O reforço russo em Moçambique e RDC e o cerco a Angola

Rui Verde

A realização da III Cimeira Rússia-África, em Moscovo, entre 28 e 29 de Outubro, foi mais que um exercício simbólico de relações públicas do Kremlin, traduziu-se numa aceleração significativa da diplomacia russa na África Austral[1].

Na realidade, concretizaram-se uma série de iniciativas concretas que reforçam o posicionamento russo em dois países particularmente importantes para Angola: Moçambique e República Democrática do Congo (RDC).

Estes desenvolvimentos evidenciam uma realidade geopolítica cada vez mais clara: enquanto Luanda foi optando por um alinhamento crescente com os Estados Unidos, a União Europeia e as instituições ocidentais, a Rússia está a reconstruir influência ao longo de, praticamente, todo o espaço estratégico que circunda Angola.

O que emerge é um quadro de potencial cerco relativo de Angola face a uma recomposição regional onde Moscovo volta a ser um actor relevante.

Rússia e Moçambique

Um aspecto importante foi a deslocação do Presidente moçambicano Daniel Chapo a Moscovo para encontros bilaterais com Vladimir Putin.

A visita produziu compromissos de aprofundamento da cooperação nos sectores da energia, mineração, agricultura, transportes, educação, ciência e tecnologias de informação. Segundo Putin, o comércio bilateral praticamente duplicou entre Janeiro e Agosto de 2026, sinalizando uma aceleração da presença económica russa em Moçambique[2].

Mas o mais importanto, foi  a cooperação anunciada na formação militar, no combate ao terrorismo em Cabo Delgado. Segundo a informação divulgada após o encontro, Chapo defendeu o reforço da cooperação nos domínios da defesa e segurança e destacou a necessidade de continuar a desenvolver as capacidades nacionais para combater a insurgência jihadista no norte de Moçambique.Este aspecto ganha ainda mais significado porque, poucos meses antes, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, afirmara que Moscovo estava pronta para ajudar Moçambique a “eliminar” a ameaça terrorista em Cabo Delgado, através da formação de pessoal e do fornecimento de armamento e equipamento.

Assim, o principal significado político da visita não reside apenas nos acordos económicos, mas na revitalização da parceria de segurança entre Moscovo e Maputo. A Rússia reaparece como parceiro militar relevante de Moçambique, procurando reassumir um papel histórico no apoio às forças armadas moçambicanas e no combate à insurgência em Cabo Delgado, num momento em que a competição entre actores externos pela influência no país se intensifica[3].

Igualmente relevante é a convergência no sector energético. Moçambique tornou-se um dos principais pólos mundiais de gás natural e as autoridades moçambicanas têm vindo a manifestar interesse em aprofundar contactos com gigantes russos como Gazprom, Rosneft e Novatek, especialmente no desenvolvimento dos recursos da Bacia do Rovuma[4].

Moscovo recupera espaço num país que controla importantes corredores marítimos do Índico, possui enormes reservas de gás e constitui uma plataforma de projecção para toda a África Austral.

Enquanto isso, com a RDC

Se Moçambique representa uma expansão da influência russa no flanco oriental da África Austral, a República Democrática do Congo (RDC) constitui o desenvolvimento mais significativo do ponto de vista angolano.

Durante a visita de Félix Tshisekedi a Moscovo foram assinados três instrumentos de cooperação entre a RDC e a Rússia. O primeiro estabelece uma comissão intergovernamental permanente para cooperação económica, comercial, científica e tecnológica. Os outros dois incidem sobre saúde e educação[5].

À primeira vista, estes acordos podem parecer modestos. Contudo, a sua importância reside no facto de institucionalizarem uma parceria estratégica entre Moscovo e Kinshasa. Durante vários anos a Rússia teve uma presença relativamente limitada na RDC quando comparada com a China, os Estados Unidos ou a União Europeia. Os acontecimentos da última semana indicam uma mudança.

A Presidência congolesa apresentou a visita como parte de uma estratégia deliberada de diversificação de alianças internacionais. Kinshasa procura simultaneamente fortalecer relações com Washington, Bruxelas, os países do Golfo e agora também Moscovo.

Particularmente interessante foi o discurso de Tshisekedi na cimeira Rússia-África. O presidente congolês apelou explicitamente à Rússia para desempenhar um papel mais activo na estabilização do leste da RDC e na implementação das resoluções do Conselho de Segurança da ONU relativas ao conflito com o M23 e ao envolvimento do Ruanda[6].

Isto representa uma mudança importante. Durante décadas, os principais interlocutores internacionais da RDC em matéria de segurança foram Angola, os Estados Unidos, a França, a Bélgica e as Nações Unidas.

Ao solicitar maior envolvimento russo, Kinshasa está a abrir espaço para Moscovo se tornar um actor relevante num dos principais teatros estratégicos do continente africano.

O cerco a Angola

A questão central para Angola é perceber como estes movimentos se encaixam num contexto regional mais amplo.

Desde o início da guerra da Ucrânia, Angola procurou gradualmente distanciar-se da Rússia. Embora mantendo formalmente uma política externa de não alinhamento, o governo de João Lourenço aprofundou significativamente a cooperação com os Estados Unidos e a União Europeia. O Corredor do Lobito tornou-se o símbolo máximo desta reorientação estratégica.

Washington e Bruxelas passaram a apresentar Angola como um parceiro essencial nas cadeias de abastecimento de minerais críticos e como uma alternativa africana à influência chinesa e russa. A própria diplomacia americana investiu fortemente na promoção internacional de João Lourenço como mediador regional, particularmente na crise entre RDC e Ruanda.

A resposta russa parece agora passar pela construção de uma rede de relações em torno de Angola.

No norte, Moscovo reforça laços com a RDC. No leste, aprofunda relações com Moçambique.

Paralelamente, mantém influência consolidada em países como o Zimbabwe e continua a expandir a sua presença em vários Estados africanos através da Africa Corps, sucessora das antigas estruturas do Grupo Wagner.

O resultado é um ambiente estratégico em que Angola deixou de beneficiar da posição privilegiada que manteve durante décadas junto da Rússia. Durante a Guerra Fria, Angola foi talvez o principal aliado soviético em África. Hoje, essa relação especial praticamente desapareceu.

O contraste é particularmente evidente quando se observam as mensagens emitidas em Moscovo durante a cimeira. Putin agradeceu explicitamente a Moçambique pelo apoio às iniciativas russas nas Nações Unidas e elogiou a rejeição moçambicana daquilo que designou como posições “russófobas”.

É difícil imaginar uma linguagem semelhante aplicada actualmente a Angola.

Isto não significa que Angola esteja confrontada com uma ameaça directa ou com um isolamento diplomático imediato. O país possui activos geopolíticos muito significativos. O Corredor do Lobito mantém apoio americano e europeu sem precedentes. Angola conserva relações privilegiadas com a China. E João Lourenço permanece um interlocutor relevante para múltiplos actores internacionais.

Contudo, a evolução da última semana demonstra que Moscovo está a desenvolver alternativas regionais. Em vez de depender de Angola como principal parceiro na África Austral, a Rússia parece apostar numa estratégia de múltiplos pontos de apoio.

Moçambique oferece gás, acesso ao Índico e cooperação militar. A RDC oferece minerais críticos, dimensão continental e centralidade geográfica.

Juntos, estes dois países permitem à Rússia reforçar a sua presença numa vasta faixa do continente sem depender de Luanda.

Para Angola, a principal consequência é estratégica.Quanto mais Angola se identifica com a agenda euro-atlântica em África, mais incentivos existem para Moscovo aprofundar relações com os seus vizinhos.

Esse movimento já está em curso. A aproximação russo-moçambicana ganhou uma dimensão económica e energética inédita. A aproximação russo-congolesa foi institucionalizada através de novos acordos formais.

Vistos isoladamente, estes acontecimentos podem parecer rotineiros.

Observados em conjunto, revelam algo mais profundo: a Rússia está a regressar à África Austral através de uma estratégia regional que já não passa por Angola. Até às eleições gerais de 2027, Angola já pouca mais fará em termos de política externa. A partir daí, terá que avaliar os seus caminhos internacionais e as suas alianças num mundo em rápido movimtento.

É essa, mais do que qualquer acordo específico assinado em Moscovo, a verdadeira novidade geopolítica da cimeria russa.


[1] https://www.angop.ao/noticias/politica/moscovo-acolhe-terceira-cimeira-russia-africa/#:~:text=Luanda%20%E2%80%93%20A%20capital%20russa%2C%20Moscovo%2C%20acolhe%2C%20de,a%20Federa%C3%A7%C3%A3o%20da%20R%C3%BAssia%20e%20os%20pa%C3%ADses%20africanos.

[2]https://www.oeconomico.com/putin-anuncia-a-chapo-reforco-da-cooperacao-economica-apos-comercio-bilateral-quase-duplicar/

[3] https://integritymagazine.co.mz/arquivos/71913

[4] https://interfax.com/newsroom/top-stories/119384/

[5] https://actu30.cd/2026/10/sommet-russie-afrique-felix-tshisekedi-a-moscou-trois-accords-de-cooperation-annonces-lors-de-sa-visite/

[6] https://www.journaldekinshasa.com/sommet-russie-afrique-a-moscou-a-la-tribune-felix-tshisekedi-defend-la-souverainete-de-la-rdc-et-exige-une-paix-durable/