coordenação do projeto de relançamento industrial

Por parte do Estado deve haver um empenho neste projeto que essencialmente competirá ao setor privado.

Mas o Estado deverá fazer o enquadramento jurídico e institucional, preparar estímulos financeiros e fiscais, construir infraestruturas, promover a formação de agentes capazes da mudança e estabelecer parcerias.

Para a tarefa de coordenação das atividades do Estado com vista ao relançamento industrial deveria existir um coordenador dependente diretamente do Presidente da República: um Czar do Projeto Industrial.

Fig. n.º 6. Papel do Estado no relançamento da indústria


[1] Nuno Valério e Maria Paula Fontoura, A evolução económica de Angola durante o segundo período colonial — uma tentativa de síntese, Análise Social, Quarta Série, Vol. 29, No. 129 (1994), pp. 1193-1208, p.1193.

[2] Idem, p. 1203.

[3] Ibidem.

[4] Op.cit. p.1207.

[5] Carlos Lopes, Petróleo deve ser utilizado na industrialização de Angola in https://www.dn.pt/lusa/petroleo-deve-ser-utilizado-na-industrializacao-de-angola—economista-carlos-lopes–10905179.html

[6] Dados do Banco Nacional de Angola in https://www.bna.ao/Conteudos/Temas/lista_temas.aspx?idc=841&idsc=15907&idl=1

[7] https://www.cedesa.pt/2020/06/15/plano-agro-pecuario-de-angola-diversificar-para-o-novo-petroleo-de-angola/

[8] https://www.angonoticias.com/Artigos/item/66803/angola-e-o-maior-produtor-de-banana-em-africa-ha-seis-anos

[9] Carlos Lopes, vide nota 5