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The devaluation of Kwanza and inflation

Some studies by prestigious economic consultants have lately issued some reports on the Angolan economy that only report negative numbers and projections, without taking into account either the theoretical models on which some of the main economic policy decisions in Angola are based, or the actual reality of its economy.

One of the most intriguing cases is the permanent link between the rise in inflation and the devaluation of the Kwanza, presenting the two phenomena as cause and effect or effect and cause, as well as always giving a negative connotation to the term “devaluation”.

This article, which does not aim to make forecasts, which at this time of Covid-19 would be rash, offers alternative explanations behind the Kwanza`s devaluation, looking instead at the opportunity it offers foreign investors.

It is evident that the semi-rigid or controlled exchange rate regime that existed before the adoption of the flexible exchange rate last year, was partly responsible for the crash in the Angolan economy.
In fact, pegging the Angolan currency at a high value in view of market conditions, caused unrestrained consumerism while domestic production was allowed to decline, since international prices were artificially made more competitive.

It was the time when Luanda became the most expensive city in the world with the Angolan elite making flagrant shows of wealth. This situation did not correspond to domestic production or development, but rather excessive spending of foreign currency earned from high oil prices which bolstered the inadequate value of the Kwanza. This was unsustainable.

The prolonged recession since 2014 demanded an end to the artificial appreciation of the Kwanza and the introduction of a flexible exchange rate.

The model underlying the adoption of flexible exchange rates has clear goals. Since Milton Friedman’s seminal text in 1953[1] on flexible exchange rates, two arguments support this policy: first, free movements in exchange rates are an efficient way of adjusting international relative prices in response to macroeconomic shocks; second, with flexible exchange rates, policymakers are free to choose and follow their own inflation target, rather than depending on the inflation rate from abroad. This last factor should be emphasised. Milton Friedman stressed that exchange rates would help to insulate the domestic economy from external shocks and would give national political authorities the ability to meet domestic goals. Flexible exchange rates provide enough insulation to the domestic economy if the sources of the recessionary shock are abroad.

This means that with a flexible exchange rate, it is possible for the government / central bank to pursue an autonomous anti-inflationary policy on the external value of the currency.
In fact, the devaluation of the Kwanza could mean that the prices of international goods become excessively expensive for Angola, and spark that, contrary to what happened previously, being cheaper to produce goods in Angola. That would be the opportunity to invest in Angola`s agriculture and industry, at they will have a market and low production costs due to the devaluation.

With national goods becoming more competitive than corresponding foreign goods, this will boost national production and encourage exports.

And provided that the central bank does not pint excess money, national production should increase and inflation should decrease if internal policies are adequately followed.

This does not mean that the transition from an economy artificially anchored by a high-value Kwanza supported by rising oil prices to a competitive and productive economy is easy. Angola is currently in deep crisis, made worse by the Covid-19 pandemic, and luck, either bad or good, has to be considered.

However, the exchange rate easing policy is right and there is no need to be afraid of devaluation. This is making the economy more competitive overseas and encouraging the manufacture and production of goods to sell both internally and abroad. Success depends more on government policies; policies that are coherent and consistent.

That is why the figures being released on devaluation and inflation are, on the surface, frightening, but they will only have a negative impact if the government implements the wrong policies.

Otherwise, they are not, by themselves, of any relevance. It is known that the Kwanza was overvalued and that this has greatly affected the Angolan economy. It is known that combating inflation, with flexible rates, does not depend on the outside world, but on the right decisions by the government.

There is awareness that Angola is in deep economic crisis, but some real encouraging indicators are beginning to emerge. One of them is that “Angola disbursed, in the first quarter of the year, 495 million dollars (436.5 million euros) on importing food products, a decrease of 31% compared to the 717 million dollars (632.3 million euros) ) for the last quarter of 2019.[2]

The Angolan government attributed this evolution to a better organisation of its foreign exchange market and to an increase in the demand for national products. Official sources state: “We are verifying these two factors, we can say that we are on the right path, there is a demand for national production, there is a decrease in imports.” These facts seem to confirm the analysis we do. Obviously, in the end everything will depend on the right internal public policies.


[1] Friedman, M. (1953) “The Case for Flexible Exchange Rates.” In Essays in Positive Economics, 157–203. Chicago: University of Chicago Press.

[2] https://www.sapo.pt/noticias/economia/angola-importou-menos-31-de-alimentos-no_5f0f32adb34d505496f5eddd

INFLAÇÃO E DESVALORIZAÇÃO DO KWANZA

Resumo:
A flexibilização do câmbio do Kwanza (que está a implicar a sua desvalorização) é condição fundamental para relançar o tecido produtivo angolano e torná-lo competitivo, depois deste ter sido devastado pela política de valorização artificial da moeda. Ao mesmo tempo, autonomiza a política anti-inflação que se torna um elemento doméstico e não importado do exterior. Neste sentido, deve haver cautela com parangonas e análises internacionais que apenas se focam em números negativos do valor do kwanza e da inflação; e estabelecem correlações não necessariamente existentes.

Algumas análises de prestigiadas consultoras económicas têm, ultimamente, emitido alguns relatórios sobre a economia angolana que apenas reproduzem números e projeções negativas, não tomando em consideração nem os modelos teóricos em que assentam algumas das principais decisões de política económica em Angola, nem a realidade concreta da sua economia.

Um dos casos mais intrigantes é a ligação permanente que se faz entre a subida da inflação e a desvalorização do Kwanza, apresentando os dois fenómenos como causa e efeito ou efeito e causa, bem como atribuindo sempre uma carga negativa à expressão “desvalorização[1]”.

O presente texto, não sendo uma previsão, que neste momento de Covid-19 parece despiciendo fazer, tenta abrir outras pistas alternativas para o significado e para a análise da inflação e desvalorização do kwanza, apontando outras justificações e caminhos.

É evidente que o regime cambial semirrígido ou controlado existente antes da adoção do câmbio flexível no último ano, foi um dos responsáveis pela devastação económica angolana. De facto, ao manter-se a moeda angolana num valor elevado face às condições de mercado e não correspondendo ao que seria o resultado da oferta e da procura, estimularam-se as importações fáceis, o consumismo desenfreado e deixou-se declinar a produção interna, uma vez que os preços internacionais foram tornados mais competitivos artificialmente. É a altura em que Luanda se torna a cidade mais cara do mundo[2], e sinais exteriores de riqueza nas elites angolanas abundavam. Tal situação não correspondia a qualquer produção ou desenvolvimento interno, mas ao gasto excessivo de divisas obtidas com os preços elevados do petróleo para manter o valor desadequado do kwanza. Esta era uma situação impossível.


Obviamente, que a recessão prolongada desde 2014, exigia que se terminasse com a valorização artificial do kwanza e se introduzisse um câmbio flexível. Ainda ocorreram alguns anos até tal acontecer, e obviamente, a liberalização do kwanza tem trazido vários problemas graves económicos e sociais a curto-prazo e até mesmo algumas tensões inflacionistas acrescidas.

No entanto, o modelo subjacente à adoção de câmbios flexíveis tem objetivos opostos que se refletirão após um primeiro momento de desconcertoeconómico. Desde o texto seminal de Milton Friedman em 1953[3], sobre as taxas de câmbio flexíveis que dois argumentos sustentam essa política: primeiro, os movimentos livres das taxas de câmbio são uma maneira eficiente de ajustar os preços relativos internacionais em resposta a choques macroeconómicos; segundo, com taxas de câmbio flexíveis, os formuladores de políticas são livres para escolher e seguir sua própria meta de inflação, em vez de depender da taxa de inflação do exterior. Este último aspeto é fundamental ser sublinhado. Milton Friedman enfatizou que as taxas de câmbio, ajudariam a isolar a economia doméstica de choques externos e dariam às autoridades políticas nacionais a capacidade de satisfazer objetivos domésticos. Taxas de câmbio flexíveis fornecem bastante isolamento à economia doméstica se as fontes do choque recessivo estiverem no exterior.


Quer isto dizer que havendo uma taxa de câmbio flexível é possível que o governo/ banco central prossiga uma política anti-inflacionista autónoma do valor externo da moeda.

Na verdade, a desvalorização do kwanza poderá significar que os preços dos bens internacionais  tornam-se excessivamente caros para Angola, e provocar que, ao contrário do que se passava anteriormente, seja mais barato produzir bens em Angola.

Ficando os bens nacionais mais competitivos e substituindo por concorrência, e não por imposição administrativa ineficiente, os bens similares estrangeiros, tal implica que a produção nacional renasça e possa até se constituir como exportadora.

E desde que simultaneamente, o banco central não emita moeda em excesso, outra preocupação da teoria de Milton Friedman, o que a desvalorização cambial acaba por fomentar é o aumento da produção nacional e a redução da inflação, neste último caso se forem seguidas as políticas internas adequadas.

Temos aqui dois efeitos da flexibilização do câmbio:

  • Desvalorizar ou ter uma moeda com valor fraco não é algo de negativo em termos económicos. Pode ser uma questão de afirmação política, mas não é económica. Duas potências económicas mundiais como o Japão e Itália, alcançaram sucesso no pós Segunda Guerra Mundial adotando uma moeda fraca;
  • A flexibilização permite a diferenciação da política cambial do combate à inflação. O combate à inflação passa a depender do acerto das políticas internas. Não há uma ligação necessária entre uma coisa e outra.

Isto não quer dizer que o caminho de transição de uma economia sustentada artificialmente por um kwanza de valor elevado suportado por preços de petróleo em alta para uma economia competitiva e produtiva seja fácil. Está a haver um momento de crise profunda, mais acentuado pela pandemia Covid-19, além de que há sempre um fator sorte a considerar. E sorte não tem havido para Angola, em termos económicos.

Contudo, a política de flexibilização cambial está certa e não há que ter medo da desvalorização. Esta está a tornar a economia mais competitiva face ao exterior e a obrigar à busca de soluções internas. O sucesso passa a depender mais das políticas do governo. É na definição coerente e consistente da política económica do governo que está agora o segredo.

É por isso que os números que estão a ser lançados sobre desvalorização e inflação assustam superficialmente, mas só terão impacto negativo se forem causadores da implementação de políticas erradas por parte do governo. Caso contrário, não têm, por si mesmo, qualquer relevo. É sabido que o Kwanza estava sobrevalorizado e que tal prejudicou imensamente a economia angolana. É sabido que o combate à inflação, com taxas flexíveis, não depende do exterior, mas das decisões certas do governo.

Há consciência que o momento presente é de crise profunda, mas começam a surgir alguns indicadores reais animadores. Um deles é que “Angola desembolsou, no primeiro trimestre do ano, 495 milhões de dólares (436,5 milhões de euros) na importação de bens alimentares, uma diminuição de 31% comparativamente aos 717 milhões de dólares (632,3 milhões de euros) do último trimestre de 2019.[4]


O governo angolano atribuiu esta evolução a uma melhor organização do mercado cambial e a um aumento da procura de produtos nacionais. Fonte oficial afirmou: “Estamos a verificar estes dois fatores, podemos dizer que estamos no caminho certo, há uma procura da produção nacional, há uma diminuição das importações”. Estes factos parecem confirmar a análise que fazemos. Obviamente, que no final tudo dependerá do acerto das políticas públicas internas.


[1] Usamos indistintamente a expressão desvalorização e depreciação, apesar da existência de correntes que defendem serem conceitos diferentes.

[2] https://www.me.mercer.com/newsroom/2015-cost-of-living-survey-rankings-Mercer-Middle-East.html

[3] Friedman, M. (1953) “The Case for Flexible Exchange Rates.” In Essays in Positive Economics, 157–203. Chicago: University of Chicago Press.

[4] https://www.sapo.pt/noticias/economia/angola-importou-menos-31-de-alimentos-no_5f0f32adb34d505496f5eddd