Afinal, os Estados Unidos são os maiores beneficiários dos empréstimos globais da China!

João Shang- Investigador Associado do CEDESA e Kwenda Institute

Um fato negligenciado que está redefinindo a narrativa global

Durante muitos anos, Washington e seus aliados alertaram repetidamente os países sobre os “riscos dos empréstimos chineses”, retratando o financiamento internacional da China como um suposto “armadilha da dívida”. No entanto, o mais recente relatório da AidData revela um fato disruptivo: entre 2000 e 2023, os Estados Unidos foram, na verdade, o país que mais recebeu empréstimos oficiais chineses em todo o mundo.

Dos US$ 2,2 trilhões em empréstimos externos concedidos pela China a mais de 200 países e regiões, mais de US$ 200 bilhões foram destinados aos EUA. São quase 2.500 projetos, distribuídos praticamente em todos os estados norte-americanos.

Esse resultado não apenas contraria a percepção dominante da mídia internacional, como também oferece uma nova perspetiva sobre os fluxos de capital global. O mundo sempre associou os empréstimos chineses ao financiamento do desenvolvimento e à exportação de infraestrutura para países pobres. Contudo, a realidade mostra que o capital chinês penetrou profundamente nas cadeias globais de valor dos países mais desenvolvidos, reconfigurando a ordem financeira internacional.

Por que os Estados Unidos se tornaram o “maior beneficiário”?

Segundo os dados da AidData, os empréstimos chineses para os EUA concentram-se principalmente em três áreas:

1. Crédito para liquidez empresarial: a “dependência oculta” que os EUA evitam admitir

Mais da metade dos empréstimos envolve créditos sindicalizados dos quais os bancos chineses participam. Muitas multinacionais — incluindo empresas da Fortune 500 — recorreram a financiamento chinês quando enfrentaram pressões de caixa, realizaram fusões ou buscavam expandir operações.

Esses empréstimos: não envolvem controle acionário, não implicam transferência de poder, são práticas comuns no mercado financeiro internacional. Mas revelam um fato: o capital chinês tornou-se parte indispensável do sistema de financiamento corporativo dos EUA — algo que contrasta com a narrativa tradicional de que “a economia americana é financeiramente autossuficiente”.

2. Aquisições de alta tecnologia: a “sombra chinesa” nas cadeias industriais sensíveis dos EUA. O relatório cita vários casos de empresas chinesas adquirindo companhias de tecnologia norte-americanas, como: OmniVision (sensores de imagem), Paslin (automação industrial), Ingram Micro (distribuição eletrônica).

Todas essas transações receberam financiamento de instituições estatais chinesas. Mesmo quando algumas empresas foram posteriormente adquiridas por capital americano, o financiamento chinês foi crucial para viabilizar as operações no momento decisivo. Isso demonstra que o capital chinês já desempenhou um papel relevante no ecossistema tecnológico dos EUA — algo amplamente ignorado pelo discurso político norte-americano.

3. Investimentos em infraestrutura — do gás natural aos aeroportos

De instalações de GNL a oleodutos, linhas de transmissão e terminais aeroportuários, vários projetos estratégicos dos EUA receberam financiamento oficial chinês. Embora o debate interno dos EUA frequentemente trate essas iniciativas com preocupação, a AidData mostra que, nos últimos vinte anos, dezenas de projetos essenciais à segurança econômica norte-americana tiveram participação financeira da China.

A profunda transformação da estrutura dos empréstimos externos da China: de assistência a investimento estratégico. A visão tradicional de que os empréstimos chineses são dirigidos principalmente aos países em desenvolvimento está desatualizada.

O relatório revela uma mudança estrutural: Em 2000: 88% dos empréstimos iam para países de baixa renda. Em 2023: apenas 24% Os principais beneficiários atuais: EUA, Reino Unido, União Europeia. Essa mudança reflete uma combinação de estratégia nacional, expansão financeira e evolução industrial da China.

O impacto do “Made in China 2025”

O plano lançado em 2015 priorizou setores como: robótica, automação, aeroespacial, novos materiais, semicondutores, tecnologia da informação.

A AidData observa que, após 2015, os empréstimos chineses destinados a fusões e aquisições internacionais cresceram rapidamente, refletindo essa estratégia. Assim, a China usa capital estatal para suprir lacunas tecnológicas e integrar-se às cadeias de valor avançadas por meio de aquisições globais.

Expansão acelerada dos empréstimos para minerais estratégicos. Entre 2021 e 2023, a China aprovou mais de 100 projetos de financiamento relacionados a minerais críticos, somando mais de US$ 14 bilhões, focados em: lítio (carros elétricos), cobalto, cobre, terras raras, materiais estratégicos.Isso revela uma estratégia clara: construir uma “rede global de segurança de recursos” por meio de empréstimos.

Mudança de postura nos EUA e Europa: da crítica à imitação

O significado geopolítico é claro: ao longo da última década, os países do G7 mudaram de atitude. EUA: de críticas à retomada do financiamento estatal. Após reduzir ajuda externa durante o governo Trump, os EUA: aumentaram significativamente o orçamento da DFC (U.S. International Development Finance Corporation), expandiram empréstimos até mesmo para países ricos, reforçaram a supervisão de investimentos externos com critérios de segurança nacional. Isso demonstra que os EUA perceberam que, sem competir no financiamento estratégico, perderiam espaço para a China.

Europa: criticar a China, copiar a China, competir com a China

O Reino Unido revisou investimentos chineses em energia nuclear e portos. A União Europeia lançou o Global Gateway, contrapondo-se à Belt and Road. Alemanha e França reforçaram a proteção contra aquisições estrangeiras de empresas de alta tecnologia. A Europa está cheia de contradições: critica os financiamentos chineses, mas imita os métodos chineses para competir com eles.

A competição global de capital entrou na “era da geofinança”

Os dados mostram que os empréstimos já não são apenas instrumentos econômicos, mas sim ferramentas de: influência internacional, aquisição tecnológica, construção de cadeias de suprimento, garantia de recursos estratégicos.

Nesse contexto, a competição de capital terá três níveis: Países desenvolvidos: disputa por tecnologias e ativos estratégicos. Sul Global: campo de competição por influência. Países de recursos: foco em minerais e energia. O antigo “paradigma da ajuda” está desaparecendo.

As relações financeiras China-EUA serão mais interdependentes e mais complexas

Mesmo com maior rigor regulatório, o mercado financeiro norte-americano não pode bloquear totalmente o capital chinês: empréstimos sindicalizados têm múltiplos participantes, cadeias de suprimentos globais mantêm alta interdependência. O futuro será um cenário de “aperto superficial, interdependência real”.

Uma história financeira global mal compreendida durante vinte anos

Rótulos como “exportação de dívida chinesa” ou “armadilha da dívida” foram amplamente politizados, sugerindo que o capital chinês estava limitado ao mundo em desenvolvimento.

A AidData desmonta essa narrativa:

Os maiores beneficiários não foram os mais pobres, mas os mais ricos.

A competição global não ocorre apenas no Sul Global, mas dentro do mundo desenvolvido.

A mudança real não é a China saindo — é o mundo financeiro se movendo em direção à China.

Estamos diante de uma transformação silenciosa, porém profunda, que altera o equilíbrio global de poder e redefine a dinâmica do capital internacional.

Nos próximos dez anos, a competição global não será apenas tecnológica, mas também uma competição entre sistemas financeiros — e suas regras estão cada vez mais alinhadas ao modelo que a China tem defendido e agora expande ao mundo.