Excerto do Relatório do Banco Mundial de julho de 2025, por Eduardo, Nelson Tisso Miezi; Bou Habib, Chadi; Marandino Peregalli, Joaquin; Tudela Pye, Jorge Fernando; Hirano, Yumeka; Vaz, Carlos Deosvaldo Fragoso; Ramos, Elaine; Muramatsu, Karen; Bambe, Bao We Wal; Niati, Sansão. Angola – Country Economic Memorandum : Moving Beyond Oil – Laying the Foundations for Growth and Jobs (English). Washington, D.C. : World Bank Group. http://documents.worldbank.org/curated/en/099072425042515440
PROSPETIVAS E BLOQUEIOS DA ECONOMIA ANGOLANA
A economia angolana está gradualmente a fazer a transição de um modelo de crescimento baseado no petróleo.
Desde o fim da guerra civil em 2002 até 2014, Angola desfrutou de um forte crescimento económico impulsionado principalmente pelo setor petrolífero, o que não criou as bases para uma economia mais diversificada, resiliente e inclusiva.
Consequentemente, a queda dos preços do petróleo entre 2014 e 2016 causou uma recessão de cinco anos, agravada pela pandemia da COVID-19.
Angola saiu da recessão em 2021, apoiada por políticas macroeconómicas sólidas e um ambiente externo favorável.
Embora o fim do crescimento baseado no petróleo tenha levado a um período de desenvolvimento baixo e lento, o crescimento no setor não petrolífero tem vindo a ganhar gradualmente impulso.
Angola implementou uma série de reformas para restaurar a estabilidade macroeconómica e promover a diversificação económica.
A administração do Presidente João Lourenço (eleito em 2017, reeleito em 2022) adotou importantes reformas políticas e económicas.
Entre outras reformas estruturais significativas, destacam-se: a adoção de um regime cambial mais flexível e transparente; o início da consolidação fiscal; a introdução do imposto sobre o valor acrescentado (IVA); a reforma dos subsídios aos combustíveis; a melhoria do ambiente empresarial; a introdução da concorrência no mercado das telecomunicações; o redimensionamento do setor público; o reforço do sistema financeiro; a reforma da principal empresa estatal do país (a empresa petrolífera nacional, Sonangol); e a introdução de um programa de transferência de rendimentos.
Apesar destes esforços por parte das autoridades, a dependência excessiva do setor petrolífero continua a ser um desafio fundamental.
A dependência do petróleo continua elevada e, juntamente com um ambiente económico internacional desafiante, está a contribuir para uma elevada volatilidade na economia interna.
O setor petrolífero está em declínio estrutural, com muitos campos petrolíferos a atingirem a maturidade e o investimento a diminuir. Além disso, com a transição energética global, é provável que os ativos petrolíferos fiquem ociosos ou improdutivos, aumentando a necessidade de acelerar a diversificação económica.
No entanto, a elevada dependência do petróleo, que representa aproximadamente 25% do PIB, 65% das receitas e mais de 95% das exportações de bens, continua a ser significativa, enquanto o crescimento da economia não petrolífera permanece fraco.
Além disso, os choques nos preços do petróleo traduziram-se em instabilidade macroeconómica e crise fiscal, abrandando a economia real.
O modelo económico centrado na exploração petrolífera não trouxe um crescimento sustentado e inclusivo para Angola.
As taxas de crescimento baixas e em declínio, em conjunto com o elevado crescimento populacional, levaram a vulnerabilidades sociais significativas.
Aproximadamente um terço dos angolanos vive abaixo do limiar internacional de pobreza (2,15 dólares por dia) e a desigualdade económica é substancial, como refletido por um índice de Gini de aproximadamente 0,51.
Além disso, o índice de capital humano (HCI) de Angola, de 0,36, está entre os mais baixos da África Subsaariana. O desemprego tem um impacto significativo nos jovens e nas mulheres, com cerca de um terço da população desempregada. Além disso, aproximadamente 80% dos empregos estão na economia informal.
O quadro macroinstitucional e empresarial representa um desafio para o crescimento do setor privado e a criação de emprego. A política fiscal pró-cíclica durante o boom petrolífero e o elevado endividamento público durante as recessões petrolíferas alimentaram os salários públicos e as transferências, com pouca acumulação de capital físico e humano.
A dependência das importações, devido ao enfraquecimento da produção interna, exerce pressão sobre a balança de pagamentos e a eficácia da política monetária quando as receitas do petróleo são baixas, o que afeta a estabilidade macroeconómica.
Os empréstimos de alto custo nos mercados internacionais aumentaram os riscos de sobreendividamento, devido às incertezas sobre a capacidade de refinanciamento.
O ambiente empresarial é limitado pelo acesso restrito ao financiamento, burocracia pesada, corrupção significativa, fornecimento inadequado de serviços básicos e falta de trabalhadores qualificados.
A consequência é um baixo crescimento da produtividade no setor privado. As alterações climáticas aumentam a vulnerabilidade geral do país: Angola está exposta a fenómenos climáticos extremos, como a seca extrema no sul — a mais grave em 40 anos — e inundações no centro e no norte.
A natureza extrativa das instituições angolanas contribuiu para uma transformação e inclusão económicas deficientes.
As instituições angolanas foram moldadas por anos de domínio colonial, uma guerra civil prolongada após a independência e um período pós-guerra marcado pela necessidade urgente de consolidar a paz a qualquer custo.
Após o fim da guerra civil em 2002, a estabilidade política foi alcançada através da redistribuição das rendas do petróleo, mas à custa de um maior controlo do governo sobre a economia e a política. Por conseguinte, a estabilidade tem assentado num contrato social pelo qual a elite redistribui as receitas do petróleo à população e, em troca, a população aceita o domínio da elite.
O modelo de crescimento liderado pelo Estado tem impedido o desenvolvimento do setor privado e incentivado a procura de rendimentos fáceis, ligando as grandes empresas ao Estado.
Com a diminuição das receitas do petróleo, este contrato social tornou-se insustentável.
São necessárias instituições mais fortes e um novo quadro de governação para fazer cumprir um contrato social centrado no crescimento diversificado, na criação de empregos e na prosperidade partilhada.
Neste contexto, a transformação e diversificação da economia para criar empregos é fundamental para libertar o potencial do país.
Isto também reduzirá a pobreza e criará uma maior resiliência a uma variedade de choques. Em particular, o desenvolvimento do Corredor do Lobito tem o potencial de acelerar a diversificação económica em Angola e promover a integração regional.
https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2026/02/BM-angola.jpg613918CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2026-02-05 09:12:242026-02-05 09:12:29Briefing CEDESA-Análise do Banco Mundial sobre a economia angolana
Investigador Associado ao CEDESA (área China-África)
Angola é, sem dúvida, um dos países mais ricos em recursos naturais do continente africano. Petróleo, gás natural, diamantes, minerais metálicos, vastas extensões de terras aráveis e um enorme potencial hidroelétrico colocam o país numa posição privilegiada do ponto de vista dos fatores naturais de produção. Poucos países africanos dispõem de uma combinação tão abrangente de recursos estratégicos.
No entanto, a experiência das últimas décadas demonstra que a abundância de recursos, por si só, não garante desenvolvimento sustentável, prosperidade duradoura nem estabilidade social. Apesar de períodos de forte crescimento económico, Angola continua a enfrentar desafios estruturais profundos: dependência excessiva do petróleo, fraca diversificação produtiva, elevado desemprego juvenil, forte dependência das importações e vulnerabilidade às oscilações externas.
Esses desafios não são circunstanciais nem transitórios. Eles revelam um problema de fundo: o modelo de crescimento baseado predominantemente na exportação de matérias-primas atingiu os seus limites. Neste contexto, torna-se cada vez mais evidente que apenas a industrialização pode alterar, de forma estrutural e duradoura, o destino económico e social de Angola.
A economia dos recursos: vantagens iniciais e limites estruturais
Durante muitos anos, o setor petrolífero desempenhou um papel decisivo na reconstrução nacional e no financiamento do Estado angolano. As receitas do petróleo permitiram investir em infraestruturas, estabilizar as finanças públicas em determinados períodos e inserir Angola nos fluxos da economia global.
Contudo, essa mesma dependência criou fragilidades profundas. A exportação de matérias-primas caracteriza-se por um baixo nível de transformação local, reduzido valor acrescentado e fraca capacidade de geração de emprego. Além disso, os preços dos recursos naturais são definidos nos mercados internacionais, fora do controlo nacional.
Sempre que o preço do petróleo sobe, a economia beneficia temporariamente.
Quando cai, surgem pressões cambiais, défices fiscais, inflação e dificuldades sociais. Esta dinâmica cíclica demonstra que a riqueza baseada exclusivamente em recursos é instável e imprevisível.
Mais ainda, uma economia excessivamente dependente de recursos tende a negligenciar o desenvolvimento de outros setores produtivos, enfraquecendo a base industrial e tecnológica do país. O resultado é uma economia vulnerável, pouco diversificada e dependente do exterior.
Industrialização: de extração para criação de valor
A industrialização representa uma mudança qualitativa no modelo económico. Em vez de exportar recursos em estado bruto, a indústria permite transformá-los, agregar valor e criar cadeias produtivas completas dentro do território nacional.
Um barril de petróleo exportado gera uma receita única. Mas quando esse petróleo é transformado localmente em combustíveis, produtos petroquímicos, plásticos, fertilizantes ou materiais industriais, ele passa a gerar valor de forma contínua, criando empregos, competências técnicas e receitas fiscais recorrentes.
O mesmo princípio aplica-se aos minerais, à agricultura e a outros recursos naturais. A diferença entre um país rico em recursos e um país desenvolvido reside precisamente na sua capacidade de industrializar esses recursos.
O emprego como eixo central do desenvolvimento
Angola possui uma população jovem e em rápido crescimento. Este fator demográfico pode ser uma vantagem estratégica, mas apenas se o país for capaz de criar empregos suficientes e de qualidade.
O setor petrolífero, apesar da sua importância económica, emprega relativamente poucas pessoas. A agricultura, embora essencial, ainda enfrenta desafios estruturais relacionados com produtividade, infraestruturas e acesso a mercados. O setor dos serviços, quando não apoiado por uma base industrial sólida, tende a concentrar-se em atividades informais e de baixo valor.
Neste contexto, a industrialização surge como a única via capaz de criar emprego em larga escala, especialmente empregos intermédios, que são fundamentais para a formação de uma classe média sólida. Técnicos industriais, operadores, mecânicos, engenheiros, gestores de produção e profissionais de logística são pilares de uma economia moderna.
Sem indústria, o país corre o risco de desperdiçar o seu capital humano, agravando tensões sociais e limitando as oportunidades para as novas gerações.
A indústria como base da estabilidade social
A experiência internacional demonstra que sociedades mais estáveis e equilibradas são aquelas que conseguem formar uma classe média numerosa. Essa classe média não surge da distribuição de rendas de recursos, mas sim do trabalho produtivo, da indústria e da economia real.
A industrialização cria rendimentos estáveis, previsíveis e baseados no mérito e na qualificação. Ao fazê-lo, fortalece a coesão social, reduz desigualdades extremas e cria expectativas de progresso individual e coletivo.
Sem uma base industrial, a economia tende a polarizar-se entre uma pequena elite ligada aos recursos e uma grande maioria com rendimentos instáveis, o que fragiliza o tecido social e político.
Capacidade do Estado e soberania económica
Um Estado moderno necessita de receitas fiscais estáveis para cumprir as suas funções fundamentais: educação, saúde, infraestruturas, segurança e governação eficiente. As receitas provenientes dos recursos naturais são elevadas, mas altamente voláteis. Já a indústria gera uma base fiscal mais diversificada e previsível.
Além disso, a indústria fortalece a soberania económica. Países sem base industrial dependem fortemente de importações de bens essenciais, equipamentos e tecnologia. Em períodos de crise global, essa dependência pode tornar-se crítica.
A pandemia, as tensões geopolíticas e as ruturas nas cadeias globais de abastecimento mostraram claramente os riscos da dependência excessiva do exterior. A industrialização é, portanto, também uma questão de segurança nacional.
Agricultura e serviços: pilares complementares, não substitutos
Não se trata de opor indústria à agricultura ou aos serviços. Pelo contrário, um modelo de desenvolvimento equilibrado exige a integração dos três setores. A agricultura fornece matérias-primas e segurança alimentar. A indústria transforma, agrega valor e cria emprego. Os serviços avançados surgem como consequência natural de uma economia produtiva forte.
A história económica mostra que nenhum país alcançou o desenvolvimento sustentável ignorando a industrialização. Saltar diretamente de uma economia primária para uma economia de serviços sofisticados é uma ilusão que raramente se concretiza.
Uma industrialização adaptada à realidade angolana
Industrializar não significa repetir modelos ultrapassados ou ambientalmente insustentáveis. Angola tem a oportunidade de seguir uma via de industrialização moderna, gradual e estratégica, baseada nas suas vantagens comparativas e nas exigências do século XXI.
Entre as prioridades destacam-se:
transformação local de recursos naturais;
desenvolvimento da agroindústria;
indústrias de substituição de importações;
materiais de construção e bens essenciais;
criação de zonas económicas especiais e parques industriais;
atração de investimento estrangeiro com transferência de tecnologia;
formação técnica e profissional alinhada com as necessidades industriais;
integração regional através da SADC e da Zona de Comércio Livre Continental Africana.
O sucesso da industrialização exige políticas públicas coerentes, estabilidade institucional, investimento em capital humano e uma parceria estratégica entre o Estado e o setor privado.
Conclusão: o futuro constrói-se com indústria
Os recursos naturais podem definir o ponto de partida de uma nação, mas não determinam o seu futuro. O verdadeiro desenvolvimento nasce da capacidade de transformar, produzir, empregar e inovar.
Sem indústria, a riqueza esgota-se e a economia permanece vulnerável. Com indústria, os recursos tornam-se a base de um crescimento inclusivo, soberano e sustentável. Para Angola, a industrialização não é uma opção ideológica nem uma escolha entre várias alternativas equivalentes. É uma necessidade histórica e estratégica.
O país dispõe dos recursos, da juventude e do potencial necessários. O desafio agora é transformar essas vantagens em capacidade produtiva real. O destino de Angola não será decidido pelo que extrai do subsolo, mas pelo que consegue produzir com inteligência, trabalho e visão de longo prazo.
A indústria é o caminho. E o tempo para o percorrer é agora.
https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2026/01/industrial.jpg433750CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2026-01-04 09:52:282026-01-04 09:52:31Apenas a industrialização pode salvar Angola
A Sonangol atravessa um processo de declínio que não pode ser explicado apenas por conjunturas desfavoráveis, como a pandemia ou a volatilidade dos preços internacionais do petróleo. O que se observa é uma erosão estrutural, resultante da fragilidade institucional e da sua incapacidade em aumentar a produção petrolífera.
Ao mesmo tempo, os investimentos fora do petróleo — em saúde, transportes, telecomunicações ou imobiliário — revelaram-se insustentáveis, acumulando centenas de milhões de dólares em prejuízos e funcionando como um peso crónico sobre as contas[2]. A má governança, marcada por corrupção, nepotismo e esquemas de desvio de combustível, corroeu a credibilidade da empresa e expôs a sua vulnerabilidade institucional[3].
Assim, o declínio da Sonangol não é conjuntural, mas estrutural: resulta da fragilidade dos seus negócios paralelos, da má gestão e da incapacidade de aumentar a produção. O que está em causa não é apenas a oscilação de resultados financeiros, mas a própria relevância da empresa no futuro de Angola.
2-Números do declínio e a sua opacidade
Os números comprovam o declínio sustentado da companhia. Há visível uma tendência de queda dos lucros anuais: em dólares, passaram de 2,1 mil milhões, em 2021, para os 846 milhões USD em 2024. O seu volume de negócios também vai decrescendo, USD 11 483 milhões em 2023 para USD 10 445 212 095 em 2024. Enquanto, isso a sua produção de petróleo está estagnada nos 200 milhões de barris/ mês[4].
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Ao mesmo tempo, a auditora EY continua a alertar para a opacidade em alguns dos aspetos mais fundamentais da contabilidade da empresa, afigurando-se que a situação é bem mais difícil e insustentável do que aquilo que uma primeira leitura dos números evidenciaria.
De acordo, com a EY, os ativos financeiros da Sonangol apresentam sinais de imparidade: Os investimentos em subsidiárias (544,8 mil milhões de kwanzas) e outros ativos financeiros (666,8 mil milhões) não apresentam provas suficientes para confirmar a sua recuperabilidade futura e é impossível verificar se todos os investimentos estão corretamente reconhecidos.
Igualmente, nas contas a receber do Estado e de entidades públicas, o saldo total ascende a 6,5 biliões de kwanzas, dos quais mais de 1,1 biliões estão em processo de validação e reconciliação, sem que seja possível confirmar a sua existência, propriedade ou recuperabilidade. O restante saldo (5,3 biliões) carece de um plano de reembolso, o que torna impossível determinar se deve ser classificado como um ativo corrente ou não corrente. As relações entre o Estado angolano e a Sonangol EP não podem ser consideradas totalmente credíveis ou transparentes devido a uma série de fatores que revelam opacidade estrutural, falta de mecanismos de verificação pública e dependência de estimativas internas não auditadas. Em primeiro lugar, os acordos de compensação celebrados entre as duas partes — em 2019, 2020 e novamente em 2023 — baseiam-se em processos de reconciliação de saldos que não estão sujeitos a escrutínio externo ou auditoria independente. A validação de créditos e dívidas é realizada utilizando metodologias internas definidas pelo Conselho de Administração da Sonangol, o que torna impossível verificar se os valores compensados refletem com precisão a realidade económica das partes.
Além disso, a conversão de ativos e passivos denominados em kwanzas para dólares americanos é realizada utilizando a taxa de câmbio média do ano fiscal em que as transações foram geradas, sem especificar se este critério foi acordado com o Estado ou se existem mecanismos de controlo para garantir a equidade dessa conversão. Esta prática introduz uma margem de discricionariedade contabilística que pode distorcer os saldos finais.
No final de 2024, a Sonangol efetuou uma compensação adicional de créditos e dívidas com o Estado e outras entidades públicas, com base no artigo 59.º do Código Geral Tributário. No entanto, esclarece-se que apenas foram considerados os créditos reconhecidos pelo órgão estatal competente na data do balanço, o que implica que existem outros créditos não reconhecidos cuja existência e legitimidade permanecem em dúvida.
Por fim, o saldo remanescente a favor da Sonangol — 4,537 mil milhões de dólares — é o resultado de uma cadeia de compensações sucessivas, sem a publicação de um relatório consolidado que permita a verificação da rastreabilidade das operações, os critérios de inclusão ou exclusão de itens ou o impacto fiscal dessas compensações.
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Estas reservas refletem uma opacidade significativa na contabilidade da Sonangol, especialmente no que diz respeito à fiabilidade dos seus ativos financeiros e à sua relação de crédito com o Estado angolano. A falta de documentação adequada e de processos de verificação contabilística concluídos levanta dúvidas sobre a transparência, exatidão e apresentação fiel das contas consolidadas.
Em conjunto, estes elementos revelam uma relação marcada pela falta de transparência documental, pela ausência de auditoria pública e pela dependência de estimativas internas, o que compromete a credibilidade dos saldos entre a Sonangol e o Estado angolano.
Na verdade, as reservas da EY demonstram que não se sabe precisamente a situação financeira e patrimonial da Sonangol.
3-Falta de eficácia da gestão
A eficácia da gestão da Sonangol tem sido cada vez mais questionada, especialmente à luz do declínio sustentado do investimento e da produção de petróleo, que reflete uma desconexão entre os objetivos estratégicos declarados e os resultados operacionais reais.
Durante anos, a Sonangol foi considerada o motor económico de Angola, mas o seu desempenho recente mostra sinais de estagnação estrutural. Apesar dos esforços de reestruturação iniciados em 2017, a empresa continua a enfrentar desafios significativos em termos de eficiência operacional, governação corporativa e capacidade de investimento.
A produção interna total de petróleo tem diminuído constantemente, passando de mais de 1,8 milhões de barris por dia em 2008 para menos de 1,1 milhões em 2024, com a Sonangol a não conseguir reverter esta tendência com novas tecnologias de exploração ou de recuperação melhorada, a sua produção está estagnada.
Um dos fatores críticos tem sido a redução do investimento em exploração e desenvolvimento. Em vez de priorizar o reinvestimento produtivo, a Sonangol tem alocado recursos para a compensação da dívida com o Estado, operações financeiras opacas e manutenção de ativos não estratégicos. Esta orientação limitou a sua capacidade de atrair parceiros internacionais e renovar reservas, comprometendo a sua sustentabilidade a longo prazo.
Além disso, a gestão da empresa tem sido marcada por decisões centralizadas e falta de transparência na execução do orçamento. Embora tenham sido anunciados planos de privatização parcial — como uma oferta pública inicial de até 30% das suas ações —, permanecem dúvidas sobre a qualidade da informação financeira e da governança interna, o que desmotiva potenciais investidores.
Em suma, o declínio na produção e a contração do investimento refletem uma gestão ineficaz que não conseguiu adaptar a empresa a um ambiente energético global mais competitivo e diversificado. Sem uma reforma profunda do seu modelo de governação e uma estratégia clara de reinvestimento produtivo, a Sonangol corre o risco de perder o seu papel central na economia angolana.
4-O plano de reforma da Sonangol
A reforma da Sonangol deve ser concebida como um processo estruturado e transparente, capaz de responder simultaneamente às exigências de eficiência empresarial, credibilidade institucional e benefício social.
O modelo proposto assenta em várias linhas de ação complementares.
Em primeiro lugar, a privatização de 45% do capital em mercado internacional, com a salvaguarda de que um terço dessa fatia seja reservado aos empregados, cria um duplo efeito positivo: por um lado, abre a empresa ao investimento externo, trazendo capital fresco e know-how internacional; por outro, garante que os trabalhadores se tornam acionistas, participando diretamente nos resultados e adquirindo legitimidade para ocupar lugares na administração. Esta medida não apenas democratiza a estrutura acionista, mas também introduz práticas de gestão mais modernas e menos dependentes de lógicas político-partidárias.
Em paralelo, a privatização seletiva das grandes áreas da Sonangol que sistematicamente dão prejuízo, e também da Sonangol Distribuição, responde a uma racionalidade económica clara. O segmento downstreaming, que envolve refinação, transporte e distribuição de combustíveis, é tradicionalmente mais exposto a custos elevados, volatilidade de preços e margens reduzidas. Ao transferir estas operações para investidores privados, cria-se espaço para que o Estado e a Sonangol concentrem esforços nos segmentos estratégicos e rentáveis, como a exploração e produção. A privatização do downstreaming permite ainda maior concorrência no mercado interno, o que pode resultar em preços mais competitivos e melhor qualidade de serviço para os consumidores.
Outro eixo fundamental da reforma é a introdução de uma lei que proíba militantes de partidos políticos de ocupar cargos na Sonangol. Esta medida visa blindar a empresa contra a captura partidária e assegurar que a gestão se pauta por critérios técnicos e meritocráticos. A independência da administração é condição indispensável para atrair investidores internacionais e recuperar a confiança pública, evitando que a Sonangol seja utilizada como instrumento de clientelismo político.
No plano social, o modelo prevê que uma parte das receitas seja destinada diretamente às comunidades locais e às províncias onde se obtém petróleo. Esta redistribuição territorial contribui para reduzir desigualdades regionais, reforçar a legitimidade da exploração de recursos e criar um vínculo positivo entre a população e a empresa. Ao canalizar fundos para infraestruturas, educação e saúde nas zonas produtoras, a Sonangol pode transformar-se num agente de desenvolvimento inclusivo, mitigando tensões sociais e ambientais.
Finalmente, o aumento do investimento em investigação e desenvolvimento (R&D) é essencial para garantir a sustentabilidade futura da empresa. Num contexto global de transição energética, a Sonangol deve investir em tecnologias de eficiência, energias renováveis e soluções de descarbonização. Este esforço em inovação não apenas diversifica a sua base de negócios, mas também posiciona Angola como ator relevante na economia energética do futuro.
Em síntese, este modelo de reforma combina abertura ao capital internacional, democratização interna, racionalização económica, blindagem institucional contra interferências partidárias, redistribuição social e aposta em inovação. Trata-se de um desenho que procura equilibrar eficiência empresarial com responsabilidade social e credibilidade política, criando as condições para que a Sonangol se transforme numa empresa moderna, competitiva e legitimada perante a sociedade angolana e a comunidade internacional.
[1] Este texto conta com os subsídios obtidos na Jornada de Estudos sobre Companhias Nacionais de Petróleo em que participei ocorrida no Colégio do México em Novembro de 2025.
https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2025/12/Sonangol.jpg533800CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2025-12-09 08:03:002025-12-04 14:37:56Reformas para a inversão do declínio da Sonangol
João Shang- Investigador Associado do CEDESA e Kwenda Institute
Um fato negligenciado que está redefinindo a narrativa global
Durante muitos anos, Washington e seus aliados alertaram repetidamente os países sobre os “riscos dos empréstimos chineses”, retratando o financiamento internacional da China como um suposto “armadilha da dívida”. No entanto, o mais recente relatório da AidData revela um fato disruptivo: entre 2000 e 2023, os Estados Unidos foram, na verdade, o país que mais recebeu empréstimos oficiais chineses em todo o mundo.
Dos US$ 2,2 trilhões em empréstimos externos concedidos pela China a mais de 200 países e regiões, mais de US$ 200 bilhões foram destinados aos EUA. São quase 2.500 projetos, distribuídos praticamente em todos os estados norte-americanos.
Esse resultado não apenas contraria a percepção dominante da mídia internacional, como também oferece uma nova perspetiva sobre os fluxos de capital global. O mundo sempre associou os empréstimos chineses ao financiamento do desenvolvimento e à exportação de infraestrutura para países pobres. Contudo, a realidade mostra que o capital chinês penetrou profundamente nas cadeias globais de valor dos países mais desenvolvidos, reconfigurando a ordem financeira internacional.
Por que os Estados Unidos se tornaram o “maior beneficiário”?
Segundo os dados da AidData, os empréstimos chineses para os EUA concentram-se principalmente em três áreas:
1. Crédito para liquidez empresarial: a “dependência oculta” que os EUA evitam admitir
Mais da metade dos empréstimos envolve créditos sindicalizados dos quais os bancos chineses participam. Muitas multinacionais — incluindo empresas da Fortune 500 — recorreram a financiamento chinês quando enfrentaram pressões de caixa, realizaram fusões ou buscavam expandir operações.
Esses empréstimos: não envolvem controle acionário, não implicam transferência de poder, são práticas comuns no mercado financeiro internacional. Mas revelam um fato: o capital chinês tornou-se parte indispensável do sistema de financiamento corporativo dos EUA — algo que contrasta com a narrativa tradicional de que “a economia americana é financeiramente autossuficiente”.
2. Aquisições de alta tecnologia: a “sombra chinesa” nas cadeias industriais sensíveis dos EUA. O relatório cita vários casos de empresas chinesas adquirindo companhias de tecnologia norte-americanas, como: OmniVision (sensores de imagem), Paslin (automação industrial), Ingram Micro (distribuição eletrônica).
Todas essas transações receberam financiamento de instituições estatais chinesas. Mesmo quando algumas empresas foram posteriormente adquiridas por capital americano, o financiamento chinês foi crucial para viabilizar as operações no momento decisivo. Isso demonstra que o capital chinês já desempenhou um papel relevante no ecossistema tecnológico dos EUA — algo amplamente ignorado pelo discurso político norte-americano.
3. Investimentos em infraestrutura — do gás natural aos aeroportos
De instalações de GNL a oleodutos, linhas de transmissão e terminais aeroportuários, vários projetos estratégicos dos EUA receberam financiamento oficial chinês. Embora o debate interno dos EUA frequentemente trate essas iniciativas com preocupação, a AidData mostra que, nos últimos vinte anos, dezenas de projetos essenciais à segurança econômica norte-americana tiveram participação financeira da China.
A profunda transformação da estrutura dos empréstimos externos da China: de assistência a investimento estratégico. A visão tradicional de que os empréstimos chineses são dirigidos principalmente aos países em desenvolvimento está desatualizada.
O relatório revela uma mudança estrutural: Em 2000: 88% dos empréstimos iam para países de baixa renda. Em 2023: apenas 24% Os principais beneficiários atuais: EUA, Reino Unido, União Europeia. Essa mudança reflete uma combinação de estratégia nacional, expansão financeira e evolução industrial da China.
O impacto do “Made in China 2025”
O plano lançado em 2015 priorizou setores como: robótica, automação, aeroespacial, novos materiais, semicondutores, tecnologia da informação.
A AidData observa que, após 2015, os empréstimos chineses destinados a fusões e aquisições internacionais cresceram rapidamente, refletindo essa estratégia. Assim, a China usa capital estatal para suprir lacunas tecnológicas e integrar-se às cadeias de valor avançadas por meio de aquisições globais.
Expansão acelerada dos empréstimos para minerais estratégicos. Entre 2021 e 2023, a China aprovou mais de 100 projetos de financiamento relacionados a minerais críticos, somando mais de US$ 14 bilhões, focados em: lítio (carros elétricos), cobalto, cobre, terras raras, materiais estratégicos.Isso revela uma estratégia clara: construir uma “rede global de segurança de recursos” por meio de empréstimos.
Mudança de postura nos EUA e Europa: da crítica à imitação
O significado geopolítico é claro: ao longo da última década, os países do G7 mudaram de atitude. EUA: de críticas à retomada do financiamento estatal. Após reduzir ajuda externa durante o governo Trump, os EUA: aumentaram significativamente o orçamento da DFC (U.S. International Development Finance Corporation), expandiram empréstimos até mesmo para países ricos, reforçaram a supervisão de investimentos externos com critérios de segurança nacional. Isso demonstra que os EUA perceberam que, sem competir no financiamento estratégico, perderiam espaço para a China.
Europa: criticar a China, copiar a China, competir com a China
O Reino Unido revisou investimentos chineses em energia nuclear e portos. A União Europeia lançou o Global Gateway, contrapondo-se à Belt and Road. Alemanha e França reforçaram a proteção contra aquisições estrangeiras de empresas de alta tecnologia. A Europa está cheia de contradições: critica os financiamentos chineses, mas imita os métodos chineses para competir com eles.
A competição global de capital entrou na “era da geofinança”
Os dados mostram que os empréstimos já não são apenas instrumentos econômicos, mas sim ferramentas de: influência internacional, aquisição tecnológica, construção de cadeias de suprimento, garantia de recursos estratégicos.
Nesse contexto, a competição de capital terá três níveis: Países desenvolvidos: disputa por tecnologias e ativos estratégicos. Sul Global: campo de competição por influência. Países de recursos: foco em minerais e energia. O antigo “paradigma da ajuda” está desaparecendo.
As relações financeiras China-EUA serão mais interdependentes e mais complexas
Mesmo com maior rigor regulatório, o mercado financeiro norte-americano não pode bloquear totalmente o capital chinês: empréstimos sindicalizados têm múltiplos participantes, cadeias de suprimentos globais mantêm alta interdependência. O futuro será um cenário de “aperto superficial, interdependência real”.
Uma história financeira global mal compreendida durante vinte anos
Rótulos como “exportação de dívida chinesa” ou “armadilha da dívida” foram amplamente politizados, sugerindo que o capital chinês estava limitado ao mundo em desenvolvimento.
A AidData desmonta essa narrativa:
Os maiores beneficiários não foram os mais pobres, mas os mais ricos.
A competição global não ocorre apenas no Sul Global, mas dentro do mundo desenvolvido.
A mudança real não é a China saindo — é o mundo financeiro se movendo em direção à China.
Estamos diante de uma transformação silenciosa, porém profunda, que altera o equilíbrio global de poder e redefine a dinâmica do capital internacional.
Nos próximos dez anos, a competição global não será apenas tecnológica, mas também uma competição entre sistemas financeiros — e suas regras estão cada vez mais alinhadas ao modelo que a China tem defendido e agora expande ao mundo.
https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2025/11/1760280581-1464.webp6301200CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2025-11-21 08:00:002025-11-20 12:37:50Afinal, os Estados Unidos são os maiores beneficiários dos empréstimos globais da China!
Investigador Associado ao CEDESA (área China-África)
Visiting Professor na Beijing University-International Business and Economics
No vasto planalto do sul de África, estende-se uma artéria de aço que simboliza a amizade e a cooperação entre a China e a África — a Ferrovia Tanzânia-Zâmbia (TAZARA). Com aproximadamente 1.860 km de extensão, a linha ferroviária liga o porto de Dar es Salaam, no oceano Índico, à cidade de Kapiri Mposhi, no centro da Zâmbia, atravessando o planalto da Tanzânia e conectando os países do interior ricos em recursos minerais ao mundo exterior.
A TAZARA não é apenas um projeto de infraestrutura, mas também um símbolo histórico da independência econômica e da integração regional africana. Para países ricos em recursos como Zâmbia, Tanzânia e República Democrática do Congo (RDC), esta ferrovia desempenha um papel fundamental no transporte de minerais, promoção do comércio e fortalecimento da cooperação regional.
Zâmbia: a linha vital da economia do cobre
A Zâmbia é um dos principais produtores mundiais de cobre, e as exportações do metal representam cerca de 70% das receitas de divisas do país. Com a TAZARA, a Zâmbia passou a dispor de uma rota ferroviária independente para o oceano Índico, reduzindo a dependência das rotas controladas por antigos regimes coloniais.
Por meio da ferrovia, o cobre produzido na região do Copperbelt é transportado até o porto de Dar es Salaam para exportação à Ásia e à Europa. No auge das suas operações, a TAZARA chegou a movimentar mais de 1 milhão de toneladas de cobre e outros produtos por ano. Essa rede de transporte reduziu significativamente os custos logísticos e garantiu a estabilidade da economia zambiana.
Além disso, a ferrovia estimulou a integração entre as áreas mineiras e as cidades industriais, promovendo o desenvolvimento urbano e industrial de localidades como Ndola e Kapiri Mposhi, e criando milhares de empregos diretos e indiretos.
Tanzânia: elo entre o porto e o corredor econômico
Para a Tanzânia, a TAZARA não é apenas uma ferrovia nacional, mas sim um corredor internacional de comércio. O porto de Dar es Salaam tornou-se, graças à ferrovia, um dos principais centros de exportação de minerais da África Oriental.
O aumento do volume de cargas — minerais, combustíveis, fertilizantes e produtos industriais — impulsionou o crescimento do porto e fomentou a economia das cidades ao longo da linha, como Mbeya e Mpika. Assim, formou-se um novo eixo econômico interno. A existência da TAZARA também fortaleceu a posição geoestratégica da Tanzânia dentro da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), consolidando o país como ponto de convergência regional.
Congo Kinshasa: rota alternativa ao Corredor do Lobito para exportação mineral
A região de Katanga, no sudeste da RDC, é extremamente rica em cobre, cobalto, tântalo e lítio. Historicamente, a exportação desses minerais era dificultada por uma infraestrutura rodoviária e ferroviária precária. Com o fortalecimento da cooperação regional, muitas empresas mineradoras congolesas passaram a utilizar a TAZARA: transportam seus produtos via Lubumbashi até a Zâmbia, e de lá seguem de trem até Dar es Salaam.
Embora esta rota seja ligeiramente mais longa que o corredor de Lobito (em Angola), ela oferece maior estabilidade, segurança e confiabilidade, especialmente em períodos de instabilidade política. Com a crescente demanda mundial por minerais estratégicos —especialmente cobalto e cobre —, a TAZARA tornou-se uma via essencial para o escoamento das riquezas da RDC, garantindo uma fonte estável de receitas em moeda estrangeira. A TAZARA promoveu a integração logística entre os países do interior e os do litoral do sul da África. Além de conectar a Zâmbia e a Tanzânia, a ferrovia interliga-se, por meio de ramais e estradas, com RDC, Maláui, Ruanda e Burundi, proporcionando-lhes acesso direto ao mar.
Esse sistema de conectividade aumentou significativamente o volume de comércio intra-africano, contribuindo para os objetivos da Zona de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA).
Redução de custos e aumento da eficiência
Comparado ao transporte rodoviário, o ferroviário é mais econômico, mais seguro e menos poluente. Para as empresas mineiras, o uso da ferrovia pode reduzir 30% a 40% dos custos logísticos. A ferrovia também oferece maior regularidade e menor risco de deterioração das cargas minerais.
Antes da ferrovia, muitas regiões atravessadas pela linha eram economicamente isoladas. A chegada da TAZARA gerou novas oportunidades de emprego, comércio e serviços, promovendo avanços em educação, saúde e infraestrutura social. Dessa forma, o projeto tornou-se um exemplo emblemático da cooperação sino-africana voltada ao bem-estar das populações locais.
China investiu 1.4 bilhão dólares americanos para modernização de ferrovia de TAZARA
Apesar da sua importância histórica, a TAZARA enfrenta desafios crescentes:
Infraestrutura envelhecida: trilhos e locomotivas obsoletos reduzem a velocidade e a capacidade de carga; mais até o momento, a Ferrovia TAZARA (Tanzânia–Zâmbia) continua a ser um dos maiores projetos de cooperação integral já apoiados pela China no exterior.
Devido ao desgaste ao longo dos anos, à obsolescência dos equipamentos e a problemas de gestão, a capacidade operacional da ferrovia diminuiu significativamente por um período prolongado. Para superar essa situação, no início do século XXI, China, Tanzânia e Zâmbia realizaram diversas negociações e inspeções conjuntas, chegando a um acordo preliminar sobre a revitalização da Ferrovia TAZARA.
Nos últimos anos, com o aumento dos preços internacionais das commodities, especialmente do cobre, tanto a Tanzânia quanto a Zâmbia tornou-se mais empenhadas em acelerar a exportação de seus recursos minerais. Nesse contexto, ambos os países expressaram o desejo de modernizar e expandir a ferrovia, a fim de atender à crescente demanda por transporte de carga.
Durante a Cúpula de Pequim do Fórum de Cooperação China–África, realizada em setembro de 2024, os chefes de Estado dos três países — China, Tanzânia e Zâmbia — assinaram um Memorando de Entendimento sobre o Projeto de Revitalização da Ferrovia TAZARA.
No início deste ano, a Administração da Ferrovia TAZARA firmou um acordo de concessão com uma empresa chinesa, pelo qual a parte chinesa investirá 1,4 bilhão de dólares americanos para modernizar a ferrovia de TAZARA.
Porquê modernizar a ferrovia de TAZARA?
Após o processo de modernização — que incluiu reforço das vias, atualização do sistema de sinalização, renovação das locomotivas e introdução de sistemas digitais de gestão — a eficiência e a segurança ferroviária melhoraram de forma substancial. A velocidade média dos comboios passou de 30–40 km/h para 60–80 km/h, e o tempo de rotação do transporte de mercadorias diminuiu cerca de 40%. A capacidade anual aumentou de menos de 1 milhão de toneladas para 3 a 5 milhões de toneladas, com potencial para crescer ainda mais. Isto permite que o cobre da Zâmbia e o cobalto da República Democrática do Congo (RDC) sejam exportados de forma mais estável e eficiente para os mercados internacionais. Com a modernização, o sistema logístico entre o interior e o porto tornou-se mais fiável e rápido. O custo de transporte ferroviário reduziu-se em cerca de 30% a 40% em relação ao transporte rodoviário, e o consumo energético diminuiu quase para metade.
Por exemplo, o transporte de cobre desde a região de Copperbelt até ao porto de Dar es Salaam, que antes demorava entre 10 e 14 dias, agora realiza-se em 5 a 7 dias. Para as empresas mineiras, isto representa poupança de custos, maior previsibilidade logística e competitividade acrescida no mercado global de metais.
O porto de Dar es Salaam também beneficia: o aumento do volume de exportações gera maiores receitas portuárias, de armazenagem e de câmbio, resultando numa situação de ganhos mútuos para todos os países envolvidos. A modernização da TAZARA não é apenas uma melhoria técnica — ela impulsionou a criação de um corredor económico transnacional baseado no conceito “recursos–transporte–transformação–exportação”. O porto de Dar es Salaam foi ampliado e modernizado, tornando-se um centro integrado para exportação mineral e transporte de contentores. Assim, a TAZARA deixou de ser apenas um canal de escoamento de matérias-primas, passando a constituir a espinha dorsal da integração económica regional.
O processo de modernização criou mais de 30.000 empregos diretos e indiretos em construção, manutenção, logística e gestão. Cidades como Mpika, Mbeya e Kapiri Mposhi cresceram rapidamente, com maior dinamismo comercial e desenvolvimento imobiliário.
As novas composições de passageiros são mais seguras e confortáveis, facilitando o turismo e a mobilidade interna.
Para as comunidades rurais, a ferrovia representa uma ligação vital a escolas, hospitais e mercados, melhorando significativamente a qualidade de vida ao longo da linha.
A modernização reforçou a integração económica e institucional entre Tanzânia, Zâmbia e RDC. A ferrovia tornou-se um elo físico e político que favorece acordos aduaneiros, facilitação de fronteiras e comércio intrarregional. Este avanço está em consonância com a Agenda 2063 da União Africana, que visa construir uma África interligada, industrializada e autossuficiente.
A nova TAZARA é também um instrumento de apoio à Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA), pois contribui para a mobilidade de mercadorias e pessoas no eixo leste-sul do continente. Reforço da cooperação sino-africana e da confiança internacional. A TAZARA modernizada é hoje um dos marcos mais emblemáticos da Iniciativa “Cinturão e Rota” (BRI) no continente africano.
Os resultados da modernização da Ferrovia Tanzânia-Zâmbia são profundos e multifacetados.
A linha recuperou a sua função estratégica de transporte e passou a desempenhar um papel central no crescimento económico da África Austral e Oriental.
A “nova TAZARA” acelera a exportação de minerais, dinamiza os portos, revitaliza as cidades e estreita a cooperação regional. Do ponto de vista económico, social, ambiental e político, a modernização desta ferrovia simboliza o renascimento da infraestrutura africana e o espírito de parceria ganha-ganha entre a China e a África, apontando para um futuro africano mais interligado, próspero e sustentável.
Perspetivas futuras e valor estratégico
No contexto da Iniciativa Cinturão e Rota da China, a TAZARA ganha nova relevância estratégica. No futuro, deverá consolidar-se não apenas como rota de transporte de minerais, mas também como corredor econômico integrado:
Agregação de valor aos minerais – criação de zonas industriais para fundição e processamento de cobre e cobalto; Formação de um corredor econômico regional – integração entre infraestrutura ferroviária, rodoviária, portuária e energética; Transporte verde e sustentável – o transporte ferroviário emite menos carbono e favorece o desenvolvimento ecológico; Símbolo da cooperação sino-africana moderna – a revitalização da TAZARA representa um novo modelo de parceria baseada em benefício mútuo e desenvolvimento conjunto.
A Ferrovia Tanzânia-Zâmbia é uma linha que atravessa fronteiras e gerações. Ela não apenas testemunha a amizade entre os povos da China e da África, mas também sustenta o pulso econômico do sul do continente. Do cinturão do cobre da Zâmbia às minas de cobalto da RDC, até o porto de Dar es Salam, a TAZARA conecta as riquezas minerais africanas ao mercado global.
Num novo contexto histórico, com a crescente integração regional africana e a cooperação no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota, a TAZARA certamente renascerá com vigor renovado, continuando a desempenhar um papel insubstituível no transporte de minerais e no desenvolvimento econômico da África.
Os dois elefantes gigantes lutam, quem sofre é o Capim!
JOÃO SHANG
Investigador Associado ao CEDESA (área China-África)
Visiting Professor na Beijing University-International Business and Economics
Em 30 de outubro de 2025, os presidentes Xi Jinping, da China, e Donald Trump, dos Estados Unidos, reuniram-se em Busan, Coreia do Sul, naquele que foi o primeiro encontro presencial entre ambos desde 2019. Apesar da brevidade, a reunião teve um impacto simbólico e estratégico significativo, sinalizando que China e Estados Unidos podem, em determinadas circunstâncias, alcançar êxitos mútuos e prosperidade compartilhada.
Nos últimos anos, a relação sino-americana foi marcada por tensões intensas — disputas tarifárias, conflitos tecnológicos, divergências sobre Taiwan, segurança no Indo-Pacífico e vulnerabilidades nas cadeias globais de abastecimento. O reencontro entre os dois líderes foi, portanto, interpretado como um gesto de distensão e um teste político de alto nível para reavaliar os equilíbrios entre as duas maiores potências do sistema internacional.
Comércio e Tarifas: Uma Trégua Temporária
O principal resultado da reunião foi a redução provisória das tarifas comerciais. Trump anunciou que os Estados Unidos diminuiriam a média das tarifas sobre produtos chineses de 57% para 47%, e que as tarifas punitivas sobre precursores químicos — associados à crise do fentanil — seriam reduzidas de 20% para 10%.
Em contrapartida, a China comprometeu-se a retomar a compra em larga escala de soja, milho e outros produtos agrícolas norte-americanos. Além disso, Pequim decidiu suspender, por um período de um ano, as restrições à exportação de terras raras — recurso essencial para a indústria tecnológica global. Esta decisão foi interpretada como um gesto de estabilidade e uma demonstração do peso estratégico da China nesse setor.
Trump classificou o encontro como “surpreendente e incrível”, chegando a afirmar que “daria nota 12 numa escala de 10”. Xi Jinping, por sua vez, considerou que as fricções entre China e EUA são “fenômenos normais”, destacando a importância de evitar “ciclos viciosos de retaliação mútua”. Ambos enfatizaram os termos “comunicação”, “estabilidade” e “cooperação”, contrastando com a retórica agressiva dos anos anteriores. No entanto, temas sensíveis como exportação de tecnologia, redes sociais, Taiwan e segurança regional foram apenas mencionados, sem avanços concretos.
Trégua Comercial, Não Solução Estrutural
O acordo representa, essencialmente, um retorno ao ponto anterior de estabilidade, sem configurar um avanço qualitativo. As divergências estruturais persistem, e a relação sino-americana pode deteriorar-se antes de melhorar. A estratégia de Trump parece consistir em criar o problema para, posteriormente, negociar sua resolução.
Iniciativa Estratégica Chinesa vs. Cálculo Político Norte-Americano
A China demonstrou maior iniciativa estratégica. Detendo cerca de 70% das reservas mundiais de terras raras e dominando a tecnologia de seu processamento, Pequim possui alavancas de negociação robustas. Trump, por outro lado, busca ganhos políticos imediatos — a redução de tarifas e o aumento das exportações agrícolas visam consolidar apoio nos estados rurais. A China, em contraste, adota uma visão de longo prazo: estabiliza o ambiente externo, reforça sua imagem internacional e prepara o terreno para ajustes internos.
As tarifas funcionam, para Trump, como instrumento de pressão. Sua lógica é provocar o impasse para, em seguida, negociar a solução.
Valor Simbólico Maior que Avanço Real
Os mercados globais reagiram com cautela, sinalizando que o encontro foi interpretado como gesto simbólico, não como virada estrutural. Analistas chineses consideram que se inicia uma nova fase de “competição em pé de igualdade” — uma rivalidade G2, em que ambos reconhecem a importância do outro, sem renunciar à disputa estratégica.
A trégua tarifária e a retomada das compras agrícolas geram benefícios imediatos: para os EUA, aliviam a pressão sobre o setor agrícola e oferecem ganhos políticos; para a China, reduzem o impacto nas exportações e ajudam a estabilizar o emprego e o consumo. Contudo, trata-se de uma medida paliativa. A competição industrial e tecnológica prossegue, e os desequilíbrios estruturais permanecem. Como afirmam os economistas, “esta trégua oferece um suspiro, mas não uma cura”.
A questão dos microchips e da exportação de tecnologias sensíveis foi mencionada, mas não houve acordo concreto. Washington mantém controle rigoroso sobre exportações tecnológicas, enquanto Pequim investe em autossuficiência. A suspensão temporária das restrições às exportações de terras raras é uma pausa estratégica — caso o contexto geopolítico se altere, a China poderá reativar tais medidas, com impacto direto sobre a indústria norte-americana e seus aliados.
Geopolítica e Narrativas Globais
O encontro simboliza tanto uma tentativa de reduzir tensões quanto uma nova etapa da competição estratégica. Para países terceiros — como Coreia do Sul, Japão e nações do Sudeste Asiático — a mensagem é clara: a rivalidade permanece, embora momentaneamente sob controle.
Xi Jinping defendeu uma “globalização inclusiva”, voltada para o Sul Global. Segundo o jornal espanhol El País, essa narrativa busca posicionar a China como alternativa à ordem liberal liderada pelos EUA, reforçando a tendência de multipolaridade. Trump encara a diplomacia como transação: cada acordo deve gerar benefícios tangíveis. Xi, por sua vez, atua com lógica de Estado — reforçando a imagem da China como potência racional, responsável e confiante.
Contradições Estruturais Persistem
Apesar do tom amistoso, as contradições fundamentais da relação sino-americana permanecem:
Tecnologia: os EUA temem a ascensão científica chinesa; a China considera a inovação autônoma uma questão de segurança nacional.
Cadeias de abastecimento: Washington busca “reduzir riscos”; Pequim acelera a substituição de importações.
Governança global: os EUA defendem a ordem liberal tradicional; a China propõe um modelo mais plural e inclusivo.
Questões regionais: Taiwan, Mar do Sul da China e segurança no Indo-Pacífico continuam como focos de tensão.
Perspectivas Futuras
Curto Prazo: Nos próximos 12 meses, ambos deverão priorizar a estabilidade e o diálogo. A China aproveitará a trégua para reforçar sua base tecnológica e industrial, enquanto os EUA buscarão evitar choques externos antes das eleições intercalares.
Médio Prazo: Se as medidas temporárias forem institucionalizadas — por meio de acordos sobre comércio agrícola, exportação de recursos estratégicos e normas tecnológicas — poderá emergir uma relação de competição controlada. Contudo, fatores como polarização política nos EUA ou desaceleração econômica na China podem comprometer esse processo.
Longo Prazo: Especialistas projetam três cenários possíveis:
Cooperação limitada: competição contínua com áreas de coordenação estável;
Retorno da confrontação: reativação de tensões por crises regionais ou políticas internas;
Transformação estrutural: redefinição da ordem global com nova divisão de poder e papéis complementares.
O cenário mais provável é o primeiro — uma coexistência competitiva, marcada por rivalidade estratégica, mas gerida por canais diplomáticos permanentes.
Impactos sobre Terceiros e a Economia Global
Estados Unidos: Estados agrícolas e setores exportadores serão beneficiados a curto prazo. Contudo, os desafios industriais e tecnológicos persistem.
China: A reunião reforça a imagem da China como potência estável e dialogante, oferecendo alívio à sua economia e restaurando a confiança dos mercados.
Economia Global: O sinal de distensão contribui para estabilizar as cadeias de suprimentos, especialmente nos setores de alta tecnologia e energia. Ainda assim, países intermediários continuarão vulneráveis às oscilações da rivalidade sino-americana.
Conclusão: O encontro entre Xi Jinping e Donald Trump em Busan representa um marco relevante, mas não uma inflexão definitiva. Trata-se de um gesto de moderação estratégica — cada parte buscou ganhos específicos e evitou o agravamento das tensões. As divergências estruturais — tecnológicas, econômicas e ideológicas — continuam a moldar o pano de fundo da relação. Ainda assim, o restabelecimento do diálogo de alto nível constitui, por si só, um progresso institucional significativo.
Num mundo marcado por crescente incerteza, o futuro das relações sino-americanas dependerá da capacidade de ambos os países de converter uma rivalidade inevitável em uma cooperação estrategicamente gerida. A chamada “trégua de Busan” pode não resolver as contradições profundas, mas inaugura um novo capítulo — mais cauteloso, mais pragmático e, possivelmente, mais amadurecido.
A estabilização do desenvolvimento económico da China e dos Estados Unidos tem potencial para impulsionar significativamente a economia global. Por outro lado, uma nova escalada de tensões entre essas duas potências teria efeitos negativos profundos sobre o sistema internacional. Como diz o provérbio africano: _“Quando dois elefantes lutam, quem sofre é o capim.”_
Uma parceria económica instável entre China e Estados Unidos representa um risco sistémico para o mundo inteiro. No entanto, o progresso e a revitalização da China não são incompatíveis com o objetivo declarado do Presidente Trump de “tornar a América grande outra vez”. Pelo contrário, há espaço para êxito mútuo e prosperidade compartilhada.
China e Estados Unidos devem ser parceiros e não adversários — esta é uma lição que a história ensina e uma exigência imposta pela realidade contemporânea. A China manifesta plena disposição para continuar a trabalhar com o Presidente Trump na construção de uma base sólida para as relações bilaterais, promovendo um ambiente propício ao desenvolvimento sustentável de ambas as nações.
https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2025/11/xi-donald.jpg7201280CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2025-11-04 08:00:002025-11-02 10:24:25EUA: Para resolver um problema, primeiro crie um!
O Fórum Global Gateway realizado em Bruxelas em outubro de 2025 reafirmou o posicionamento da União Europeia (UE) como ator geoeconómico estratégico na África Austral. No centro das atenções esteve o Corredor do Lobito — a infraestrutura ferroviária que liga o porto angolano de Lobito às regiões mineiras da República Democrática do Congo (RDC) e da Zâmbia. Apresentado pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, como um dos projetos mais ambiciosos do programa europeu, o corredor é descrito como uma alavanca para garantir o acesso a minerais críticos, promover o processamento local e estimular cadeias de valor regionais (CEDESA, 2024a; European Commission, 2025).
Ambiguidade Estrutural e Engenharia Financeira
Apesar da retórica otimista, os diálogos entre especialistas e diplomatas revelam uma ambiguidade estrutural no funcionamento do Global Gateway. Ao contrário do que muitos pressupõem, o programa não constitui um mecanismo de financiamento direto e integral. Trata-se, antes, de uma plataforma de articulação entre fundos públicos, empréstimos concessionais e investimentos privados. A UE tem privilegiado o financiamento de estudos técnicos, estruturação de transações e apoio institucional, enquanto a construção física das infraestruturas depende de montagens financeiras complexas — envolvendo o Banco Europeu de Investimento (BEI), bancos comerciais e operadores como Trafigura e Mota-Engil (CEDESA, 2024a; AfDB, 2024).
A tendência de agrupar sob o rótulo “Global Gateway” iniciativas díspares, anteriores ou paralelas, levanta questões sobre transparência, coordenação e rastreabilidade dos compromissos. A ausência de um quadro consolidado que permita distinguir entre promessas políticas, investimentos efetivos e financiamentos condicionados dificulta a avaliação do impacto real do programa. A fragmentação das fontes — entre UE, EUA, operadores privados e instituições multilaterais — exige uma abordagem mais integrada e transparente, capaz de alinhar interesses estratégicos com desenvolvimento local e soberania africana sobre os seus recursos (Consilium, 2024).
O Envolvimento dos Estados Unidos: Retórica versus Realidade
A contribuição dos Estados Unidos, frequentemente citada como superior a cinco mil milhões de dólares, também merece escrutínio. Segundo fontes ligadas a uma empresa belga com conhecimento do projeto, os empréstimos americanos seguem condições de mercado, e grande parte dos investimentos efetivos provém de empresas privadas. A expectativa é que novos anúncios sejam feitos, mas permanece incerto o grau de comprometimento público versus privado, e o equilíbrio entre financiamento e execução (CEDESA, 2024b; RFI, 2025).
Este padrão de envolvimento revela uma lógica de exportação de capital e influência, onde o valor estratégico dos minerais africanos é mobilizado para justificar investimentos que também beneficiam indústrias ocidentais. A retórica de “parcerias equitativas” contrasta com a realidade de cadeias de valor ainda dominadas por centros de refinação fora do continente africano.
Angola como Plataforma Energética e Geopolítica
Paralelamente, o anúncio de um projeto energético de grande escala reforça a centralidade estratégica de Angola na arquitetura infraestrutural regional. A empresa americana Hydro-Link, subsidiária da Symbion Power, assinou um acordo preliminar com a RDC para construir uma linha de transmissão elétrica avaliada em 1,5 mil milhões de dólares, que partirá de centrais hidroelétricas angolanas rumo à região mineira de Kolwezi. Este traçado não apenas posiciona Angola como fornecedor energético regional, mas também como pivô logístico na integração dos mercados de minerais críticos da África Austral. O projeto visa fornecer 1.200 MW à zona com os maiores depósitos mundiais de cobre, cobalto, zinco, lítio e manganês, atualmente limitada por um défice energético superior a 1.500 MW (Mitrelli, 2025; Pumps Africa, 2025).
A escolha de Angola como ponto de origem da energia elétrica não é meramente técnica, mas revela uma aposta geoeconómica na estabilidade institucional e na capacidade instalada do país. Ao canalizar energia angolana para alimentar a mineração congolesa, o projeto reforça a interdependência regional e amplia o papel de Angola como plataforma de exportação de recursos energéticos e minerais. Além disso, a engenharia financeira do projeto — que combina financiamento da US Development Finance Corporation, garantias da US TDA e do Ex-Im Bank, e contratos com fornecedores americanos — inscreve Angola numa lógica de valorização estratégica dos seus ativos energéticos, com implicações diretas na sua posição negocial e na atração de investimentos estruturantes.
O projeto liderado pela Hydro-Link inscreve-se numa lógica de política externa americana que mobiliza aliados empresariais próximos de Donald Trump. O CEO da Symbion Power, Paul Hinks, tem histórico de colaboração com agências federais como a Millennium Challenge Corporation e o Ex-Im Bank, e é ativo em fóruns empresariais que promovem a presença americana em África. A possível assinatura do projeto durante a U.S.–Africa Business Summit em Luanda — organizada pelo Corporate Council on Africa, entidade com ligações históricas a administrações republicanas — reforça o alinhamento com a política “America First”, que privilegia contratos com fornecedores dos EUA e a exportação de capital estratégico (Business Insider Africa, 2025; African Business, 2025).
Também relevante é a participação do grupo Mitrelli, com forte implantação em Angola, liderado pelo israelita, Haim Taib, o que permite antecipar uma aliança entr o poder económico angolano (e político, uma vez que ambos estão ligados) e os interesses financeiros de possíveis aliados de Donald Trump.
Disputas de Valores e Narrativas Concorrentes
O Corredor do Lobito tornou-se um palco de disputas de valores e narrativas concorrentes. A UE promove uma abordagem centrada na sustentabilidade, inclusão e desenvolvimento local, enquanto os Estados Unidos enfatizam a segurança energética e a competitividade industrial. A China, embora menos visível neste projeto específico, continua a ser um ator dominante na mineração africana, com redes logísticas e industriais já consolidadas, pelo que dificilmente, o Corredor do Lobito poderá ser um sucesso sem a participação e colaboração chinesa.
Neste contexto, a retórica de “parcerias equitativas” deve ser confrontada com indicadores concretos de transferência de tecnologia, capacitação local e participação africana nas cadeias de valor. A ausência de centros de refinação no continente, por exemplo, perpetua uma dependência estrutural que limita os ganhos de valor agregado para os países produtores. A engenharia financeira sofisticada, embora necessária, não pode substituir compromissos claros com a soberania económica africana.
Rastreabilidade e Transparência: A necessidade de um Observatório Independente Africano para o Corredor do Lobito
Por fim, a questão da rastreabilidade dos compromissos permanece central. A falta de um inventário público e verificável dos projetos, montantes e beneficiários dificulta a avaliação do impacto real do Global Gateway e dos acordos bilaterais. A fragmentação das fontes — entre UE, EUA, operadores privados e instituições multilaterais — exige uma abordagem mais integrada e transparente (Consilium, 2024; European Commission, 2025).
A criação de um observatório independente, com participação africana, é fundamental para consolidar dados, monitorar compromissos e avaliar impactos. Tal iniciativa permite distinguir entre promessas políticas, investimentos efetivos e financiamentos condicionados, promovendo maior responsabilização e alinhamento com os objetivos de desenvolvimento sustentável, e evitando mais um projeto neocolonial de mero extrativismo acelerado.
Referências
AfDB. (2024). *Global Gateway: Comissão Europeia e Grupo Banco Africano de Desenvolvimento desbloqueiam novos financiamentos para projetos de infraestruturas em África*. https://afdb.africa-newsroom.com
African Business. (2025). *US firm to build $1.5bn Angola to DRC power line*. https://african.business
Business Insider Africa. (2025). *US firm to build $1.5B power line linking Angola, DRC*. https://africa.businessinsider.com
CEDESA. (2024a). *Corredor do Lobito: A nova geopolítica dos minerais críticos*. https://www.cedesa.pt
Consilium. (2024). *Global Gateway: Conselho aprova lista de projetos emblemáticos para 2025
[1] O texto conta com variados contributos dos participantes no II Fórum Angola-RDC realizado a 15 de setembro de 2025 no Club Prince Albert, em Bruxelas. Uma vez que se aplicam as regras Chatham House, apenas as ideias são divulgadas, mas não quem as adiantou.
https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2025/10/corredordolobito-351593.jpg9601600CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2025-10-20 08:00:002025-10-16 12:29:15O Corredor do Lobito: Retórica, Engenharia Financeira e Disputas de Valores
Angola encontra-se num momento particularmente turbulento. Na política, os sinais de instabilidade e incerteza abundam pela indefinição da sucessão de João Lourenço na liderança do MPLA e do país, e pela força renovada das oposições que se sentem a um passo de tomar o poder.
Na economia, há sinais mistos, apresentando-se a conjuntura pessimista, mas havendo a concretização de projetos infraestruturais de relevo, que procuram contrabalançar a negatividade conjuntural, e na ordem social, a sensação de anarquia e permanente descontentamento é a predominante.
Esta análise reporta-se ao aspeto económico que desde 2015 ensombra Angola, não tendo o governo de João Lourenço, no poder desde 2017, sido capaz de inverter uma trajetória de desconforto económico, apesar das várias iniciativas estruturantes tomadas e algum apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI), bem como da abertura ao mundo que promoveu.
2- O falhanço da política económico-financeira conjuntural
Angola está num tempo decisivo da sua trajetória económica, marcado por uma conjugação entre crescimento económico, tentativas de reformas estruturais e investimentos estratégicos que visavam transformar o país de forma sustentável e inclusiva, mas, também, com números desanimadores em termos de inflação, desemprego e índices de pobreza. A inflação em julho deste ano situava-se ainda nos 19, 48%, o desemprego em 28, 8% e o índice de pobreza monetária nos 40,6%[1].
Em 2024, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 4,4%, impulsionado por uma recuperação vigorosa da produção petrolífera — que voltou a ultrapassar os 1,2 milhões de barris por dia — e pela revitalização do setor não petrolífero, com destaque para a agricultura, construção civil e comércio. Esta dinâmica de diversificação, há muito ambicionada, pareceu ganhar corpo, refletindo-se na acumulação de reservas internacionais que atingiram 15,8 mil milhões de dólares, o valor mais elevado desde 2013, e num saldo positivo da balança corrente de 5,4% do PIB, reforçando a resiliência externa do país[2].
Contudo, o primeiro semestre de 2025 trouxe más notícias e interrompeu esta curta recuperação. A queda de cerca de 18% nas receitas petrolíferas, provocada por uma descida abrupta do preço do barril Brent para níveis abaixo dos 70 dólares, combinada com o aperto nas condições de financiamento externo — agravado pela subida das taxas de juro nos mercados internacionais — pressionaram fortemente as contas públicas, e fizeram reduzir as perspetivas de crescimento para uns meros 2.1%, número que não acompanha sequer o crescimento populacional (3,05%)[3], o que volta a demonstrar a excessiva dependência do petróleo, apesar das tentativas de diversificação.
O défice fiscal projetado para 2025 é de 2,8% do PIB, revertendo a tendência de equilíbrio observada em 2023. A inflação, embora em trajetória descendente, ainda se mantém acima dos 12%, exigindo prudência na condução da política monetária por parte do Banco Nacional de Angola (BNA), que manteve a taxa de juro de referência nos 17%[4].
O Fundo Monetário Internacional (FMI), na sua última missão ao país, reconheceu que a capacidade de reembolso da dívida externa angolana permanece adequada, mas alertou para riscos crescentes, sobretudo num cenário de persistente instabilidade nos preços do petróleo e dificuldades operacionais na produção. A dívida pública total ronda os 66% do PIB, com uma exposição significativa a credores multilaterais e bilaterais, incluindo a China, que detém cerca de 40% da dívida externa.
A fragilidade da economia e das finanças públicas é notória e tudo continua demasiado ligado ao preço do petróleo e ao serviço da dívida.
Apesar dos discursos políticos de reforma económica, o governo não conseguiu diversificar acentuadamente a economia, nem confrontou a questão da dívida chinesa, limitando-se a pagá-la com sacrifício do bem-estar do país.
A receita que o FMI apresenta não muda e não resolve nada. O Fundo continua a apostar na redução da despesa pública e critica o adiamento da reforma dos subsídios aos combustíveis para 2028 — uma medida que representa cerca de 2,5% do PIB em encargos anuais. Defende que esta reforma, embora politicamente sensível, é crucial para libertar espaço fiscal e deverá ser acompanhada por mecanismos robustos de proteção social, como o reforço do programa Kwenda, que já abrange mais de 1 milhão de famílias em situação de vulnerabilidade.
Por fim, o FMI sublinha a importância de políticas cambiais flexíveis, com o câmbio a funcionar como amortecedor de choques externos. A política monetária deve manter-se cautelosa para sustentar a desinflação, enquanto a supervisão dos riscos sistémicos e o fortalecimento do quadro de estabilidade financeira são essenciais para garantir a solidez do sistema bancário, que apresenta uma taxa de crédito malparado inferior a 10%, abaixo da média regional[5].
Na verdade, estas receitas estão a ser tentadas com a supervisão do FMI desde 2019, e sem sucesso. A despesa pública real não é controlada devido aos mecanismos constitucionais e legais que permitem ao Presidente da República a decisão quase absoluta sobre os gastos públicos, tornando impossível uma efetiva racionalização da despesa do estado sem provocar embates com a figura presidencial. Portanto, a realidade é que a despesa pública continua descontrolada e dependente duma “canetada” do Presidente.
A dívida externa, onde a China representava um peso enorme, não foi renegociada, mas paga. Pode parecer uma opção sensata, mas não o é, atendendo ao custo de oportunidade enorme para um país com índices de pobreza e desemprego enormes. Primeiro, devia-se tratar o do emprego e do povo e só depois da dívida.
A completa flexibilização do câmbio do Kwanza foi desastrosa, levando à extinção da classe média e da quase totalidade do poder de compra dos angolanos, num país dependente de importações. Só os muito ricos sobreviveram com conforto[6].
Ao mesmo tempo, não foram criados mercados internos livres e eficientes, a burocracia e o clientelismo continuam a predominar, os tribunais são vistos como lentos e não necessariamente justos e nota-se uma grande falta de espírito empresarial em Angola.
Estes são os aspectos negativos, aqueles que poderemos chamar de política económica e financeira, e que clamam urgentemente por mudanças.
3-As realizações das políticas estruturantes
Há uma outra face a considerar, e que tem resultados positivos, e, espera-se, iguais consequências favoráveis; podemos chamá-la de políticas estruturantes. São temas essencialmente de médio e longo-prazo, cujos efeitos ainda não se sentem, mas permitem alguma esperança, acerca dos quais se dará de seguida, alguns exemplos avulsos, mas abrangentes.
No plano energético, Angola deu um passo histórico com a inauguração da Refinaria de Cabinda, um investimento multimilionário que marca uma viragem na capacidade de refinação nacional. Com uma produção inicial de 30 mil barris por dia e previsão de duplicação até 2026, esta infraestrutura reduz significativamente a dependência de combustíveis importados, que em 2023 representavam cerca de 80% do consumo interno[7].
Paralelamente, a exploração de novos blocos petrolíferos, como o Ndungu Early Production pela ENI, com uma produção estimada de 20 mil barris por dia, e o projeto Begónia da TotalEnergies, com início previsto para o segundo semestre de 2025, reforçam a confiança no potencial energético do país. As campanhas sísmicas da ExxonMobil na Bacia do Namibe, com investimentos superiores a 200 milhões de dólares, apontam para novas descobertas que poderão alterar o mapa energético nacional nos próximos anos[8].
No setor mineiro, Angola alcançou um feito notável ao concorrer com o Botswana como maior produtor de diamantes da África Austral, com uma produção anual superior a 10 milhões de quilates. As operações nas minas de Lulo e Catoca, bem como as novas concessões em Tchitengo e Luaxe, estão a dinamizar o setor. As negociações em curso com a De Beers, com vista ao Estado angolano tomar uma participação na companhia, visam consolidar a presença angolana no mercado global e garantir maior valorização dos seus recursos naturais, através de parcerias estratégicas e transferência de tecnologia[9].
A nível financeiro, a privatização parcial do Banco de Fomento Angola (BFA), através da maior Oferta Pública Inicial (IPO) da história da Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA), representa um marco na abertura do mercado de capitais. Com uma valorização superior a 300 milhões de dólares, esta operação pode atrair investidores nacionais e estrangeiros, sinalizando confiança no sistema financeiro angolano[10].
No setor da saúde, nos últimos oito anos, Angola deu um pulo enorme em termos de saúde, resultante de enormes e visíveis investimentos. A mortalidade infantil caiu de 44 para 32 por 1.000 nados-vivos, a mortalidade de menores de cinco anos passou de 68 para 52 por 1.000 nados-vivos e a mortalidade materna de 239 para 170 por 100.000 nados-vivos.
A expansão do sistema de saúde foi visível. O Serviço Nacional de Saúde aumentou de 2.612 unidades sanitárias em 2017 para 5.958 em 2024, das quais 15 novos hospitais do nível terciário e centros ortopédicos reabilitados, dando prioridade aos cuidados de saúde primários com mais de 50% das novas unidades. O país aumentou em 46,1% a força de trabalho em saúde desde 2017 e iniciou um amplo projeto de especialização que visa formar até 2028 cerca de 38 mil quadros do setor, entre médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, com prioridade para a medicina geral e familiar, visando acelerar progressos no alcance da Cobertura Universal da Saúde. Igualmente, nos últimos oito anos, foram instalados 538 monitores de hemodiálise em 12 províncias, mais 20.224 camas hospitalares perfazendo hoje um total de 44.222 camas em todo o país, acrescentou-se 1409 camas nas UTI perfazendo hoje um total de 1609 camas em UTI, em todo o território nacional.
As inaugurações de hospitais modernos, por exemplo, em Cabinda, Cazenga e Viana, com capacidade combinada para mais de 1.200 camas e serviços especializados em pediatria, obstetrícia e cirurgia, reforçaram a capacidade do sistema nacional, além de muitos outros.[11]
Não quer dizer que não persista um sistema dual, em que as camadas dirigentes continuam a não confiar nos hospitais angolanos e prefiram ir para o estrangeiro, e que nos mesmos hospitais angolanos persistam as queixas de falta de material, de recursos humanos e de manutenção. No entanto, as infraestruturas aí estão, faltando a capacidade de organização e gestão, uma das falhas mais significativas da cultura da administração pública angolana.
Na educação, Angola apostou na formação superior com a criação de novas universidades e institutos, designadamente a Universidade Rainha Njinga Mbande e o Instituto Politécnico de Cacuaco. A expansão da Universidade Katyavala Bwila e a instalação de centros técnicos e laboratórios visam preparar os jovens para os desafios da inovação e da diversificação económica.[12]
Também na educação as lacunas ainda são grandes e o problema da gestão das organizações e da excessiva centralização das decisões aliadas à incompetência e nepotismo existe. Tal como na saúde, os passos de escala são evidentes, falta a capacidade de gestão e atenção ao detalhe.
Em termos de infraestrutura, o país investe na reabilitação de mais de 2.000 km de estradas, construção de pontes estratégicas como a de Cazombo sobre o rio Zambeze, e expansão das redes de água e energia, com destaque para o projeto de eletrificação rural que já beneficiou mais de 500 mil habitantes. Em Luanda, as obras de requalificação urbana em zonas como Sambizanga e Cazenga têm impacto direto na qualidade de vida das populações, com melhorias no saneamento, iluminação pública e espaços verdes.
O Corredor do Lobito, que liga Angola à República Democrática do Congo e à Zâmbia, pode ser um exemplo de integração regional e promoção do comércio transfronteiriço, com potencial para movimentar mais de 1 milhão de toneladas de carga por ano.
4-A extrema relevância simbólica da privatização da Sonangol
A inclusão da Sonangol no Programa de Privatizações (Propriv), com uma primeira tranche prevista para 2026, poderá trazer maior eficiência e transparência à gestão dos recursos petrolíferos, promovendo uma cultura empresarial mais competitiva.
Temos franca esperança no efeito simbólico desta privatização.
A privatização de 30% da Sonangol representa um marco estratégico para a economia angolana, simbolizando a transição para um modelo mais competitivo, transparente e orientado para o mercado. Ao abrir parte do capital da maior empresa pública do país, Angola sinaliza ao mundo o seu compromisso com a modernização da gestão dos recursos petrolíferos e com a criação de um ambiente económico mais dinâmico. Esta operação, inserida no Programa de Privatizações (PROPRIV), tem o potencial de atrair investidores nacionais e estrangeiros, trazendo não apenas capital, mas também conhecimento técnico, inovação e acesso a redes globais. A entrada de novos acionistas impõe padrões mais exigentes de governança corporativa, promovendo melhores práticas de gestão, maior eficiência operacional e prestação de contas.
Além disso, a Sonangol torna-se um farol do desenvolvimento económico, ao demonstrar que é possível transformar uma empresa estatal num agente competitivo e alinhado com os desafios da transição energética e da diversificação económica. Esta privatização não é apenas uma operação financeira — será um símbolo de confiança no futuro de Angola, na capacidade das suas instituições e na abertura do país ao investimento e à cooperação internacional.
***
Estas são algumas das políticas estruturantes em curso, que a seu tempo, e se forem bem conduzidas, poderão paulatinamente retirar Angola do sufoco económico em que se encontra, que as políticas do FMI e da equipa económico-financeira do executivo não têm conseguido resolver.
5-O futuro depende da estabilização social e da boa governação
A estabilização social é, talvez, o maior desafio transversal. O desemprego juvenil continua elevado, rondando os 32%, o que exige políticas mais eficazes de integração no mercado de trabalho. Os investimentos em infraestruturas, energia, mineração e educação têm potencial para gerar milhares de postos de trabalho, mas é necessário garantir que esses empregos sejam sustentáveis e distribuídos de forma equitativa.
Sem coesão social e boa governação, qualquer avanço económico permanece vulnerável e instável. Para que Angola construa uma economia verdadeiramente diversificada, resiliente e inclusiva, é essencial ir além dos indicadores macroeconómicos e garantir que todos os cidadãos tenham acesso equitativo à educação, à habitação, à água potável e à energia. No centro desta transformação está a necessidade de uma boa governação — uma governação tecnicamente competente, não clientelar, aberta à inovação e ao escrutínio público, e capaz de servir o povo com transparência e responsabilidade. O progresso sustentável não pode nascer de sistemas autoritários, fechados, moldados por interesses partidários ou familiares. Pelo contrário, exige instituições sólidas, lideranças corajosas e uma visão estratégica que coloque o cidadão no centro das decisões. O futuro de Angola dependerá da capacidade de romper com velhos vícios, enfrentar os desafios com realismo e determinação, e cultivar uma cultura política que valorize o mérito, a participação democrática e a justiça social. Só assim será possível consolidar os alicerces de um desenvolvimento duradouro e verdadeiramente transformador.
[9] Gira Notícias. (2025, janeiro 1). Produção de diamantes superior ao comercializado. https://www.giranoticias.com/economia/2025/01/21691-producao-de-diamantes-superior-ao-comercializado.html
O CEDESA não pretende aprovar nem desaprovar as opiniões expressas neste texto. Essas opiniões devem ser consideradas como pertencentes ao autor.
Angola aderiu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em 1989. Desde essa data seguiram-se vários programas de apoio ao país, manifestados de formas diferentes. O traço comum é que todos redundaram num falhanço e não ajudaram ao desenvolvimento sustentado de Angola.
A questão não é que o FMI não tenha excelentes técnicos, plenos de boa-vontade e consciência dos problemas. Trata-se dum problema técnico-metodológico simples. O paradigma que o FMI segue para as suas intervenções não tem nada a ver com África. Parte de modelos teóricos de funcionamento duma economia de mercado avançada no Ocidente que não tem em conta a história, o contexto institucional, o conhecimento das comunidades locais e todo o enquadramento sociopolítico de África. Erradamente, o FMI parte de hipóteses elaboradas para uma economia europeia e não para o Sul periférico, e o que vai testar são respostas comportamentais a intervenções pré-definidas que nada têm a ver com a realidade local concreta[1]. Esta falha técnico-metodológica está na base do insucesso do FMI em África.
AS INTERVENÇÕES DO FMI EM ANGOLA DURANTE OS ANOS 1990
A parir da década de 1990, Angola manteve uma relação conturbada e ambivalente com o FMI. Na altura, o país encontrava-se mergulhado numa prolongada guerra civil e numa transição económica hesitante, fatores que dificultaram a implementação de políticas de ajustamento estrutural sugeridas pelo FMI.
Ao longo dos anos 90, foram realizados vários Programas de Monitorização (Staff-Monitored Programs), que não envolviam desembolso financeiro, mas procuravam avaliar a capacidade do governo angolano em aplicar reformas económicas fundamentais. No entanto, esses programas revelaram-se de eficácia limitada, refletindo falhas institucionais, resistência política e falta de compromisso com as exigências técnicas do FMI, ao mesmo tempo a incapacidade do próprio FMI de se inserir nas dinâmicas próprias de Angola. Essencialmente, esta medidas foram um diálogo de surdos[2]. Como Ennes Ferreira escreveu em 2005: A história das relações entre o Governo Angolano e o FMI tem sido, desde então, um “remake” sucessivo de acusações e contra-acusações sem quaisquer resultados práticos em termos da assinatura de um programa de estabilização e ajustamento[3]”
O FMI propôs medidas que incluíam a privatização de empresas estatais, cortes na despesa pública e liberalizações cambial e comercial — propostas que encontraram forte oposição por parte das autoridades angolanas, receosas de perder controlo político e económico num contexto de instabilidade interna.
A recusa em aceitar essas condicionalidades levou a crises sucessivas nas negociações com o FMI. Como relata um académico houve uma permanente “crise nas relações que estavam a ser estabelecidas entre o Governo Angolano e o FMI para um acordo monitorado[4]”. O país não conseguia cumprir os critérios exigidos para desbloquear financiamentos, o que o colocava numa posição de isolamento técnico e financeiro relativamente à comunidade internacional. A ajuda pública ao desenvolvimento (APD) foi parcialmente suspensa e, embora o FMI mantivesse o seu papel consultivo, o impacto dos programas foi superficial.
Na época, FMI atuou como um mero técnico aplicador de um modelo desfasado da realidade angolana, e não como um catalisador de reformas profundas. Nas suas análises técnicas, falhava por desconsiderar a realidade institucional do país, marcada por baixa capacidade administrativa, forte intervenção estatal e níveis elevados de corrupção[5]. Nem sequer as estatísticas eram fiáveis, sendo impossível construir modelos econométricos realistas e adequados, por isso, uma boa parte das análises do FMI não passavam de obras de ficção.
Assim, entre 1989 e 2008, especialmente durante os anos 1990, as relações entre Angola e o FMI foram marcadas por aproximações frustradas e tentativas falhadas de alinhamento. Estas iniciativas revelaram as limitações de aplicar modelos de ajustamento económico convencionais, como os preparados pelo FMI, em contextos de fragilidade institucional e conflito armado.
Só após o fim da guerra civil e diante de crises económicas mais acentuadas, como a queda dos preços do petróleo em 2008, Angola começaria a abrir-se a acordos de financiamento direto — iniciando uma nova fase de relação com o FMI.
A INTERVENÇÃO DE 2009
A intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Angola em 2009, através de um acordo Stand-By, surgiu como resposta à crise económica provocada pela queda abrupta do preço do petróleo nos mercados internacionais. O país, altamente dependente das receitas petrolíferas, enfrentava desequilíbrios macroeconómicos severos, incluindo défices orçamentais, perda de reservas internacionais e dificuldades cambiais. O acordo, no valor de 1,4 mil milhões de dólares, tinha como objetivos restaurar a estabilidade macroeconómica, reforçar a credibilidade externa e promover reformas estruturais nas finanças públicas, no sistema cambial e na gestão da dívida[6].
Inicialmente, o programa foi bem recebido. O governo angolano comprometeu-se com medidas de austeridade, maior transparência fiscal e auditorias externas às principais instituições financeiras, como o Ministério das Finanças, o Banco Nacional de Angola e a Sonangol. O FMI chegou a reconhecer progressos, como a redução da inflação e o aumento das reservas internacionais líquidas. No entanto, apesar dos avanços técnicos, o acordo não produziu os resultados esperados a médio prazo.
Uma das principais razões para o insucesso foi a falta de disciplina orçamental e a persistência de práticas opacas na gestão das receitas petrolíferas. A Sonangol, por exemplo, continuou a realizar despesas em nome do Estado sem justificação clara, o que comprometia a credibilidade das contas públicas. Além disso, o investimento público não foi canalizado para diversificar a economia, mantendo Angola vulnerável aos choques externos. A ausência de políticas eficazes para substituir importações por produção interna impediu a criação de uma base económica sólida e resiliente.
Outro fator crítico foi o regresso aos hábitos antigos após o alívio da crise. O regime de José Eduardo dos Santos, em vez de consolidar as reformas, retomou práticas de saque dos cofres públicos e favorecimento de elites políticas e militares[7].
O FMI, por sua vez, falhou na monitorização rigorosa do processo, permitindo que o acordo servisse mais como um mecanismo de sobrevivência política do regime do que como um verdadeiro catalisador de transformação económica. E mais uma vez aplicou uma cartilha que pouco tinha de real em relação à economia angolana, não abordando as questões essenciais, como a dependência do petróleo, o deep state construído à volta da Sonangol, a fragilidade das instituições, a inexistência de efetivos mercados livres, a falta de fiabilidade estatística. O mundo refletido nos relatórios técnicos do FMI nunca é o mundo da economia real angolana.
Em suma, embora o acordo Stand-By de 2009 tenha oferecido uma oportunidade concreta para reformar a economia angolana, a combinação de falta de vontade política, gestão ineficiente, e monitorização insuficiente por parte do FMI acabou por minar os seus objetivos. O país voltou a enfrentar dificuldades semelhantes anos depois, revelando que sem reformas estruturais profundas e compromisso político genuíno, os programas de assistência financeira têm impacto limitado.
O FMI EM ANGOLA COM JOÃO LOURENÇO
A intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Angola em 2021 marcou o encerramento do Programa de Financiamento Ampliado (EFF), iniciado em 2018 com um pacote total de 4,5 mil milhões de dólares. Embora o programa tenha sido elogiado pelo FMI por promover maior disciplina fiscal, estabilização cambial e avanços na governação económica, os problemas estruturais que há décadas limitam o desenvolvimento do país permaneceram essencialmente intactos, após o encerramento do programa.
Durante o período do programa, Angola conseguiu reduzir significativamente o rácio da dívida pública em relação ao PIB, beneficiando da subida dos preços do petróleo e de uma política orçamental mais prudente. Contudo, a dívida continuou uma ameaça, pois o mesmo FMI aconselhou uma imediata liberalização do câmbio que teve como resultado a desvalorização em flecha do mesmo face ao dólar e por isso, o posterior aumento nominal dos rácios da dívida pública. No combate à inflação, o mesmo aconteceu, as medidas restritivas do Banco Nacional de Angola, foram muito inconstantes e perturbadas pela mesma flexibilização cambial. Muitas das reformas no setor financeiro, incluindo a recapitalização de bancos públicos e a modernização do quadro regulatório, não saíram do quadro legal. As melhorias técnicas não se traduziram numa transformação estrutural da economia. Os velhos problemas: excessiva dependência do preço do petróleo, estado disfuncional, mercados frágeis, instituições inoperantes, medo do risco empresarial, continuam a assoberbar a economia angolana. Na verdade, a dependência excessiva do petróleo manteve-se como o principal obstáculo. Apesar dos esforços para diversificar a economia, o setor não petrolífero continuou frágil e pouco competitivo. A produção interna não substituiu as importações, e o investimento privado permaneceu tímido, em parte devido à insegurança jurídica, à burocracia e à corrupção persistente. O FMI reconheceu que, sem reformas mais profundas, Angola continuaria vulnerável a choques externos e com crescimento limitado.
Além disso, o impacto social das medidas de austeridade foi significativo. A eliminação gradual dos subsídios aos combustíveis e o aumento de tarifas públicas, como água e eletricidade, geraram contestação popular e agravaram as dificuldades das famílias mais pobres. Analistas alertaram que o programa, embora tecnicamente bem-sucedido, falhou em promover inclusão social e desenvolvimento sustentável, servindo mais como mecanismo de estabilização do que como motor de transformação económica[8].
Em suma, a intervenção do FMI em 2021 ajudou Angola a evitar uma crise financeira imediata, mas não resolveu os problemas estruturais que impedem o país de alcançar um crescimento inclusivo e resiliente. A falta de diversificação, a fragilidade institucional e a ausência de uma estratégia clara para combater a pobreza e a desigualdade continuam a limitar o potencial económico angolano.
Exemplo claro dos erros presentes do FMI é a insistência na retirada dos subsídios aos combustíveis. Tal medida parece ter uma racionalidade financeira de poupança da despesa pública. Muitos economistas a apoiam. Contudo, a realidade é que piora significativamente o padrão de vida do povo, que já é frágil, tem consequências inflacionistas em cascata, e não tem muito sentido, quando o mercado de distribuição dos combustíveis não funciona em concorrência, mas tem uma estrutura de domínio oligopolista. E ao mesmo tempo, o Estado mantém gastos de funcionamento promovidos pelas elites do regime que são insustentáveis e absurdos[9]. Isto cria desequilíbrios fundamentais no sistema político-económico angolano de que o FMI não se apercebe ou não quer perceber.
CONCLUSÕES
O insucesso dos programas do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Angola tem raízes profundas que vão além de questões meramente económicas — envolvem dimensões históricas, políticas, epistemológicas e institucionais. Ao longo das últimas décadas, os programas do FMI foram concebidos com base em modelos macroeconómicos padronizados, centrados na estabilidade fiscal e na liberalização dos mercados, frequentemente ignorando os contextos singulares das economias africanas. Essa abordagem universalista, aplicada a países marcados por uma história de colonização, exploração e fragilidade institucional, revela-se não só inadequada, mas contraproducente em muitos casos.
A imposição de medidas de austeridade como condição para financiamento externo tornou-se uma constante. O governo é instado a cortar gastos públicos, reduzir subsídios e privatizar empresas estatais, numa lógica de contenção orçamental que privilegia números e desvaloriza o impacto social. O resultado é, muitas vezes, o agravamento das desigualdades, o colapso de serviços essenciais como saúde e educação, e a paralisação de investimentos em infraestruturas. Em Angola tais medidas resultaram numa contração económica que perpetua a dependência externa e mina os esforços de diversificação produtiva.
Além disso, o FMI falha ao subestimar a complexidade das instituições africanas. A ausência de capacidades administrativas, a prevalência de corrupção sistémica e a captura do Estado por elites políticas são frequentemente ignoradas ou negligenciadas nos diagnósticos institucionais. A própria escolha dos interlocutores locais reforça estruturas de poder que resistem à reforma, e em alguns casos, como se viu em Angola em 2009, os acordos do FMI acabaram por legitimar regimes autoritários sem exigir transformações profundas em matéria de governação e transparência.
Outro fator recorrente é a espiral de endividamento. Muitos países africanos recorrem ao FMI para refinanciar dívidas anteriores, sem resolver os problemas estruturais que causaram o endividamento inicial. A dependência de exportações de matérias-primas, a fraca industrialização e a volatilidade dos preços internacionais tornam as economias africanas vulneráveis a choques externos, enquanto os programas do FMI raramente incorporam estratégias de desenvolvimento económico de longo prazo.
Como se escreveu anteriormente: “O problema do modelo do FMI não está na teoria. O problema do modelo do FMI está na realidade. Angola não é uma economia livre de mercado. Angola é uma economia oligopolista subdesenvolvida com forte intervenção estatal, com uma enorme pobreza e uma distorção estrutural introduzida pela corrupção. Consequentemente, não se pode aplicar o modelo simples da oferta e da procura de mercado antes de reformar profundamente a economia. Isto quer dizer o seguinte: primeiro, tem de se criar uma economia livre e competitiva em Angola; só depois podem ser aplicadas as chamadas políticas de estabilização macroeconómica propostas pelo FMI (que se resumem a aumentos e despedimentos).
Assim, o apoio do FMI, do Banco Mundial ou de qualquer outra instituição deve ser utilizado para criar uma nova economia, não para aplicar receitas de um modelo a outro modelo completamente diferente. Utilizando uma metáfora médica, estas políticas do FMI para Angola são como cortar a perna a um doente que precisa de um coração novo. O que tem de ser estudado e implementado é um movimento de transição da economia do modelo oligárquico fechado que temos agora para o modelo liberal de mercado.[10]”
[1] Para maiores desenvolvimentos ver Devida Dutt, Carolina Alves, Surbhi Kesar e Ingrid Kvangraven, Decolonizing Economics, Polity, 2025, p. 97 e ss.
[2] Cfr. José Alberto Mafo, As medidas de reformas estruturais em Angola no âmbito
https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2025/07/fmi-angola.jpg480840CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2025-07-12 07:58:002025-07-11 19:30:45FMI em Angola: uma história de falhanços
O IV Congresso Internacional de Angolanística foi um sucesso académico com mais de 30 Comunicações de estudiosos de Angola provenientes de todo o mundo. É um certame único neste âmbito de reunião transversal e plural daqueles que investigam cientificamente Angola.
As Comunicações foram extremamente variadas e estimulantes, desde questões constitucionais e de desenvolvimento até ao uso do TikTok nas línguas nacionais angolanas. Esta diversidade de temas e de abordagens deve ser entendia como um contributo para a competição de ideias livre, que é a génese do desenvolvimento de um país.
O IV Congresso Internacional de Angolanística é um espaço vital para a promoção da pluralidade de ideias e a convivência respeitosa entre perspetivas diversas.
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A possibilidade de discutir temas relevantes sobre a história, a cultura e o futuro de Angola num ambiente livre de intimidações incentiva a construção de uma sociedade mais justa e democrática. Aqui, o conhecimento não se impõe, partilha-se; e é exatamente essa partilha que alimenta o progresso coletivo.
A concorrência de ideias distintas — não o domínio de uma só voz — é o motor do progresso. A imposição de diretivas únicas e a tentativa de uniformizar pensamentos apenas produz estagnação e ressentimento.
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https://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2025/06/21.webp12001600CEDESA-Editorhttps://www.cedesa.pt/wp-content/uploads/2020/01/logo-CEDESA-completo-W-curvas.svgCEDESA-Editor2025-06-20 10:59:412025-06-20 10:59:45IV Congresso Internacional de Angolanística
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